


A Fundao e a Terra

Golan Trevize, Conselheiro da Primeira Fundao, v-se diante de uma tarefa
assustadora: decidir qual ser o futuro da Galxia. Rejeitando a possibilidade de
um Imprio Galctico baseado na tecnologia da Primeira Fundao e tambm a de
um Imprio baseado nos poderes mentais da Segunda Fundao, Trevize escolhe
Gaia. O planeta Gaia  um superorganismo, um aglomerado de seres que encontra
sua fora na unidade mental. Se toda a Humanidade se fundir com Gaia, o
resultado ser um supra-superorganismo dedicado ao bem comum, uma entidade
que Trevize chama de Galxia Viva.
Qual, porm, a razo pela qual Trevize foi levado a optar por Gaia em vez de uma
das Fundaes? Estar relacionada de alguma forma  histria do planeta de
origem da raa humana, que os antigos chamavam de Terra? Trevize no
descansar enquanto no conhecer a resposta. Descobrindo que todas as
informaes a respeito da Terra desapareceram misteriosamente da Biblioteca
Galctica de Trantor, parte de Gaia em busca do planeta "perdido". Enquanto ele e
seus companheiros, o historiador Janov Pelorat e a linda mulher de Gaia chamada
Bliss, viajam de planeta em planeta, enfrentam uma odissia da qual depende o
destino do Imprio... e da prpria Humanidade.




























ISAAC ASIMOV




A Fundao e a Terra




Traduo de
RONALDO SRGIO DE BIASI
EDITORA RECORD







Ttulo original norte-americano
FOUNDATION AND EARTH











Copyright (c) 1986 by Nightfall, Inc.
Todos os direitos reservados.












Direitos de publicao exclusiva em lngua portuguesa no Brasil
adquiridos pela
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S. A.
que se reserva a propriedade literria desta traduo

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- 20922

 memria de Judy-Lynn del Rey

(1943-1986),
 uma gigante de mente e esprito.

A Histria por Trs
 da Fundao


EM 1 DE AGOSTO DE 1941, eu tinha 21 anos de idade, estava fazendo ps-
graduao em qumica na Universidade de Colmbia e escrevia fico cientfica 
profissionalmente h trs anos. Naquele dia, iria encontrar-me com John Campbell, 
editor da revista Astounding, a quem j havia vendido cinco dos meus contos. 
Estava ansioso para falar-lhe de uma nova idia para uma histria de fico 
cientfica.
        Seria uma espcie de romance histrico do futuro; a histria da queda do 
Imprio Galctico. Meu entusiasmo deve ter sido contagiante, porque Campbell 
ficou animadssimo. No queria que eu escrevesse apenas um conto; queria uma 
srie de contos, descrevendo os mil anos de agitao entre a queda do Primeiro 
Imprio Galctico e o surgimento do Segundo Imprio Galctico. Por trs de tudo 
estaria a cincia da "psico-histria", que eu e Campbell inventamos naquele dia.
        O primeiro conto foi publicado no nmero de maio de 1942 da revista 
Astounding e o segundo no nmero de junho do mesmo ano. Eles foram um 
sucesso imediato e Campbell me fez escrever mais seis at o final da dcada. Os 
contos foram ficando cada vez mais longos. O primeiro tinha apenas doze mil 
palavras; dois dos ltimos trs tinham mais de cinquenta mil.
        Quando terminou a dcada, j estava cansado da srie; abandonei-a e 
dediquei-me a outras atividades. Naquela ocasio, porm, vrias editoras estavam 
comeando a publicar livros de fico cientfica. Uma delas era uma pequena firma 
semiprofissional, a Gnome Press. Ela publicou a minha srie da Fundao em trs 
volumes: Foundation (Fundao) em 1951; Foundation and Empire (Fundao e 
Imprio) em 1952; e Second Foundation (Segunda Fundao) em 1953. O conjunto 
dos trs livros passou a ser conhecido como a Trilogia da Fundao.
        Os livros no venderam muito bem, pois a Gnome Press no dispunha de 
capital suficiente para anunci-los e promov-los. A editora no me enviava 
relatrios de vendas e nunca me pagou um centavo de direitos autorais.
        No incio de 1961, meu editor na Doubleday, Timothy Seldes, me contou que 
havia recebido uma solicitao de uma editora estrangeira para republicar os livros 
da Fundao. Como os livros no eram da Doubleday, estava passando o pedido 
para mim. Dei de ombros. "No estou interessado, Tim. Esses livros no me rendem 
direitos autorais. "
        Seldes ficou horrorizado e na mesma hora decidiu entrar em contato com a 
Gnome Press (que na poca j estava quase falida) para comprar os direitos sobre 
os meus livros. Em agosto do mesmo ano, os livros da Fundao, juntamente com I, 
Robot (Eu, Rob), passaram a ser propriedade da Doubleday.
        Daquele momento em diante, a srie da Fundao deslanchou. A Doubleday 
publicou a Trilogia em um nico volume e o distribuiu atravs do Science Fiction 
Book Club (Clube de Livros de Fico Cientfica), o que contribuiu em muito para a 
popularidade da srie.
        Na Conveno Mundial de Fico Cientfica de 1966, reunida em Cleveland, 
os fs tiveram a oportunidade de escolher a "Melhor Srie de Todos os Tempos". Foi 
a primeira vez (e, at agora, a nica) em que a categoria foi includa entre as 
indicaes para o Prmio Hugo. A Trilogia da Fundao ganhou o prmio, o que 
tornou a srie ainda mais conhecida.
        Nos anos que se seguiram, recebi inmeros pedidos dos leitores para 
continuar a srie. A princpio, recusei, de forma educada mas firme. Mesmo assim, 
fiquei fascinado com o fato de que pessoas que nem eram nascidas na poca em 
que eu havia escrito a obra se interessassem tanto por ela.
        Por outro lado, a Doubleday estava levando muito mais a srio as exigncias 
do pblico. Durante vinte anos, aceitaram a minha recusa; entretanto, quando a 
presso dos leitores se tornou excessiva, perderam a pacincia. Em 1981, fui 
simplesmente intimado a escrever outro romance a respeito da Fundao. Para 
dourar a plula, a Doubleday me ofereceu uma quantia dez vezes maior que o 
adiantamento usual.
        Concordei, embora um pouco apreensivo. Afinal, fazia 32 anos que no 
escrevia uma histria sobre a Fundao e agora estavam me pedindo um romance 
de 140. 000 palavras, duas vezes maior que qualquer dos livros anteriores da srie 
e quase trs vezes maior que o maior dos contos! Li de novo a Trilogia da Fundao, 
respirei fundo e comecei a trabalhar.
        O quarto livro da srie, Foundation's Edge (Fundao II), foi lanado em 
outubro de 1982 e, para minha surpresa, em pouco tempo estava na lista de 
bestsellers do New York Times. Na verdade, ficou na lista durante 25 semanas. Era 
a primeira vez que isso acontecia com um dos meus livros.
        Diante disso, a Doubleday me encomendou novos romances de fico 
cientfica e escrevi dois, Os Robs do Amanhecer* e Os Robs e o Imprio*, que 
faziam parte de outra srie, a dos livros sobre robs. Estava na hora de voltar  
Fundao.
        Assim, escrevi Foundation and Earth (A Fundao e a Terra), que comea 
exatamente no ponto em que Foundation's Edge (Fundao II) termina, e que  o 
livro que voc tem nas mos. Talvez seja interessante voc passar os olhos por 
Fundao II para recordar os pontos principais, mas isso no  indispensvel; A 
Fundao e a Terra   uma obra independente. Espero que seja do seu agrado.

.
ISAAC ASIMOV
 Nova York, 1986















PARTE UM


GAIA



Captulo 1

Comea a Busca





1.

        - POR QUE fiz isso? - perguntou Golan Trevize.
        No era uma pergunta nova. Desde sua chegada a Gaia, ele a fazia 
frequentemente a si mesmo. s vezes, acordava de um sono profundo no frescor 
agradvel da noite e encontrava a pergunta ressoando no fundo de sua mente,
como um leve toque de tambor: Por que fiz isso? Por que fiz isso?
        Agora, porm, pela primeira vez, estava fazendo a mesma pergunta a Dom, o 
patriarca de Gaia.
        Dom podia sentir muito bem a tenso que estava por trs das palavras de 
Trevize, j que as emoes do conselheiro no tinham segredos para ele. Entretanto, 
manteve-se impassvel. Gaia no devia, de forma alguma, intrometer-se nos 
pensamentos de Trevize, e a melhor forma de evitar a tentao era ignorar 
teimosamente o que ele sentia.
        - Fez o qu, Trev? - perguntou.
        Achava difcil usar mais de uma slaba ao dirigir-se a uma pessoa. Trevize j 
estava quase se acostumando.
        -  A deciso que tomei - explicou Trevize. - Escolhendo Gaia como o 
futuro.
        - Voc tomou a deciso acertada - disse Dom, sentado, os olhos velhos e 
profundos encarando o homem da Fundao, que estava de p.
        -  Isso  o que voc pensa - disse Trevize, com impacincia.
         - Eu/ns/Gaia sabemos que voc est certo.  por isso que vale tanto para 
ns. Voc tem a capacidade de tomar decises corretas com base em dados 
incompletos, e voc tomou uma deciso. Escolheu Gaia! Recusou tanto a anarquia 
de um Imprio Galctico baseado na tecnologia da Primeira Fundao como a 
anarquia de um Imprio Galctico baseado nos poderes mentais da Segunda 
Fundao. Voc chegou  concluso de que nenhum dos dois Imprios seria estvel 
por muito tempo. Por isso, escolheu Gaia.
        - Isso mesmo - concordou Trevize. - Exatamente! Escolhi Gaia, um 
superorganismo, um planeta inteiro com um nico pensamento e uma nica 
personalidade, de modo que foi preciso inventar o pronome "Eu/ns/Gaia" para 
expressar o inexprimvel. - Comeou a andar nervosamente de um lado para outro. 
        - Um dia, Gaia se tornar a Galxia, um supersuperorganismo que ser 
composto por todos os planetas habitados da Via Lctea.
        Trevize parou, voltou-se para Dom e disse, de forma quase agressiva:
        - Sinto que estou certo e voc sente tambm, mas voc quer que a Galxia 
se torne uma realidade, de modo que est satisfeito com a deciso. Por outro lado, 
h algo em mim que no quer que isso acontea, e portanto no estou preparado 
para aceitar esta escolha com tanta facilidade. Quero saber por que tomei a deciso 
que tomei. Quero examinar de novo meus motivos at convencer-me de que so 
razoveis. Para mim, no basta "sentir" que estou certo. Como posso ter certeza de 
que no cometi um erro? Que  que garante que tomei a deciso correta?
        Eu/ns/Gaia no sabemos por que voc sempre chega  deciso mais
acertada. Isto  importante, contanto que a deciso seja tomada?
        Voc est falando em nome de todo o planeta, no est? Em nome da 
conscincia comum de todas as gotas de orvalho, de todas as pedras, at mesmo do
ncleo de metal fundido de Gaia?
        - Sim, e o mesmo poderia fazer qualquer parte do planeta na qual a 
intensidade da conscincia comum fosse suficientemente forte.
        - Toda essa conscincia comum est satisfeita em me usar como se eu fosse 
uma caixa preta? Enquanto a caixa preta estiver funcionando, no interessa o que 
existe em seu interior? Pois isso no me agrada. No gosto de ser uma caixa preta. 
Quero saber o que h dentro de mim. Quero saber como e por que escolhi Gaia e a 
Galxia para o futuro. S assim ficarei em paz comigo mesmo.
        - Por que encara sua prpria deciso com tanta desconfiana?
        Trevize deu um profundo suspiro e respondeu devagar, em tom incisivo:
        - Por que no quero ser parte de um superorganismo. No quero ser um 
apndice insignificante, pronto para ser jogado fora assim que o superorganismo 
achar que no sou mais necessrio.
        Dom olhou pensativamente para Trevize.
        - Ento quer mudar a deciso, Trev? Ainda  tempo, voc sabe.
        - Gostaria de mudar a deciso, mas no posso fazer isso apenas porque ela 
no me agrada. Para fazer alguma coisa, tenho que saber se tomei ou no a deciso 
acertada. No basta sentir que estou certo.
        - Se voc sente que est certo, ento est certo.
        Sempre aquela voz suave, controlada, que s vezes deixava Trevize ainda 
mais agitado, tamanho era o contraste com o torvelinho de suas prprias idias.
        Foi ento que Trevize declarou, quase num sussurro, quebrando afinal o 
equilbrio instvel entre o sentir e o saber:
        -  Preciso encontrar a Terra.
        - Porque tem algo a ver com a sua necessidade incontrolvel de adquirir 
novos conhecimentos?
        - Porque  outro problema que me preocupa muito e porque sinto que existe 
alguma relao entre as duas questes. No sou uma caixa preta? Pois eu sinto que 
existe uma ligao. Isso no  suficiente para convenc-lo de que a ligao existe?
        - Talvez - afirmou Dom, em tom impessoal.
        - Mesmo que tenham se passado milhares de anos, vinte mil, talvez, desde 
que os povos da Galxia mantiveram o ltimo contato com a Terra, como  possvel 
que tenhamos todos esquecido o nosso planeta de origem?
        - Vinte mil anos  mais tempo do que voc imagina. Os
conhecimentos de
que dispomos a respeito dos primrdios do Imprio so excessivamente escassos;
existem muitas lendas que provavelmente no contm nem um pingo de verdade,
mas que continuamos repetindo, ou mesmo aceitando como verdadeiras, por falta
de um substituto razovel. Pois a Terra  ainda mais antiga que o Imprio.
         impossvel que no tenha restado nenhum documento. Meu bom amigo,
Pelorat, coleciona mitos e lendas a respeito da Terra; tudo o que consegue obter. 
seu trabalho e, mais importante ainda, seu passa-tempo favorito. Pois esses mitos e 
lendas so tudo o que existe. Jamais en-controu um nico registro, um nico 
documento a respeito da Terra!
        Documentos de vinte mil anos atrs? As coisas apodrecem, se desfazem,
so destrudas pelo abandono e pela guerra.
        - Pelo menos, teria que haver registros dos registros; cpias, cpias das 
cpias e cpias das cpias das cpias; obras escritas h muito menos tempo que 
vinte milnios. Essas obras foram deliberadamente removidas. A Biblioteca 
Galctica, em Trantor, devia ter muitos documentos a respeito da Terra. Eles 
chegam a ser mencionados em alguns registros histricos, mas no podem ser 
encontrados na Biblioteca. Simplesmente desapareceram.
        - No se esquea de que Trantor foi saqueada h alguns sculos.
        - Sim, mas a Biblioteca permaneceu intacta. Ela foi protegida pelos 
membros da Segunda Fundao. Foi a prpria Segunda Fundao que descobriu 
recentemente que as obras que tratam da Terra esto faltando. Os documentos 
foram removidos de propsito, em poca relativamente recente. Por qu? - Trevize 
parou de andar e olhou fixamente para Dom. - Se eu encontrar a Terra, 
descobrirei o que esconde...
        - O que esconde?
        - O que esconde ou o que nela foi escondido. Quando eu descobrir isso, 
tenho o pressentimento de que saberei por que escolhi Gaia e a Galxia, mesmo 
sacrificando a nossa individualidade. Ento poderei saber, e no apenas sentir, que 
tomei a deciso correta. Nesse caso - concluiu, com ar resignado - no haver 
mais nada a fazer.
        - Se voc pensa que  assim - disse Dom - e se acha que deve sair  
procura da Terra,  claro que vamos ajud-lo no que for possvel. Essa ajuda, no 
entanto,  limitada. Por exemplo: eu/ns/Gaia no sabemos como encontrar a 
Terra no meio dos milhes e milhes de planetas que constituem a Galxia.
        - Mesmo assim - insistiu Trevize - preciso procur-la. Mesmo que as 
dimenses da Galxia tornem a tarefa aparentemente impossvel e mesmo que eu 
tenha de execut-la sozinho.


2.

TREVIZE estava cercado pelo conforto de Gaia. A temperatura, como sempre, era 
agradvel, e havia uma brisa fresca no ar. Nuvens brancas cruzavam o cu, 
interrompendo de vez em quando os raios do sol. Se a umidade casse abaixo de um 
certo nvel, certamente uma chuva providencial se encarregaria de corrigir a 
situao.
        As rvores cresciam a intervalos regulares, como em um pomar, o que sem 
dvida no ocorria apenas ali, mas em todo o planeta. A terra e o mar sustentavam 
animais e plantas em nmeros apropriados e com a variedade adequada para 
manter o equilbrio ecolgico; o nmero de indivduos de cada espcie s 
aumentava ou diminua muito lentamente, e sem nunca se afastar muito do 
nmero ideal. O mesmo se aplicava aos seres humanos que povoavam o planeta.
        De todos os objetos que estavam ao alcance da viso de Trevize, o nico que 
destoava era a sua nave, a Estrela Distante.
        Alguns componentes humanos de Gaia tinham se encarregado da limpeza e 
manuteno da nave, tarefa que haviam executado com muita eficincia. As 
reservas de comida e bebida tinham sido repostas, o mobilirio reparado ou 
substitudo, as mquinas verificadas. O prprio Trevize se encarregara de testar o 
computador da nave.
        No havia necessidade de reabastecimento, j que se tratava de uma das 
poucas naves gravticas da Fundao, que aproveitava a energia do campo 
gravitacional da Galxia, campo esse suficiente para alimentar, sem nenhuma 
perda mensurvel de intensidade, todas as naves que o Homem seria capaz de 
produzir em todos os milnios de sua exis-lncia como espcie.
        H trs meses, Trevize era um conselheiro de Terminus. Em outras palavras,
ele era um membro do Poder Legislativo da Fundao, em consequncia, uma
pessoa muito importante em toda a Galxia.H trs meses? Para ele, era como se
tivesse transcorrido no mnimo metade dos seus 32 anos de vida desde a poca em
que sua nica preocupao era a validade ou no do grande Plano de Seldon, seu
nico objetivo saber se a rpida escalada da Fundao, de aldeia planetria a
soberana da Galxia, havia sido prevista ou no pelo fundador da psico-histria.
        Por outro lado, sob alguns aspectos, nada havia mudado. Ele ainda um
conselheiro. Sua posio e privilgios continuavam intactos, a no ser pelo fato de 
que provavelmente jamais retornaria a Terminus para reclam-los. No se sentiria 
melhor no tumulto da Fundao do que na ordem artificial de Gaia. No tinha mais 
lar; seria um solitrio em qualquer ponto do Universo.
        Cerrou os dentes e passou a mo com raiva pelos cabelos negros. Em vez de 
perder tempo se lamentando, era melhor sair  procura da Terra. Se sobrevivesse  
busca, teria tempo para sentar-se e chorar, talvez com razes mais palpveis.
        O  rosto assumiu expresso decidida e ele se ps a recordar...
        Trs meses antes, ele e Janov Pelorat, aquele cientista competente, porm 
ingnuo, haviam partido de Terminus. Para Pelorat, a descoberta da Terra  
representaria o grande triunfo de sua carreira de arquelogo. Trevize o havia 
acompanhado, usando a motivao do outro para esconder o que pensava ser seu 
prprio objetivo. No haviam encontrado a Terra, mas haviam encontrado Gaia. 
Trevize fora ento forado a tomar a deciso que tanto o atormentava.
        Agora era ele, Trevize, que havia mudado de idia e estava prestes a sair em 
busca da Terra.
        Quanto a Pelorat, ele tambm tinha encontrado algo inesperado, na forma da 
adorvel Bliss, a jovem de olhos e cabelos negros que tambm era Gaia, tanto 
quanto Dom e todos os outros seres a-nimais, vegetais e minerais do planeta. 
Pelorat, com o ardor peculiar da meia-idade, se havia apaixonado por uma mulher 
muito mais moa que ele, e essa mulher, curiosamente, parecia satisfeita com a 
situao.
        Era estranho... entretanto, Pelorat parecia radiante e Trevize pensou, 
filosoficamente, que cada um tem a sua forma de buscar a felicidade. Nisso 
consistia a individualidade... a individualidade que Trevize, ao optar por Gaia, havia 
permitido que fosse abolida (com o passar do tempo) em toda a Galxia.
        A aflio voltou. A deciso que havia tomado, que fora forado a tomar, 
continuava a incomod-lo, a persegui-lo sem...
        - Golan!
        A voz se intrometeu nos pensamentos de Trevize e ele olhou na direo do 
sol, com os olhos  semicerrados.
         Ah, Janov - disse, com um entusiasmo um pouco exagerado, como que
para disfarar os pensamentos sombrios que lhe corroam as entranhas.
Prosseguiu, em tom jovial: - Estou vendo que conseguiu desgrudar-se de Bliss.
        Pelorat assentiu. A brisa suave agitava-lhe os cabelos brancos e sedosos. O
rosto no havia perdido o ar solene.
        - Na verdade, velho amigo, foi Bliss que sugeriu que eu o procurasse a 
respeito de... a respeito do que vim discutir com voc. No que eu no estivesse 
querendo falar com voc,  claro. S que, ao que parece, ela pensa bem mais 
depressa do que eu.
        Trevize sorriu.
        -  Tudo bem, Janov. Suponho que voc veio para se despedir.
        - Hum... no, no  bem isso. Na verdade, talvez seja o contrrio. Golan, 
quando partimos de Terminus, meu nico objetivo era encontrar a Terra. Dediquei 
praticamente toda a minha vida adulta a essa tarefa.
          E vou lev-la adiante, Janov. Agora, a tarefa  minha.
        - Nem por isso deixou de ser minha, meu amigo.
        - Mas... - Trevize levantou os braos, incluindo com um gesto todo o 
mundo que os cercava.
        Pelorat declarou, em tom incisivo:
        - Quero ir com voc! Trevize estava atnito.
        - No pode estar falando srio, Janov! Agora voc tem Gaia!
        - Um dia voltarei a Gaia, mas no posso deixar voc partir sozinho!
        - Claro que pode! Sei tomar conta de mim mesmo!
        - No se ofenda, Golan, mas seus conhecimentos so insuficientes. Quem 
conhece os mitos e lendas sou eu. Voc precisa de mim!
        - E Bliss? Vai deix-la aqui? No acredito... Pelorat enrubesceu.
        - No  exatamente o que eu quero, amigo, mas ela disse... Trevize fez uma 
careta.
        - Ser que est tentando se livrar de voc? Bliss me prometeu...
        - No, voc no entendeu. Escute-me, por favor, Golan. Voc tem essa 
mania de tirar concluses antes de ouvir a histria completa.  a sua especialidade, 
eu sei, e talvez eu tenha uma certa dificuldade para me expressar de forma concisa, 
mas...
        - Pois ento - disse Trevize, em tom carinhoso - explique-me exatamente, 
da forma que quiser, quais so as intenes de Bliss. Prometo ser paciente.
        - Obrigado. J que est disposto a ser paciente, posso ir direto ao ponto. 
Bliss quer ir conosco.
        - Bliss quer ir tambm? - exclamou Trevize. - No, no perdi a calma. 
Estou perfeitamente calmo. Diga-me uma coisa, Janov, por que Bliss quer ir 
conosco? Estou perguntando a voc com toda da calma.
        -  Isso ela no explicou. Disse que quer falar com voc.
        - Ento por que no est aqui?
        - Acho... eu disse que acho que Bliss pensa que voc no gosta
dela, Golan,
e por isso hesita em aproximar-se. J fiz o possvel, amigo, para convenc-la de que
tudo no passa de um mal-entendido.  Inconcebvel que algum possa no gostar
de Bliss. Mesmo assim, preferiu que eu falasse primeiro com voc. Posso dizer a ela
que est disposto a receb-la, Golan?
        - Claro que sim... quando ela quiser.
        - Vai ser razovel com ela? Bliss me pareceu muito ansiosa. Disse-me que 
era muito importante que ela fosse conosco.
         - Ela no explicou por qu, explicou?
        - No, mas se acha que deve ir, esta deve ser a opinio de Gaia.
        - Em outras palavras, no posso recusar, no , Janov?
        - , acho que no, Golan.


3.

PELA PRIMEIRA vez em sua breve estada em Gaia, Trevize entrou na casa de Bliss, 
que no momento tambm servia de abrigo para Pelorat.
        Trevize olhou em torno. Em Gaia, as casas eram muito simples. Como 
praticamente no havia tempestades, as temperaturas eram moderadas, at mesmo 
as placas tectnicas escorregavam suavemente umas sob as outras quando tinham 
que escorregar, no havia necessidade de construir habitaes particularmente 
resistentes ou que fossem capazes de manter um ambiente confortvel dentro de 
um clima hostil. Era como se o planeta inteiro fosse uma casa, construda para 
abrigar seus habitantes.
        A casa que Bliss possua dentro dessa casa planetria era pequena, as 
janelas com campos de fora em lugar de vidraas, a moblia esparsa e 
graciosamente utilitria. Havia imagens hologrficas nas paredes; uma delas, um 
retrato de Pelorat com um ar encabulado. Os lbios de Trevize tremeram, mas ele 
conseguiu conter o riso enquanto fingia ajeitar o cinto.
        Bliss observou-o. A jovem no estava sorrindo, como de costume. Tinha um 
ar muito srio, os olhos negros bem abertos, os longos cabelos sobre os ombros 
como uma suave ondulao. Apenas os lbios carnudos, com um toque de 
vermelho, emprestavam um pouco de cor ao rosto plido.
        - Obrigada pela visita, Trev.
        - Janov me disse que precisava muito falar comigo, disse para
ela.
        - Entendi - observou a moa, com um leve sorriso. - Se me chamar de
Bliss, como todo mundo, tentarei dizer seu nome completo, Trevize.
        Bliss gaguejou quase imperceptivelmente ao pronunciar a segunda slaba.
Trevize levantou a mo direita.
        - Parece-me um acordo justo. Sei que os gaianos esto acostumados a usar
apenas as primeiras slabas dos nomes prprios em suas conversas mentais, de
modo que no ficarei ofendido se voc me chamar de Trev de vez em quando.
Mesmo assim, eu me sentirei mais  vontade se voc me chamar de Trevize sempre 
que se lembrar. Em troca, chamarei voc de Bliss.
        Trevize estudou-a, como fazia sempre que se encontravam. Como indivduo, 
era uma jovem de vinte e poucos anos. Como parte de Gaia, porm, tinha milhares 
de anos de idade. Isso no lhe afetava a aparncia, mas s vezes fazia diferena no 
modo como falava e na atmosfera que inevitavelmente a cercava.
        Bliss falou:
        - Vou direto ao ponto. Voc me disse que pretendia procurar o planeta 
Terra...
        - Eu disse a Dom - protestou Trevize, disposto a no ceder a Gaia sem 
uma perptua insistncia em seu ponto de vista.
        - Sim, mas ao falar a Dom, estava falando a Gaia e a todas as partes de 
Gaia, como eu, por exemplo.
        - Voc me ouviu enquanto eu estava falando?
        - No, porque no estava prestando ateno, mas mais tarde, se quisesse, 
poderia me lembrar de tudo o que voc disse. Por favor, aceite este fato e deixe-me 
continuar. Voc me disse que pretendia pro-curar o planeta Terra e insistiu em que 
se tratava de uma misso muito importante para o futuro da Galxia. No vejo 
como a localizao da Terra pode ser importante, mas voc tem o dom de sempre 
acertar em seus palpites, de modo que eu/ns/Gaia temos que aceitar essa opinio. 
Se a misso  essencial para sua deciso com relao a Gaia,  de  importncia 
crucial para Gaia e portanto Gaia deve ir com voc, quando mais no seja para 
proteg-lo.
        - Quando voc diz que Gaia deve ir comigo, est querendo dizer que voc 
deve ir comigo. Certo?
        - Eu sou Gaia - disse Bliss, laconicamente.
        - Voc e todos os outros seres deste planeta. Por que, ento, tem que ser 
voc? Por que no escolher outra parte qualquer de Gaia para comigo?
        - Porque Pel quer ir com voc, e se ele for com voc, no ficar satisfeito com 
nenhuma outra parte de Gaia.
        Pelorat, que estava sentado numa cadeira em outro canto da sala (virado de 
costas, observou Trevize, para o seu prprio retrato hologrfico pendurado na 
parede), declarou com firmeza:
        -  verdade, Golan. Bliss  a minha parte de Gaia.
        Bliss sorriu subitamente.
        - Quando Pel fala desse jeito, sinto uma emoo diferente... 
        - Vamos pensar - disse Trevize, colocando as mos tranadas sobre a 
cabea e inclinando a cadeira para trs. As pernas finas da cadeira rangeram 
ameaadoramente. O rapaz chegou  concluso de que a cadeira no era 
suficientemente forte para aquele tipo de brincadeira e tornou a pous-la nas 
quatro pernas. - Voc continuar a ser parte de Gaia, mesmo depois que deixar o 
planeta?
         - No necessariamente. Posso isolar-me, por exemplo, se estiver correndo 
perigo, para que o perigo no atinja Gaia. Entretanto, s farei isso em caso de 
emergncia. A maior parte do tempo, continuarei a ser Gaia.
        - Mesmo se viajarmos no hiperespao?
        - Mesmo assim, embora isso torne as coisas um pouco mais difceis.
        - Preferia que no fosse assim.
        - Por qu?
        Trevize torceu o nariz, como se estivesse sentindo um odor desagradvel.
        - Porque isso significa que tudo o que voc vir e ouvir em minha nave ser
visto e ouvido por Gaia.
        - Eu sou Gaia; logo, tudo o que vejo, ouo e sinto  visto, ouvido e sentido 
por Gaia.
        - Exatamente. Aquela parede tambm v, ouve e sente. Bliss olhou para a 
parede que o rapaz estava mostrando e deu de
ombros.
        - Sim, aquela parede tambm. Ela possui uma conscincia minscula, ou 
seja, sua compreenso  extremamente limitada, mas suponho que sofra algumas 
modificaes subatmicas em resposta ao que estamos dizendo agora, por exemplo, 
modificaes essas que lhe permitiro desempenhar melhor o seu papel em Gaia 
para o bem do todo.
        - E se eu quiser ficar sozinho? Se eu no quiser que a parede saiba o que 
estou fazendo?
        Bliss pareceu impacientar-se e Pelorat interrompeu bruscamente:
        - Voc sabe, Golan, eu no queria interferir, j que evidentemente ignoro 
quase tudo a respeito de Gaia. Entretanto, graas  minha convivncia com Bliss, 
acho que aprendi algumas coisas. Quando voc est andando em uma rua 
movimentada de Terminus, os seus sentidos esto expostos aos mais variados 
estmulos. Mais tarde, talvez se lembre de alguma coisa que viu ou ouviu. Se o seu 
crebro for estimulado corretamente, pode ser at que se lembre de tudo o que viu. 
A maioria das vezes, porm, voc simplesmente no est interessado. Voc no 
presta ateno. Voc esquece. Com Gaia, deve ser a mesma coisa. Mesmo que Gaia 
tenha conhecimento de tudo o que voc est fazendo, isso no quer dizer que Gaia 
se importe. Estou certo, Bliss querida?
        - Nunca pensei nesses termos, Pel, mas acho que tem uma certa razo. 
Entretanto, esse isolamento a que Trev... quero dizer, esse isolamento a que Trevize 
se referiu no faz sentido para ns. Na verdade, eu/ns/Gaia achamos a idia 
profundamente desagradvel. No querer participar... no querer ser ouvido... no 
querer ser visto... no querer compartilhar seus sentimentos... - Bliss sacudiu a 
cabea, - Eu disse que podemos nos separar de Gaia em caso de emergncia, mas 
como algum poderia preferir viver assim, mesmo que fosse por uma hora?
        - Eu prefiro - declarou Trevize. -  por isso que tenho de encontrar a 
Terra... para descobrir por que, apesar disso, fiz a escolha que fiz, optando por um 
destino terrvel para toda a Humanidade.
        - No  um destino terrvel, mas no adianta discutirmos isso agora. Quero 
ir com voc, no como espi, mas como amiga. Gaia estar com voc, no para 
espion-lo, mas para ajud-lo.
        Trevize retrucou, muito srio:
        - Gaia poderia me ajudar mostrando-me onde fica a Terra. Bliss sacudiu a 
cabea lentamente:
        -  Gaia no sabe onde fica a Terra. Dom j lhe disse isso.
        - No posso acreditar. Afinal, vocs devem ter registros. Por que no me 
permitem examin-los? Mesmo que Gaia esteja falando a verdade quando afirma 
que no conhece a localizao da Terra, talvez eu tenha melhor sorte com os
documentos disponveis. Conheo muita coisa sobre a Galxia. Pode ser que
encontre pistas importantes, pistas que Gaia tenha deixado passar.
        - Que documentos so esses de que voc est falando, Trevize?
        - Registros de qualquer tipo. Livros, filmes, gravaes, hologramas, 
artefatos, qualquer coisa. Desde que cheguei aqui, no vi nada que pudesse 
considerar como registro... E voc, Janov?
        - Nem eu - respondeu Pelorat, com certa hesitao. - Mas tambm no 
estava procurando.
        - Pois eu, sim - disse Trevize. - E no encontrei nada. Nada! S posso 
concluir que eles esto escondidos. Por qu? Voc pode me explicar por qu?
        O rosto bonito de Bliss assumiu uma expresso intrigada.
        - Por que no perguntou isso antes? Eu/ns/Gaia no escondemos nada, 
somos incapazes de mentir. Um Isolado, isto , um indivduo separado do todo, 
pode dizer mentiras. Ele  limitado e sente medo porque  limitado. Gaia, 
entretanto,  um organismo planetrio de imensa capacidade mental e no tem 
medo de nada. Gaia no tem necessidade de mentir, de falsificar ou omitir os fatos.
        Trevize sorriu ironicamente.
        - Ento por que tiveram tanto cuidado para impedir que eu visse os 
registros? D-me uma explicao que faa sentido!
        -  muito simples - disse a moa, abrindo os braos. - No temos 
nenhum registro.


4.

PELORAT foi o primeiro a se recuperar da surpresa.
        - Minha querida - disse, em tom carinhoso -,  difcil de acreditar. Toda 
civilizao que se preza tem algum tipo de registro.
        - Claro que sim - concordou Bliss. - O que eu estava querendo dizer  que 
no temos nenhum registro do tipo que Trev... do tipo que Trevize est procurando. 
Eu/ns/Gaia no temos livros, revistas, filmes, gravaes, bancos de dados 
computadorizados, nada disso. Nem esculturas. Foi isso que eu quis dizer. J que 
no temos nenhum registro desse tipo,  natural que Trevize no tenha conseguido 
encontr-los.
        Trevize perguntou:
        - Ento o que  que vocs tm para substituir os registros convencionais?
        Bliss respondeu pronunciando bem as palavras, como se estivesse falando 
com uma criana:
        - Eu/ns/Gaia temos uma memria. Eu me lembro.
        - Do que  que voc se lembra? - quis saber Trevize.
        - De tudo.
        - Voc se lembra de tudo o que aconteceu neste planeta?
        -  Exatamente.
        -  Por quanto tempo? Qual a extenso da sua memria?
        - Praticamente ilimitada.
        - Voc se lembra de todos os fatos histricos, biogrficos, geogrficos, 
cientficos?
        - De tudo.
        - E tudo nessa cabecinha... - observou Trevize, apontando ironicamente 
para a tmpora direita de Bliss.
        - No - protestou a moa. - As memrias de Gaia no so limitadas pela 
capacidade de meu crebro. Procure entender... - Por um momento, seu rosto 
assumiu uma expresso formal e mesmo um pouquinho sisuda, quando ela deixou 
de ser apenas Bliss para tornar-se um aglomerado de indivduos. -... houve um 
tempo, antes do comeo da histria - prosseguiu a moa -, em que os seres 
humanos eram to primitivos que, embora pudessem se lembrar dos acontecimentos,
no sabiam falar. A linguagem falada foi inventada e serviu para expressar
memrias e transferi-las de pessoa para pessoa. Mais tarde, foi inventada a 
linguagem escrita, que tornou possvel registrar memrias e transferi-las de gerao 
para gerao. Todo o progresso tecnolgico que se seguiu foi no sentido de 
aumentar a capacidade de armazenar e transferir memrias e tornar mais fcil o 
acesso s memrias armazenadas. Entretanto, quando os indivduos se uniram 
para formar Gaia, toda essa tecnologia de repente ficou obsoleta. Pudemos voltar  
memria, a forma mais antiga de armazenar informaes, na qual todas as outras 
se baseiam. Est entendendo?
        Trevize replicou:
        - Est querendo me dizer que o conjunto de todos os crebros de Gaia  
capaz de se lembrar de muito mais fatos do que qualquer um dos crebros 
isoladamente?
        - Isso mesmo.
        - Mas se os registros de Gaia esto espalhados por todo o plane-ta, o que 
adianta isso para voc, como uma pequena parte de Gaia?
        - Adianta muito. Qualquer coisa que eu precise saber est guardada no 
crebro de algum, ou, mais provavelmente, no crebro de muitas pessoas. Se se 
tratar de um conhecimento bsico, como o significado da palavra "cadeira", 
certamente estar no crebro de todos os habitantes do planeta. Mesmo que se 
trate de um conhecimento mais especializado, que esteja guardado apenas em uma 
pequena parte da mente de Gaia, posso recuper-lo facilmente, embora possa levar 
um pouquinho mais de tempo do que se a memria estivesse mais difundida. 
Escute, Trevize, se voc quer saber alguma coisa que no est na sua memria, 
consulta um livro ou o banco de dados de um computador. No meu caso, eu 
consulto a mente de Gaia.
        Trevize perguntou:
        - Como voc faz para evitar que todas essas informaes penetrem ao
mesmo tempo no seu crebro, fazendo-o explodir?
        - Voc podia dispensar o sarcasmo, Trevize. Pelorat interveio:
        -  Vamos, Golan, pare de implicar com a moa.
        Trevize olhou de um para o outro e fez um esforo visvel para acalmar-se.
        - Desculpe. Estou sentindo o peso de uma responsabilidade que no pedi e 
da qual no sei como me livrar. Talvez por isso possa parecer implicante, mesmo 
quando no  essa a minha inteno. Bliss, estou realmente curioso. Como  que 
voc faz para absorver os conhecimentos de outros habitantes do planeta sem 
exceder a capacidade do seu prprio crebro?
        - No sei, Trevize - respondeu a moa -, assim como voc no sabe direito 
como o seu crebro funciona. Voc sabe qual  a distncia do seu planeta  estrela 
mais prxima, mas este conhecimento no est presente o tempo todo na sua 
conscincia. Voc guarda o nmero em algum lugar e pode recuper-lo sempre que 
desejar. Se passar muito tempo sem usar o nmero, talvez venha a esquec-lo, mas 
nesse caso poder consultar um banco de dados. Considere a mente de Gaia como 
um imenso banco de dados que eu posso consultar  vontade, sem necessidade de 
guardar em minha prpria memria as informaes que utilizei. Depois de fazer uso 
de um dado, simplesmente deixo que abandone a minha memria. Na verdade,  
como se eu o guardasse de volta no lugar de onde veio.
        - Quantos habitantes tem Gaia, Bliss? Quantos seres humanos?
        - Cerca de um bilho. Quer saber o nmero exato? Trevize deu um sorriso 
amarelo.
        - Sei que voc  capaz de me fornecer o nmero exato, mas me contento 
com uma aproximao.
        - Na verdade - afirmou Bliss -, a populao  estvel e oscila ligeiramente 
em torno de um nmero um pouquinho maior que um bilho. Para saber qual o 
desvio em relao  mdia neste exato momento, eu teria que expandir minha 
conscincia at... at os limites do planeta.  difcil explicar para algum que no 
passou pela experincia.
        - Parece-me, entretanto, que um bilho de crebros humanos ... entre eles, 
certamente, muitos crebros infantis... no so suficientes para armazenar todos os 
conhecimentos acumulados por uma sociedade complexa.
        - Acontece que em Gaia no h apenas seres humanos, Trev.
        - Est me dizendo que os animais irracionais tambm participam da 
memria de Gaia?
        - Os crebros dos animais irracionais tm capacidade muito menor que a 
dos crebros humanos, e boa parte do espao disponvel em todos os crebros, 
humanos ou no,  usada para guardar memrias pessoais, que so teis apenas 
para o indivduo que as abriga. Mesmo assim,  possvel armazenar grande 
quantidade de informaes coleti-vas nos crebros dos animais, como tambm nos 
tecidos vegetais e nas estruturas minerais do planeta.
        - Nas estruturas minerais? Quer dizer nas pedras?
        - E tambm nos oceanos e na atmosfera. Afinal, tudo isso tambm  Gaia.
        - Que tipo de informao esses seres inanimados podem guardar? Muita 
coisa. A densidade de informao  pequena, mas o volume  to grande que a 
maior parte da memria de Gaia est guardada nas  pedras. O tempo de acesso, 
porm,  um pouco maior do que o caso das informaes armazenadas em crebros 
humanos. Por essa as pedras so usadas como uma espcie de arquivo morto... 
nelas guardamos dados de que necessitamos apenas raramente.
        - Que acontece quando morre algum em cujo crebro esto guardadas 
informaes importantes?
        - Os dados no so perdidos. Quando o crebro comea a se desorganizar, 
logo aps a morte, as memrias so distribudas por outros membros de Gaia. 
Quando novos crebros aparecem nas crianas e comeam se desenvolver, eles 
acumulam no apenas memrias pessoais mas tambm conhecimentos coletivos. O 
que vocs chamam de educao ocorre automaticamente comigo/conosco/com 
Gaia.         Pelorat interveio:
         - Francamente, Golan, acho que essa idia de planeta vivo  mavilhosa!
        Trevize olhou de esguelha para o companheiro.
        - Sinto no compartilhar do seu entusiasmo, Janov. Este planeta, por maior 
e mais variado que seja, na realidade representa um nico crebro. Um! Cada novo 
crebro que se forma  absorvido por Gaia. Onde est a oportunidade para que haja 
oposio, para que haja opinies contrrias? Quando a gente pensa na histria da 
humanidade, , a gente pensa naquele indivduo excepcional, cujos pontos de vista 
foram censurados pela sociedade mas que no final conseguiu vencer e mudar o 
mundo. Que oportunidade haveria em Gaia para os grandes rebeldes da Histria?
        - Voc est enganado - disse Bliss. - Nem todas as partes de Gaia tm 
necessariamente a mesma opinio.
        - As divergncias no podem ser muito grandes - insistiu Trevize. - Um 
organismo repleto de contradies no funcionaria adequadamente. Se ainda existe 
progresso em Gaia, deve ser muito, muito lento. Temos o direito de impor o mesmo 
sistema a toda a Galxia? A toda a Humanidade?
        Bliss interveio, sem demonstrar qualquer emoo:
        - Agora est duvidando de sua prpria deciso? Mudou de idia agora 
considera Gaia como um futuro indesejvel para a Humanidade?
        Trevize cerrou os lbios e hesitou. Depois disse, devagar:
        - Gostaria de ter convico suficiente para voltar atrs, mas no  esse o 
caso. Tive algum motivo, ainda que inconsciente, para tomar a deciso que tomei. 
At descobrir qual foi esse motivo, no estarei em condies de manter a deciso ou 
modific-la. Por isso,  melhor voltarmos  questo da Terra.
        - Onde voc acha que encontrar o motivo que o levou a optar por Gaia, no 
 mesmo, Trevize?
        -  isso mesmo. Acontece que, de acordo com Dom, Gaia no conhece a 
localizao da Terra. Voc concorda com ele, suponho.
        -   claro que concordo com ele. Tambm sou Gaia, lembra-se?
        - Vocs esto escondendo alguma coisa de mim? Conscientemente, quero 
dizer.
        - Claro que no. Mesmo que Gaia pudesse mentir, no mentiria para voc. 
Afinal, dependemos das suas concluses, e portanto desejamos que elas sejam 
corretas. Para isso,  necessrio que se baseiem em fatos reais.
        - Nesse caso - disse Trevize -, vamos tentar fazer uso da sua memria 
global. Diga-me h quanto tempo ocorreu, o fato mais antigo de que voc se lembra.
        Houve uma leve hesitao. Bliss olhou para Trevize com os olhos vazios, 
como se estivesse em transe. Depois, declarou:
        - Quinze mil anos.
        - Por que hesitou?
        - Levei algum tempo para conseguir a resposta. As memrias muito antigas 
esto quase todas guardadas na base das montanhas, em lugar de difcil acesso.
        - Quinze mil anos, no ? Foi nessa poca que Gaia foi colonizada?
        - No, pelo que sabemos o planeta foi colonizado h mais ou menos dezoito 
mil anos.
        -  Ento no sabem exatamente? Por que voc... por que Gaia no se 
lembra?
        - Porque naquela poca o planeta ainda no estava suficientemente evoludo 
para que a memria fosse compartilhada por todos os seres - explicou Bliss.
        - Antes de vocs inventarem a memria coletiva devia haver registros em 
Gaia, Bliss. Registros no sentido normal da palavra... livros, gravaes, filmes, etc.
        -  provvel que sim, mas certamente no sobreviveriam tanto tempo.
        - Poderiam ter sido copiados, ou melhor ainda, transferidos para a memria 
global, depois que ela surgiu.
        Bliss franziu a testa. Levou algum tempo para falar de novo.
        - No consigo encontrar nenhum sinal desses registros a que voc se refere.
        - Por qu?
        - No sei, Trevize. Talvez no fossem muito importantes.  possvel que na 
poca em que os registros comearam a se deteriorar Gaia os tenha considerado 
ultrapassados e no se dera ao trabalho de incorpor-los  memria global.
        - Voc no tem certeza. Est fazendo suposies, mas no tem certeza. Gaia 
no sabe o que aconteceu.
        Bliss baixou os olhos.
        -  S pode ser isso.
        - S? Eu no sou parte de Gaia e portanto no tenho que acreditar nas 
suposies de Gaia. Eis um bom exemplo das vantagens do isolamento. Eu, um 
Isolado, sou capaz de imaginar uma explicao alternativa.
        - Qual  a sua explicao?
        - Bliss, de uma coisa eu tenho certeza: nenhuma civilizao avanada  
capaz de destruir seus antigos registros. Ao invs de consider-los arcaicos e 
desnecessrios, a tendncia  no sentido de trat-los com reverncia exagerada e 
fazer tudo para preserv-los. Se os registros da fase que precedeu a memria global 
de Gaia foram destrudos, essa destruio certamente no foi voluntria.
        - Qual  ento a sua explicao?
        - Na Biblioteca de Trantor, todas as referncias  Terra foram destrudas 
por algum ou por alguma fora que no tinha nada a ver com os membros da 
Segunda Fundao. No acha possvel que em Gaia, tambm, todas as referncias  
Terra tenham sido removidas por algum de fora?
        -  Como sabe que os antigos registros continham alguma coisa sobre a 
Terra?
        - Voc mesma disse h pouco que Gaia foi colonizada h cerca de dezoito mil 
anos atrs. Isto nos coloca em uma poca anterior ao estabelecimento do Imprio 
Galctico, no perodo em que a Galxia estava sendo colonizada pelos habitantes da 
Terra. Se no acredita em mim, pergunte a Pelorat.
        Pelorat, um pouco surpreso por ter sido chamado a testemunhar, pigarreou e 
disse, voltando-se para Bliss:
        - Assim dizem as lendas, minha cara. Levo essas lendas a srio e acredito, 
como Golan Trevize, que a espcie humana tenha se originado em um nico 
planeta, o planeta que chamamos de Terra. Assim, os primeiros colonos eram todos 
da Terra.
        - Assim sendo - disse Trevize -, se Gaia foi fundada nos primrdios das 
viagens hiperespaciais,  provvel que tenha sido colonizada por terrqueos, ou pelo 
menos por nativos de um planeta recentemente colonizado pelos terrqueos. Nesse 
caso,  evidente que os registros da colonizao de Gaia e dos primeiros milnios 
em que o planeta foi habitado teriam que conter referncias  Terra e aos terrqueos.
Acontece que esses registros desapareceram. Algum parece estar
ativamente empenhado em destruir todas as referncias  Terra existentes na 
Galxia. Se isso  verdade, deve haver uma razo muito forte.
        Bliss protestou, indignada:
        - Tudo isso no passa de conjecturas, Trevize. Voc no tem nenhuma 
prova!
        -  Gaia que insiste em que possuo o talento especial de chegar a 
concluses corretas com base em provas insuficientes. Assim, quando eu chego a 
uma concluso, no me diga que faltam as provas!
        Bliss ficou calada. Trevize prosseguiu:
        - Voc agora entende por que eu tenho que encontrar a Terra. Pretendo 
partir assim que o Estrela Distante estiver pronto. Vocs dois ainda querem ir 
comigo?
        - Queremos - disseram Bliss e Pelorat ao mesmo tempo.






































Captulo 2

Viajando para Comporellon





5.

ESTAVA chuviscando. Trevize olhou para o cu cinzento. Usava um guarda-chuva 
que repelia as gotas, arremessando-as para longe em todas as direes. Pelorat, que 
no dispunha de uma proteo semelhante, mantinha-se a uma distncia 
prudente.
        -  No vejo razo para voc se molhar, Janov - disse Trevize.
        - A chuva no me incomoda, amigo - disse Pelorat, com o ar solene de 
sempre. -  uma chuva fraca e morna. No est ventando. Alm disso, como diz o 
velho provrbio, "Quando estiver em Anacreon, faa como os anacreonitas".
        Apontou para alguns gaianos que se haviam reunido em torno do Estrela 
Distante e os observavam em silncio. Estavam bem espalhados, como se fossem 
rvores em um bosque, e nenhum deles usava guarda-chuva.
        - Tenho a impresso de que eles no se incomodam de se molhar porque o 
resto de Gaia est ficando molhado - disse Trevize. - As rvores, a grama, a terra 
- tudo est molhado, e tudo  parte de Gaia, como os gaianos.
        - Acho que faz sentido - disse Pelorat. - Daqui a pouco o sol vai sair e 
secar tudo num instante. As roupas no vo encolher, no est fazendo frio e como 
este planeta no tem microorganismos patognicos, ningum vai pegar resfriado, 
gripe ou pneumonia. Ento qual o problema de tomar um pouco de chuva?
        Trevize podia compreender perfeitamente a lgica do argumento, mas no 
queria dar o brao a torcer.
        - Mesmo assim, no precisava chover justo na hora em que estamos de 
partida. Afinal, a chuva neste planeta  voluntria. Gaia no choveria se no 
quisesse.  como se estivesse querendo mostrar que no tem nenhuma 
considerao conosco.
        - Talvez Gaia esteja chorando de tristeza porque vamos embora - disse 
Pelorat.
        -  Pode ser, mas eu no - disse Trevize.
        - Na verdade - prosseguiu Pelorat -, provavelmente o solo nesta regio 
esteja precisando de umidade, e essa necessidade  mais importante que o seu 
desejo de ver o sol brilhar.
        Trevize sorriu.
        - Voc gosta mesmo deste planeta, no ? Quero dizer, mesmo sem pensar 
em Bliss.
        - Gosto, sim - afirmou Pelorat, em tom quase desafiador. - Sempre levei 
uma vida simples e ordeira, e acho que me daria muito bem aqui, onde o mundo 
inteiro trabalha para manter a vida simples e ordeira. Afinal, Golan, quando 
construmos uma casa, ou mesmo essa espaonave que a est, tentamos criar um 
abrigo perfeito. Procuramos equipar esse abrigo com tudo o que achamos que 
poder ser necessrio. Instalamos controles de temperatura, atmosfera, iluminao 
e tudo mais, de modo a podermos tornar o ambiente o mais confortvel possvel. 
Gaia  uma extenso desse desejo de conforto e segurana: um planeta inteiro 
zelando por seus habitantes. Que h de errado nisso?
        - O que h de errado nisso - disse Trevize -  que a minha casa e a minha 
nave foram construdas para atender a minhas necessidades. Eu no preciso me 
adaptar a elas. Se eu fosse parte de Gaia, ento, por melhor que o planeta me 
atendesse, eu no deixaria de me aborrecer com o fato de que tambm estaria 
sendo obrigado a atend-lo.
        Pelorat franziu a testa.
        - Na verdade, toda sociedade molda a populao de acordo com seus 
prprios valores. Surgem novos costumes, novas leis, que se encarregam de manter 
todos os membros dentro de determinados padres de comportamento.
        - Nas sociedades que eu conheo, os indivduos podem se rebelar. Sempre 
existem os excntricos, os criminosos...
        -  Voc aprova os excntricos e criminosos?
        - Por que no? Eu e voc somos excntricos. Certamente no somos 
exemplos tpicos dos habitantes de Terminus. Quanto aos criminosos, isso  uma 
questo de definio. Alm disso, se os criminosos so o preo que temos que pagar 
para termos rebeldes, hereges e gnios, estou disposto a pagar o preo. Eu exijo que 
o preo seja pago.
        - Os criminosos so o nico pagamento possvel? No podemos ter gnios 
sem termos criminosos?
        - No podemos ter gnios e santos sem termos pessoas que fujam bastante 
da norma geral, e no vejo como os desvios em relao  norma possam ser apenas 
para o lado positivo. Tem que haver certa simetria. De qualquer forma, quero um 
motivo melhor para a minha deciso de fazer de Gaia um modelo para o futuro da 
Humanidade do que o fato de que  uma verso planetria de uma casa confortvel.
        - Meu amigo, no estava de forma alguma tentando convenc-lo a 
conformar-se com a sua deciso. Estava apenas fazendo um comen...
        Interrompeu o que estava dizendo. Bliss aproximava-se a passos largos, o 
cabelo molhado, o vestido colado ao corpo, realando os quadris generosos.
        - Desculpe o atraso - disse a moa, um pouquinho ofegante. - Minha 
conversa com Dom levou mais tempo do que eu havia previsto.
        - No sei por qu - disse Trevize. - Afinal, voc sabe tudo o que ele sabe.
        - s vezes no interpretamos os fatos da mesma forma. Afinal, no somos 
idnticos. Escute aqui - disse, com um trao de impacincia na voz -, voc tem 
duas mos. Ambas so parte de voc e parecem idnticas, a no ser pelo fato de 
uma ser a imagem espelhada da outra. Mesmo assim, voc no as usa da mesma 
forma, usa? Existem algumas coisas que voc faz com a mo direita, outras que faz 
com a mo esquerda. Diferenas de interpretao, em ltima anlise.
        -  Ela est certa - disse Pelorat, com visvel satisfao. Trevize assentiu.
        -   uma excelente analogia. Agora podemos subir a bordo? Est chovendo.
        -  Sim, sim. A nave est pronta para a viagem.
        A moa olhou para Trevize e acrescentou, curiosa:
        -  Voc est seco. Est se protegendo da chuva?
        -  Isso mesmo - disse Trevize. - No quero me molhar.
        -  No acha agradvel sentir o corpo molhado de vez em quando? - Acho, 
sim. Mas quem escolhe a hora sou eu, e no a chuva. Bliss deu de ombros.
        -  Como quiser. Nossa bagagem j est a bordo. Vamos?
        Os trs caminharam em direo ao Estrela Distante. A chuva tinha quase 
parado, mas a grama estava bastante molhada. Trevize andava com cuidado, quase 
nas pontas dos ps, mas Bliss, que havia tirado as sandlias, pisava na grama com 
os ps descalos, praticamente sem levant-los do cho.
        -   uma sensao deliciosa - disse, ao surpreender o olhar do rapaz.
        - Bom para voc - disse Trevize, distraidamente. Depois acrescentou, com 
um toque de irritao: - O que  que esses gaianos esto fazendo em volta da 
nave?
        Bliss explicou:
        - Esto registrando este acontecimento, que Gaia considera muito 
importante. Voc tem um grande valor para ns, Trevize. Suponhamos que esta 
viagem o fizesse mudar de idia e decidir a favor de uma das Fundaes. Nesse 
caso, a Galxia jamais seria nossa. Pior ainda, seria o fim de Gaia.
        - Ento eu tenho o poder de vida e morte sobre Gaia, sobre todo este 
planeta.
        -  a nossa opinio.
        Trevize parou de repente e tirou o guarda-chuva da cabea. O tempo estava 
melhorando; trechos de cu azul comeavam a aparecer por entre as nuvens.
        - Acontece que no momento minha deciso  favorvel a vocs. Se me 
matassem agora, tudo estaria resolvido.
        - Golan! - exclamou Pelorat, chocado. - Como pode dizer uma coisa 
dessas?
        - Tpico de um Isolado - disse Bliss, calmamente. - Precisa compreender, 
Trevize, que no estamos interessados em voc como pessoa, e nem mesmo no seu 
voto, mas na verdade a respeito do assunto. Voc  importante para ns apenas na 
medida em que nos conduz  verdade, seu voto  importante apenas como 
indicao da verdade.  isso o que queremos de voc; se o matssemos para 
impedir que mude o seu voto, estaramos apenas escondendo a verdade de ns 
mesmos.
        - Se eu disser a vocs que a verdade est contra Gaia, concordaro 
alegremente em morrer?
        -  Eu no diria alegremente, mas estamos preparados para aceitar a 
verdade, seja ela qual for.
        Trevize sacudiu a cabea.
        - Se algum quisesse me convencer de que Gaia  um horror e realmente 
merece desaparecer, bastaria me dizer alguma coisa parecida. - Voltando os olhos 
para os gaianos que os observavam (e, presumivelmente, escutavam) com toda a 
pacincia, perguntou a Bliss: - Por que esto espalhados assim? Por que Gaia 
precisa de tanta gente? Se um deles observa nossa partida, a informao no  
compartilhada com todos os outros seres do planeta? No pode ser armazenada em 
um milho de lugares diferentes, se Gaia assim desejar?
        - Esto observando a cena de ngulos diferentes - explicou Bliss. - Alm 
disso, cada um est armazenando as informaes em um crebro ligeiramente 
diferente. Quando todas as observaes forem combinadas, Gaia ter uma 
compreenso muito melhor do que aconteceu do que qualquer um desses
indivduos, ou mesmo todos eles isoladamente.
        - Em outras palavras, o todo  maior que a soma das partes.
        - Exatamente. Voc est comeando a compreender a razo bsica para a 
existncia de Gaia. Voc, como organismo vivo,  constitudo por cerca de cinquenta 
trilhes de clulas, mas voc, como ser humano,  muitssimo mais importante que 
a importncia combinada de cinquenta trilhes de clulas. Certamente concorda 
com isso.
        - Concordo - disse Trevize.
        O rapaz comeou a subir a escada da nave e voltou-se para olhar para o 
planeta. A chuva havia emprestado um novo frescor  atmosfera. O que viu era um 
mundo verde, frtil, tranquilo e pacfico; um jardim de serenidade no meio de uma 
Galxia cada vez mais velha, cansada e confusa.
        ... e Trevize rezou para que nunca mais tornasse a ver Gaia.


6.

QUANDO a escotilha se fechou, Trevize sentiu como se estivesse se libertando no 
exatamente de um pesadelo, mas de alguma coisa to anormal que s agora se 
sentia livre para respirar  vontade.
        O rapaz sabia perfeitamente que um dos elementos daquela anormalidade 
ainda estava com eles na pessoa de Bliss. Enquanto Bliss estivesse ali, Gaia 
tambm estaria. Entretanto, Trevize tambm estava convencido de que a presena 
da moa era essencial. Era a caixa preta de novo em ao. Esperava sinceramente 
que sua confiana na caixa preta no se tornasse excessiva.
        Olhou para o interior da nave com visvel agrado. Era sua desde que a 
prefeito Harla Branno, da Fundao, o havia obrigado a deixar Terminus e tornar-se 
uma espcie de pra-raios, atraindo o fogo daqueles que Branno considerava 
inimigos da Fundao. Aquela misso estava cumprida, mas a nave ainda era sua e 
Trevize no estava disposto a devolv-la.
        A nave era sua h apenas alguns meses, mas Trevize j a considerava como 
um lar; a lembrana do antigo lar, no planeta Terminus se tornava cada vez mais
distante.
        Terminus! O eixo excntrico da Fundao, destinado, segundo o Plano de
Seldon, a tornar-se um segundo Imprio, ainda maior que o primeiro, em menos de 
cinco sculos. S que ele, Trevize, havia mudado o curso da histria. Por deciso 
prpria, estava reduzindo a Fundao a nada e tornando possvel o aparecimento 
de uma nova sociedade, uma nova forma de vida, uma revoluo s comparvel ao 
aparecimento dos seres multicelulares.
        Agora, estava iniciando uma viagem na qual procuraria provar a si mesmo 
que havia tomado a deciso correta.
        Trevize percebeu que estava divagando e sacudiu a cabea, irritado. Correu  
sala de controle e verificou que o computador ainda estava l.
        O computador estava brilhando; tudo estava brilhando. Os gaianos haviam 
feito uma limpeza cuidadosa. Os botes que apertou, quase ao acaso, funcionavam 
perfeitamente. O sistema de ventilao era to silencioso que teve que colocar a 
mo sobre as sadas de ar para certificar-se de que estava funcionando.
        O crculo de luz do computador era um convite irresistvel. Trevize tocou-o e 
a luz se espalhou para cobrir todo o tampo da escrivaninha. Podia ver claramente o 
perfil de duas mos: direita e esquerda. Respirou fundo e deu-se conta de que havia 
prendido involuntariamente a respirao. Os gaianos desconheciam a tecnologia da 
Fundao e poderiam facilmente ter danificado o computador ao limpar a escrivaninha.
At o momento, tudo parecia em ordem. As mos ainda estavam l.
        O verdadeiro teste, porm, seria colocar as mos sobre a mesa. Trevize 
hesitou por um momento. Se houvesse algum defeito, saberia na mesma hora. E 
da? Que fazer? Para consertar o computador, teria que voltar a Terminus, e se o 
fizesse, a prefeito Branno jamais o deixaria sair de novo do planeta. Por outro lado, 
sem o computador...
        Sentiu o corao bater mais forte. No adiantava adiar o inevitvel.
        Colocou as mos sobre as silhuetas em cima da mesa. Imediatamente, teve a 
sensao de que um outro par de mos segurava as suas. Seus sentidos se 
ampliaram e pde ver Gaia em todas as direes, verde e mido, os gaianos do lado 
de fora ainda observando a nave. Quando "olhou" para cima, viu um cu nublado. A 
um comando mental, as nuvens desapareceram e ele estava olhando para o cu 
azul, no meio do qual se destacava o sol de Gaia.
        Outro comando mental e o cu ficou escuro e coalhado de estrelas.
        Mais um comando. Trevize agora estava observando a Galxia, como uma 
roda achatada. Testou a imagem computadorizada, alterando sua orientao, 
modificando a velocidade e o sentido aparente de passagem do tempo, fazendo as 
estrelas girarem primeiro em um sentido e depois no sentido oposto. Localizou o sol 
de Sayshell, a maior estrela nas proximidades de Gaia; depois, o sol de Terminus; 
depois, o sol de Trantor. Viajou de estrela em estrela no mapa da Galxia que 
habitava as entranhas do computador.
        Retirou as mos e deixou o mundo real envolv-lo novamente. S ento se 
deu conta de que tinha estado de p o tempo todo, o corpo meio curvado sobre a 
escrivaninha. Os msculos estavam rgidos; teve que esticar as costas antes de 
sentar-se.
        Olhou para o computador, aliviado. Funcionava perfeitamente. Estava mais 
dcil que nunca e o que sentia por ele s poderia ser classificado como amor. Afinal,
enquanto se davam as mos, um era parte do outro. Atravs do computador, sua
vontade dirigia, controlava, sentia e era parte de um ser muito mais poderoso. Ele e
o computador deviam sentir, em pequena escala (pensou de repente o rapaz, com
um sobressalto), como Gaia se sentia, s que em escala muito maior.
        Sacudiu a cabea. No! No caso do computador, ele, Trevize, tinha controle 
absoluto. O computador se limitava a obedecer.
        Levantou-se e dirigiu-se para a cozinha. A despensa estava bem abastecida 
com todos os tipos de alimentos. Trevize j havia verificado que sua coleo 
particular de livros gravados estava intacta, e tinha razovel certeza... no, tinha 
certeza absoluta de que os gaianos no haviam mexido na biblioteca de Pelorat, 
caso contrrio o outro quela altura j teria posto a boca no mundo.
        Pelorat! Aquilo o fez lembrar-se de uma coisa. Entrou no camarote de Pelorat.
        - H espao para Bliss aqui, Janov?       
        - Oh, sim! No se preocupe!
        - Podemos transformar a sala de estar em quarto de dormir para ela.
        Bliss olhou para ele, surpresa. -  No preciso de um quarto s para mim. 
Posso perfeitamente ficar aqui com Pel. Suponho, porm, que no se incomodar se 
eu usar outros aposentos, como o ginsio, por exemplo.
        -  Claro que no. Pode usar todos os aposentos da nave, com exceo do 
meu camarote.
        - Muito obrigada. Naturalmente, voc tambm evitar entrar no nosso 
camarote.
        - Naturalmente - concordou Trevize, contrafeito. Olhou para baixo e 
percebeu que estava com o p dentro do quarto. Recuou um passo e advertiu, 
muito srio: - Este no  um quarto de lua-de-mel, Bliss.
        - Pelo contrrio, suas dimenses reduzidas o qualificam como tal, como 
depois que Gaia o ampliou em cerca de cinquenta por cento.
        Trevize fez fora para no rir.
        -  Vocs tm que ser compreensivos.
        - E somos - disse Pelorat, visivelmente contrafeito com o rumo que a 
conversa estava tomando. - Por outro lado, meu amigo, gostaria que nos deixasse 
cuidar de nossa vida.
        - Sinto muito, mas no  possvel - disse Trevize devagar. - Quero que 
fique bem claro que esta nave no  um hotel de lua-de-mel. Faam o que quiserem 
entre vocs dois, mas no podem esperar privacidade. Est me entendendo, Bliss?
        - Este quarto tem uma porta - disse Bliss - e tenho certeza de que no vai 
nos incomodar quando ela estiver trancada... a menos, naturalmente, que se trate 
de uma emergncia.
        - Claro que no vou perturb-los. A questo no  essa. Os aposentos desta 
nave no dispem de isolamento acstico.
        - O que voc est tentando dizer - disse Bliss -  que poder ouvir todas 
as nossas conversas e todos os barulhos que fizermos quando estivermos fazendo
amor.
        - Sim,  exatamente isso que eu estava tentando dizer. Levando este fato em 
considerao, acho que tero forosamente que limitar suas atividades. Sinto
muito, mas no h outro jeito.
        Pelorat pigarreou e explicou, meio sem graa:
        - Na verdade, Golan, este  um problema que j tivemos que enfrentar.
Voc deve compreender que as sensaes que Bliss experimenta quando est 
comigo so compartilhadas com todos os seres de Gaia.
        - J tinha pensado nisso, Janov. Preferi no tocar no assunto... imaginando 
que talvez a idia no tivesse ocorrido a voc.
        - Pois estava enganado - disse Pelorat.               
        Bliss interveio:
        - No fique to chocado, Trevize. Em um dado momento, milhares de seres 
humanos em Gaia esto fazendo amor; milhares esto comendo, bebendo ou 
envolvidos em outras atividades agradveis. Isto d origem a uma aura global de 
prazer que Gaia pode sentir; que todas as partes de Gaia podem sentir. Os animais 
inferiores, as plantas e os minerais tm prazeres progressivamente mais fracos, mas 
que tambm contribuem para uma alegria difusa que Gaia  capaz de desfrutar em 
todas as suas partes e que no existe em nenhum outro planeta.
        - No lugar de onde vim - disse Trevize - temos nossos prazeres 
particulares, que podemos compartilhar ou no, de acordo com a nossa vontade.
        -  Se pudesse sentir o que sentimos, veria como so superficiais os prazeres
de vocs, Isolados, quando comparados com os nossos.
        -  Como pode saber o que eu sinto?
        - Mesmo sem saber o que voc sente, parece razovel supor que os prazeres 
em um mundo em que as sensaes so compartilhadas sejam muito mais intensos 
que os prazeres em um mundo de Isolados.
        - Talvez, mas mesmo que os meus prazeres sejam superficiais, prefiro 
guardar minhas alegrias e tristezas para mim mesmo e satisfazer-me com elas, e 
ser eu mesmo em vez de tornar-me irmo de sangue de uma maldita pedra!
        - No est sendo lgico - advertiu Bliss. - Tenho certeza de que sente 
estima pelos minerais que fazem parte dos seus ossos e dentes e detestaria que 
fossem danificados, embora no tenham mais conscincia do que uma pedra do 
mesmo tamanho.
        - Isso  verdade - admitiu Trevize, com relutncia. - Mas vamos voltar ao 
assunto que estvamos discutindo. No me incomodo se Gaia inteiro compartilha 
dos seus prazeres, Bliss. O que sei  que eu no quero compartilhar. Vamos passar 
muito tempo em um ambiente confinado e no quero ser forado a participar das 
atividades de vocs, mesmo que de forma indireta.
        Pelorat interveio:
        - Estamos discutindo  toa, meu amigo. No temos nenhuma inteno de 
violar a sua intimidade. Bliss e eu seremos discretos, no , Bliss?
        - Como voc quiser, Pel.
        - Afinal de contas - prosseguiu Pelorat -, devemos passar mais tempo em 
terra do que a bordo, e aps desembarcarmos em um planeta, estaremos livres 
para...
        - No me interessa o que vocs pretendem fazer em terra - interrompeu 
Trevize. - Aqui, porm, quem manda sou eu.
        -  De acordo - disse Pelorat.
        -  Esclarecido esse ponto, vamos decolar.
        - Um momento - protestou Pelorat, segurando Trevize pela manga. -
Decolar para onde? Voc no sabe onde fica a Terra, nem eu, nem Bliss. Nem o seu
computador. Voc j me disse que os bancos de memria do computador no
contm nenhuma informao a respeito da Terra. O que pretende fazer, ento? No
podemos simplesmente sair navegando por a ao acaso, meu amigo.
        Trevize sorriu para o amigo. Pela primeira vez desde que havia cado sob o 
poder de Gaia, sentia-se senhor do seu prprio destino.
        - Posso lhe assegurar que no pretendo vagar sem rumo, Janov. Sei 
perfeitamente para onde vamos.


7.

PELORAT entrou na sala de comando depois de esperar alguns momentos sem que a 
leve batida que havia dado na porta fosse respondida. Encontrou Trevize com os 
olhos cravados em uma tela cheia de estrelas.
        -  Golan...
        Trevize levantou os olhos.
        -  Janov! Sente-se. Onde est Bliss?
        -  Dormindo. Ei! Estou vendo que estamos no espao!
        -  Isso mesmo.
        Trevize no estranhou a surpresa do amigo. Nas novas naves gravticas, era 
simplesmente impossvel sentir a decolagem. No havia efeitos inerciais, nem rudo, 
nem vibrao.
        Possuindo a capacidade de isolar-se em maior ou menor grau dos campos 
gravitacionais externos, o Estrela Distante levantava vo da superfcie de um 
planeta como se estivesse flutuando em um oceano csmico. Durante a operao, 
as foras gravitacionais dentro da nave permaneciam inalteradas.
        Enquanto a nave permanecia no interior da atmosfera, movia-se devagar, ou 
seja, o rudo e a vibrao do choque das molculas de ar contra o casco 
praticamente no podiam ser sentidos pelos ocupantes. Fora da atmosfera, a nave 
podia atingir velocidades extremamente altas sem incomodar os passageiros.
        Era o melhor que a tecnologia tinha a oferecer em matria de conforto; 
Trevize era incapaz de imaginar algo melhor, a no ser, talvez, se a humanidade 
descobrisse um meio de deslocar-se no hiperespao sem precisar de naves e sem ter 
que se preocupar com campos gravitacionais prximos. No momento, por exemplo, 
o Estrela Distante teria que viajar vrios dias pelo espao normal, afastando-se do 
sol de Gaia, antes que o campo gravitacional fosse bastante fraco para executarem 
o Salto com segurana.
        -  Golan, meu caro amigo - disse Pelorat. - Posso falar com voc um 
instante? Ou est muito ocupado?
        -  No estou nada ocupado. Depois que forneo as instrues, o computador
cuida de tudo. s vezes parece at que ele adivinha as instrues e as executa antes 
que eu tenha tempo de termin-las.
        Passou a mo afetuosamente pela superfcie da escrivaninha. Pelorat disse:
        -  Ficamos muito amigos, Golan, no pouco tempo em que nos conhecemos. 
Custo a acreditar que tenha sido h to pouco tempo. Tanta coisa aconteceu... 
Quando penso na minha vida, ocorre-me a idia estranha de que mais da metade 
das coisas realmente importantes aconteceu nos ltimos meses. Pelo menos,  essa 
a minha impresso.  quase como se...
        Trevize interrompeu-o com um gesto.
        -  Janov, acho que voc est divagando. Comeou dizendo que tnhamos 
ficado muito amigos em pouco tempo. Tem razo. A propsito: voc e Bliss se 
conhecem h menos tempo e ficaram ainda mais amigos.
        -  Isso  diferente! - protestou Pelorat, embaraado.
        -   claro - prosseguiu Trevize. - Entretanto, o que podemos concluir de 
nossa amizade recente mas profunda?
        -  Que se ainda somos amigos, temos que discutir a questo de Bliss, que, 
como voc mesmo disse, tornou-se uma pessoa extremamente importante para 
mim.
        -  Entendo. O que h para discutir?
        -  Sei que voc no gosta de Bliss, mas, quando mais no seja em ateno a 
mim, gostaria que...
        Trevize interrompeu-o:
        - Um momento, Janov. No morro de amores por Bliss, mas tambm no 
tenho raiva da moa. Na verdade, considero-a bastante atraente, e, mesmo que no 
fosse assim, tenderia a encar-la com simpatia por causa de voc.  de Gaia que eu 
no gosto.
        -  Mas Bliss  Gaia.
        - Eu sei, Janov. Isso complica as coisas. Enquanto penso em Bliss como 
pessoa, no h nenhum problema. Quando penso nela como Gaia, tudo muda de 
figura.
        - Est sendo injusto com Gaia, Golan. Preste ateno, amigo, vou lhe 
confessar uma coisa. Quando eu e Bliss temos relaes, ela s vezes me deixa 
penetrar na sua mente por um minuto e pouco. No pode ser por mais tempo 
porque ela acha que estou velho demais para me adaptar. No, no ria, Golan, voc 
tambm est velho demais para isso. Se um Isolado como eu ou voc ficasse por 
mais que alguns momentos em contato com Gaia, nosso crebro seria afetado. Se o 
tempo excedesse cinco minutos, os danos seriam irreversveis. Ah, se voc pudesse 
experimentar, Golan...
        -  O qu? Danos irreversveis no meu crebro? No, obrigado!
        -  Golan, voc est se fazendo de desentendido! Estou querendo dizer aquele 
breve instante de unio com Gaia. No sabe o que est perdendo.  indescritvel! 
Bliss diz que  uma sensao agradvel...  como dizer que beber o primeiro gole 
d'gua quando se est morrendo de sede  uma sensao agradvel! No d para 
explicar. Voc sente todos os prazeres que um bilho de pessoas experimentam 
separadamente. No  um prazer contnuo; se fosse, em pouco tempo voc ficaria 
entorpecido. No, ele vibra... oscila... tem um estranho ritmo pulsante que toma 
conta de voc.  um prazer maior... no, maior no...  um prazer melhor do que 
jamais voc conseguir sentir isoladamente. Quando ela interrompe o contato, sinto 
vontade de chorar...
        Trevize sacudiu a cabea.
        - Voc hoje est muito eloquente, meu caro amigo, mas parece que est 
descrevendo os efeitos da pseudo-endorfina ou outra dessas drogas que 
proporcionam alguns momentos de prazer, mas a longo prazo podem levar  
loucura e  morte. No senhor! No estou disposto a trocar a minha individualidade 
por um prazer passageiro.
        -  No perdi a minha individualidade, Golan.
        -  Mas por quanto tempo vai conserv-la, Janov? Voc vai suplicar por mais 
e mais da droga at que, finalmente, seu crebro ser destrudo. Janov, no permita 
que Bliss faa isso com voc! Talvez seja melhor eu falar com ela...
        -  No! No quero! Golan, voc no prima pelo tato e eu detestaria ver Bliss 
magoada. Posso assegurar-lhe que ela se preocupa comigo e seria incapaz de 
permitir que eu sofresse algum tipo de dano, fsico ou mental, em consequncia do 
nosso relacionamento. Acredite em mim!
        -  Pois ento vou falar com voc. Janov, voc precisa parar. H 52 anos que 
desfruta dos prazeres simples de um ser humano normal.
        No se deixe fascinar por um vcio novo e excitante. Ter que pagar o preo, 
se no agora, em um futuro no muito distante.
        -  Voc no entende, Golan - disse Pelorat em voz baixa, olhando para o 
bico do sapato. - Vamos encarar as coisas desta forma: se voc fosse um ser 
unicelular...
        -  Sei aonde quer chegar, Janov. Esquea. Bliss e eu j discutimos essa 
analogia.
        - Sim, mas raciocine comigo. Imagine uma raa de organismos unicelulares 
dotados de conscincia; suponha que eles se vejam diante da possibilidade de se 
unirem para formar um organismo multicelular. No acha que esses seres 
unicelulares relutariam em abrir mo da individualidade, hesitariam em sacrificar a 
vontade prpria em prol da personalidade de um organismo que englobaria a todos? 
Como estariam errados! Ser que uma clula isolada poderia sequer compreender a 
maravilha que  um crebro humano?
        Trevize sacudiu a cabea com veemncia.
        - No, Janov,  uma falsa analogia. Os seres unicelulares no tm 
conscincia e so incapazes de pensar... ou, se o fazem,  de forma to rudimentar 
que no precisamos levar esse fato em considerao. Se esses objetos se combinam 
e perdem a individualidade, esto na verdade perdendo uma coisa que nunca 
possuram. Por outro lado, um ser humano tem conscincia, um ser humano  
capaz de pensar. Por isso, ele tem muito a perder renunciando  individualidade e a 
sua analogia no funciona.
        Os dois ficaram calados por um momento. O silncio era quase opressivo. 
        Afinal, Pelorat perguntou, tentando mudar o rumo da conversa:
        - Por que est olhando tanto para o visor?
        - Fora do hbito - explicou Trevize, com um sorriso. - O computador me 
assegura que nenhuma nave de Gaia nos seguiu e que no h nenhuma esquadra 
de Sayshell chegando para receber-ns. Mesmo assim, no tiro os olhos da tela e 
sinto-me tranquilo ao constatar que est vazia, mesmo sabendo que os sensores do 
computador so centenas de vezes mais aguados e mais penetrantes que meus 
olhos. Alm do mais, o computador  capaz de detectar certas mudanas sutis nas 
propriedades do espao, mudanas que meus sentidos so totalmente incapazes de 
detectar. Ainda assim, no consigo desgrudar os olhos da tela.
        - Golan, se ainda somos amigos......
        - Prometo a voc que no farei nada que possa magoar Bliss. Pelo menos, 
nada que eu possa evitar,
        - Estou falando de outra coisa. Voc manteve nosso destino em segredo, 
como se no confiasse mais em mim. Para onde vamos? Voc acha que j sabe onde 
fica a Terra?
        Trevize olhou para o outro com uma expresso de surpresa.
        - Desculpe. Acho que fui injusto com voc, escondendo-lhe minhas 
intenes.
        - Sim, mas por qu?
        - Boa pergunta. Imagino, meu caro amigo, se no seria por causa de Bliss.
        - Bliss? Est querendo dizer que no confia em Bliss?  absurdo!
        - No  isso. De que adiantaria desconfiar de Bliss? Acho que ela seria 
capaz de arrancar qualquer informao de dentro da minha cabea, se quisesse. 
No, meus motivos so mais infantis. Tenho a sensao de que voc s tem olhos 
para Bliss, de que nem se lembra mais de que eu existo.
        - Isso no  verdade, Golan.
        - Eu sei, mas estou tentando analisar meus prprios sentimentos. H pouco 
voc manifestou dvidas a respeito da nossa amizade. Pensando bem, acho que 
tenho sentido os mesmos temores. At agora no havia admitido para mim mesmo, 
mas sinto cimes de Bliss. Talvez tenha procurado "vingar-me" ocultando coisas de 
voc. Que infantilidade, no?
        - Golan!
        - Eu disse que era infantilidade, no disse? Quem no  infantil uma vez ou 
outra? O que importa  que ns somos amigos. Vamos dar o assunto por encerrado 
e falar de coisas mais agradveis. Nosso destino  Comporellon.
        - Comporellon?
        - Voc deve se lembrar do meu amigo, o traidor Munn Li Compor. Ns trs 
nos encontramos em Sayshell.
        De repente, uma luz apareceu nos olhos de Pelorat.
        - Ah, agora me lembro! Comporellon era o planeta onde nasceram os 
ancestrais desse seu amigo.
        - Onde ele disse que nasceram. Tenho razes de sobra para no confiar em 
Compor. Entretanto, Comporellon  um planeta conhecido e, segundo Compor, seus 
habitantes sabem muita coisa a respeito da Terra. Pois ento vamos at l 
investigar. Pode no dar em nada, mas  a nica pista que temos.
        Pelorat no parecia convencido.
        - Meu amigo, tem certeza de que  uma boa idia?
        - No tenho certeza de nada. Estou apenas seguindo um palpite, na falta de 
coisa melhor.
        - Sim, mas se est disposto a acreditar nas informaes de Compor, talvez 
seja melhor levar em conta tudo o que ele disse. Lembro-me de que ele afirmou, com 
toda a segurana, que a Terra era um planeta morto, que sua superfcie estava 
radioativa... Nesse caso, nossa viagem a Comporellon ser perda de tempo.


8.

Os TRS estavam almoando na sala de jantar, que havia ficado literalmente lotada.
        - Est uma delcia! - exclamou Pelorat, satisfeito. -  parte dos
suprimentos originais que trouxemos de Terminus?
        - No  no - respondeu Trevize. - Os suprimentos originais j acabaram 
h muito tempo. Esta comida foi comprada em Sayshell, antes de viajarmos para 
Gaia. Extica, no ? Parece peixe, mas  cro-cante. E essa verdura? Quando 
comprei, pensei que fosse repolho, mas tem um gosto totalmente diferente.
        Bliss permanecia calada, remexendo a comida no prato.
        - Querida, voc precisa comer - disse Pelorat, carinhosamente.
        - Eu sei, Pel, e estou comendo.
        Trevize interveio, com um toque de impacincia que no conseguiu disfarar:
        - Tambm temos comida de Gaia, Bliss.
        - Eu sei, mas prefiro no consumi-la agora. No sabemos quanto tempo 
vamos ficar no espao e mais cedo ou mais tarde terei que me acostumar com a 
comida dos Isolados.
        - Isso  to ruim? Ser que Gaia s deve comer Gaia? Bliss suspirou.
        - Na verdade, temos um ditado que diz:  "Quando Gaia come Gaia, ningum 
sai ganhando nem perdendo". Tudo no passa de uma mudana de forma. Tudo o 
que como quando estou em Gaia tambm  Gaia e continua a ser Gaia depois de ser 
metabolizado e tornar-se parte de mim. Ao comer, proporciono ao alimento a 
oportunidade de atingir um nvel mais elevado de conscincia, embora, 
naturalmente, parte desse alimento seja transformada em refugo e portanto seja 
relegada a nveis inferiores de conscincia.
        A jovem colocou um pedao de comida na boca, mastigou vigorosamente, 
engoliu e disse:
        - Em Gaia, tudo circula. As plantas crescem e so comidas por animais. Os 
animais comem e so comidos. Os organismos que morrem servem de alimento 
para os fungos e bactrias... sem em nenhum momento deixarem de ser Gaia. 
Nessa vasta circulao de conscincia, da qual todos os seres, at mesmo os 
inorgnicos, necessariamente participam, todos tm ocasio de atingir, 
periodicamente, nveis elevados de conscincia.
        - O mesmo se poderia dizer de qualquer planeta - protestou Trevize. - 
Cada tomo de meu corpo tem uma longa histria, durante a qual pode ter sido 
parte de muitos seres vivos, incluindo seres humanos, e durante a qual tambm 
pode ter passado longos perodos como parte do mar, ou em um pedao de carvo, 
ou em uma pedra, ou como parte da atmosfera...
        - Em Gaia, porm - disse Bliss --, todos os tomos fazem parte de uma 
conscincia planetria. Esta  a grande diferena entre o meu planeta e o de vocs.
        - O que acontece, ento, com essas verduras de Sayshell que voc est 
comendo? - quis saber Trevize. - Ser que tambm se tornam parte de Gaia?
        - Sim, mas muito devagar. E os refugos que elimino deixam aos poucos de 
fazer parte de Gaia. Afinal, tudo o que sai do meu corpo perde contato com Gaia, 
pois apenas os seres com alto nvel de conscincia, como eu, podem se manter 
unidos a Gaia atravs do hiperespao.  esse contato hiperespacial que faz com que 
os alimentos de outros planetas se tornem parte de Gaia quando so assimilados 
pelo meu organismo.
        - E a comida de Gaia em nossa despensa? Deixar tambm aos poucos de 
ser Gaia? Nesse caso,  melhor com-la j.
        - No se preocupe com isso. A comida que trouxemos de Gaia foi tratada de 
modo a continuar a ser Gaia por um longo tempo.
        - Que acontecer se ns comermos a comida de Gaia? - perguntou Pelorat. 
        - Ou por outra: o que aconteceu quando comemos a comida de vocs 
quando estvamos em Gaia? Ser que estamos nos transformando lentamente em 
Gaia?
        Bliss sacudiu a cabea e seu rosto assumiu uma expresso triste.
        - No, o que vocs comeram foi perdido para ns. Pelo menos, a parte que 
foi metabolizada e incorporada ao organismo de vocs. Os rejeitos continuaram a 
ser Gaia ou aos poucos voltaram a ser Gaia, mas, em consequncia da sua visita, 
Gaia perdeu muitos tomos.
        - Por que isso? - quis saber Trevize.
        - Porque vocs no resistiriam  converso, mesmo que parcial. Eram 
nossos hspedes, trazidos ao nosso planeta praticamente contra a vontade, de 
modo que nos sentamos na obrigao de proteg-los, mesmo  custa de perdermos 
alguns fragmentos de Gaia. Foi uma deciso consciente, embora penosa.
        - Sentimos muito - disse Trevize. - Tem certeza de que a comida de outros 
planetas, ou pelo menos algum tipo de comida de outros planetas, no pode fazer 
mal a voc!                             
        - Tenho - afirmou Bliss. - O que  comestvel para vocs  comestvel para 
mim. A nica diferena  que alm de metabolizar o alimento, tenho tambm que
transform-lo em Gaia. Isso representa uma barreira psicolgica que me tira o gosto
pela comida e me faz comer devagar, mas acho que acabarei por me acostumar.
        -  E as infeces? - perguntou Pelorat, assustado. - Bliss, no sei como
no pensei nisso antes! Em qualquer planeta em que pousarmos haver
microorganismos contra os quais voc no ter nenhuma defesa! Qualquer infeco 
banal poder mat-la! Trevize, temos que voltar.
        - No se preocupe, Pel querido - disse Bliss, sorrindo. - Os 
microorganismos tambm se transformam em Gaia quando so ingeridos junto com 
o alimento ou entram no meu corpo de outra forma qualquer. Se se trata de 
organismos patognicos, a converso  acelerada, e depois que passam a ser Gaia, 
tornam-se inofensivos.
        A refeio chegou ao fim e Pelorat bebeu o ltimo gole do seu coquetel de 
frutas.                                                           
        - Meus amigos - disse, lambendo os lbios -, acho que est na hora de 
mudarmos de assunto. Parece que minha nica misso a bordo  mudar o assunto 
das conversas. Por qu?
        - Porque eu e Bliss temos a mania de discutir interminavelmente - 
respondeu Trevize, muito srio. - Cabe a voc, Janov, proteger a nossa sanidade. 
Qual o assunto que deseja propor?
        -  Dei uma olhada nos livros e descobri que todo o setor de Comporellon  
rico em lendas antigas. Ao que parece, a regio foi colonizada h muito tempo, 
durante o primeiro milnio das viagens hiperespaciais. As lendas falam de um
fundador chamado Benbally, embora no revelem sua origem. Dizem que o nome
original de Comporellon era Mundo de Benbally.
        -  Que h de verdade nisso, na sua opinio?
        -  Deve haver um fundo de verdade, mas. no sei at que ponto podemos
acreditar nas lendas.
        -  Nunca ouvi falar de um personagem histrico chamado Benbally. E voc?
        -  Eu tambm no, mas voc sabe que quando o Imprio entrou em declnio 
a histria pr-imperial passou a ser censurada. Nos ltimos e turbulentos sculos 
do Imprio, os imperadores fizeram tudo para sufocar o patriotismo local, que 
consideravam, e com razo, uma influncia desintegradora. Assim, em quase todos 
os setores da Galxia, os dados histricos de que dispomos comeam nos dias em 
que a influncia de Trantor comeou a fazer-se sentir e o setor em questo aliou-se 
ao Imprio ou foi anexado a ele.
        -  No acho que seja to fcil apagar a histria - disse Trevize.
        - E no , mas um governo poderoso e decidido pode enfraquec-la 
consideravelmente. Nesse caso, as tradies verbais deixam de ser apoiadas por 
documentos confiveis e passam  categoria de simples lendas. Inevitavelmente, 
essas lendas esto cheias de exageros e retratam o setor como muito mais antigo e 
importante do que realmente foi. Alm disso, por mais tola que seja uma lenda, por 
mais impossveis que sejam os fatos relatados, a populao local faz questo de 
acreditar nela por uma questo de patriotismo. Posso lhe mostrar lendas de todos 
os cantos da Galxia segundo as quais os primeiros colonizadores eram oriundos 
da prpria Terra, embora nem sempre o planeta original receba esse nome.
        - Quais os outros nomes que aparecem nas lendas?
        - So nomes os mais diversos. Alguns chamam o planeta de nico, outros 
de Velho. Outros ainda se referem ao Mundo Enluarado, o que, de acordo com 
algumas fontes, se deve ao fato de que a Terra possua um grande satlite.
        - Pare, Janov! - exclamou Trevize, com um sorriso. - Se for citar todas as 
suas fontes, voc no acabar nunca. Ento essas lendas esto em toda parte?
        - Oh, sim, meu caro amigo. Em toda parte! Basta examinar algumas delas 
para perceber que o Homem tem o costume de comear com uma semente de 
verdade e cobri-la com camada sobre camada de mentiras agradveis... como as 
prolas que as ostras de Rhampora formam em torno de um gro de areia. 
Encontrei esta metfora no livro do famoso historiador...
        - Pare de novo, Janov! Diga-me, existe alguma diferena entre as lendas de 
Comporellon e as outras lendas?
        - Oh! - Pelorat levou algum tempo para compreender a pergunta. - 
Diferena? Bem, eles afirmam que a Terra fica relativamente perto, o que no  
comum. Na maioria das lendas que falam da Terra, ou de um planeta semelhante, 
no  mencionada nenhuma localizao especfica...  como se estivesse muito 
distante ou em uma terra de sonho.
        -  Sim, como havia gente em Sayshell que acreditava que Gaia estivesse 
localizado no hiperespao.
        Bliss riu.
        Trevize voltou-se para ela.
        -  verdade! Foi o que nos disseram!
        - No estou duvidando de voc. Mesmo assim, no deixa de ser engraado. 
Na verdade, este mito  muito conveniente para ns. No momento, s queremos que 
nos deixem em paz. Se as pessoas acreditam que estamos no hiperespao, no tm 
motivo para sair  nossa procura.
        - O mesmo se aplica  Terra - disse Trevize, secamente. - As pessoas no 
tm motivo para sair em busca da Terra se acham que ela no existe, fica muito 
longe ou est totalmente radioativa.
        - Acontece - objetou Pelorat - que os comporelianos afirmam que a Terra 
no fica longe do seu planeta.
        - Sim, mas pensam que ficou radioativa. De uma forma ou de outra, as 
lendas sempre mostram a Terra como um planeta inatingvel.
        -  Acho que tem razo. Trevize prosseguiu:
        - Muitos habitantes de Sayshell acreditavam que Gaia no estava muito 
distante; alguns chegaram a identificar corretamente a estrela; no entanto, nenhum 
tinha esperana de visitar Gaia. Os comporelianos podem insistir em que a Terra 
est radioativa e deserta, mas pode haver algum capaz de nos indicar o seu sol. 
Nesse caso, tentaremos desembarcar na Terra, da mesma forma como 
desembarcamos em Gaia.
        - Gaia estava disposto a receb-los, Trevize - disse Bliss. - Vocs estavam 
totalmente indefesos, mas no corriam nenhum perigo, porque nossas intenes 
eram pacficas. E se a Terra tambm for poderosa, mas no to bem intencionada? 
O que pretende fazer?
        - Seja como for, tentarei o desembarque e aceitarei as consequncias. 
Entretanto, esta  uma deciso pessoal. Depois que eu localizar a Terra, vocs 
podero continuar comigo ou no. Posso deix-los no planeta mais prximo da 
Fundao, ou lev-los de volta para Gaia, e viajar para a Terra sozinho.
        - Nem fale nisso, meu amigo! - exclamou Pelorat, indignado. - Jamais 
pensaria em abandon-lo!              
        - Nem eu abandonaria Pel - afirmou Bliss, passando a mo no rosto de 
Pelorat.
        - Est bem. Est quase na hora do Salto para Comporellon. De l, se tudo 
correr bem, poderemos ir direto para a Terra.







































PARTE DOIS


COMPORELLON











Captulo 3

Na Estao Espacial





9.

BLISS entrou no quarto e perguntou:
        - Trevize lhe contou que vamos dar o Salto no hiperespao a qualquer 
momento?
        Pelorat, que estava lendo, levantou a cabea e disse:
        - H poucos momentos ele chegou a na porta e anunciou: "Falta menos de 
meia hora!"
        - A idia no me agrada, Pel. No gosto do Salto. Acho a sensao muito 
desagradvel.
        Pelorat pareceu levemente surpreso.
        -  Nunca havia pensado em voc como astronauta, Bliss querida.
        - No tenho muita prtica, e no estou falando apenas como Bliss. A 
experincia de Gaia em relao a viagens espaciais  bastante limitada. Por 
minha/nossa prpria natureza, eu/ns/Gaia no mantemos relaes comerciais ou 
diplomticas com outros planetas. Mesmo assim, precisamos de algum para 
guarnecer as estaes espaciais...
        -  Como aquela em que tivemos a felicidade de nos conhecer.
        -  Isso mesmo, Pel - disse Bliss, em tom afetuoso. - Ou para visitar 
Sayshell e outros setores do espao, por vrias razes... e geralmente incgnitos. 
Incgnitos ou no, o fato  que temos que executar o Salto, e, naturalmente, 
quando uma parte de Gaia executa o Salto, Gaia inteiro sente.
        -  Sinto muito - disse Pel.
        -  Podia ser pior. Como a maior parte de Gaia no est executando o Salto, o 
efeito  bastante diludo. Entretanto, tenho a impresso de que sinto mais o Salto 
do que o resto de Gaia. Como vivo dizendo para Trevize, embora tudo o que existe 
em Gaia seja Gaia, as diferentes partes no so idnticas. Temos nossas diferenas 
e meu organismo, por alguma razo,  particularmente sensvel ao Salto.
        - Espere! - exclamou Pelorat, lembrando-se subitamente. - Trevize me 
explicou uma vez. A sensao  muito pior nas naves comuns. Nessas naves, o 
campo gravitacional da Galxia desaparece quando a nave entra no hiperespao e 
torna a aparecer quando ela volta ao espao normal.  a variao sbita do campo 
gravitacional que produz uma sensao desagradvel. Por outro lado, o Estrela 
Distante  uma nave gravtica. Est isolado do campo gravitacional. Assim, voc no 
vai sentir nada, nem no incio nem no final do Salto. Posso assegurar-lhe, Bliss, por 
experincia prpria.
        -  uma tima notcia, Pel. Gostaria de ter discutido o assunto h mais
tempo. Dessa forma, teria poupado a mim mesma muitas horas de preocupao.
        -  Existem outras vantagens - disse Pelorat, sentindo-se muito orgulhoso 
em seu novo papel de astronauta experiente. - As naves comuns tm que se 
afastar das massas grandes, como as estrelas, antes de poderem executar um Salto. 
Em parte, isto se deve ao fato de que quanto mais prxima estiver uma estrela, 
mais intenso ser o campo gravitacional e mais pronunciadas as sensaes do 
Salto. Alm disso, quanto mais intenso o campo gravitacional, mais complicadas as 
equaes que devem ser resolvidas para executar o Salto com preciso.
        "Nas naves gravticas, por outro lado, praticamente no existe a sensao do 
Salto. A nave dispe de um computador muito mais avanado que o das naves 
comuns, que  capaz de determinar os parmetros do Salto com extrema rapidez, 
por mais complexas que sejam as equaes envolvidas. O resultado  que, ao invs 
de ter que viajar durante vrias semanas no espao comum para chegar a uma 
distncia segura para o Salto, o Estrela Distante precisa viajar apenas dois ou trs 
dias. Alm disso, como a nave no est sujeita ao campo gravitacional, no sofre os 
efeitos da inrcia... Confesso que esta parte eu no entendo, mas foi o que Trevize 
me contou... e portanto pode acelerar muito mais depressa que uma nave comum.
        - Tudo isso  muito bom, Pel - disse Bliss. - Trev deve ser muito 
inteligente, para saber pilotar uma nave to sofisticada.
        Pelorat fez uma careta.
        -  Por favor, Bliss. Diga "Trevize".
        -  Eu digo, eu digo. Quando ele no est, s vezes eu me distraio.
        - Procure prestar mais ateno. Sabe que ele detesta ser chamado pela 
primeira slaba do nome.
        - No  s isso o que ele detesta. Pel, Trevize no gosta de mim nem um 
pouquinho.
        - Est enganada - disse Pelorat, ansioso. - J conversei com ele a 
respeito. No, no faa essa cara. Usei de toda a minha diplomacia, Bliss. Ele me 
garantiu que no tem nada contra voc. O que acontece  que Golan no confia em 
Gaia e tem medo de se arrepender da deciso que tomou, escolhendo Gaia como o 
futuro da humanidade. Temos que dar tempo ao tempo. Aos poucos, ele aprender 
a conhecer as virtudes de Gaia.
        - Espero que sim, mas no  s isso. Diga ele o que disser, Pel... e no se 
esquea de que  seu amigo e far tudo para no mago-lo..., a verdade  que 
Trevize me detesta.                                         
        -  No, Bliss, no acredito.
        - S porque voc me ama, no quer dizer que todos tenham que gostar de 
mim. Deixe-me explicar. Trev, isto , Trevize acha que eu sou um rob.
        O rosto habitualmente impassvel de Pelorat assumiu uma expresso de 
profundo espanto. Ele exclamou:
        -  inconcebvel que Golan confunda voc com um ser humano artificial!
        - Por qu? Gaia foi colonizado com a ajuda de robs.  um fato histrico.
        - Os robs talvez tenham ajudado, mas foram pessoas que colonizaram 
Gaia; gente da Terra.  essa a opinio de Golan. J discutimos vrias vezes o 
assunto.
        - Como eu j disse a vocs dois, no h nada na memria de Gaia a respeito 
da Terra. Por outro lado, existe uma recordao vaga dos robs, mesmo aps trs 
mil anos, trabalhando para completar a transformao de Gaia em um mundo 
habitvel. Naquela poca, tambm estvamos comeando a formar a conscincia 
planetria de Gaia. Isso levou muito tempo, Pel, e talvez seja a razo pela qual 
muita coisa desapareceu da nossa memria. No  preciso que nossa histria tenha 
sido deliberadamente mutilada, como Trevize parece pensar...
        -  Sim, Bliss - disse Pelorat, com impacincia -, e os robs?
        - Quando terminamos a construo de Gaia, os robs foram embora. No 
queramos que os robs fossem absorvidos por Gaia, pois estvamos convencidos, e 
ainda estamos, de que a presena de robs  prejudicial s sociedades humanas, 
quer seus membros sejam Isolados, quer faam parte de um nico organismo, como 
em Gaia. No sei co-mo chegamos a essa concluso, mas  possvel que ela tenha 
se baseado em acontecimentos to antigos que escapam  memria de Gaia.
        - Se voc mesma est dizendo que os robs foram embora...
        -  E se alguns ficaram? E se eu for um deles... nesse caso, poderia ter 
quinze mil anos de idade!  disso que Trevize suspeita.
        Pelorat sacudiu a cabea devagar.
        - Trevize est errado.
        - Como pode ter certeza?
        - Bliss, voc no  um rob!
        - Como  que voc sabe?
        - Eu sei! Voc no tem nada de artificial!
        - Imagine que eu seja uma mquina to bem-feita, sob todos os  aspectos,
que seja impossvel distinguir-me de um ser humano. Nesse caso, voc no poderia
enganar-se?
        - No acho que seja possvel construir uma mquina to perfeita.
        - E se fosse possvel, apesar de tudo?
        - No consigo acreditar.
        - Vamos ento considerar apenas uma situao hipottica. Se eu fosse um 
rob, como voc se sentiria?
        - Ora, eu... eu...
        - Para ir direto ao ponto: como voc se sentiria se soubesse que estava 
fazendo amor com um rob?
        Pelorat estalou os dedos.
        - Voc sabe, existem muitas lendas a respeito de mulheres que se 
apaixonam por homens artificiais e vice-versa. Sempre achei que se tratava de mero 
simbolismo; nunca imaginei que pudessem ser tomadas ao p da letra. 
Naturalmente, Golan e eu nunca tnhamos ouvido a palavra "rob" at pousarmos 
em Sayshell, mas agora, pensando no assunto, ocorreu-me que esses homens e 
mulheres artificiais devem ter sido robs. Aparentemente, esses robs realmente 
existiram no passado remoto. As lendas tero que ser reavaliadas...
        Pelorat parou de falar e ficou com uma expresso pensativa. Bliss esperou
um instante e depois bateu palmas com fora. Pelorat deu um pulo.
        - Pel, querido! Voc est sendo evasivo. O que perguntei foi: como se sentiria 
se soubesse que estava fazendo amor com um rob?
        Pelorat olhou para ela, pouco  vontade.
        - Um rob realmente perfeito? Um rob que fosse impossvel de distinguir 
de um ser humano?
         Isso mesmo. Na minha opinio, um rob que no pode ser distinguido de 
um ser humano  um ser humano. Se voc fosse um rob assim, no deixaria de
consider-la como humana.
          o que eu queria que voc dissesse, Pel. Pelorat esperou um pouco e
depois disse:
         J que voc ouviu o que queria, Bliss, no vai me assegurar que  um ser
humano comum e que no precisamos mais lidar com atuaes hipotticas?
         No. No vou fazer isso. Voc definiu o ser humano como um ser que tem
todas as propriedades de um ser humano. Se reconhece que eu tenho todas essas 
propriedades, no temos mais o que discutir. Temos uma definio prtica, e isso  
o que importa. Afinal de con-tas, como vou saber que voc no  um rob to 
perfeito que no pode ser distinguido de um ser humano?
        - Eu posso lhe dizer que no sou.
        - Ah, mas se voc fosse um rob fabricado para imitar um ser humano, 
poderia ser programado para me dizer que era humano, programado at mesmo 
para acreditar que era humano. No, Pel, a nica definio possvel  a definio 
prtica!
        Bliss colocou os braos em volta do pescoo de Pelorat e beijou-o na boca. O 
beijo foi ficando mais apaixonado e prolongou-se at que Pelorat conseguiu dizer, 
com voz abafada:
        - Prometemos a Trevize que no iramos transformar esta nave em um hotel 
de lua-de-mel.
        - Pel querido, no  hora de pensar em promessas!
        -  Sinto muito, amor. Sei que isso deve irritar voc, mas nunca me deixo 
levar pela emoo.  um hbito arraigado e que deve incomodar bastante as outras 
pessoas. Nunca vivi com uma mulher que no se queixasse, vez por outra, dessa 
minha maneira de ser. Minha primeira esposa... no, no seria de bom gosto falar 
no assunto...
        - Talvez no seja, mas no me incomodo. Eu tambm j vivi com outros 
homens.
        - Oh! - exclamou Pelorat, chocado. Depois, vendo o sorriso nos lbios de 
Bliss, emendou: - Quero dizer, claro que j viveu. Nunca tive pretenses de ser o 
primeiro... seja como for, minha primeira mulher no gostava...                                         
        - Pois eu gosto. Acho o seu jeito de ser muito atraente.
        - Voc diz isso s para me agradar, mas acaba de me ocorrer outra coisa. 
Rob ou humana, isso no importa. Estamos de acordo. Entretanto, eu sou um 
Isolado. No sou parte de Gaia. Quando fazemos amor, voc est experimentando 
emoes fora de Gaia, que no podem ser to intensas quanto as que voc 
experimentaria se fosse Gaia amando Gaia.
        - Seu amor me d prazer, Pel.  tudo o que me importa.
        - Mas no  s voc que decide. Voc  parte de um todo. E se Gaia 
considerar seu amor por mim uma perverso?
        - Se fosse esse o caso, eu saberia, porque sou Gaia. Se sinto prazer quando 
estou com voc, Gaia tambm sente. Quando fazemos amor, Gaia inteiro participa 
do nosso ato, em maior ou menor grau. Quando eu digo que amo voc, isso quer 
dizer que Gaia inteiro ama voc. Voc parece confuso...
        - Para um Isolado, Bliss,  difcil entender essas coisas.
        - Talvez uma analogia o ajude a compreender. Quando voc assobia uma 
msica, o seu corpo inteiro, voc como um organismo nico, sente vontade de 
assobiar, mas a tarefa especfica de assobiar  executada pelos lbios, lngua e 
pulmes. O dedo do seu p direito no faz nada.
        - Pode bater no cho, acompanhando o ritmo.
        - Isso no est ligado diretamente ao ato de assobiar. Bater com o p no 
cho no  a ao em si, mas uma resposta  ao. Da mesma forma, as outras 
partes de Gaia podem reagir s minhas emoes e eu posso reagir s emoes de 
outras partes de Gaia.
        - Acho que seria bobagem eu me sentir envergonhado.
        - Bobagem completa.
        - Mas no posso evitar um estranho senso de responsabilidade. Quanto 
tento fazer voc feliz, na verdade estou tentando fazer felizes todos os seres de Gaia.
        - At o ltimo tomo, Pel querido. E com muito sucesso. Voc contribui para 
aquela sensao geral de prazer que eu deixei voc sentir por alguns instantes. 
Suponho que sua contribuio seja pequena demais para ser medida com 
facilidade, mas o simples fato de saber que ela est l deveria aumentar o seu 
prazer.
        - Gostaria de ter certeza de que Golan est suficientemente ocupado com as 
manobras no hiperespao para permanecer por um bom tempo na sala do piloto.
        - Quer ir para a cama comigo?
        - Quero, sim.
        - Ento pegue uma folha de papel, escreva "Favor no perturbar", pendure 
do lado de fora da porta, e se ele quiser entrar, problema dele.
        Pelorat seguiu o conselho, e foi durante os momentos agradveis que se 
seguiram que o Estrela Distante executou o Salto. Nenhum dos dois teve noo do 
momento exato em que o Salto ocorreu; isso seria difcil, mesmo que estivessem 
prestando ateno.

10.

FAZIA apenas alguns meses que Pelorat havia conhecido Trevize e deixado Terminus 
pela primeira vez. At ento, por mais de meio sculo, ele havia permanecido na 
superfcie do seu planeta natal.
        Em poucos meses, pensou Pelorat, havia se transformado em um veterano do 
espao. J tinha visto trs planetas do espao: Terminus, Sayshell e Gaia. Agora, na 
tela do computador, estava vendo um quarto: Comporellon.
        Pela quarta vez, estava um pouco desapontado. Sempre havia tido a 
impresso de que observar do espao um planeta habitvel significaria observar 
continentes cercados por oceanos; ou, no caso de mundos mais secos, lagos 
cercados por massas de terra.
        Puro engano.
        Se um mundo era habitvel, alm de uma hidrosfera tinha que ter uma 
atmosfera. Ora, havendo ar e gua, tinha que haver nuvens; havendo nuvens, a 
superfcie no podia ser totalmente visvel. Assim, mais uma vez, Pelorat via diante 
de si um crculo esbranquiado com ocasionais manchas azuis e castanhas.
        Pensou consigo mesmo se seria possvel reconhecer um planeta se uma vista 
de uma distncia de, digamos, trezentos mil quilmetros, fosse projetada em uma 
tela. Como distinguir uma nuvem de outra?
        Bliss olhou para Pelorat com ar preocupado.
        - Que foi, Pel? Voc parece triste.
        - Descobri que, vistos do espao, todos os planetas so iguais. Trevize 
interveio:
        - E da, Janov? Poderia dizer o mesmo de qualquer litoral de Terminus, 
quando visto no horizonte, a menos que voc saiba o que est procurando: um certo 
pico de montanha ou uma ilhota com uma forma caracterstica.
        - No  a mesma coisa - protestou Janov, aborrecido: - O que h para 
procurar em uma massa de nuvens?
        - Observe com ateno, Janov. Se acompanhar a forma das nuvens, ver 
que tendem a formar desenhos simtricos em torno de um centro, localizado perto
de um dos plos.
         Qual deles? - perguntou Bliss, interessada. - Como, em relao a ns, o
planeta est girando no sentido dos ponteiros do relgio, estamos olhando, por
definio, para o plo sul, Como o centro das nuvens parece estar a uns quinze
graus do terminal, ou crculo de iluminao do planeta, e o eixo do planeta tem 
uma inclinao de 21 graus em relao  perpendicular ao plano de revoluo, 
estamos no meio da primavera ou no meio do vero, dependendo de se o plo est 
se afastando ou se aproximando do terminador. O computador poderia calcular a 
rbita em questo de segundos. A capital fica no hemisfrio Norte, de modo que l 
deve ser outono ou inverno.
        Pelorat fez uma careta.
        - Voc  capaz de concluir tudo isso s de olhar para as nuvens?
        - No apenas isso - prosseguiu Trevize -, mas se voc observar a regio 
polar, no ver nenhuma abertura nas nuvens, como em outras partes do planeta. 
        Na verdade, as aberturas esto l, mas debaixo delas h gelo.  uma questo 
de falta de contraste.
        - Ah! J devia imaginar que os plos estivessem cobertos de gelo - 
observou Pelorat.
        - Nos planetas habitveis, pelo menos, isso  a regra - explicou Trevize. - 
Nos planetas estreis pode no haver gua, ou podemos encontrar certos sinais 
indicando que as nuvens no so nuvens de gua, ou que o gelo no  gelo de gua. 
No planeta que estamos observando, esses sinais esto ausentes; o que vemos so 
nuvens comuns e gelo comum.
        "Outra coisa que se pode notar  o tamanho da regio sem aberturas 
aparentes nas nuvens, que  maior que a mdia para planetas do mesmo porte. 
Alm disso, a luz refletida pelas nuvens  levemente alaranjada, o que significa que 
o sol de Comporellon  bem mais frio que o sol de Terminus. Embora Comporellon 
fique mais perto do sol que Terminus, isso no  suficiente para compensar a 
menor temperatura do seu sol. Em consequncia, Comporellon  um planeta 
bastante frio para um mundo habitvel.
        - Voc l um planeta como quem l um livro! - exclamou Pelorat, com 
admirao.
        - No se deixe impressionar - disse Trevize, com um sorriso. - O 
computador me forneceu todos os dados relevantes a respeito de Comporellon, 
incluindo o fato de que a temperatura na superfcie  relativamente baixa.  fcil 
deduzir o que j se sabe. Na verdade, o planeta est  beira de uma era glacial e 
estaria passando por uma, se a configurao dos continentes fosse mais favorvel 
para essa situao.
        Bliss fez um muxoxo.
        - No gosto de planetas frios.
         Trouxemos agasalhos suficientes - disse Trevize.
        - No faz diferena. Os seres humanos no nasceram para viver em climas 
frios. No temos grossas camadas de plos ou penas, nem uma camada subcutnea 
de gordura. Se um mundo  frio, isso revela certa falta de considerao para com 
suas partes humanas.
        - O clima de Gaia  ameno? - perguntou Trevize.
        - Em sua maior parte, sim. Existem algumas regies frias para plantas e 
animais adaptados ao frio, e algumas regies quentes para plantas e animais 
adaptados ao calor, mas quase todo o planeta possui um clima nem muito frio nem 
muito quente, o que constitui o ambiente mais agradvel para muitas espcies, 
inclusive o homem, naturalmente.
        - O homem, naturalmente. Todas as partes de Gaia so iguais, mas 
algumas, como os seres humanos, so mais iguais que outras...
        - No seja sarcstico - disse Bliss, com um trao de irritao na voz. - O 
nvel e intensidade da conscincia so importantes. Um ser humano  uma parte 
mais til de Gaia que uma pedra com o mesmo peso, e as propriedades e funes 
de Gaia como um todo so necessariamente programadas de modo a atender s 
necessidades dos seres humanos... no tanto, porm, quanto nos mundos dos 
Isolados. Alm disso, existem ocasies em que as atenes de Gaia se voltam para 
outros seres. Assim, por exemplo, de tempos em tempos Gaia precisa se preocupar 
com o seu interior. No podemos nos dar ao luxo de permitir uma erupo 
vulcnica desnecessria, no  mesmo?
        - No - concordou Trevize. - Uma erupo desnecessria seria uma 
lstima.
        - Voc no aprova os nossos mtodos, no  mesmo?
        - Escute - disse Trevize. - Temos mundos que so mais frios que a mdia 
e mundos que so mais quentes; mundos cobertos de florestas e mundos que no 
passam de vastas savanas. No existem dois mundos iguais, e cada um deles  
capaz de sustentar milhares de espcies vivas. Estou acostumado ao clima 
relativamente ameno de Terminus... na verdade, j interferimos muito com o clima 
do planeta, quase tanto como em Gaia... mas gosto, pelo menos de vez em quando, 
de experimentar algo diferente. O que ns temos, Bliss, que Gaia no tem,  
variedade. Se Gaia ocupar a Galxia, ser que todos os mundos da Galxia tero o 
mesmo clima? A monotonia seria insuportvel.
        - Se a variedade for desejvel, a variedade ser mantida - declarou Bliss, 
muito sria.
        - Como cortesia do comit central? - retrucou Trevize. - Apenas o 
indispensvel para que ningum morra de tdio? Prefiro deixar por conta da 
natureza!
        - Mas vocs no deixaram por conta da natureza! Todos os planetas 
habitveis da Galxia foram modificados. Cada um deles foi descoberto em um 
estado natural que no era o mais confortvel para os seres humanos e cada um 
deles foi alterado para se tornar o mais prximo possvel do planeta ideal. Se este 
mundo aqui  frio, estou certa de que  porque os habitantes no conseguiram 
aquec-lo mais sem incorrerem em despesas excessivas. Mesmo assim, as regies 
habitadas certamente dispem de aquecimento. Assim, pense um pouco antes de 
falar a respeito das virtudes da natureza!
        - Suponho que esteja falando em nome de Gaia - disse Trevize.
        - Sempre falo em nome de Gaia. Eu sou Gaia.
        - Se Gaia est to certo da sua superioridade, porque pediu que eu 
decidisse? Por que no resolveu tudo sem mim?
        Bliss fez uma pausa, como que para colocar os pensamentos em ordem. 
        Depois, explicou:
        - Porque no  prudente confiar demais em ns mesmos.  mais fcil
enxergar nossas virtudes que nossos defeitos. Estamos ansiosos para fazer o que  
certo; no o que nos parece certo, mas o que  certo, objetivamente, se  que existe 
uma certeza objetiva. Voc parece ser o mais prximo da certeza objetiva que 
conseguimos encontrar; por isso, deixamo-nos guiar por voc.
        - To objetivamente certo - disse Trevize tristemente - que no consigo 
compreender minha prpria deciso e saio  procura de uma justificativa para ela.
        - Voc vai encontr-la - disse Bliss.
        - Espero que sim.
        - Na verdade, meu amigo - interveio Pelorat -, parece-me que a discusso 
foi vencida brilhantemente por Bliss. Por que no reconhece o fato de que os 
argumentos dela justificam sua deciso de entregar a Gaia o futuro da 
humanidade?
        - Porque eu no conhecia esses argumentos quando tomei a deciso! - 
exclamou Trevize asperamente. - No sabia quase nada a respeito de Gaia. Alguma 
coisa mais me influenciou, pelo menos inconscientemente, alguma coisa que no 
depende dos detalhes a respeito de Gaia, mas deve ser algo mais fundamental.  
isso que preciso descobrir.
        - No fique zangado, Golan - disse Pelorat.
        - No estou zangado, estou apenas tenso. No  fcil ser o responsvel pelo 
destino da Galxia.
        - Compreendo o que sente, Trevize - disse Bliss -, e sinto que tenhamos 
sido obrigados a coloc-lo nesta situao. Quando  que vamos pousar em 
Comporellon?
        - Daqui a trs dias - disse Trevize - e s depois que pararmos em uma das 
estaes espaciais que orbitam o planeta.
        -  apenas uma formalidade, no ? - perguntou Pelorat.
        - Nem tanto. Vamos ter que pedir permisso para pousar em Comporellon. 
A permisso pode ser concedida ou negada...
        - Como pode ser negada ? - exclamou Pelorat, com indignao. - Com que 
direito recusariam um visto de entrada a cidados da Fundao? Comporellon no 
faz parte da Fundao?
        - Sim e no. A situao  um pouco confusa e no sei exatamente qual a 
interpretao atual dos governantes do planeta.  possvel que nos neguem 
permisso para pousar, mas no  provvel.
        - Sim, mas se isso acontecer, o que faremos?
        - Ainda no sei - disse Trevize. - Vamos esperar e ver o que acontece 
antes de pensarmos em planos alternativos.


11.

J ESTAVAM to perto de Comporellon que o planeta podia ser visto como um disco, 
mesmo sem a ajuda do telescpio. Era preciso o telescpio, porm, para enxergar as 
estaes espaciais. Ficavam mais distantes do planeta do que quase todos os outros 
objetos em rbita e eram muito bem iluminadas.
        Como o Estrela Distante estava viajando na direo do plo Sul do planeta, 
metade do globo estava iluminado. As estaes espaciais do lado da sombra eram 
visveis como pontos luminosos. Formavam um arco em torno do planeta. Havia 
seis estaes (certamente haveria mais seis na parte iluminada), igualmente 
espaadas e girando em torno do planeta com a mesma velocidade.
        Pelorat parecia impressionado com o espetculo. Perguntou a Trevize:
        - Existem outras luzes mais prximas do planeta. Sabe o que so?
        - No conheo muita coisa a respeito de Comporellon, de modo que  difcil 
de dizer. Algumas podem ser fbricas orbitais, outras laboratrios, observatrios ou 
mesmo cidades. Alguns planetas preferem manter todos os objetos em rbita, com 
exceo das estaes espaciais, sem iluminao externa.  o que acontece em 
Terminus, por exemplo. Pode ver que Comporellon  mais liberal, pelo menos sob 
esse aspecto.
        - Em que estao vamos parar, Golan? 
        - Depende deles. Mandei uma mensagem pedindo permisso para pousar
em Comporellon e estou aguardando instrues. Tudo depende do nmero de naves 
que esto na fila. Se houver vrias naves esperando em cada estao, teremos que 
ser muito pacientes!
        - At hoje, eu s havia viajado duas vezes pelo hiperespao - observou 
Bliss.         - Das duas vezes, no fui mais longe que Sayshell.  a primeira vez que me 
afasto tanto de Gaia!
        Trevize olhou para ela.
        - O que quer dizer com isso? Voc no  Gaia?
        O rosto de Bliss revelou uma leve irritao, mas logo a moa deu um risinho 
quase envergonhado.
        - Tenho que admitir que desta vez voc me pegou, Trevize. A palavra "Gaia" 
tem dois significados diferentes. Pode ser usada para designar um certo planeta, 
um ser inanimado de forma quase esfrica que gira no espao. Pode tambm se 
referir a um ser vivo do qual esse planeta  parte. Na verdade, deveramos usar 
palavras diferentes para essas duas entidades, mas ns, gaianos, sempre sabemos 
a qual dos dois "Gaias" estamos nos referindo. Por outro lado, para vocs, Isolados, 
essa ambiguidade pode ser motivo de confuso.
        - Pois ento - disse Trevize -, admitindo que voc est a milhares de anos-
luz do planeta Gaia, voc ainda  parte do organismo Gaia?
        -  Sim, ainda sou parte do organismo Gaia.
        -  Sem nenhuma atenuao devido  distncia?
        - Sem nenhuma atenuao. J lhe disse que minha ligao com o planeta 
atravs do hiperespao constitui uma complicao adicional, mas continuo a ser 
Gaia.
        - J lhe ocorreu que Gaia possa vir a tornar-se uma espcie de kraken, o 
monstro marinho das lendas escandinavas, com tentculos estendendo-se por toda 
a Galxia? Basta colocarem uns poucos gaianos em cada um dos mundos 
habitados e tero a Galxia nas mos. Ei, aposto que  exatamente isso que esto 
fazendo! Claro, deve haver alguns gaianos em Terminus... e outros em Trantor! 
Onde mais?
        Bliss parecia pouco  vontade.
        - J disse que no vou mentir para voc, Trevize, mas tambm no sou 
obrigada a revelar toda a verdade. Existem algumas coisas que voc no precisa 
saber, entre elas a localizao e identidade de todas as partes de Gaia.
        - No tenho o direito de saber o motivo para a existncia desses tentculos, 
Bliss, mesmo que no saiba onde esto?
        - No, Gaia acha que no.
        -Entretanto, nada me impede de especular. Em minha opinio, vocs 
trabalham como guardies da Galxia.
        - Estamos ansiosos para termos uma Galxia estvel e segura; uma Galxia 
prspera e pacfica. O Plano de Seldon, pelo menos na forma como foi proposto 
originalmente por Hari Seldon, tinha por objetivo final o surgimento do Segundo 
Imprio Galctico, um imprio mais justo e estvel que o primeiro. O Plano, que tem 
sido constantemente modificado e aperfeioado pela Segunda Fundao, parece es-
tar funcionando bem at agora.
        - Acontece que Gaia no deseja um Segundo Imprio Galctico, no  
mesmo? Vocs querem uma Galxia viva!
        - No foi essa a sua deciso? Se tivesse optado pela Primeira ou pela 
Segunda Fundao, estaramos trabalhando pela formao do Segundo Imprio 
Galctico!
        - Que mal haveria em...
        O alarma do computador comeou a tocar.
        - Agora tenho que ir - disse Trevize. - O computador est me chamando. 
Deve estar recebendo instrues de Comporellon. Mais tarde continuamos a 
conversa.
        Entrou na sala de comando, colocou as mos no tampo da escrivaninha e 
descobriu que o computador j havia recebido as coordenadas da estao espacial 
onde deveriam atracar.
        Trevize confirmou o recebimento da mensagem e sentou-se para pensar.
        O Plano de Seldon! H muito tempo que no pensava nele. O Primeiro 
Imprio Galctico havia entrado em decadncia e durante quinhentos anos a 
Fundao tinha crescido, primeiro em competio com o prprio Imprio, depois 
sobre as suas runas... tudo de acordo com o Plano.
        Tinha havido a interrupo da Mula, que, por algum tempo, ameaara 
reduzir o plano a farelo, mas a Fundao conseguira derrot-lo, provavelmente com 
o auxlio da misteriosa Segunda Fundao e possivelmente com a ajuda do ainda 
mais misterioso Gaia.
        Agora, o plano estava ameaado por algo ainda mais srio que a Mula. Em 
vez de um novo Imprio, estava para surgir uma entidade nunca vista... uma 
Galxia Viva. Ele prprio havia concordado com essa guinada. Por qu? Haveria 
alguma falha no Plano? Algum erro bsico?
        Por um momento, pareceu a Trevize que existia mesmo uma falha, que ele 
sabia qual era, que havia levado esse fato em conta ao tomar sua deciso; 
entretanto, a impresso desapareceu como havia surgido, deixando-o mais confuso 
que nunca.
Talvez no passasse de iluso. Afinal, no conhecia nada a respeito do Plano, a no 
ser as premissas bsicas, que se baseavam na cincia da psico-histria. Ignorava 
tanto os pormenores quanto as equaes matemticas que Seldon havia 
empregado.
Fechou os olhos e tentou pensar...
        No surgiu nenhuma idia nova.
        Quem sabe com o auxlio do computador? Colocou as mos sobre a mesa e 
sentiu as mos do computador apertando as suas. Fechou os olhos e pensou de 
novo... . Nada.

12.

O COMPORELIANO que subiu a bordo tinha nas mos uma carteira hologrfica que
exibia com notvel fidelidade a face gorducha, coberta por uma barba rala, e o
identificava como A. Kendray.
        Era um homem baixinho, de corpo to rolio quanto o rosto. Tinha um jeito 
amvel e descontrado, e olhou em torno com visvel admirao.
        - Como conseguiram chegar to depressa? S os espervamos daqui a duas 
horas!
        - Esta nave  um modelo novo - explicou Trevize, em tom polido mas 
impessoal.
        Kendray no devia ser to inocente quanto aparentava. Entrou na sala de 
comando e foi logo perguntando:
        - Gravtica?
        Trevize viu que no adiantava negar o bvio. Respondeu simplesmente:
        - Isso mesmo.
        - Muito interessante. J tinha ouvido falar, mas  a primeira vez que vejo 
pessoalmente. Motores no casco?
        - Motores no casco.
        Os olhos de Kendray se voltaram para o computador.
        - Os circuitos do computador tambm?
        - Tambm. Pelo menos, foi o que me disseram.
        - Est bem. Vou precisar da documentao da nave: nmero do motor, local 
de fabricao, cdigo de registro, etc, etc. Deve estar tudo no computador. Aposto 
que ele pode me fornecer todos os dados em meio segundo.
        Na verdade, o computador levou pouco mais que isso. Kendray olhou em 
torno.
        - Vocs trs so as nicas pessoas a bordo?
        - Isso mesmo - respondeu Trevize.
        - Animais vivos? Plantas? Algum doente?
        - No, no e no - respondeu Trevize, secamente.
        - Hum! - fez Kendray, tomando notas. - Poderia colocar sua mo aqui? 
Simples rotina. A mo direita, por favor.
        Trevize olhou para o aparelho sem nenhuma simpatia. Seu uso estava 
ficando cada vez mais difundido, e ao mesmo tempo o instrumento estava ficando 
cada vez mais sofisticado. Era quase possvel avaliar o grau de desenvolvimento de 
um planeta pelo modelo de microdetector utilizado nas estaes espaciais. No 
momento, havia poucos planetas, mesmo entre os mais atrasados, que no 
estivessem usando algum tipo de microdetector. Tudo havia comeado nos ltimos 
anos do Imprio, quando os diferentes mundos, ao se libertarem do governo central, 
comearam a se preocupar com as doenas e microorganismos oriundos de outros 
planetas.
        - O que  isso? - perguntou Bliss, em voz baixa, esticando o pescoo para 
examinar o aparelho, primeiro de um lado, depois do outro.
        - Acho que  chamado de microdetector - respondeu Pelorat.
        -No tem nada de especial - acrescentou Trevize. -  apenas um 
instrumento que verifica automaticamente se voc est abrigando em seu corpo 
algum microorganismo capaz de transmitir doenas.
        - Ele tambm classifica os microorganismos que encontra - disse Kendray, 
com orgulho. - Foi fabricado aqui mesmo em Comporellon... Se no se importa, 
ainda preciso da sua mo direita.
        Trevize introduziu a mo direita no aparelho e uma srie de pequenas 
marcas vermelhas se deslocou no mostrador. Kendray apertou um boto e obteve 
uma cpia colorida das indicaes do instrumento.
        - Assine aqui, por favor - disse para Trevize. Trevize assinou.
        - Como est minha sade? - perguntou. - Acha que vou escapar?
        - No sou mdico - respondeu Kendray -, de modo que no posso entrar 
em pormenores. O que sei  que o aparelho no mostrou nenhuma das marcas que 
fariam com que seu visto de entrada fosse recusado ou voc fosse colocado de 
quarentena. Isso  tudo o que me interessa.
        - Sorte a minha - disse Trevize, secamente, sacudindo a mo para livrar-se 
do leve comicho que a mquina havia deixado.
        - Agora o senhor - disse Kendray para Pelorat.
        Pelorat introduziu a mo com ar desconfiado e depois assinou o papel.
        - E a senhora?
        Momentos depois, Kendray estava olhando do aparelho para Bliss e de Bliss 
para o aparelho.
        - Nunca vi nada parecido! Nenhum germe!
        - Que bom! - exclamou Bliss, com um sorriso insinuante.
        -  Uma sade invejvel... - Kendray olhou para o primeiro registro e disse: 
- Sua identificao, Sr. Trevize.
        Trevize mostrou a carteira de identidade. Kendray examinou-a e pareceu 
surpreso.
        - Conselheiro de Terminus?
        - Isso mesmo.
        - Alto funcionrio da Fundao?
        - Exatamente. Escute, estamos com um pouco de pressa...
        -  o comandante da nave?
        - Sou.
        - Finalidade da visita?
        - Estou aqui em misso confidencial e isso  tudo o que posso lhe revelar. 
Compreende?
        - Sim senhor. Quanto tempo pretende ficar em Comporellon?
        - No sei. Mais ou menos uma semana.
        - Muito bem. E o outro cavalheiro?
        - Ele  o dr. Janov Pelorat. Respondo por ele.  um famoso cientista em 
Terminus e veio para c na qualidade de meu assistente.
        -Entendo, senhor, mas preciso ver a carteira de identidade dele. 
Regulamentos so regulamentos. Espero que compreenda, senhor.
        Pelorat mostrou a carteira. Kendray voltou-se para Bliss.
        - E a senhora? Trevize interveio:
        - No precisa incomod-la. Respondo por ela, tambm.
        - Sim senhor. Basta que me mostre a carteira de identidade.
        - Sinto muito, mas no tenho nenhum documento - disse Bliss.
        - O que foi que a senhora disse?
        - Minha amiga esqueceu os documentos em casa - disse Trevize. - Essas 
coisas acontecem, o senhor sabe. Mas no tem importncia. Assumo total 
responsabilidade.
        -Infelizmente, no posso permitir isso - afirmou Kendray. - A 
responsabilidade  minha. No se preocupe; no deve ser difcil conseguir cpias 
dos documentos da jovem. Ela  de Terminus, no ?
        - No, ela no  de Terminus.
        - De algum outro planeta da Fundao?
        - Tambm no.
        Kendray olhou desconfiado para Bliss e depois para Trevize.
        - Nesse caso, a coisa fica mais complicada, senhor conselheiro. Pode levar 
mais tempo do que eu imaginava. Senhorita Bliss, vou precisar do nome do seu 
planeta natal e do planeta do qual  cidad. S vai poder desembarcar em 
Comporellon depois que as cpias dos documentos chegarem.
        - Um momento, sr. Kendray - disse Trevize. - No vejo nenhuma razo 
para a demora. Sou um alto funcionrio da Fundao I estou aqui em uma misso 
de extrema importncia. No posso ser retido por uma questo burocrtica 
insignificante.
        - No tenho escolha, conselheiro. Se dependesse de mim, j estariam l 
embaixo, mas existe um regulamento e sou obrigado a cumpri-lo. Naturalmente, 
algum membro do governo de Comporellon deve es-lar  sua espera. Diga-me quem 
 e entrarei em contato com ele. Se ele autorizar, a moa ser liberada 
imediatamente.
Trevize hesitou por um momento.
        - Isso no seria poltico, Sr. Kendray. Posso falar com o seu superior 
imediato?
        - Claro que sim, mas no momento ele est muito ocupado.
        - Tenho certeza de que me receber assim que souber que trabalho para a 
Fundao...
        - Aqui entre ns, conselheiro, isso s servir para piorar as coisas. Como o 
senhor deve saber, no fazemos parte diretamente da Fundao; Comporellon  um 
dos Planetas Associados. Os dirigentes fazem questo de mostrar que no somos 
tteres da Fundao, mas um mundo livre e independente. Meu superior ser 
elogiado se ele negar um favor a um representante da Fundao.
        Trevize fez uma careta.
        - E voc?
        Kendray sacudiu a cabea.
        - No tenho ambies polticas. Para mim, um elogio no significa nada. Por 
outro lado, detestaria perder o emprego por causa de uma bobagem.
        - Sabe que, na minha posio, posso fazer muita coisa por voc.
-          Desculpe o atrevimento, senhor, mas acho que no pode. No sei como
dizer isso, senhor... mas  melhor que no me oferea nada de valor. As autoridades
no vem com bons olhos os funcionrios que aceitam ofertas desse tipo...
        - No estava pensando em suborn-lo. Estava pensando em interceder por
voc, porque quando o prefeito de Terminus souber que prejudicou minha misso 
com sua teimosia...
        - Conselheiro, estarei perfeitamente seguro enquanto cumprir o 
regulamento  risca. Se os membros do presidium de Comporellon ficarem em m 
situao com o seu prefeito, problema deles. Por outro lado, o senhor e seu amigo 
esto liberados. Se deixarem a srta. Bliss na estao espacial, ns nos 
encarregaremos de mand-la para a superfcie assim que os papis chegarem. Se, 
por alguma razo, for impossvel conseguir os documentos, ns a enviaremos para o 
planeta de origem em uma nave comercial. Nesse caso, porm, algum dos senhores 
ter que pagar a passagem.
        Trevize observou como Pelorat havia reagido s palavras do funcionrio e 
disse:
        - Sr. Kendray, podemos conversar em particular na sala de comando?
        - Est bem, mas no posso ficar muito mais tempo a bordo.
        - No vai demorar - disse Trevize.
        Na sala de comando, Trevize fechou a porta de forma teatral e disse, em voz 
baixa:
        - J estive em muitos planetas, sr. Kendray, mas nunca vi nenhum lugar 
que aplicasse as leis de imigrao de maneira mais obstinada, especialmente em se 
tratando de membros da Fundao em misso oficial...
        - Mas a mocinha no  da Fundao!
        - Mesmo assim.
        - Conselheiro, essas coisas passam por fases. Tivemos alguns escndalos e 
no momento as coisas esto apertadas. Se voltar no ano que vem, talvez no haja 
nenhum problema, mas no momento no posso fazer nada.
        - Tente, sr. Kendray - disse Trevize, em tom melfluo. - Vou apelar para os 
seus sentimentos, de homem para homem. Pelorat e eu estamos nesta misso h 
muito tempo. Eu e ele. S ns dois. Somos bons amigos, mas falta alguma coisa, se 
 que me entende. Pois Pelorat conheceu aquela moa. No preciso explicar o que 
aconteceu, mas resolvemos traz-la conosco. Ela se tornou importante para nossa 
sanidade mental.
        "O problema  que Pelorat tem uma esposa em Terminus. Eu sou livre, voc 
entende, mas Pelorat, no. E ele chegou a uma idade em que os homens ficam... 
como direi?... em que os homens ficam obcecados por mulheres mais jovens. No 
quer largar Bliss de jeito nenhum. Ao mesmo tempo, se a presena de Bliss for 
conhecida oficialmente, o velho Pelorat vai comer o po que o diabo amassou 
quando voltar a Terminus.
        "Ningum ser prejudicado, entende? Bliss no tem nada a ver com a nossa 
misso. Qual a necessidade de mencion-la? No pode registrar apenas o meu 
nome e o do dr. Pelorat? ramos os nicos a bordo quando nossa nave partiu de 
Terminus. Para que mencionar a moa? Afinal de contas, ela est absolutamente 
livre de doenas. Voc pde constatar isso pessoalmente!
        Kendray franziu a testa.
        - Conselheiro, compreendo sua situao e, acredite, gostaria de ajud-lo. Se 
pensa que  divertido ficar de servio nesta estao meses a fio, est muito 
enganado. E aqui em cima s trabalham homens... - Sacudiu a cabea. - Alm 
disso, sou casado, de modo que entendo a enrascada em que o seu amigo se 
meteu... mas escute, mesmo que eu deixe vocs passarem, assim que descobrirem 
que a... que a amiguinha de vocs no tem documentos, ela vai para a cadeia, eu 
perco o emprego e o senhor e seu amigo vo ter muito o que explicar para as 
autoridades de Comporellon e de Terminus!
        - Sr. Kendray, tem que confiar em mim. Assim que pousarmos em 
Comporellon, tudo estar bem. As pessoas que esto  minha espera so muito 
influentes. Se for necessrio, o que acho muito pouco provvel, assumirei total 
responsabilidade pelo que aconteceu aqui. Alm do mais, recomendarei a sua 
promoo...
        Kendray hesitou por um momento e depois disse:
        - Est bem. Vou deixar a moa passar, mas fique sabendo de uma coisa: a 
partir deste momento, estarei planejando uma forma de livrar a cara se alguma 
coisa der errado. E no moverei um dedo para ajudar vocs. Acontece que eu sei 
como as coisas funcionam em Comporellon, vocs no sabem e este no  um lugar 
fcil para as pessoas que saem da linha.
        - Muito obrigado, sr. Kendray - disse Trevize. - No haver nenhum 
problema. Pode ficar tranquilo.






























Captulo 4

Em Comporellon





13.


COMEARAM a descida. A estao espacial havia ficado para trs, reduzida a um 
ponto luminoso. Em poucas horas, estariam atravessando a camada de nuvens.
        Uma nave gravtica no precisava descer em espiral para frear, mas tambm 
no podia mergulhar depressa demais em direo  superfcie. O fato de poder 
neutralizar a fora gravitacional no a tornava imune  resistncia do ar. A nave 
podia descer em linha reta, mas se no tomasse cuidado com a velocidade, arderia 
em chamas.
        - Para onde estamos indo? - perguntou Pelorat, parecendo confuso. - 
Daqui de cima, tudo parece igual, meu amigo.
        - Para mim tambm - disse Trevize. - Acontece que dispomos de um mapa 
hologrfico oficial de Comporellon, com todos os continentes e oceanos... e tambm 
com as divises polticas. O mapa est na memria do computador, que se 
encarregar de todo o trabalho. Depois de determinar a nossa posio no mapa, nos 
guiar direta-mente para a capital.
        - No acha arriscado irmos para a capital? Se o ambiente aqui  hostil  
Federao, como aquele sujeito insinuou, na capital ser ainda pior...
        - Por outro lado, a capital deve ser o centro intelectual do planeta e portanto 
o melhor lugar para conseguirmos a informao que buscamos. Mesmo que eles 
no gostem da Fundao, duvido que telham coragem de expressar este sentimento 
abertamente. Bliss saiu do lavatrio ajeitando a roupa e disse:
        - Estava pensando... nesta nave todos os excrementos so reciclados?
        - No temos escolha - disse Trevize. - Quanto tempo voc acha que 
duraria nosso suprimento de gua se no reciclssemos a urina? Como acha que 
conseguimos nutrientes para as plantas que cultivamos a bordo? Espero que isso 
no estrague o seu apetite, minha eficiente Bliss.
        - Por que estragaria? De onde voc supe que vem a gua e a comida em 
Gaia, neste planeta em que estamos ou em Terminus?
        - Em Gaia, os excrementos esto vivos, no esto?
        -Vivos, no. Conscientes. Naturalmente, seu nvel de conscincia 
extremamente baixo quando comparado com o nosso.
Trevize fez uma careta de desagrado, mas no insistiu no assunto. Disse:
        - Vou para a sala de comando fazer companhia ao computador. No que ele 
precise de mim...
        - Podemos ir juntos? - perguntou Pelorat. - Ainda no me acostumei  
idia de que ele  capaz de cuidar da nave sem a nossa ajuda; de reconhecer outras 
naves, de evitar tempestades, de... de?
        - Pois  bom ir se acostumando - disse Trevize, com um largo sorriso. - 
Estamos muito mais seguros com o computador nos controles do que se eu 
assumisse o comando... mas claro, claro, venham. Vo achar interessante.
        Estavam sobrevoando o lado iluminado do planeta porque, explicou Trevize, 
naquele lado o computador podia identificar mais facilmente os acidentes 
geogrficos, comparando-os com os do mapa que estava armazenado na sua 
memria.
        - Isso  evidente - disse Pelorat.
        - Nem tanto. O computador tambm "enxerga" no infravermelho, e portanto 
poderia tambm reconhecer os acidentes da face escura. Ocorre, porm, que as 
ondas infravermelhas tm comprimento maior que as de luz visvel e por isso no 
permitem uma resoluo to boa. Em outras palavras, o computador "v" um pouco 
melhor no lado claro. E sempre que posso, gosto de tornar as coisas fceis para 
ele...
        - E se a capital estiver no lado escuro?
        - Depois que o computador descobrir nossa localizao no lado iluminado, 
poder levar-nos direto para a capital, mesmo que ela esteja do outro lado do  
planeta. Alm disso, muito antes de chegarn ao nosso destino, estaremos recebendo
transmisses de microondas que nos guiaro para o espaoporto mais conveniente.
Assim, no h razo para nos preocuparmos.
        -Tem certeza? - perguntou Bliss. - Estou chegando sem nenhuma
identificao e impedida, por razes bvias, de revelar minha origem. Que vou fazer,
se pedirem meus documentos?
        - Isso no vai acontecer - disse Trevize. - Todos vo pensar que seus 
documentos j foram examinados na estao espacial.
        - Mas e se pedirem?
        - Nesse caso, enfrentaremos o problema quando ele surgir. No vamos nos 
preocupar com hipteses remotas.
        - Se deixarmos para resolver o problema quando ele surgir, po-dera ser 
tarde demais.
        - Estou contando com a minha presena de esprito.
        - Por falar em presena de esprito, como fez para convencer aquele homem 
da estao espacial?
        Trevize olhou para Bliss e deixou os lbios se expandirem devagar em um 
sorriso que o deixou parecido com um moleque levado.
        - Usei a cabea, ora! Pelorat insistiu:
        - Conte para ns, vamos!
        - Custei para achar uma forma de sensibilizar o cara. Tentei intimid-lo e 
nada. Suborno, nem pensar. Apelei para a lgica, para lealdade  Fundao. Nada 
estava dando certo, de modo que use um recurso extremo. Disse para ele voc 
estava traindo sua esposa Pelorat.
        - Minha esposa! Meu amigo, no momento eu nem estou casado.
        - Eu sei disso, mas ele, no. Bliss interrompeu:
        - "Esposa" deve ser o nome que vocs do  companheira legal habitual de 
um homem.
        -  um pouco mais que isso, Bliss - disse Trevize. - Esposa  a
companheira legal, aquela que tem direitos jurdicos reconhecidos.
        - Bliss, eu no tenho uma esposa - disse Pelorat, nervoso. - J tive no 
passado, mas faz muito tempo... se voc quisess passar pelas formalidades...
        - Pel, Pel - disse Bliss, com um gesto de desdm -, por que eu faria uma
coisa dessas? Tenho muitos companheiros que esto mais prximos de mim do que
o seu brao direito do brao esquerdo. S os Isolados se sentem alienados a ponto 
de terem que usar convenes artificiais como um plido substituto para o 
verdadeiro companheirismo!                                                                     
        - Mas eu sou um Isolado, Bliss querida.
        - Com o tempo, voc ser menos Isolado, Pel. Nunca chegar a fazer parte 
de Gaia, provavelmente, mas pelo menos ter muitos companheiros.
        - S quero voc, Bliss.
        -Isso  porque ainda no sabe de nada. Voc vai ver! Durante toda a 
conversa, Trevize estava tentando se concentrar na tela, com uma expresso de 
tolerncia no rosto. Tinham chegado  camada de nuvens e por um momento a tela 
ficou toda branca.
        Hora de mudar para os detectores de microondas, pensou, ao mesmo tempo 
em que o computador comeava a mostrar na tela os ecos de radar. As nuvens
desapareceram e a superfcie de Comporellon apareceu em cores falsas, os limites
entre terrenos de diferente composio, um pouco difusos e trmulos.
        -  assim que vai ficar daqui para a frente? - perguntou Bliss, surpresa.
        - S at atravessarmos as nuvens. Depois, tudo volta  ser como antes.
        Enquanto Trevize falava, a nave saiu das nuvens e a visibilidade voltou ao
normal.
        - Entendo - disse Bliss. - O que no entendo  que diferena pode fazer 
para o funcionrio da estao espacial o fato de Pel estar (ruindo a esposa.
        - O que eu disse para aquele tal de Kendray foi que se no deixasse voc 
passar, a notcia a respeito da sua presena a bordo poderia chegar a Terminus e 
consequentemente  esposa de Pelorat. Isso, por sua vez, colocaria Pelorat em 
srias dificuldades. No expliquei que tipo de dificuldades, mas procurei dar a 
impresso de que seria algo bem desagradvel. Existe uma espcie de solidariedade 
masculina - prosseguiu Trevize, com um sorriso - que faz com que um homem 
jamais revele as aventuras sexuais de outro homem. Talvez o raciocnio por trs 
disso seja de que quem ajuda hoje pode precisar de ajuda amanh. Suponho que 
exista uma solidariedade semelhante entre as mulheres - prosseguiu, em tom um 
pouco mais srio -, embora, no sendo mulher, nunca tenha tido a oportunidade 
de observ-la de perto.
        Bliss parecia horrorizada.
        - Est brincando comigo? - perguntou.
        - No, estou falando srio - disse Trevize. - No digo que o tal do Kendray 
tenha deixado voc passar s para evitar que a esposa de Janov ficasse zangada 
com ele. No, a solidariedade masculina deve ter sido apenas o pequeno reforo que 
faltava aos meus outros argumentos.
        - Mas isso  incrvel! So os regulamentos que mantm a sociedade coesa e 
funcionando. Acha correto desrespeitar os regulamentos por razes fteis?
        - Ora, os prprios regulamentos s vezes so ridculos! - exclamou Trevize, 
tomando a defensiva. - Poucos mundos do muita importncia  passagem de 
estrangeiros por seu territrio, especialmente em perodos de paz e prosperidade, 
como o que estamos atravessando agora, graas  Fundao. Comporellon, por 
algum motivo, no segue a regra... provavelmente por causa de uma questo 
obscura de poltica interna. Por que devemos ser ns os prejudicados?
        - Isso no vem ao caso. Se obedecermos apenas s leis que consideramos 
justas e razoveis, nenhuma lei sobreviver muito tempo, porque no existe 
nenhuma lei que algum no considere injusta e pouco razovel. Assim, o que 
comea como uma pequena esperteza acaba sempre em anarquia e desastre, at 
mesmo para o esperto, j que ele tambm no consegue sobreviver ao colapso da 
sociedade.
        - As sociedades no so to frgeis assim. Voc est falando como Gaia, e 
Gaia no pode compreender o que  uma associao de indivduos livres. Muitas 
leis que eram justas e razoveis quando foram criadas deixam de acompanhar a 
evoluo da sociedade e continuam em vigor apenas por causa de inrcia. Nesse 
caso, no  apenas desculpvel,  eticamente correto desrespeitar essas leis como 
forma de anunciar o fato de que se tornaram inteis, ou pior ainda, nocivas  
sociedade.
        - Nesse caso, at o ladro e o assassino poderiam argumentar que esto 
sendo teis  humanidade!
        - Voc est exagerando. No superorganismo de Gaia, existe um consenso 
automtico quanto s regras a serem seguidas, de modo que no ocorre a ningum 
a idia de viol-las.  como se Gaia estivesse fossilizado.  claro que existe um 
elemento de desordem na associao livre, mas  o preo que temos que pagar pela 
capacidade de introduzir novidades e mudanas. No conjunto, no acho que seja 
um preo muito alto.
        O tom de voz de Bliss ficou ligeiramente mais agudo.
        - Voc est muito enganado se pensa que Gaia estagnou. Nossos planos, 
nossos costumes, nossas leis esto sendo constantemente reexaminados. No 
persistem por pura inrcia. Gaia aprende atravs da experincia e da lgica e muda 
sempre que considera isso necessrio.
        - Ainda que seja verdade, o aprendizado deve ser lento e as
mudanas raras,
porque em Gaia no existe nada alm de Gaia. Aqui, como em todos os planetas
livres, mesmo quando quase todos concordam, existem sempre uns poucos que 
discordam. Em alguns casos, esses poucos podem estar certos, e se eles forem 
muito espertos, muito persistentes e estiverem muito certos, conseguiro vencer a
maioria e sero considerados como heris pelas geraes futuras... como Hari
Seldon, que aperfeioou a psico-histria, desafiou com suas idias o gigantesco 
Imprio Galctico... e ganhou!
        - No sei como pode dizer que ele ganhou, Trevize. O Segundo Imprio 
planejado por Seldon jamais se tornar uma realidade. Em seu lugar, surgir a 
Galxia Viva.
        - Tem certeza? - perguntou Trevize, de cara feia.
        - A deciso foi sua, e por mais que discuta comigo a favor dos Isolados e da 
liberdade de que dispem para cometer crimes e fazer tolices, existe alguma coisa 
nos recnditos da sua mente que o obrigou a concordar comigo/conosco/com Gaia
quando tomou a sua deciso.
        - O que est presente nos recnditos de minha mente - disse Trevize, num
tom ainda mais desanimado -  exatamente o que estou procurando. A comear
por aqui - acrescentou, apontando para a tela, onde uma grande cidade se 
esparramava at o horizonte, um aglomerado de construes baixas com um ou 
outro edifcio mais alto, cercado por campos de cor castanha cobertos por uma fina 
camada de gelo.
        Pelorat sacudiu a cabea.
        - Que pena! Pretendia apreciar a descida, mas fiquei distrado ouvindo a 
discusso de vocs...
        - No tem importncia, Janov - disse Trevize. - A vista ser a mesma 
quando partirmos. Se voc fizer Bliss ficar quieta, prometo que no direi uma 
palavra.
        Pouco depois, o Estrela Distante se aproximava do espaoporto da cidade, 
guiado por uma transmisso de microondas.





14.

KENDRAY estava de cara amarrada quando voltou  estao espacial e observou o 
Estrela Distante desaparecer ao longe. Seu humor no melhorou at o final do 
expediente.
        Estava se preparando para comear a ltima refeio do dia quando um dos 
colegas, um sujeito grandalho, de olhos vivos, cabelos claros e lisos e sobrancelhas 
to louras que eram quase invisveis, sentou-se na cadeira ao lado.
        - Que foi que houve, Ken? - perguntou o outro. Kendray fez uma careta e 
respondeu:
        - Aquela ltima nave era gravtica, Gatis.
        - Aquela nave esquisita, com radioatividade zero?
        - Era por isso que no tinha radioatividade. No precisa de combustvel.  
gravtica.
        Gatis assentiu.
        - Aquela que nos pediram para ficar de olho, certo?
        - Certo.
        - E foi cair nas suas mos. Sortudo!
        - Nem tanto. Havia uma mulher a bordo. Sem documentos. E eu a deixei
passar.
        - O qu? Escute, no me diga mais nada. No quero saber. Nem mais uma
palavra. Voc pode ser meu amigo, mas no vai me fazer de cmplice!
        - No estou preocupado com isso. No muito. Afinal, eu  tinha que mandar 
a nave l para baixo. Eles querem aquela nave... eles querem qualquer nave 
gravtica que aparecer. Voc sabe disso.
        - Claro, mas pelo menos podia ter detido a mulher.
        - No me deu vontade. Ela no  casada. Eles a trouxeram apenas para... 
para us-la.
        - Quantos homens a bordo?
        - Dois.
        - E eles a apanharam s para... para isso? Devem ser de Terminus.
        - Isso mesmo.
        - Esse pessoal de Terminus  fogo!
        - Nem me diga.
        - O pior  que sempre se do bem!
        - Um deles era casado e no queria que a mulher soubesse. Se eu 
prendesse a moa aqui, a mulher dele ia ficar sabendo.
        - Ela no est em Terminus?
        - Mesmo assim.
        - Bem feito para o cara se a mulher dele descobrisse.
        - Pode ser... mas eu no quis ser o responsvel.
        - Vai pegar muito mal para voc quando descobrirem. Querer livrar a cara 
de um desconhecido no  desculpa.
        - Voc teria detido a moa? - Acho que sim.
        - No, acho que no. O governo quer aquela nave. Se eu no deixasse a 
moa passar, os homens poderiam mudar de idia e ir para outro planeta.
        - Ser que vo acreditar em voc?
        - Acho que sim. Sabe, a mulher  de fechar o comrcio. Imagine uma 
mulher daquelas disposta a viajar com dois homens. So uns felizardos!
        - Acho que a sua patroa no ia gostar de saber que voc pensa assim.
        - Quem vai contar para ela? Voc? - perguntou Kendray, em tom 
desafiador.
        -Calma, calma! Voc sabe que no! - O ar de indignao de Gatis 
desapareceu rapidamente e ele disse: - O que voc fez no vai adiantar nada para 
aqueles sujeitos...
        - Eu sei.
        - O pessoal l de baixo logo vai descobrir a respeito da moa e mesmo que
no pegue nada para voc, com eles vai ser diferente!
        - Eu sei, e tenho pena deles. Mesmo a presena da mulher no vai ser nada 
em comparao com os problemas que a nave vai trazer para eles. O capito fez
alguns comentrios...
        Kendray interrompeu o que estava dizendo e Gatis perguntou, curioso:
        - Que comentrios?
        - Deixe para l.  assunto confidencial.
        - No vou repetir para ningum.
        - Nem eu. Mas estou com pena desses dois sujeitos de Terminus!


15.

QUEM J experimentou a monotonia do espao sabe que o nico momento 
emocionante nas viagens espaciais  a hora de pousar em um planeta 
desconhecido. A superfcie se desloca velozmente para trs enquanto voc observa 
manchas de gua e de terra, figuras e linhas geomtricas que podem representar 
campos e estradas. De repente, voc reconhece o verde das plantas, o cinzento do 
concreto, o castanho do solo nu, o branco da neve. O mais interessante, porm, so 
as regies habitadas; cidades que em cada planeta tm uma geometria caracterstica,
uma arquitetura prpria.
        Em uma nave comum, haveria ainda a sensao de pousar e taxiar na pista. 
        Com o Estrela Distante era diferente. Ele comeou a frear, o computador 
mantendo um equilbrio delicado entre a fora da gravidade e a resistncia da 
atmosfera, at ficar parado acima do espao-porto. O vento, que soprava em 
rajadas, havia introduzido uma complicao adicional. Quando o sistema gravtico 
do Estrela Distante era ajustado para neutralizar parcialmente a fora da gravidade, 
a nave no s perdia peso mas tambm perdia massa, tornando-se portanto muito 
mais vulnervel ao vento. Assim, tinha sido necessrio aumentar a gravidade e usar 
jatos auxiliares no s para frear a nave como tambm para compensar a cada 
instante a fora do vento. Sem um computador extremamente rpido, esse tipo de 
manobra seria impraticvel.
        A nave foi descendo lentamente, com pequenos movimentos laterais 
inevitveis para l e para c, at imobilizar-se no centro do quadrado que marcava 
a posio que o pessoal de terra lhe havia destinado no espaoporto.
        Quando o Estrela Distante pousou, o cu azul-claro estava coalhado de 
nuvens brancas. Mesmo na superfcie, o vento continuava forte e, embora no 
constitusse mais um perigo, provocou um arrepio em Trevize. Ele percebeu 
imediatamente que as roupas de que dispunham eram totalmente inadequadas 
para o clima de Comporellon.
        Pelorat, por outro lado, olhou em torno com admirao e respirou 
profundamente, saboreando o ar gelado nos pulmes. Chegou a desabotoar o 
casaco para expor o peito ao vento. Sabia que em pouco tempo tornaria a abotoar o 
casaco, mas no momento queria sentir a existncia de uma atmosfera, o que era 
impossvel a bordo do Estrela Distante.
        Bliss apertou o casaco contra o corpo e, com as mos enluvadas, puxou o 
gorro para cobrir as orelhas. Seu rosto tinha uma expresso aflita; parecia a ponto 
de chorar. Murmurou:
        - Este mundo  mau. Ele nos odeia!
        - No diga isso, Bliss querida - protestou Pelorat. - Tenho certeza de que 
os nativos gostam deste mundo e de que o mundo... o mundo gosta deles, como 
voc diria. Assim que entrarmos em algum lugar aquecido voc vai se sentir melhor.
        Abriu uma aba do casaco e ofereceu-a a Bliss, que se aninhou contra o seu 
peito.
        Trevize fez o possvel para ignorar o frio. Recebeu um carto magnetizado de 
um funcionrio do espaoporto e verificou, com o auxlio do computador de bolso, 
se continha todos os dados necessrios: nmero da vaga, nome da nave, nmero de 
srie do motor e assim por diante. Examinou mais uma vez a nave para ter certeza 
de que estava bem trancada e depois fez o maior seguro contra roubo que a legislao
do planeta permitia (uma providncia intil, na verdade, pois o Estrela Distante
deveria ser invulnervel  tecnologia dos comporelianos e, se no fosse, sua perda
seria irreparvel).
        Trevize encontrou o ponto de txi no lugar esperado. (Muitas instalaes nos 
espaoportos eram padronizadas quanto  localizao, aparncia e modo de usar. 
Tinham que ser, dada a natureza multiplanetria da clientela.). Chamou um txi, 
digitando o destino simplesmente como cidade".
        Um txi deslizou em direo a eles apoiado em esquis diamagnticos, 
tremendo com a vibrao do motor nada silencioso. Era pintado de cinza escuro e 
tinha o smbolo de txi pintado em branco nas portas traseiras. O motorista usava 
um palet preto e um gorro branco de pele.
        - Parece que as cores nacionais so preto e branco - observou Pelorat.
        - Talvez na cidade seja menos montono - disse Trevize.
        O motorista falou atravs de um pequeno microfone, talvez para evitar abrir a 
janela:
        - Vo para a cidade?
        Falava o dialeto galctico com um sotaque cantado relativamente fcil de 
entender... o que era sempre um alvio num mundo desconhecido.
        - Vamos - respondeu Trevize.
        A porta traseira se abriu. Bliss entrou, seguida por Pelorat e depois por 
Trevize.         A porta se fechou e sentiram um bafo de ar quente. Bliss esfregou as 
mos e deixou escapar um suspiro de alvio. O txi comeou a andar e o motorista 
perguntou:
        - A nave em que vocs chegaram  gravtica, no ?
        - Considerando a forma como pousamos, voc ainda tem dvidas? - disse 
Trevize, secamente.
        - Ento  de Terminus? - quis saber o motorista.
        - Conhece outro planeta capaz de fabricar uma nave gravtica? O motorista 
pareceu pensar um pouco enquanto o txi ganhava velocidade. Ento disse:
        - Voc sempre responde a uma pergunta com outra pergunta? Trevize no
pde resistir.
        - Por que no?
        - Nesse caso, que diria se eu perguntasse se o seu nome  Golan Trevize?
        - Eu diria: Por que est perguntando?
        O txi parou bruscamente e o motorista disse:
        - Pura curiosidade! Vou perguntar de novo: Seu nome  Golan Trevize?
        - O que  que voc tem com isso?
        - Meu amigo - disse o motorista -, no vamos sair daqui enquanto no me 
responder. E se no responder logo, vou desligar o aquecimento do compartimento 
de passageiros e continuar esperando. Seu nome  Golan Trevize, conselheiro de 
Terminus? Se disser que no, ter que me mostrar sua carteira de identidade.
        - Sim, sou Golan Trevize, e como conselheiro da Fundao, espero ser 
tratado com todo o respeito que minha posio exige. Se se esquecer disso, poder 
se ver em maus lenis, camarada. E agora?
        - Agora posso continuar um pouco mais tranquilo. - O txi comeou a se 
mover novamente. - Escolho meus passageiros com cuidado - prosseguiu o 
motorista - e s estava esperando dois homens. A mulher foi uma surpresa e fiquei 
com medo de ter cometido um engano. Agora que sei que estava certo, posso deixar 
por sua conta explicar a mulher quando chegar ao seu destino.
        - No sei qual  o meu destino.
        - Pois eu sei. Voc vai para o Ministrio dos Transportes.
        - No  para l que eu quero ir!
        - Isso no faz a mnima diferena, conselheiro. Se eu fosse um motorista de 
txi, levaria voc para onde me mandasse ir. Como no sou, levo voc para onde eu 
quero ir.
        - Espere a - disse Pelorat, inclinando-se para a frente. - Voc parece um 
motorista de txi. Est at dirigindo um txi!
        - Qualquer um pode dirigir um txi. Alm disso, nem todo carro que parece 
um txi tem que ser um txi.
        - Deixe de brincadeiras! - exclamou Trevize. - Quem  voc e o que est 
fazendo? Lembre-se de que ter que prestar contas  Fundao por seus atos!
        - Eu, no - disse o motorista. - Meus superiores, talvez. Sou agente da
Polcia de Segurana de Comporellon. Tenho ordens para trat-lo com cortesia, mas
ter que ir para onde eu o levar. E no v tentar nenhuma gracinha, porque estou 
armado e minhas ordens so para defender-me se for atacado.


16.

DEPOIS que o veculo atingiu a velocidade de cruzeiro, passou a mover-se com 
absoluta suavidade. Trevize ficou muito quieto, tentando pensar. Mesmo sem olhar 
para Pelorat, tinha certeza de que o outro tinha uma expresso interrogativa no
rosto, como quem diz "O que vamos fazer agora?".
        Uma rpida olhadela assegurou-o de que Bliss estava tranquila, 
aparentemente despreocupada. E por que no? Afinal, tinha um mundo inteiro 
dentro de si. Gaia inteiro, apesar da distncia que a separava do planeta. No caso 
de uma emergncia real, a jovem podia contar com recursos quase ilimitados. O que 
havia acontecido?
        Era evidente que o funcionrio da estao espacial, obedecendo ao 
regulamento, havia enviado uma comunicao a respeito da nave (omitindo Bliss) e 
essa comunicao havia atrado a ateno das autoridades, especialmente do 
Ministrio dos Transportes. Por qu?
        As relaes entre Comporellon e a Fundao eram amistosas e ele prprio era 
um representante graduado da Fundao...
        Acontece que tinha dito ao funcionrio da estao espacial... Ken-dray, o 
funcionrio se chamava Kendray... que tinha negcios importantes a tratar com o 
governo de Comporellon. Naturalmente, era apenas uma tentativa de intimidar o 
homem. Entretanto, Kendray devia ter comunicado o fato aos superiores, o que 
certamente despertaria um interesse incomum.
        Como no havia previsto isso? Onde estava sua famosa intuio? Gaia dizia 
que ele era uma espcie de caixa preta, sempre pronto a fornecer a resposta correta. 
Seria essa realmente a opinio de Gaia? Estaria sendo trado por um excesso de 
confiana causado por uma superstio estpida?
        O homem que no podia errar... como pudera acreditar em tamanha tolice? 
Quantos erros j no havia cometido na vida? Por acaso era capaz de prever ao 
menos o tempo que iria fazer no dia seguinte? Claro que no!
        Ento era apenas nas grandes decises que no podia errar? Como ter 
certeza?
Esquea! Afinal, o simples fato de haver afirmado que estava no planeta em misso 
importante... no, as palavras exatas tinham sido "misso confidencial"...
        Pois ento, o simples fato de haver afirmado que estava ali a ser-vio da 
Fundao, em misso confidencial, bastava para atrair a aten-o do governo local. 
Sim, mas at saberem exatamente do que se tratava, teriam que agir com muito 
tato. Seriam cerimoniosos e o tra-tariam como alto dignitrio de um planeta aliado. 
Jamais pensariam em rapt-lo ou recorrer a ameaas. No entanto, era exatamente 
isso que haviam feito. Por qu?
        O que os fazia se sentirem to fortes e seguros para tratarem
um conselheiro 
de Terminus de forma to humilhante?
        Poderia ser a Terra? A mesma fora que mantinha escondido com tanta 
eficcia o planeta de origem do Homem, a ponto de desafiar os grandes mentalistas 
da Segunda Fundao, estaria agora trabalhando para evitar que ele, Trevize, 
continuasse a procurar a Terra? Seria a Terra onisciente? Onipotente?
        Trevize sacudiu a cabea. Estava ficando paranico. Comearia a culpar a 
Terra por tudo o que acontecesse? Passaria a considerar cada contratempo, cada
volta do caminho, cada imprevisto como o resultado de maquinaes secretas da
Terra? No momento em que pensasse assim, estaria derrotado.
        Nesse instante, a desacelerao do veculo o trouxe de volta  realidade.
        Deu-se conta de que no havia observado, nem mesmo por um instante, a 
cidade que estavam atravessando. Olhou em torno. Os edifcios eram baixos, mas 
se tratava de um planeta muito frio... boa parte das construes devia ser 
subterrnea.
        Como no espaoporto, no viu nenhuma cor alm do preto e do branco.
        De raro em raro, passava um pedestre vestido com roupas grossas e 
caminhando a passos rpidos. Como os edifcios, quase todas as pessoas deviam 
estar debaixo da terra.
        O txi tinha parado diante de um edifcio baixo que ocupava uma rea 
considervel e ficava no meio de uma depresso. De onde estavam, Trevize no 
podia ver o andar trreo. Passaram-se alguns momentos e nada aconteceu. O 
motorista tambm estava imvel, o gorro branco quase encostando no teto do 
veculo.
        Trevize imaginou por um instante como o motorista conseguia entrar e sair 
do txi sem tirar o chapu e depois disse, no tom de irritao controlada que se 
esperaria de uma alta autoridade que no est sendo tratada com a devida ateno:
        - Ento, motorista, o que vai acontecer agora?
        A verso comporeliana de campo de fora que separava o motorista dos 
passageiros era relativamente sofisticada. As ondas sonoras podiam atravess-la 
com facilidade... embora Trevize pudesse apostar que seria invulnervel a objetos 
slidos.
        - Algum vem busc-lo. No deve demorar.
        Nesse exato momento, trs cabeas apareceram, surgindo lenta-mente da 
depresso onde estava o edifcio. Atrs delas vieram os cor-pos. Era evidente que os 
recm-chegados estavam usando algum tipo de escada rolante, que a depresso 
escondia de Trevize.
        Quando os trs se aproximaram, a porta traseira do txi se abriu e uma 
lufada de ar frio invadiu o veculo.
        Trevize saltou, depois de abotoar o casaco at em cima. Os outros dois o 
seguiram, Bliss com visvel relutncia.
        Os trs comporelianos no passavam de vultos informes. Usavam roupas 
muito folgadas, provavelmente com aquecimento eltrico. Trevize olhou-os com 
desdm. Em Terminus no havia necessidade de roupas aquecidas. A nica vez em 
que pedira emprestado um casaco eltrico havia sido quando estava passando o
inverno em Anacreon, um planeta  vizinho. No tinha gostado da experincia. O
traje se aquecia devagar e quando percebia que estava ficando quente demais, j
estava munido em bicas.
        Quando os comporelianos chegaram mais perto, Trevize observou, com 
indignao, que estavam armados. No pareciam preocupados em esconder o fato. 
Pelo contrrio; os trs usavam coldres do lado de fora do casaco.
        Um dos comporelianos se dirigiu para Trevize.
        - Com licena, conselheiro - disse, rispidamente, ao mesmo tempo em que 
desabotoava o casaco do outro.
        Apalpou o corpo de Trevize com movimentos rpidos e precisos. Examinou os 
bolsos do casaco. Quando Trevize se recobrou da surpresa, j tinha sido totalmente 
revistado.
        Pelorat, de cara amarrada, estava passando por uma humilhao semelhante 
nas mos de um segundo comporeliano.
        O terceiro aproximou-se de Bliss, que no esperou at ser tocada. Ela, pelo 
menos, parecia conhecer as intenes dos desconhecidos, pois tirou o casaco e 
ficou ali parada, no vento glido, usando apenas uma roupa leve.
        - Pode ver que no estou armada - disse para o comporeliano, em um tom 
mais gelado que a temperatura que estava fazendo.
        Realmente no tinha onde esconder uma arma. O comporeliano sacudiu o 
casaco, como se apenas pelo peso pudesse saber se continha uma arma (talvez 
pudesse) e recuou.
        Bliss tornou a vestir o casaco e Trevize no pde deixar de senti certa 
admirao pelo que a moa havia feito. Sabia que ela detestava o frio e no entanto 
havia ficado ali, vestida apenas com uma blusa fina e calas compridas, sem 
demonstrar o menor desconforto. (Ento pen sou que talvez, em uma emergncia, 
Bliss pudesse receber calor do resto de Gaia.)
        Um dos comporelianos fez um gesto para que Trevize, Pelorat e Bliss o
seguissem. Os outros dois comporelianos ficaram mais para trs. Os dois ou trs
pedestres que estavam na rua no demonstraram nenhum interesse pelo que 
estava acontecendo. Ou j estavam acostu-mados ou, o que era mais provvel, tudo 
o que tinham em mente era chegar o mais depressa possvel a um lugar abrigado do 
vento e do frio. 
        Trevize percebeu que os comporelianos tinham subido por uma rampa mvel. 
Agora estavam descendo, todos os seis, e passaram por um sistema de portas 
duplas quase to complicado quanto o de uma espaonave. O objetivo, sem dvida, 
era no deixar o calor escapar.
        De repente, estavam no interior de um grande edifcio.

Captulo 5

A Luta pela Nave





17.

A PRIMEIRA impresso de Trevize foi a de que estava participando de um 
hiperdrama... mais especificamente, de uma novela histrica passada no tempo do 
Imprio. Havia um cenrio em particular, com poucas variaes (talvez s existisse 
mesmo um cenrio, usado por todos os produtores de hiperdramas), que 
representava a gigantesca cidade-planeta de Trantor no seu apogeu.
        Ali estavam as praas espaosas, o formigueiro de pedestres, os pequenos 
veculos correndo nas pistas reservadas para eles.
        Trevize olhou para cima, quase esperando ver os aerotxis entrando em
tneis bem iluminados, mas pelo menos aquilo estava ausente. Na verdade, quando
a surpresa inicial passou, Trevize se deu conta de que a escala da cena que estava 
presenciando era muito menor do que se estivesse na antiga Trantor. Afinal, era 
apenas um edifcio e no parte de um complexo que se estendia por milhares de 
quilmetros em qualquer direo.
        As cores tambm eram diferentes. Nos hiperdramas, Trantor era sempre 
representado em cores incrivelmente berrantes, e os trajes, de to espalhafatosos, 
chegavam a ser ridculos. Todas essas cores e babados tinham um significado 
simblico, pois serviam para mostrar a decadncia do Imprio e particularmente de 
Trantor.
        Nesse caso, porm, Comporellon no devia ter nada de decadente, pois o uso 
das cores s servia para confirmar as suspeitas de Pelorat.
        As paredes eram todas pintadas em tons de cinza; os tetos eram brancos; as 
roupas da populao, uma mistura de preto, cinzento e branco. De vez em quando 
aparecia uma roupa toda preta; ainda mais raramente, uma roupa toda cinzenta. 
Trevize no conseguiu ver ne-nhuma roupa toda branca. Os padres, entretanto, 
eram todos diferentes, como se as pessoas, impedidas de variar nas cores, 
procurassem outras formas de manifestar sua individualidade.
        O rosto dos transeuntes era impassvel. As mulheres usavam o cabelo bem 
curto; o cabelo dos homens era mais comprido, mas puxado para trs para formar 
um coque. Quando se cruzavam, ningum olhava para ningum. Todo mundo 
parecia ocupado, como se tivesse um objetivo estreito em mente e no sobrasse 
tempo para mais nada. Homens e mulheres se vestiam da mesma forma; a 
diferena estava apenas no comprimento do cabelo, no volume dos seios e na 
largura dos quadris.
        Os trs foram conduzidos para um elevador que desceu cinco andares. 
Saram do elevador e foram levados at uma porta onde estava escrito, com 
pequenas letras brancas em fundo cinza: "Mitza Lizalor, MinTrans".
        O comporeliano que ia  frente encostou o dedo no letreiro, que, depois de 
um momento, comeou a brilhar. A porta se abriu e eles entraram.
        Era uma sala grande e estava quase vazia. A falta de moblia talvez servisse 
para demonstrar, atravs do uso imoderado de espao, a importncia do ocupante.
        Havia dois guardas do outro lado da sala, imveis, os olhos fixos naqueles 
que entravam. O centro do aposento era ocupado por uma grande escrivaninha. 
Sentada atrs da escrivaninha estava uma mulher corpulenta, de olhos escuros e 
feies regulares. Duas mos fortes e capazes, com dedos longos e quadrados, 
repousavam sobre a mesa.
        O MinTrans (Ministro dos Transportes, concluiu Trevize) usava um traje 
cinza-escuro no qual se destacavam duas grandes faixas brancas, que se cruzavam 
no peito. Trevize notou que embora o corte do vestido disfarasse a salincia dos 
seios, as faixas atraam a ateno para eles.
        O ministro era indubitavelmente uma mulher. Mesmo ignorando os seios, 
bastava observar os cabelos curtos e as feies delicadas, embora sem nenhuma 
maquilagem. A voz tambm era feminina, um rico contralto. Ela disse:
        - Boa tarde. No  todo dia que temos a honra de receber dois homens de 
Terminus... e uma mulher de origem desconhecida. - Os olhos passearam de um 
para outro e afinal se detiveram em Trevize, que estava de p, muito srio, em rgida 
posio de sentido. - Alm de tudo, um dos homens  membro do Conselho.
        - Do Conselho da Fundao - completou Trevize, tentando parecer o mais
arrogante possvel. - Conselheiro Golan Trevize, em misso especial.
        - Em misso especial? - repetiu a ministro, interessada.
        -  Em misso especial - reafirmou Trevize. - Por que, ento, estamos 
sendo tratados como bandidos? Por que fomos sequestrados por guardas armados e 
trazidos para c como prisioneiros? O Conselho da Fundao no vai ficar nada 
satisfeito quando souber disso.
        -  A propsito - interveio Bliss, sua voz parecendo um pouquinho
esganiada em comparao com a da mulher mais velha -, por quanto tempo
vamos ter que continuar de p?
        A ministro olhou friamente para Bliss por alguns instantes e depois levantou 
o brao, dizendo:
        -  Trs cadeiras! J!
        Uma porta se abriu e trs homens, vestidos de acordo com a moda sombria 
de Comporellon, entraram carregando trs cadeiras. Os vigilantes se sentaram.
        - Pronto - disse a ministro. - Esto bem, agora? - acrescentou, com um 
sorriso gelado.
        Trevize teve vontade de responder que no. As cadeiras no tinham 
estofamento e o assento e o espaldar eram retos, sem fazer concesses  forma do 
corpo.
        - Por que estamos aqui? - perguntou.
        A ministro consultou alguns papis que estavam sobre a mesa.
        - Pretendo explicar assim que estiver bem certa dos fatos. Sua nave  o 
Estrela Distante, de Terminus. Esta informao est correta, conselheiro?
         - Sim.
        A ministro levantou os olhos.
        - Usei o seu ttulo, conselheiro. Poderia daqui em diante, por cortesia, usar
o meu?
        - Senhora Ministro ser suficiente? Ou existe um ttulo honorfico associado 
ao cargo?                                    
        - No h ttulo honorfico algum, nem precisa ser to prolixo. "Ministro" ser 
suficiente, ou "Senhora", se preferir.
        - Ento minha resposta : Sim, ministro.
        - O capito da nave  Golan Trevize, cidado da Fundao e membro do 
Conselho de Terminus... na verdade, um dos conselheiros mais jovens. E o senhor  
Trevize. Estas informaes esto corretas, conselheiro?
        - Sim, ministro. E como cidado da Fundao, eu...
        - Ainda no terminei, conselheiro. Mais tarde ter oportunidade de 
apresentar suas objees. Em sua companhia est Janov Pelorat, cientista, 
historiador e cidado da Fundao.  o senhor, no , dr. Pelorat?
        Pelorat no conseguiu evitar um sobressalto quando a ministro voltou para 
ele os olhos penetrantes. Ele disse:
        -  Sim, sou eu, minha queri... - Interrompeu o que estava dizendo e
comeou de novo: - Sim, sou eu, ministro.
        A ministro tranou os dedos.
        - No relatrio que me foi enviado no h qualquer meno de uma mulher.
Essa mulher faz parte da tripulao da nave?
        -   Sim, ministro - respondeu Trevize.
        -   Ento interrogarei a mulher pessoalmente. Como se chama?
        - Todos me chamam de Bliss - disse Bliss, sentada muito ereta e 
pronunciando as palavras com cuidado -, embora meu nome completo seja bem 
maior, senhora. Quer saber o nome completo?
        -  Bliss ser suficiente, por enquanto. Bliss, voc  cidad da Fundao?
        -  No senhora.
        --  De que planeta voc  cidad, Bliss?
        -  No tenho nenhum documento de cidadania, senhora.
        - Nenhum documento, Bliss? - A ministro fez uma rpida anotao e 
prosseguiu: - O que estava fazendo a bordo da nave?
        - Sou uma passageira, senhora.
        - O conselheiro Trevize ou o dr. Pelorat pediram para ver sua identidade 
antes de voc embarcar, Bliss?
        - No senhora.
        - Avisou a eles que no tinha documentos, Bliss?
        -  No senhora.
        - Qual era a sua funo a bordo, Bliss?
        - Era apenas uma passageira - respondeu Bliss.
        - Por que est pressionando a moa? - interrompeu Trevize. - Qual foi o 
crime que ela cometeu?
        Os olhos da ministro Lizalor se voltaram para Trevize.
        - O senhor  um estrangeiro, conselheiro, e no conhece nossas leis. Mesmo 
assim, est sujeito a elas assim que desembarca em nosso planeta. O senhor no 
traz as leis do seu mundo com o senhor. Esta  uma regra universal do Direito 
Galctico.
        - De acordo, ministro. Mesmo assim, continuo sem saber qual foi a lei que 
ela infringiu.
        -  uma regra geral na Galxia, conselheiro, que um visitante de um mundo 
fora dos domnios do planeta que est visitando deve ter em seu poder um 
documento de identidade. Muitos planetas fazem vista grossa ao regulamento, seja 
porque esto interessados em atrair mais turistas, seja porque no do muita 
importncia  lei e  ordem. Aqui em Comporellon  diferente. Fazemos questo de 
cumprir a lei. A moa desembarcou aqui sem documentos e portanto infringiu a 
nossa lei.
        - Ela no tinha escolha - disse Trevize. - Eu estava pilotando a nave e 
decidi pousar em Comporellon. Ela teve que acompanhar-nos. Que mais poderia 
fazer, ministro? Pedir para ser ejetada no espao?
        -  Isso significa que o senhor tambm infringiu a lei.
        -  Sou forado a discordar, ministro. No sou um estrangeiro aqui; sou um 
cidado da Fundao, um dos Planetas Associados, como Comporellon. De acordo 
com os tratados em vigor, posso me locomover livremente neste planeta.
        - Certamente, conselheiro, contanto que disponha de papis que provem 
que realmente  um cidado da Fundao.
        - Trago esses papis comigo, ministro.
        - Entretanto, mesmo como cidado da Fundao, infringiu a lei trazendo 
com o senhor uma pessoa sem documentos.
        Trevize hesitou. O guarda da fronteira, Kendray, tinha dado com a lngua nos 
dentes; no havia sentido em proteg-lo.
        - No fomos detidos na estao espacial e considerei o fato como permisso 
implcita para trazer a moa comigo, ministro.
        -  verdade que no foram detidos, conselheiro.  verdade que a presena 
da mulher foi ignorada pelas autoridades de imigrao. Desconfio, no entanto, de 
que os funcionrios da estao espacial acharam, e com muita razo, que era mais 
importante assegurar que a nave pousasse no planeta do que se preocuparem com 
uma jovem sem documentos. No vou negar que eles tenham quebrado o regulamento,
e o assunto ter que ser examinado oportunamente, mas estou certa de
que a concluso ser de que a infrao foi justificada. Aplicamos a lei com rigor,
conselheiro, mas tambm sabemos usar a lgica.
        - Ento vou apelar para a sua lgica, ministro - disse Trevize, aproveitando 
a deixa. - Se na verdade no recebeu nenhuma informao das autoridades de 
imigrao a respeito de Bliss, no tinha meios de saber que estvamos infringindo 
alguma lei no momento em que pousamos no planeta. No entanto,  evidente que 
deu ordens para que fssemos presos assim que desembarcssemos, o que 
realmente aconteceu. Por que agiu assim, j que no tinha razes para pensar que 
havamos cometido algum crime? A ministro sorriu.
        - Compreendo  sua perplexidade, conselheiro. Gostaria de assegurar-lhe de 
que o fato de ter em sua companhia uma jovem sem documentos no tem nada a 
ver com a sua deteno. Estamos agindo em nome da Fundao, como um dos 
Planetas Associados.
        Trevize olhou para ela, atnito.
        - Isso  impossvel, ministro!  ainda pior.  ridculo! A ministro riu.
        - Acho curioso que considere pior uma coisa ser ridcula do que ser 
impossvel, conselheiro. Talvez tenha razo. Infelizmente para o senhor, porm, o 
que acabei de dizer no  nem impossvel nem ridculo. Por que seria?
        - Porque sou um representante do governo da Fundao, em misso 
especial, e  inconcebvel que a Fundao tenha motivos para mandar me prender, 
ou mesmo que tenha autoridade para isso, j que gozo de imunidade parlamentar.
        - Conselheiro, o senhor omitiu meu ttulo, mas parece estar muito nervoso, 
de modo que vou perdo-lo. No, a Fundao no me mandou prend-lo. 
Entretanto, fui obrigada a det-lo para poder cumprir a tarefa que a Fundao me 
confiou, conselheiro.
        - Que tarefa, ministro?
        - Apossar-me da sua nave, conselheiro, e devolv-la  Fundao!
        - O qu?
        - O senhor omitiu meu ttulo pela segunda vez, conselheiro. Gostaria que 
esta falta no se repetisse. Por acaso a nave lhe pertence? Foi projetada pelo 
senhor, construda pelo senhor, paga pelo senhor?
        - Claro que no, ministro. Foi cedida a mim pelo governo da Fundao.
        - Ento, o governo da Fundao tem todo o direito de pedi-la de volta, 
conselheiro. Trata-se de uma nave muito valiosa, no?
        Trevize no respondeu. A ministro prosseguiu:
        -  uma nave gravtica, conselheiro. A Fundao tem poucas naves desse 
tipo. Provavelmente se arrependeram de haver confiado uma dessas naves ao 
senhor. Talvez os convena a deix-lo continuar a misso em uma outra nave, mais 
modesta. De qualquer forma, vamos ter que apreender a nave em que o senhor 
chegou.
        - No, ministro, no posso entregar minha nave. No acredito que a 
Fundao tenha pedido isso  senhora.
        A ministro sorriu.
        - No apenas a mim, conselheiro. No apenas a Comporellon. Temos razes 
para acreditar que o pedido foi enviado a todos os planetas com os quais a 
Fundao mantm relaes diplomticas. O que me leva  concluso de que a 
Fundao no conhece o seu itinerrio e est vivamente empenhada em localizar o 
senhor. O que me leva a concluir ainda que o senhor no pode ter vindo a 
Comporellon em misso oficial, caso em que as medidas tomadas pela Fundao 
no teriam razo de ser. Em outras palavras, conselheiro, o senhor est mentindo.
        Trevize disse, com certa dificuldade:
        - Ministro, gostaria de ver uma cpia da carta que recebeu do governo da 
Fundao. Acho que, como acusado, tenho direito a isso.
        - Sim, tem todo o direito, se chegar a ser processado. Aqui em Comporellon, 
procuramos sempre agir de acordo com o regulamento e posso lhe assegurar que os 
seus direitos legais sero respeitados. Por outro lado, seria muito melhor e mais 
simples se pudssemos chegar a um acordo sem a publicidade e a demora de um 
processo penal. Estou certa de que no interessa  Fundao que toda a Galxia 
fique sabendo que est atrs de um conselheiro fujo! Isso colocaria a Fundao no 
ridculo, o que, em suas prprias palavras,  pior que o impossvel.
        Trevize ficou calado.
        A ministro fez uma pausa e depois prosseguiu, imperturbvel:
        - Conselheiro, vamos acabar ficando com a sua nave, seja por um acordo 
informal, seja atravs da justia. A penalidade por trazer para c um passageiro 
sem documentos vai depender do caminho que o senhor escolher. Se exigir que o 
caso seja levado aos tribunais, tanto o senhor quanto a passageira sero 
certamente condenados a longas penas de priso. Caso, porm, decida entrar em 
acordo, estamos dispostos a mandar a sua passageira, em nave comercial, para o 
planeta que ela escolher. O senhor e seu amigo tero liberdade para acompanh-la. 
Se a Fundao concordar, poderemos tambm emprestar-lhe uma nave das nossas, 
contanto, naturalmente, que a Fundao se comprometa a devolv-la. Por outro 
lado, se, por algum motivo, o senhor no quiser retornar  Fundao, estou 
autorizada a oferecer-lhe asilo poltico e, eventualmente, cidadania comporeliana. 
Como pode ver, tem tudo a ganhar se entrar em acordo conosco e tudo a perder se 
insistir em seus direitos legais.
        - Ministro, agora a senhora exagerou - disse Trevize. - Prometeu-me o que 
no pode cumprir. No pode me manter aqui se a Fundao exige que eu seja 
devolvido.
        - Conselheiro, jamais prometo o que no posso cumprir. A Fundao 
requisitou apenas a nave; no pedido no h nenhuma referncia aos ocupantes.
        Trevize olhou rapidamente para Bliss e disse:
        - Ministro, gostaria de consultar o dr. Pelorat e a srta. Bliss a respeito do 
assunto.
        - No h problema, conselheiro. Tem quinze minutos.
        - Em particular, ministro.
        - Sero levados para uma sala e, quinze minutos depois, trazidos de volta 
para c. No haver nenhuma tentativa de monitorar a conversa; dou-lhe minha 
palavra. Entretanto, sero vigiados o tempo todo, de modo que seria tolice tentarem 
escapar.
        - Compreendemos, ministro.
        - Quando voltarem, estou certa de que concordaro em me entregar 
voluntariamente a nave. Se deixarem que a justia siga o seu cur-so, ser pior para 
todos os interessados. At mais tarde, conselheiro -  At mais tarde, ministro - 
disse Trevize, procurando esconder a raiva que sentia, j que express-la no lhe 
traria benefcio algum. 


18.

ERA UMA sala pequena, mas bem iluminada. No interior havia um sof e duas 
cadeiras. O silncio era quebrado pelo rudo macio do equipamento de ventilao. 
No conjunto, um aposento muito mais acolhedor que o escritrio enorme e 
impessoal do ministro dos Transportes.
        Um guarda os havia levado at l, um homem alto e sisudo, com uma pistola 
na cintura. Quando entraram na sala, permaneceu do lado de fora e disse com voz 
grave:
        - Vocs tm quinze minutos.
        Um instante depois, a porta se fechou com um rudo surdo.
        - Espero que no haja nenhum microfone oculto - disse Trevize.
        - Ela nos deu sua palavra, Golan! - protestou Pelorat.
        - Voc julga os outros por voc, Janov. A "palavra" da ministro no  
suficiente. Ela no hesitaria em faltar com a palavra se isso lhe trouxesse alguma 
vantagem.
        - No importa - interrompeu Bliss. - Posso isolar totalmente esta sala.
        - Voc tem um aparelho antiescuta? - perguntou Pelorat. Bliss sorriu, 
mostrando os dentes muito brancos.
        - A mente de Gaia  o melhor aparelho antiescuta que existe, Pel. Ela  
enorme.
        - Estamos aqui graas s limitaes dessa mente enorme - lamentou-se 
Trevize.
        - Que quer dizer com isso? - quis saber Bliss.
        - Quando chegou a hora do confronto trplice, voc me tirou das mentes da 
prefeito Branno e daquele sujeito da Segunda Fundao, Guendibal. Os dois jamais 
voltariam a pensar em mim, a no ser de forma vaga e indiferente. Ficaria entregue 
a mim mesmo.
        - Tivemos que fazer isso - disse Bliss. - Voc  muito importante para ns.
        - Sim. Golan Trevize, aquele que nunca est errado. Acontece que vocs no 
tiraram a nave da mente de Branno, tiraram? A prefeito no perguntou por mim; 
nem quer saber se eu existo. Entretanto, requisitou a nave! Foi a nave que ela no 
esqueceu!
        Bliss franziu a testa.
        - Pense nisso - prosseguiu Trevize. - Gaia sups que eu e minha nave 
ramos uma coisa s; que se Branno no pensasse em mim, no pensaria na nave. 
O problema  que Gaia no compreende a individualidade. Cometeu um erro ao 
pensar em mim e na nave como um nico organismo.
        -  possvel - concordou Bliss, com um suspiro.
        - Pois ento est na hora de consertar o erro. Preciso da minha nave 
gravtica e do meu computador; so insubstituveis. D um jeito para que eu no 
perca a nave! Afinal, Bliss, voc  capaz de controlar as mentes humanas!
        - Sim, Trevize, mas no usamos esse poder de forma inconsequente. Sabe 
por quanto tempo o trplice confronto foi planejado? Calculado? Pesado? Levamos, 
literalmente, vrios anos! No posso simplesmente chegar agora e mudar os 
pensamentos de uma mulher s porque voc est pedindo!
        -  uma emergncia!
        - Se comessemos a agir assim, onde iramos parar?-insistiu Bliss; com 
veemncia. - Eu poderia ter agido sobre a mente do funcionrio da estao 
espacial e ele nos deixaria passar sem problemas. Poderia ter influenciado o falso 
motorista de txi e ele nos levaria para onde quisssemos.
        - J que tocou no assunto, por que no fez isso?
        - Porque no sabemos quais seriam as consequncias. No conhecemos os
efeitos colaterais, que poderiam muito bem tornar a situao ainda pior. Se eu 
mudar a mente da ministro, isso afetar sua personalidade como um todo. Ora, 
como se trata de uma alta autoridade do planeta, os efeitos sobre as relaes 
interestelares podero ser profundos. At que todas as repercusses tenham sido 
devidamente ana-lisadas, no me sinto livre para interferir.
        - Ento por que veio conosco?
        - Porque voc est empenhado em uma misso perigosa. Devo proteger a 
sua vida a todo custo, mesmo que precise sacrificar minha prpria vida ou a de Pel. 
Acontece que sua vida no corre perigo neste momento. Assim, procure encontrar 
uma sada para a situao, sem a ajuda de Gaia.
        Trevize ficou pensativo por alguns momentos e depois disse:
        - Nesse caso, vou ter que tentar alguma coisa. Pode ser que d certo.
        A porta se abriu com um rangido e o guarda falou:
        - Est na hora.
        Enquanto saam, Pelorat sussurrou:
        - Que vai fazer, Golan?
        Trevize sacudiu a cabea e respondeu baixinho:
        - Ainda no sei bem. Vou ter que improvisar.


19.

QUANDO entraram de volta no escritrio, a ministro Lizalor continuava sentada atrs 
da escrivaninha. Ao v-los, a ministro mostrou os dentes em um sorriso forado.
        - Conselheiro Trevize, tenho certeza de que voltou para dizer que concorda 
com a minha proposta.
        - Voltei para discutir as condies, ministro - disse Trevize, com toda a 
calma.
        - No h condies para serem discutidas, conselheiro. Se insistir em um 
julgamento, poderemos providenciar um julgamento rpido, no qual ser 
certamente condenado, j que o crime que cometeu ao trazer para este planeta uma 
pessoa sem documentos no est sujeito a contestao. Findo o julgamento, 
poderemos confiscar legalmente a nave e vocs trs tero que cumprir longas penas 
na priso.  isso que o senhor quer, conselheiro?
        - Claro que no, ministro. Entretanto, mesmo que eu seja condenado  
priso, ningum poder entrar na nave sem o meu consentimento. Qualquer 
tentativa de arromb-la resultar em uma exploso capaz de destruir, no s a 
nave, mas todo o espaoporto. Duvido que a legislao local permita a tortura ou 
outra forma de tratamento cruel como meio de me obrigar a abrir a nave. E se a 
senhora estiver pensando em infringir a lei, espero que se lembre de que eu sou um 
cidado da Fundao; por mais que deseje a nave, a Fundao no pode aprovar 
que um cidado seu seja maltratado; seria um precedente muito perigoso. Ento, 
vamos discutir as condies?
        - Isso tudo  bobagem! - exclamou a ministro, de mau humor. Se for 
preciso, pediremos o auxlio da prpria Fundao! Eles sabero como abrir a nave 
ou pelo menos como obrig-lo a abrir a nave!
        - No usou o meu ttulo, ministro, mas parece estar muito nervosa, de modo 
que vou perdo-la. A senhora sabe muito bem que a ltima coisa que faria seria 
chamar a Fundao, j que jamais pretendeu entregar-lhes minha nave!
Os olhos da ministro se arregalaram.
        - Que absurdo  esse que est dizendo, conselheiro?
        - O tipo de absurdo, ministro, que talvez no deva chegar aos ouvidos de 
outras pessoas. Deixe meu amigo e a moa repousarem em um quarto de hotel; eles 
esto exaustos. Dispense os guardas, tambm. Podem ficar do lado de fora da porta 
e deixar uma pistola com a senhora. Estar segura comigo; estou desarmado.
        A ministro inclinou-se para a frente.
        - No tenho medo do senhor.
        Sem virar a cabea, fez um gesto para um dos guardas, que se aproximou e 
parou ao lado da mesa, batendo os calcanhares. A ministro disse:
        - Guarda, leve esses dois para o Apartamento 5. Devem permanecer l, sob
vigilncia, at segunda ordem. Ser pessoalmente responsvel pelo conforto e 
segurana dos nossos hspedes.
        A ministro se ps de p e Trevize recuou um passo, apesar de sua 
determinao de mostrar firmeza. Era uma mulher alta; media pelo menos um 
metro e oitenta e cinco, a altura de Trevize, se no fosse um pouquinho maior. 
Tinha uma cintura fina, com as duas faixas brancas circundando-a e fazendo-a 
parecer ainda mais estreita. Seus movimentos tinham uma combinao de agilidade 
e vigor fsico que fez Trevize estremecer. No era de admirar que a ministro no 
tivesse medo dele! Em um combate corpo a corpo, certamente levaria a melhor.
        - Venha comigo, conselheiro - disse a ministro. - Se est mesmo disposto 
a falar bobagens,  melhor conversarmos em particular.
        Encaminhou-se para a porta com passos rpidos e Trevize a se guiu, 
sentindo-se pequeno a seu lado, algo que nunca havia sentido antes com uma 
mulher.
        Entraram no elevador. Quando a porta se fechou, ela disse:
        - Conselheiro, agora estamos sozinhos, mas se tem a iluso de que pode 
usar a fora para conseguir alguma coisa de mim, esquea.O senhor parece ser 
uma pessoa razoavelmente forte, mas asseguro-lhe que no teria a menor 
dificuldade para quebrar-lhe um brao... ou o pescoo, se fosse preciso. Estou 
armada, mas no haveria necessidade de usar a arma.
        Trevize coou a cabea enquanto seus olhos examinavam a ministro de alto a 
baixo.
        - Ministro, acho que sou preo para qualquer homem do meu tamanho, 
mas no me arriscaria a uma luta corporal com a senhora. Sei quando estou em 
desvantagem.
        - timo - disse a ministro, parecendo satisfeita.
        - Para onde estamos indo, ministro? - perguntou Trevize.
        - Para baixo! L para baixo! Mas no precisa ficar assustado. Se isto fosse 
um hiperdrama, eu estaria levando voc para um calabouo, suponho, mas no 
temos calabouos em Comporellon... apenas prises comuns. Estamos indo para os 
meus aposentos particulares; no  to romntico quanto os calabouos do tempo 
do Imprio, mas  muito mais confortvel.
        Trevize calculou que estavam a mais de cinquenta metros abaixo da 
superfcie do planeta quando a porta do elevador se abriu e eles saltaram.


20.

TREVIZE olhou em torno e no conseguiu esconder a surpresa que sentiu.
        - No gosta do meu apartamento, conselheiro? - perguntou a ministro.
        - Pelo contrrio, ministro. Estou agradavelmente surpreso. A impresso que 
tive do seu planeta desde que cheguei foi a de um mundo austero, glacial, asctico, 
que abominava o luxo e a ostentao.
        -  verdade, conselheiro. No dispomos de muitos recursos e nossa vida 
deve ser to severa quanto nosso clima.
        -Ento como a senhora explica isto? - perguntou Trevize. Abriu os braos 
em um gesto amplo, como que para envolver todo o aposento, onde, pela primeira 
vez naquele mundo, ele via cores, onde os mveis eram estofados, onde a luz 
indireta que vinha das paredes era suave, onde o cho era forrado com um campo 
de fora que tornava os passos macios e silenciosos. - Para mim, isto  luxo!
        - Conselheiro, como o senhor mesmo disse, abominamos o luxo pelo luxo, a 
ostentao barata, o desperdcio de recursos. Aqui, porm, estamos falando do luxo 
particular, que tem a sua utilidade. Meu trabalho  rduo, as responsabilidades,
imensas. Preciso de um lugar on-de possa esquecer, de vez em quando, as
dificuldades de minha posio.
        - Todos os comporelianos vivem assim quando esto longe dos olhos da 
multido, ministro?
        - Depende do posto que ocupam. Poucos tm dinheiro suficiente, mrito 
suficiente e, graas ao nosso cdigo de tica, desejo sufi-ciente para viver assim.
        - A senhora, ministro, tem dinheiro, mrito e vontade suficiente?
        - Na vida pblica nem tudo so espinhos - disse a ministro. Agora sente-
se, conselheiro, e fale-me a respeito das suas fantasias.
        A ministro sentou-se no sof, que cedeu ligeiramente sob seu peso, e 
apontou para uma cadeira igualmente macia na qual Trevize ficaria voltado para ela 
a uma distncia no muito grande.
        Trevize sentou-se.
        - Fantasias, ministro?
        A ministro ajeitou-se no sof e apoiou o cotovelo direito em uma almofada.
        - Nas conversas particulares no  preciso ser to formal. Pode me chamar 
de Lizalor. Vou chamar voc de Trevize. Diga-me exatamente quais so os seus 
planos, Trevize.
        Trevize cruzou as pernas e apoiou as costas no espaldar da cadeira.
        - Escute aqui, Lizalor, voc me disse para escolher entre entregar a nave 
espontaneamente e submeter-me a um julgamento formal. Nos dois casos, voc 
ficaria com a nave. Mesmo assim, fez tudo o que pde para me convencer a optar 
pela primeira alternativa. Chegou a me oferecer outra nave em substituio  
minha, na qual eu e meus amigos poderamos ir para onde quisssemos. Acenou-
me com a possibilidade de conseguir asilo poltico em Comporellon, caso eu no estivesse
em boas relaes com a Fundao. Falando de coisas mais triviais, permitiu-
me quinze minutos a ss com os meus amigos. Trouxe-me para os seus aposentos 
particulares e mandou meus amigos para um hotel. Para resumir, Lizalor, o que 
voc quer realmente  que eu lhe entregue a nave sem necessidade de um 
julgamento.
        -  Ora, Trevize, no acredita que eu esteja pensando no seu bem?
        - No.
        - Nem que eu esteja tentando poupar ao meu governo o tempo e a despesa 
de um julgamento?
        - No! Minha explicao  outra.
        - Qual?
        - Um julgamento apresenta uma grande desvantagem: o fato de ser pblico. 
Voc j se referiu vrias vezes ao rigor com que os comporelianos encaram as 
questes legais; tenho certeza de que seria impossvel julgar-me em segredo. Ora, se 
eu fosse julgado publicamente, a Fundao ficaria sabendo e voc teria que 
entregar-lhe a nave assim que o julgamento terminasse.
        - Claro que sim - concordou Lizalor, impassvel. - Afinal, a nave pertence 
 Fundao.
        - Por outro lado - prosseguiu Trevize -, no caso de um acordo informal, a 
questo no viria a pblico. Voc ficaria com a nave, e como a Fundao no seria 
informada (eles nem mesmo sabem que pousei neste planeta), Comporellon poderia 
conserv-la indefinidamente. Tenho certeza de que  exatamente isso o que 
pretende fazer.
        - Por que faramos isso? - perguntou Lizalor, ainda impassvel. - No 
fazemos parte da Confederao da Fundao?
        - No senhora. Comporellon  um dos Planetas Associados. Nos mapas da 
Galxia em que os planetas que pertencem  Confederao so mostrados em 
vermelho, Comporellon e os mundos que controla aparecem como uma mancha cor-
de-rosa.
        - Mesmo assim, como um dos Planetas Associados, temos o compromisso 
de cooperar com a Fundao.
        - Verdade? E se o sonho de Comporellon for tornar-se independente, ou 
mesmo conquistar a liderana? Vocs so um mundo antigo. Quase todos os 
mundos afirmam ser mais antigos do que realmente so, mas Comporellon  um 
planeta muito antigo.
        A ministro Lizalor se permitiu um sorriso triste.
        - O mais antigo de todos, se formos acreditar nos mais entusiastas.
        - Ser que no houve um tempo em que Comporellon comandava um grupo 
relativamente grande de planetas? Ser que no existem muitos entre vocs que 
sonham em recuperar a glria perdida?
        - Como poderamos perseguir um sonho to manifestamente impossvel? 
Antes de conhecer bem suas idias, achava que eram fantasias; agora, tenho 
certeza.
        - Alguns sonhos podem parecer impossveis, mas acabam se transformando 
em realidade. Terminus, localizado na borda da Galxia e com apenas quinhentos 
anos de idade, o que no  nada para um mundo, controla praticamente toda a 
Galxia. Por que Comporellon no pode super-lo? Hein?
        Trevize estava sorrindo. Lizalor continuou sria.
        - Terminus chegou  posio que ocupa graas ao Plano de Seldon.
        - Esta  uma vantagem psicolgica, o fato de muita gente acreditar nesta 
explicao.  provvel, porm, que o governo de Comporellon seja mais ctico. 
Mesmo assim, Terminus desfruta de uma considervel liderana tecnolgica. Na 
verdade, Terminus conquistou a hegemonia da Galxia graas a sua tecnologia de 
ponta... da qual a nave gravtica na qual voc est to ansiosa para pr as mos 
representa um excelente exemplo. Terminus  o nico planeta da Galxia inteira 
que dispe de naves gravticas. Se Comporellon conseguisse uma dessas naves e 
pudesse desmont-la para ver como funciona, estaria dando um passo gigantesco 
em seu progresso tecnolgico. No acho que seria suficiente para ameaar a
liderana de Terminus, mas talvez o seu governo pense de outra forma.
        - No pode estar falando srio! - exclamou Lizalor. - Qualquer mundo que 
se apoderasse indevidamente de uma nave da Fundao estaria sujeito a srias 
represlias! Acha que correramos esse risco?
        - Se a Fundao no soubesse que a nave estava com vocs, no haveria 
motivo para represlias...
        - Nesse caso, Trevize... supondo que a sua anlise da situao estivesse 
correta..., no seria melhor entregar-nos a nave em troca de vantagens pessoais? Se 
houvesse algum fundo de verdade no que diz, estaramos dispostos a pagar-lhe 
uma soma considervel.
        - Como podem ter certeza de que eu no contaria tudo  Fundao?
        - Porque nesse caso teria que admitir sua prpria culpa.
        - Eu poderia alegar que fui forado a entregar a nave contra a minha 
vontade.
        - Sabe muito bem que a prefeito Branno nunca acreditaria em voc. Vamos, 
faa um acordo conosco!
        Trevize sacudiu a cabea.
        - No posso, ministro. A nave  minha e continuar a ser minha. Como j 
expliquei, qualquer tentativa de arromb-la ter como consequncia uma enorme 
exploso. Pode crer que  verdade. No estou blefando.
        -  Voc sabe como abri-la sem provocar exploso. - Claro que sei, mas no 
vou contar a ningum.
        Lizalor deu um profundo suspiro.
        - Sabe que podemos for-lo a mudar de idia... Se no for pelo que 
podemos fazer a voc, ser pelo que pudermos fazer ao seu amigo, dr. Pelorat, ou  
jovem.
        - Tortura, ministro?  assim que vocs agem?
        - No, conselheiro. No precisamos recorrer a mtodos to primitivos. 
Sempre existe a Sonda Psquica...
        Pela primeira vez desde que havia entrado no apartamento da ministro, 
Trevize sentiu um calafrio.
        - Duvido muito. O uso da Sonda Psquica por pessoas no autorizadas est 
proibido em toda a Galxia.
        - Se no nos deixar alternativa...
        - Estou disposto a correr o risco - afirmou Trevize, com toda a calma. - 
No vai adiantar nada para vocs. Minha deciso de conservar a nave  to firme 
que a Sonda Psquica destruir a minha mente antes de conseguir fazer-me mudar 
de idia!         - Aquilo era um blefe, pensou Trevize. - Mesmo, porm, que fossem 
suficientemente hbeis para me persuadir a abrir a nave e entreg-la a vocs, isso 
seria intil. O computador da nave  um modelo novo, que foi programado... no 
me pergunte como... para trabalhar exclusivamente para mim.  o que se poderia 
chamar de computador individual.
        - Suponhamos, ento, que voc continue de posse da sua nave. O que acha 
da idia de pilot-la para ns... como cidado comporeliano? Um salrio de 
prncipe. Todo o conforto. Para os seus amigos, tambm.
        - A resposta  no.
        - O que sugere ento? Que a gente simplesmente deixe voc e seus amigos 
irem embora? Seria prefervel avisar  Fundao que vocs esto aqui e deixar que 
eles cuidem do resto!
        - E perder a nave?
        - Se temos que perder a nave, melhor perd-la para a Fundao do que para 
um aventureiro qualquer.
        - Deixe-me ento propor uma soluo de compromisso.
        - Uma soluo de compromisso? Est bem, pode falar. Trevize comeou, 
pronunciando as palavras com cuidado:
        - Estou no meio de uma importante misso, que comeou com o apoio da 
Fundao. Parece que esse apoio foi retirado, mas nem por isso a misso deixou de 
ser importante. Se Comporellon me oferecer o apoio de que preciso e eu conseguir
completar a misso com sucesso, todos s tero a lucrar.
        Lizalor olhou para ele, indecisa.
        -  Quando a misso terminar pretende devolver a nave  Fundao?
        - Claro que no. A Fundao no estaria to empenhada em recuperar a 
nave se tivesse esperanas de que eu a devolvesse espontaneamente.
        - Isso no  a mesma coisa que dizer que nos entregar a nave.
        - Depois que terminar a misso, a nave talvez no tenha mais utilidade para 
mim. Nesse caso, no teria nenhuma objeo a entreg-la a Comporellon.
        Os dois se entreolharam em silncio por alguns momentos.
        - Voc usou o condicional - disse Lizalor, afinal. - A nave "talvez"... isso 
no  suficiente.
        - Poderia prometer mundos e fundos, mas de que adiantaria isso? O fato de 
que minhas promessas so limitadas e cautelosas  a maior prova de que estou 
sendo sincero.
        - Faz sentido - concordou Lizalor. - Gostei. Diga-me qual  a sua misso e 
em que ela beneficiaria Comporellon.
        - No, no,  a sua vez. Voc me ajudar se eu lhe mostrar que minha 
misso  importante para o futuro de Comporellon?
        A ministro Lizalor levantou-se do sof, uma figura alta, majestosa.
        - Estou com fome, conselheiro Trevize, e no posso prosseguir de estmago 
vazio. Vamos comer e beber alguma coisa... com moderao. Depois, discutiremos o 
assunto.
        Nesse instante, Trevize surpreendeu um brilho de antecipao quase 
canibalesco nos olhos da ministro, algo que o fez cismar por muito tempo.


21.

A REFEIO podia ser nutritiva, mas no agradava ao paladar. O prato principal era 
uma carne assada com um molho picante, acompanhada por uma verdura que 
Trevize no conhecia e cujo sabor agridoce considerou extremamente enjoativo. 
Mais tarde descobriu tratar-se de um tipo de alga.                                              
        Como sobremesa, comeram uma fruta que parecia uma mistura de pssego e 
ma (nada m, comparada com o resto) e depois beberam um lquido preto to 
amargo que Trevize desistiu na metade e pediu um copo d'gua. As pores eram 
pequenas, mas, dadas as circunstncias, satisfatrias.
        Durante todo aquele tempo, no apareceu mais ningum. A prpria Lizalor 
tinha esquentado e servido a comida, e foi a prpria Lizalor que tirou a mesa e 
lavou os pratos.
        - Espero que tenha gostado do jantar - disse Lizalor, quando voltaram para 
a sala de visitas.
        - Estava timo - disse Trevize, sem entusiasmo. A ministro tornou a 
sentar-se no sof.
        - Vamos voltar ao ponto em que estvamos - disse. - Voc sugeriu que 
Comporellon talvez se ressentisse do papel de liderana exercido pela Fundao em 
relao  Galxia como um todo. De certa forma, isto pode ser verdade, mas este 
aspecto da situao interessa apenas aos que esto envolvidos nas questes de 
poltica interestelar, que no so muitos em nosso planeta. No, o mais importante 
 que o comporeliano mdio est horrorizado com a imoralidade da Fundao. A 
imoralidade existe em todos os planetas, mas em Terminus parece haver 
ultrapassado todos os limites. Eu diria que esta  a principal razo para o 
sentimento anti-Terminus que existe atualmente neste planeta.
        - Imoralidade? - repetiu Trevize, genuinamente surpreso. - Sejam quais 
forem os erros da Fundao, tem que admitir que ela administra a Galxia com 
honestidade e eficincia. Os direitos civis so quase sempre respeitados e...
        - Conselheiro Trevize, estou falando de moralidade sexual.
        - Nesse caso, no entendi mesmo. Somos uma sociedade extremamente 
moralista do ponto de vista sexual. As mulheres so representadas em todos os 
rgos do governo. Nosso prefeito  uma mulher e quase metade do Conselho  
composta por...
        A ministro fez um gesto de impacincia.
        - Conselheiro, est se fazendo de desentendido? Deve saber o que significa 
moralidade sexual. O casamento  ou no  um sacramento em Terminus?
        - O que quer dizer com "sacramento"?
        - Existe uma cerimnia formal em que os casais se comprometem a viver 
juntos?
        - Sim, existe. Essa cerimnia tem valor jurdico e simplifica vrios 
problemas legais, como os de impostos e heranas.
        - Mas o divrcio  permitido.
        - Naturalmente. Seria imoral obrigar duas pessoas a compartilharem a
mesma casa quando...
        - No existem restries religiosas?
        - Religiosas? Existem pessoas que ainda praticam certos cultos antigos, 
mas o que tem isso a ver com casamento?
        - Conselheiro, aqui em Comporellon, todos os aspectos do sexo so 
fortemente controlados. No pode haver sexo fora do casamento. Sua expresso  
limitada mesmo dentro do casamento. Ficamos profundamente chocados com esses 
mundos, especialmente Terminus, onde o sexo  encarado como simples prazer 
social e praticado sem nenhum respeito pelos valores religiosos.
        Trevize franziu a testa.
        - Sinto muito, mas no posso reformar a Galxia, ou mesmo Terminus... O 
que tem isso a ver com a questo da minha nave?
        - Estou falando da opinio pblica a respeito da sua nave e de como ela 
limita o meu poder de negociao. O povo de Comporellon ficaria horrorizado ao 
saber que voc e seu companheiro trouxeram a bordo uma mulher jovem e atraente 
apenas para satisfazer aos seus desejos lascivos durante a viagem. Foi por estar 
muito preocupada com a segurana de vocs que propus um acordo informal em 
lugar de um julgamento pblico.
        - Estou vendo que aproveitou a interrupo da conversa para pensar em 
novas formas de intimidao. Quer dizer que agora devo temer um linchamento?
        - Estou s explicando como o nosso povo se sente. Como poder negar que 
a mulher que veio com vocs no passa de uma convenincia sexual?
        - Com toda a facilidade. Bliss  a companheira do meu amigo, o dr. Pelorat. 
Os dois no momento no tm outros parceiros. Talvez no estejam legalmente 
casados, mas acredito que, moralmente, a unio entre eles  bastante slida.
        - Est querendo me dizer que nunca teve nada com a moa?
        - Exatamente - disse Trevize. - Quem voc pensa que eu sou?  - No 
posso saber. No conheo o seu cdigo moral.
        - Deixe-me ento explicar que o meu cdigo moral me faz respeitar as 
companheiras dos meus amigos.
        - Voc nunca se sentiu pelo menos tentado?
        - No posso evitar as tentaes, mas posso resistir a elas.
        - Sempre? Talvez no se interesse por mulheres.
        - Bobagem.
        - H quanto tempo no faz amor com uma mulher?
        - H vrios meses. Desde que partimos de Terminus.
        - No sente falta?
        - Claro que sim! - exclamou Trevize, com irritao. - Acontece que no 
tive escolha!
        -- Acredito que o seu amigo, Pelorat, ciente do seu problema, estaria 
disposto a compartilhar a mulher com voc.
        - Ele no sabe que eu sofro com isso, mas mesmo que soubesse, no 
gostaria de dividir Bliss comigo. E nem a mulher concordaria. Ela no sente 
nenhuma atrao por mim.
        -- Est dizendo isso porque j tentou conquist-la?
        -  No, eu no tentei conquist-la. No preciso tentar conquist-la para 
saber. Alm disso, tambm no gosto dela.
        -  Incrvel! Pensei que todos os homens a considerassem atraente.
        - Sei que Bliss tem tudo no lugar. Mesmo assim, no  o meu tipo. Para 
comear, considero-a muito criana, muito infantil em algumas coisas...
        -- Ento prefere mulheres mais maduras? Trevize parou para pensar.
Estaria caindo em uma armadilha? Respondeu, de forma cautelosa:
        - Tenho idade suficiente para apreciar mulheres maduras. Que  que isso 
tem a ver com minha nave?
        - Esquea sua nave, pelo menos por um momento - disse Liza-lor. - 
Tenho 46 e continuo solteira. Acho que nunca tive tempo para me casar.
        - Nesse caso, pelas regras da sua sociedade, voc ainda deve ser virgem. Foi 
por isso que me perguntou h quanto tempo no fao amor? Quer saber minha 
opinio a respeito do assunto? Pois vou lhe dizer: sexo no  como oxignio ou 
comida.  desagradvel passar sem sexo, mas no  impossvel.
        A ministro sorriu e Trevize viu de novo aquele brilho canibalesco em seus 
olhos.
        - No me entenda mal, Trevize. O poder tem seus privilgios e  possvel 
fazer as coisas de forma discreta. Faz muito tempo que deixei de ser virgem. 
Entretanto, os homens de Comporellon so parceiros bastante sofrveis. Aceito a 
tese de que a moralidade no sentido geral da palavra s pode ser benfica a um 
povo, mas neste caso em particular tende a carregar nossos homens de culpa, de 
modo que eles se tornam tmidos, sem imaginao, lentos para comear, rpidos 
para terminar, e, de forma geral, extremamente inbeis.
        - Quanto a isso, tambm, no h nada que eu possa fazer - disse Trevize, 
cautelosamente.
        - Est insinuando que a culpa pode ser minha? Que os homens no sentem 
atrao por mim?
        - No foi isso que eu disse! - protestou Trevize.
        - Nesse caso, como voc reagiria, se tivesse a oportunidade? Voc, que vem 
de um planeta imoral, que certamente j passou por um sem-nmero de 
experincias sexuais das mais variadas, que vem de vrios meses de abstinncia 
forada na presena constante de uma mulher jovem e bonita. Como reagiria diante 
de uma mulher como eu, do tipo maduro que voc diz apreciar?                        
        - Eu me comportaria com o respeito e a dignidade condizentes com a 
importncia do seu cargo - respondeu Trevize.
        - No seja tolo! - exclamou a ministro.
        Levou a mo  cintura. A faixa branca que envolvia o pescoo e o peito ficou 
visivelmente mais frouxa. As golas do vestido se separaram.
        Trevize ficou paralisado. Ela estava planejando aquilo desde... desde quando? 
Ou estaria tentando conseguir atravs do sexo o que no conseguira com ameaas?
A parte de cima do vestido se abriu completamente e a ministro ficou ali sentada, 
nua da cintura para cima, com uma expresso desdenhosa no olhar. Os seios eram 
uma verso menor da mulher em si: cheios, firmes e imponentes.                                            
        -  Ento? - perguntou.
        - Estou deslumbrado! - exclamou Trevize, com toda a sinceridade.
        - O que vai fazer a respeito?                                 .....
        - O que dizem as regras de conduta locais? - perguntou Trevize.
        - O que significam nossas regras de conduta para um homem de Terminus? 
Como voc acha que deve reagir? Venha c. Estou ficando com frio.                                         
        Trevize levantou-se e comeou a tirar a roupa.
























Captulo 6

A Natureza da Terra





22.

TREVIZE sentia-se quase como se tivesse sido drogado. Imaginou que horas seriam.
        A seu lado estava Mitza Lizalor, ministro dos Transportes, deitada de bruos, 
com o rosto apoiado no travesseiro, a boca aberta, ressonando ruidosamente.
Trevize sentiu-se aliviado por ela estar dormindo. Quando acordasse, esperava que 
tivesse conscincia do fato de que havia adormecido.
        Trevize tambm estava com sono, mas fazia um esforo consciente para 
manter-se acordado. Era importante que Lizalor no o visse dormindo. Que tivesse 
a impresso de ter chegado  exausto, enquanto ele j estava pronto para outra. 
Era o mnimo que podia esperar de um atleta sexual criado na Fundao; no 
queria que ficasse desapontada.
        At que, considerando as circunstncias, ele se havia sado muito bem. 
Tinha adivinhado, corretamente, que Lizalor, dado o seu tamanho e fora fsica, o 
seu poder poltico, o desprezo que sentia pelos homens de Comporellon que 
conhecera, a mistura de horror e fascinao que sentia pelas supostas proezas 
sexuais (que histrias teriam contado a ela?, pensou Trevize) dos decadentes 
habitantes de Terminus, nutria um desejo secreto de ser dominada.
        Trevize tinha agido de acordo com essa suposio e, para sua grata surpresa, 
descobrira que estava absolutamente certo. (Trevize, o homem que no erra nunca, 
repetiu, em tom de brincadeira.). Alm de agradar  mulher, pudera dirigir as 
atividades de forma a deix-la esgotada enquanto ele prprio se poupava na medida 
do possvel.
        No tinha sido fcil. Lizalor tinha um corpo maravilhoso (46, dissera ela, mas 
seu corpo no envergonharia uma jovem de 25) e uma energia quase inesgotvel, s 
superada pelo entusiasmo com que a utilizava.
        Na verdade, se ela pudesse ser domada e aprendesse as virtudes da 
moderao; se com a prtica (conseguiria ele prprio sobreviver s sesses de 
treinamento?) viesse a conhecer melhor seu prprio corpo e o corpo do parceiro, 
ento...
        Lizalor parou de ressonar e se remexeu na cama. Trevize tocou-a de leve com 
a mo e ela abriu os olhos. Trevize estava apoiado em um cotovelo e fez o possvel 
para parecer descansado e cheio de vida.
        -  Foi bom voc dormir, querida - disse. - Estava precisando descansar.
        Os lbios de Lizalor se abriram em um sorriso sonolento e, por um momento, 
Trevize temeu que fosse convid-lo para uma nova sesso. Entretanto, ela se 
limitou a rolar na cama, ficando deitada de costas.
        -  Eu estava certa... voc  um rei do sexo! Trevize tentou parecer modesto.
        -  Preciso aprender a me controlar.
        - No diga tolices. Voc  fantstico! Tinha medo de que aquela mocinha 
tivesse consumido suas energias, mas voc me assegurou que ela pertencia 
exclusivamente ao seu amigo. Estava falando a verdade, no estava?
        -  Acha que me comportei como algum que est saciado de sexo?
        -  No, de jeito nenhum! - exclamou Lizalor, com uma sonora gargalhada.
        -  Ainda est pensando em me submeter  Sonda Psquica? Ela riu de novo.
        -  Est maluco? E me arriscar a perder voc?
        -  Seria melhor se voc me perdesse temporariamente...
        -  O qu?
        -  Se eu ficasse aqui permanentemente, quanto tempo acha que levaria para 
as pessoas comearem a falar? Por outro lado, se eu partisse para continuar minha 
misso, poderia voltar periodicamente a Comporellon, e todos achariam natural que 
nos encontrssemos em particular... alm disso, minha misso  realmente muito 
importante!
        Lizalor refletiu um pouco, coando distraidamente o quadril direito, e depois 
disse:
        - Acho que voc tem razo. A idia no me agrada, mas... acho que tem 
razo.
        -  E no precisa ter medo de que eu no volte - disse Trevize - No, 
quando sei o que me espera aqui.
Lizalor sorriu para ele, acariciou-lhe o rosto e disse, olhando-o nos olhos:
        -  Foi bom para voc, amor?
        - Muito mais que isso, querida.
        - Voc  da Fundao. Um homem no apogeu da juventude, que passou a 
vida em Terminus. Deve estar acostumado a mulheres de todos os tipos, com todos 
os tipos de...
        - Jamais conheci uma mulher como voc - disse Trevize, com uma 
convico que era fcil para algum que, afinal de contas, estava dizendo a
verdade.
        -  Oh, est bem. Mesmo assim, voc sabe, o hbito  uma segunda
natureza, e no consigo acreditar na palavra de um homem sem al-gum tipo de 
garantia. Voc e seu amigo Pelorat podero prosseguir nessa misso de vocs assim 
que me falarem a respeito e eu aprovar, mas a mocinha vai ficar aqui. Ela ser 
muito bem tratada, no se preocupe. Assim, o dr. Pelorat sentir saudades e se 
encarregar de exigir frequentes visitas a Comporellon, mesmo que o seu 
entusiasmo pela misso o leve a ficar afastado tempo demais.
        - Isso  impossvel, Lizalor.
        - Impossvel? - repetiu Lizalor, com um olhar de suspeita. -  Impossvel 
por qu? Para que precisa da mulher?
        - No para sexo. J lhe disse isso uma vez e estava falando a verdade. Ela  
de Pelorat e no sinto interesse por ela. Alm disso, acho que no aguentaria 
metade do que voc fez com tanta desenvoltura ontem  noite.
        Lizalor quase sorriu, mas controlou-se e disse, muito sria:
        -  Que diferena faz, ento, se ela ficar em Comporellon?
        -  Acontece que ela  essencial para a nossa misso.  por isso que deve ir 
conosco.
        -  Afinal, que misso  essa? J  tempo de voc me contar.
        Trevize hesitou apenas por um momento. Teria que contar a verdade. No 
podia imaginar nenhuma mentira que causasse um impacto semelhante.
        - Preste ateno - disse. - Comporellon pode ser um mundo antigo, talvez 
at um dos mais antigos, mas no pode ser o mais antigo. No foi aqui que comeou 
a vida humana. Os primeiros seres humanos neste planeta vieram de outro mundo, 
e talvez a vida humana no tenha surgido nesse mundo, mas tenha vindo de outro 
ainda mais antigo. Entretanto, essa cadeia tem que ter um fim; se voltarmos cada 
vez mais no tempo, acabaremos por chegar ao primeiro mundo, o mundo que foi a 
origem da raa humana. Estou procurando a Terra.
        A reao de Mitza Lizalor deixou Trevize estupefato Seus olhos se 
arregalaram, a respirao disparou e todos os msculos do corpo se retesaram. Ela 
ficou ali deitada, rgida, com os dois braos levantados em ngulo reto com o corpo, 
o indicador e o anular de cada mo cruzados. 
        - No diga essa palavra - murmurou, com voz rouca.


23.

        Lizalor no disse mais nada, nem olhou para ele. Os braos desceram
devagar, ela girou o corpo e sentou-se na cama, de costas para Trevize, que ficou 
onde estava, paralisado.
        Trevize estava se lembrando das palavras de Munn Li Compor, quando os 
dois conversavam no Centro de Turistas de Sayshell. Podia ouvi-lo dizer, referindo-
se ao planeta dos seus ancestrais, o mesmo planeta em que Trevize estava agora: 
"So supersticiosos. Sempre que mencionam esse nome, erguem ambas as mos 
com o indicador e o mdio cruzados, para afastar a m sorte."
        De que adiantava lembrar-se depois que o mal j estava feito?
        - Que palavra eu devia ter usado, Mitza? - perguntou. Lizalor sacudiu a 
cabea, levantou-se e saiu por uma porta, que fechou atrs de si. Pouco depois, 
Trevize ouviu o barulho de gua correndo.
        No havia nada a fazer seno esperar, nu, frustrado, pensando a princpio se 
no seria melhor entrar no chuveiro junto com Lizalor e logo chegando  concluso 
de que isso no seria aconselhvel. Estranhamente, sentiu uma necessidade 
imperiosa de tomar um banho.
        Lizalor saiu do banheiro em silncio e comeou a escolher uma roupa para 
vestir.
        - Voc se importa se eu... ? - perguntou Trevize.
        Lizalor no respondeu e Trevize sups que ela no se incomodasse. Tentou 
atravessar o quarto com passos firmes, masculinos, mas se sentia como nos dias 
em que a me, aborrecida com alguma peralticesua, resolvia puni-lo apenas com o 
silncio, castigo que o deixava desnorteado.
        Entrou no banheiro e viu-se em um cubculo de paredes nuas... totalmente 
nuas. Examinou melhor. No havia nada.
        Abriu a porta, ps a cabea para fora e disse:
        - Escute, como  que a gente faz para ligar o chuveiro?
        Lizalor deixou o desodorante de lado (pelo menos, o que Trevize achou que 
era um desodorante), foi at a porta do banheiro e apontou, sem olhar para o rapaz. 
Trevize olhou para o lugar indicado e viu uma pequena mancha rsea na parede. 
Dando de ombros, inclinou-se na direo da parede e encostou o dedo na mancha. 
Aparentemente, era tudo o que era necessrio, pois imediatamente um dilvio de 
jatos finos de gua se lanou sobre ele de todas as direes. Sufocado, tocou de 
novo o lugar e a gua parou.
        Trevize abriu a porta, ciente de que parecia ainda mais ridculo agora que o 
frio o fazia tremer, tornando difcil articular as palavras.
-  C-como se f-faz para esquentar a gua?
        Lizalor olhou finalmente para ele e o aspecto do rapaz a fez esquecer a raiva
(ou medo, ou qualquer que fosse a emoo que estava sentindo) e explodir em uma 
sonora gargalhada.
        -  Esquentar a gua? Acha que vamos gastar energia esquentando a gua 
de banho? Meu banheiro tem gua morna. O que mais voc quer? Vocs 
terminianos so uns molengas! Agora entre a e lave-se!
        Trevize hesitou, mas no por muito tempo, porque no tinha sada. 
Relutantemente, tornou a tocar na mancha rosada e dessa vez preparou o corpo 
para o choque. gua morna? Descobriu que o corpo estava coberto de espuma e 
comeou a esfregar-se, calculando que o ciclo de lavar no duraria muito tempo.
        Depois veio o ciclo de enxaguar. Ah, gua quente... bem, quente, 
propriamente, no, mas menos gelada que no ciclo anterior. Ento, no momento em 
que se preparava para tocar de novo na mancha e se perguntava como Lizalor havia 
sado do banho totalmente seca quando no havia nenhuma toalha  vista... a gua 
parou. Seguiu-se um jato de ar que certamente o teria derrubado se no viesse de 
vrias direes ao mesmo tempo.
        Era quente; quase quente demais. Era preciso muito menos energia para 
aquecer o ar do que para aquecer a gua, pensou Trevize. Em poucos minutos, 
estava totalmente seco.
        Lizalor parecia totalmente recuperada.
        - Como est se sentindo?
        - Muito bem - respondeu Trevize. - Da primeira vez, eu estava 
desprevenido. Voc no me avisou que a gua era fria...
        -  Seu molenga - disse Lizalor, em tom carinhoso.
        Trevize pediu emprestado o desodorante e depois comeou a vestir-se, 
consciente do fato de que ela tinha roupas de baixo limpas para vestir e ele no.
        - Como eu devia ter chamado... aquele planeta? - perguntou.
        - Ns o chamamos de O Mais Antigo.
        - Como eu iria saber que o nome que usei era proibido? Voc me contou?
        -  Voc perguntou?
        -  Por que iria perguntar?
        -  No importa... agora voc j sabe!
        -  E se eu esquecer?
        -  No faa isso!
        - Qual a diferena?  apenas uma palavra, um som! - exclamou Trevize, 
com impacincia.
        - Existem palavras que no devem ser ditas. Voc se sente livre para usar 
todas as palavras que conhece em qualquer circunstncia?
        - Algumas palavras so grosseiras, outras inadequadas, outras, em certas 
condies, podem ser perigosas. A que categoria pertence a palavra... a palavra que 
eu disse?
        -  uma palavra triste, uma palavra solene - explicou Lizalor. - 
Representa um mundo que foi o bero de todos ns e que no existe mais. Somos 
especialmente sensveis porque esse mundo ficava perto de ns. Preferimos no 
falar dele, mas se isso  necessrio, nunca pronunciamos o seu nome.
        -  Mas por que cruzou os dedos? De que jeito isso afasta a tristeza?
        Lizalor enrubesceu.
        - Foi uma reao involuntria. Algumas pessoas pensam que essa palavra 
traz m sorte... e que cruzar os dedos  a nica defesa.
        - Voc acredita nisso?
        -  No... ou por outra, sim, de certa forma. - Como se estivesse ansiosa 
para mudar de assunto, disse depressa: - Por que voc precisa de sua amiga de 
cabelos pretos para encontrar... para encontrar o mundo que est procurando?                     
        - Por que no disse "O Mais Antigo"? Ser que tambm d azar?
        - Prefiro no discutir o assunto. Responda  minha pergunta.
        -  Acho que o planeta de onde ela vem foi colonizado por emigrantes d'O 
Mais Antigo.
        -  Como o nosso - disse Lizalor, com orgulho.
        - Acontece que, segundo minha amiga, seu povo tem os conhecimentos 
necessrios para compreender O Mais Antigo. Antes, porm, temos que localiz-lo e 
estudar seus registros.
        -  Se o que voc quer  visitar O Mais Antigo acompanhado por essa mulher, 
por que veio a Comporellon?
        -  Para tentar descobrir onde fica O Mais Antigo. Tive um amigo em 
Terminus que descendia dos comporelianos. Ele me assegurou que boa parte da 
histria d'O Mais Antigo era bem conhecida em Comporellon.
        - Verdade? E ele contou a voc alguma coisa dessa histria?
        - Contou. Disse que O Mais Antigo era um mundo morto, totalmente 
radioativo. Ele no sabia por qu, mas achava que devia ser o resultado de 
exploses nucleares. Uma guerra, talvez.
        -  No! - exclamou Lizalor.
        -  No, no foi uma guerra? Ou no, O Mais Antigo no est radioativo?
        -  Est radioativo, mas no por causa de uma guerra.
        - Ento como foi que ficou radioativo? No pode ter sido assim desde o 
comeo, caso contrrio seria um planeta estril.
        Lizalor pareceu hesitar.
        -  Foi um castigo - disse, afinal. - Era um mundo que usava robs. Sabe o 
que  um rob?
        -  Sei.
        - Os habitantes d'O Mais Antigo tinham robs e por isso foram punidos. 
Todos os mundos que usavam robs foram punidos e no existem mais.
        - Quem os puniu, Lizalor?
        - Aquele Que Pune. As foras da Histria. No sei. - Desviou os olhos do 
rapaz e acrescentou, em voz baixa: - Pergunte por a.
        - Bem que eu gostaria, mas perguntar a quem? Existem estudiosos de
Histria antiga em Comporellon?
        - Existem, sim. No so muito populares aqui... mas a Fundao, a sua 
Fundao, insiste no que chama de liberdade acadmica.
        - Uma insistncia bastante louvvel, na minha opinio. -Nada que  
imposto pode ser louvvel.
        Trevize franziu a testa. No adiantava continuar a discusso. Resolveu 
mudar a abordagem.
        - Meu amigo, o dr. Pelorat,  um estudioso de Histria antiga - comeou. - 
Estou certo de que gostaria muito de se encontrar com os colegas locais. Voc 
poderia arranjar isso, Lizalor?
        A ministro assentiu.
        - Existe um historiador chamado Vasil Deniador que trabalha na 
Universidade aqui mesmo na capital. Ele no d aulas, mas pode contar muita 
coisa para vocs.
        -  Por que no d aulas?
        -  No porque seja proibido;  que os alunos nunca escolhem o seu curso.
        -  Imagino - disse Trevize, esforando-se para no parecer irnico - que o 
curso dele no seja propriamente recomendado aos estudantes...                                                                                
        - Por que seria? Ele  um ctico. Tambm temos cticos aqui, sabia? 
Indivduos que tm idias extravagantes e so suficientemente arrogantes para 
pensar que eles, sozinhos, esto certos, enquanto que a maioria est errada!
        -  E isso no pode acontecer em alguns casos?
        - Nunca! - exclamou Lizalor, com tal veemncia que ficou claro que jamais 
admitiria o contrrio. - E com todo o seu ceticismo, o dr. Deniador ser obrigado a 
dizer para vocs a mesma coisa que qualquer comporeliano diria.
        -  O qu?
        -  Que se vocs procurarem O Mais Antigo, no o encontraro.


24.

        NOS APOSENTOS que haviam sido reservados para eles, Pelorat escutou
atentamente a histria de Trevize e depois observou:
        -  Vasil Deniador? No me lembro do nome, mas pode ser que encontre
algum artigo escrito por ele na biblioteca da nave.
        -  Tem certeza de que no reconhece o nome? Pense!
        -  No me lembro, mesmo - disse Pelorat. - Mas afinal de contas, meu 
amigo, deve haver centenas de cientistas de valor de quem eu nunca ouvi falar... ou 
ouvi falar e me esqueci.
        -  Mesmo assim, no pode ser um cientista de primeira linha, caso contrrio 
voc o conheceria de nome!    -  O estudo da Terra...
        -   melhor se acostumar a dizer "O Mais Antigo", Janov. No queremos 
ofender os locais...
        -  O estudo d'O Mais Antigo - recomeou Pelorat - no  um dos assuntos 
mais populares, de modo que os cientistas de primeira linha, mesmo no campo da 
Histria antiga, no se dedicam a ele. Se quiser interpretar de outra forma, o 
assunto desperta to pouco interesse que os cientistas que se dedicam a ele jamais 
so considerados de primeira linha. Eu, por exemplo, no sou considerado por 
ningum como um cientista de primeira linha.
        - Para mim, Pel, voc  um cientista de primeirssima linha - disse Bliss, 
carinhosamente.
        - Acredito, minha querida - disse Pelorat, com um leve sorriso -, mas voc 
no est julgando minha capacidade profissional.
        Era quase noite, a julgar pelas horas, e Trevize sentiu-se um pouco
impaciente, como se sentia sempre que Bliss e Pelorat comeavam a trocar
gentilezas. Ele disse:
        - Vou tentar marcar nosso encontro com Deniador para amanh, mas se ele 
sabe tanto a respeito do assunto quanto a ministro, vamos sair d mos abanando.
        -  Pode ser que ele nos fornea alguma pista nova.
        -  Duvido muito. A atitude deste planeta em relao  Terra...  melhor eu 
tambm me acostumar a falar por eufemismos. A atitude deste planeta em relao
a O Mais Antigo  uma atitude tola e supersticiosa. Mas tivemos um dia cheio e
devamos pensar em comer alguma coisa... a comida daqui  to sem graa!... e
depois dormir. Vocs dois j sabem usar o chuveiro?
        -  Meu caro amigo - disse Pelorat -, temos sido muito bem tratados.
Recebemos instrues de todos os tipos, quase todas desnecessrias.
        -  E a nave, Trevize? - perguntou Bliss.
        -  Como assim?
        -  O governo de Comporellon vai confisc-la?
        -  No, acho que no.
        -  Que bom! Por que no?
        -  Porque fiz a ministro mudar de idia.
        -  Espantoso! - exclamou Pelorat. - Ela me pareceu uma pessoa difcil de 
dobrar.
        -  No sei, no - disse Bliss. - Pude ler com toda a clareza em sua mente 
que ela se sentia atrada por Trevize.
        Trevize olhou para Bliss com uma irritao sbita.
        -  Voc fez isso, Bliss?
        -  O que quer dizer?
        -  Voc mexeu com as emoes...
        -  No mexi, propriamente. Entretanto, quando percebi que ela sentia 
atrao por voc, no pude deixar de suprimir uma inibio ou outra. Foi uma coisa 
muito pequena. Essas inibies poderiam ter desaparecido naturalmente e era 
importante que ela estivesse cheia de boa vontade em relao a voc.
        - Boa vontade? Foi muito mais que isso! Ela ficou doida para fazer amor 
comigo!
        -  Quer dizer que vocs dois... - comeou Pelorat.
        -  Por que no? - interrompeu Trevize. - Ela pode no ser nenhuma 
jovem, mas conhece bem a arte. No  nenhuma principiante, isso eu garanto. E 
nem vou bancar o cavalheiro e mentir para proteg-la. A idia foi dela... depois que 
Bliss removeu as inibies... e eu no estava em posio de recusar, mesmo que 
quisesse, o que no era o caso. Vamos, Janov, no faa essa cara de puritano. Faz 
vrios meses desde que eu estive com uma mulher pela ltima vez. Enquanto isso, 
vocs...
        -  Acredite, Golan - disse Pelorat, envergonhado -, est interpretando mal 
minha expresso. No o censuro de modo algum.
        -  Por outro lado, ela devia ser puritana! - disse Bliss. - Queria apenas 
que ela simpatizasse com voc; no esperava provocar um paroxismo sexual!
        -  Pois foi exatamente o que voc provocou, minha pequena metida. A 
ministro pode ter que desempenhar o papel de puritana em pblico, mas isso serve 
apenas para reavivar o fogo que tem dentro de si.
        -  E assim, contanto que voc lhe d prazer, ela estar pronta a trair a 
Fundao...
        -  Ela teria feito isso de qualquer forma - disse Trevize. - Ela queria a nave 
para... - Interrompeu o que estava dizendo e sussurrou: - Algum est nos 
ouvindo?
        -  No! - respondeu Bliss.
        -  Tem certeza?
        -  Absoluta.  impossvel espreitar a mente de Gaia sem que Gaia perceba.
        - Est bem. O que eu estava dizendo  que ela quer a nave para 
Comporellon... uma excelente aquisio para a armada do planeta, no acham?
        -  A Fundao jamais permitiria isso.
        -  E se a Fundao no ficasse sabendo? Bliss suspirou.
        - Vocs, Isolados, so estranhos! A ministro pretende trair a Fundao para 
favorecer Comporellon, mas, em troca de sexo, est pronta a tambm trair 
Comporellon. E voc, Trevize, no hesita em vender seu corpo para conseguir o que 
quer. Quanta anarquia, na Galxia de vocs!  o prprio caos!
        -  Est muito enganada, mocinha... - comeou Trevize.
        -  No estava falando como mocinha, e sim como Gaia. Eu sou Gaia.
        - Ento est muito enganado, Gaia. No vendi meu corpo. Ofereci-o 
espontaneamente. Isso me deu prazer e no fiz mal a ningum. Quanto s 
consequncias, no nego que tenham sido favorveis para minha misso. Que mal 
h nisso? A nave pertence  Fundao, mas foi confiada a mim quando recebi a 
misso de procurar a Terra. Considero-a minha at terminar a busca; no acho que 
a Fundao tenha o direito de desistir do acordo. Quanto a Comporellon, no aprecia
nem um pouco o domnio da Fundao; pelo contrrio, sonha com
independncia. A seus prprios olhos,  perfeitamente correto enganar a Fundao; 
no se trata de um ato de traio, mas de um ato de patriotismo. Quem sabe?
        - Exatamente. Quem sabe? Em uma Galxia de anarquia, como  possvel 
separar os atos razoveis dos que no so razoveis? Quem decide o que  certo e o 
que  errado, o que  bom e o que  mau, o que  til e o que  intil? Como explica 
que a ministro seja capaz de trair seu prprio governo, deixando voc ficar com a 
nave? Ser que ela anseia por liberdade pessoal em um mundo totalitrio? Devemos 
consider-la uma traidora ou uma patriota na oposio?
        - Para ser franco - disse Trevize -, no sei se ela resolveu me devolver a 
nave simplesmente por gratido pelo prazer que lhe proporcionei. Acho que s 
tomou a deciso quando lhe contei que estava procurando O Mais Antigo. Para ela, 
trata-se de um mundo proibido, e nossa nave, por estar sendo usada nessa busca, 
tambm se tornou proibida. Tenho a impresso de que Lizalor acha que cometeu 
algum sacrilgio ao tentar apossar-se da nave. Talvez pense que ao nos deixar ir 
embora esteja prestando um servio a Comporellon, livrando o planeta da m sorte 
de que ns e nossa nave somos portadores. Nesse caso, o ato dela poderia ser 
considerado como patritico.
        -  Mesmo que sua interpretao esteja correta, o que eu duvido, Trevize, a 
deciso da ministro se baseou em mera superstio. Voc admira isso?
        -  No admiro nem condeno. Na falta de conhecimentos suficientes, o ser 
humano sempre recorreu  superstio. A Fundao acredita no Plano de Seldon, 
embora nenhum de ns seja capaz de compreend-lo, interpret-lo ou us-lo para 
fazer previses. Seguimos cegamente o plano graas a nossa ignorncia e nossa f; 
isso no pode ser chamado de superstio?
        -  Acho que sim.
        -  No caso de Gaia  a mesma coisa. Vocs acreditam que eu tomei a deciso 
correta ao julgar que Gaia deveria absorver toda a Galxia e transform-la em um 
nico organismo, mas no sabem por que eu tenho que estar certo, nem quais so 
os riscos envolvidos. Concordam comigo apenas por causa de ignorncia e da f e 
chegam a ficar aborrecidos quando eu tento descobrir fatos que acabariam com a 
ignorncia e talvez tornassem a f desnecessria. Isso no  superstio?
        -  Acho que agora ele pegou voc, Bliss - disse Pelorat.
        - No concordo - disse Bliss. - Ou a busca no vai resultar em nada ou 
Trevize encontrar razes que justifiquem sua deciso.
        -  Bliss, no h nada que apoie esta sua ltima afirmao a no ser a 
ignorncia e a f - disse Trevize. - Em outras palavras, superstio!


25.

        VASIL DENIADOR era um homem baixinho, de feies midas, que tinha mania 
de olhar para o interlocutor sem mover a cabea, apenas levantando os olhos. Esse 
hbito, combinado com o breve sorriso que periodicamente iluminava-lhe o 
semblante, fazia com que parecesse algum que est sempre achando graa nas 
coisas que o cercam.
        O escritrio que ocupava era comprido e estreito, cheio de fitas magnticas 
que pareciam em total desordem, no porque houvesse qualquer indicao concreta 
disso, mas porque no tinham sido introduzidas at o fim nos seus nichos, o que 
dava s prateleiras um aspecto irregular. As trs cadeiras que indicou para os 
visitantes no combinavam entre si e davam a impresso de terem sido espanadas 
recentemente, sem muito sucesso.
        - Janov Pelorat, Golan Trevize e Bliss - disse. - No sei o sobrenome da 
senhora.
        - Todos me chamam de Bliss - replicou a moa, sentando-se.
        - Pensando bem, Bliss  mais que suficiente - disse Deniador, piscando o 
olho para ela. - Uma moa atraente como voc no precisa nem de nome.
        Os dois homens tambm se sentaram. Deniador disse:
        - Conheo-o de nome, dr. Pelorat. Trabalhou para a Fundao, no 
mesmo? Em Terminus?
        -  Isso mesmo, dr. Deniador.
        -  Tambm ouvi falar do senhor, conselheiro Trevize. Soube que no faz 
muito tempo foi expulso do Conselho e exilado. Gostaria de saber por qu.
        -  No  verdade que eu tenha sido expulso. Ainda sou membro do 
Conselho, embora no tenha data marcada para reassumir minhas funes. 
Tambm no fui exilado. Recebi uma misso.  por isso que estamos aqui... talvez 
possa ajudar-nos.
        - Com todo o prazer - disse Deniador. - E a linda mocinha? Tambm  de 
Terminus?
        -  Ela  de outro lugar - respondeu Trevize secamente.
        -  Ah,  um estranho planeta, esse Outro Lugar! Seus nativos so uma 
fauna to variada... Escute, se vocs dois so de Terminus, a capital da Fundao, 
e a companheira de vocs  uma jovem muito atraente, e se Mitza Lizalor no nutre 
uma simpatia especial por nenhuma das duas categorias, como explica que tenham 
sido to bem recomendados?
        - Acho que ela queria livrar-se de ns - explicou Trevize. - Quanto mais 
depressa nos ajudar, mais depressa deixaremos o planeta.
        Deniador olhou para Trevize por um momento, sorriu ironicamente e disse:
        -  Naturalmente, no seria difcil para a ministro sentir-se atrada por um 
tipo como o senhor a ponto de esquecer a sua nacionalidade. Ela gosta de se fazer 
de vestal, mas tudo tem um limite.
        -  No sei do que est falando - protestou Trevize, muito srio.
        -  E  melhor que no saiba... pelo menos oficialmente. Acontece que sou 
um ctico, acostumado a no me deixar levar pelas aparncias. De qualquer forma, 
conselheiro, qual  a sua misso? Vejamos se posso ajud-lo.
        -  Prefiro que o dr. Pelorat fale por mim.
        -  Como quiser. Dr. Pelorat? Pelorat comeou:
        -  Para ir direto ao ponto, meu caro doutor, dediquei a maior parte da 
minha vida adulta  busca do planeta em que se originou a espcie humana. Fui 
enviado, juntamente com o meu bom amigo, Golan Trevize, embora, para ser 
franco, no o conhecesse at iniciarmos a misso,  procura da... isto ,  procura 
d'O Mais Antigo.
        -  O Mais Antigo? - repetiu Deniador. - Voc deve estar querendo dizer a 
Terra.
        Pelorat ficou de boca aberta por alguns instantes. Depois disse, com alguma 
hesitao:
        - Estava com a impresso... ou por outra, fui levado a crer... que neste 
planeta ningum tinha coragem de...
        Olhou para Trevize, como que pedindo socorro. Trevize explicou:
        - A ministro Lizalor me disse que essa palavra no era usada em 
Comporellon.
        - Quando vocs falaram na Terra ela fez um gesto assim? - Deniador
levantou os dois braos, cruzando o indicador e o anular de cada mo.
        - Isso mesmo - confirmou Trevize. - Foi isso o que ela fez. Deniador deu 
uma risada.
        - Bobagem, senhores. Fazemos isso apenas por fora de hbito. No interior 
pode ser que ainda haja algum que leve essa superstio a srio, mas no aqui, na 
capital. No conheo nenhum comporeliano que no diga "terra" quando est 
nervoso ou irritado.  uma das interjeies mais comuns que ns temos.
        - Seja como for - insistiu Trevize -, a ministro pareceu bastante 
perturbada quando eu usei a palavra.
        - Talvez seja porque ela foi criada nas montanhas.
        - Que quer dizer com isso?
        - Mitza Lizalor nasceu e foi criada na Cordilheira Central. L as crianas 
recebem uma educao extremamente conservadora... do tipo que deixa marcas 
para a vida inteira!
        - Ento a palavra "terra" no o incomoda nem um pouco, no  mesmo, 
doutor? - observou Bliss.
        - Claro que no, minha cara. J disse que sou um ctico. Trevize interveio:
        - Sei o que significa a palavra "ctico" em galctico, mas em que sentido ela 
 usada aqui?
        - No mesmo sentido que no seu mundo, conselheiro. S aceito o que sou 
forado a aceitar diante de provas que meream uma confiana razovel; meus 
julgamentos so provisrios, sujeitos a reviso sempre que surgirem novas provas. 
Naturalmente, isso no me torna muito popular.
        - Por que no? - quis saber Trevize. 
        -Os cticos no so populares em parte alguma. Qual o mundo cuja 
populao no prefere uma crena morna e respeitvel, por mais ilgica que seja, 
aos ventos frios da incerteza?... Veja como vocs aceitam o Plano de Seldon sem 
nenhuma prova concreta!
        - Tem razo - disse Trevize, olhando para as pontas dos dedos. - Ontem 
mesmo usei o Plano de Seldon como exemplo do que chamo de superstio.
        Pelorat interrompeu:
        - Vamos voltar ao que interessa, meu caro. O que  que se conhece a 
respeito da Terra que at mesmo um ctico aceitaria?
        -  Muito pouco - afirmou Deniador. - Podemos supor que a espcie 
humana tenha se originado em um nico planeta, j que seria extremamente 
improvvel que a mesma espcie surgisse independentemente em vrios mundos. 
Podemos chamar de Terra esse planeta original. Ora, em Comporellon, todos 
acreditam que a Terra fica neste canto da Galxia, porque os planetas aqui so 
muito antigos e  provvel que os primeiros planetas a serem colonizados tenham 
sido os mais prximos da Terra.
        - A Terra apresenta alguma caracterstica peculiar, alm de ter sido o 
planeta de origem da espcie humana? - perguntou Pelorat, em tom ansioso.
        - Est pensando em alguma coisa em particular? - retrucou Deniador, com
um sorriso irnico.
         -  Estou pensando no satlite da Terra, que alguns chamam de Lua. O
satlite seria uma caracterstica peculiar, no seria?
        -  Esta pergunta  tendenciosa, dr. Pelorat. Est tentando colocar palavras 
na minha boca.
        -  Eu no disse por que o satlite da Terra poderia ser considerado peculiar.
        -  Por causa do tamanho,  claro. Acertei? Estou vendo que sim... Todas as 
lendas a respeito da Terra falam da grande variedade de seres vivos que abriga e do 
seu gigantesco satlite, com trs mil a trs mil e quinhentos quilmetros de 
dimetro.         A variedade de formas de vida  fcil de aceitar, j que seria uma 
consequncia natural da evoluo biolgica. Um satlite gigantesco  mais difcil de 
aceitar. Nenhum outro mundo habitado da Galxia possui um satlite assim. Os 
grandes satlites esto invariavelmente associados a gigantes gasosos, inabitados e 
inabitveis. Assim, como ctico que sou, prefiro no acreditar na existncia da Lua.
        - Se a Terra  o nico planeta que possui milhes de espcies vivas - 
objetou Pelorat -, por que no pode ser o nico planeta habitado que possui um 
satlite gigantesco? As duas coisas podem estar ligadas.
        Deniador sorriu.
        -  No vejo como a presena de milhes de espcies na Terra pode vir a criar 
um satlite do nada.
        - Talvez seja o contrrio... talvez um satlite gigante tenha ajudado a criar 
os milhes de espcies.
        - Tambm no consigo imaginar de que forma isso seria possvel.
        - E quanto ao fato de a Terra ser um planeta radioativo? - quis saber 
Trevize.
        - Este fato faz parte praticamente de todas as lendas - respondeu
Deniador.
        - Acontece - argumentou Trevize - que a Terra no poderia ter sido 
radioativa desde o princpio, caso contrrio jamais teria sido habitada. Como, ento,
se tornou radioativa? Uma guerra nuclear?
        -   o que a maioria pensa, conselheiro Trevize.
        -  Pela sua expresso, posso ver que no est de acordo com essa crena.
        -  No existe nenhuma prova concreta de que tenha havido uma guerra.
        -  O que acha, ento, que aconteceu?
        -  Por que teria que acontecer alguma coisa? Talvez a radioatividade da 
Terra seja to falsa quanto o seu satlite gigante!
        -  Poderia contar-nos a histria da Terra segundo os comporelianos? - 
pediu Pelorat. - Atravs dos anos, tomei conhecimento de muitas lendas sobre a 
origem da espcie humana. Entretanto, no sei quase nada a respeito dos mitos 
deste planeta, a no ser pelo fato de que envolvem um personagem misterioso 
chamado Benbally.
        - Isso no me surpreende. Os comporelianos no gostam de discutir o 
assunto com estranhos. Superstio, o senhor entende. Estou admirado at mesmo 
que tenha ouvido falar de Benbally.
        -  Por outro lado, o senhor no  supersticioso e portanto no se incomoda 
de falar do assunto, no  mesmo?
        - Exatamente - disse o historiador, olhando para Pelorat sem mover a 
cabea. - Claro que meus compatriotas no aprovariam, mas sei que deixaro em 
breve o planeta e se prometerem que no vo revelar onde conseguiram a 
informao...                           
        -  Tem nossa palavra de honra - assegurou Pelorat.
        - Ento aqui est um resumo do que dizem as nossas lendas, depois de 
expurgadas de todos os enfeites de cunho moralista. Durante muitos e muitos 
milnios, a Terra foi o nico planeta habitado por seres humanos. Ento, h cerca 
de vinte ou vinte e cinco mil anos atrs, o Homem inventou o Salto no hiperespao, 
o que tornou possvel as viagens interestelares. Em consequncia, vrios planetas 
prximos da Terra foram colonizados.
        Os colonizadores que chegaram a esses planetas faziam uso de robs, que 
tinham sido inventados na Terra antes da era das viagens interestelares... a 
propsito, vocs sabem o que so robs, no sabem?
        - Sabemos, sim - respondeu Trevize. - Vivem nos perguntando isso. Sim, 
sabemos o que so robs.
        - Os colonizadores, que viviam em sociedades altamente robotizadas, 
conseguiram um grande progresso tecnolgico e uma longevidade fora do comum. 
Com o passar dos anos, passaram a sentir desprezo pelo planeta natal. De acordo 
com as verses mais dramticas da lenda, chegaram mesmo a dominar e oprimir os 
habitantes da Terra.
        "Quando a Terra mandou para o espao uma segunda leva de colonizadores, 
o uso de robs foi proibido. Comporellon foi um dos primeiros desses novos 
mundos. Na verdade, nossos patriotas mais extremados insistem em que 
Comporellon foi o primeiro, mas no h provas concretas de que isso seja verdade. 
Depois que o primeiro grupo de colonizadores desapareceu...
        -  Por que o primeiro grupo desapareceu, dr. Deniador? - quis saber 
Trevize.
        -  Por qu? Os mais romnticos afirmam que eles foram punidos pelos seus 
crimes por Aquele Que Pune, embora ningum saiba explicar por que razo Ele 
esperaria tanto tempo. Mas existe uma razo bem mais lgica. Qualquer sociedade 
baseada no uso intensivo de robs est fadada a tornar-se fraca e decadente. A 
longo prazo, seus membros simplesmente perdem a vontade de viver.
        "Depois que o primeiro grupo desapareceu, os colonizadores do segundo 
grupo, que no usavam robs, espalharam-se por toda a Galxia, mas a Terra 
tornou-se radioativa e portanto inabitvel. Segundo a lenda, os robs continuaram 
a ser usados na Terra enquanto ela foi habitada.
        Bliss, que estivera escutando o relato com visvel impacincia, interveio:
        -  Dr. Deniador, com radioatividade ou sem radioatividade, com robs ou 
sem robs, a questo mais importante  a seguinte: onde fica a Terra? Quais so as 
coordenadas do planeta?
        -  Minha resposta  simples: no sei - disse Deniador. - Mas acho que 
est na hora do almoo. Vou mandar trazer alguma coisa para mastigarmos 
enquanto continuamos nossa conversa a respeito da Terra.
        -  O senhor no sabe? - repetiu Trevize, indignado.
        - Nem eu nem ningum que eu conhea.
        - Impossvel!
        - Conselheiro - disse Deniador, com um suspiro -, se quer chamar a 
verdade de impossvel,  direito seu, mas no conseguir nada com isso.













Captulo 7

Saindo de Comporellon





26.

O ALMOO era uma srie de bolinhas crocantes, de cores variadas, que continham 
diferentes recheios.
        Deniador apanhou um pequeno objeto que, ao ser desdobrado, transformou-
se em um par de luvas transparentes. Calou as luvas e os convidados o imitaram.
        Bliss perguntou:
        -  Poderia nos dizer o que h dentro dessas bolinhas?
        - As bolinhas cor-de-rosa esto recheadas com pedacinhos de peixe 
temperado, um dos pratos mais famosos da cozinha comporeliana. As amarelas 
contm um recheio muito suave,  base de queijo; as verdes, uma mistura de 
verduras. So mais gostosas enquanto ainda esto bem quentes. Depois vamos ter 
uma torta quente de amndoas e as bebidas de costume. Recomendo a cidra 
quente. Num clima frio como o nosso, temos o hbito de servir tudo quente, at 
mesmo as sobremesas.
        -  O senhor parece ser um bom garfo - disse Pelorat.
        - Nem tanto - protestou Deniador.. - Estou procurando ser hospitaleiro. 
Quando estou sozinho, contento-me com muito pouco...
        Trevize deu uma dentada em uma bolinha cor-de-rosa e constatou que o 
recheio tinha mesmo gosto de peixe, com um tempero forte, de gosto agradvel, mas 
que, pensou, no sairia de sua boca durante o resto do dia e talvez durasse at a 
manh seguinte.
        Quando olhou para a bolinha que havia acabado de morder, descobriu que a 
casca tinha tornado a se fechar em volta do resto do recheio. Imaginou ento para 
que serviriam as luvas, j que aparentemente seria impossvel sujar as mos. 
Chegou  concluso de que devia ser uma questo de higiene. As luvas tinham sido 
usadas inicialmente para substituir a lavagem das mos e mais tarde seu uso havia 
sido incorporado  etiqueta. (Lizalor no tinha usado luvas no jantar, na noite 
anterior... talvez por tratar-se de uma mulher das montanhas.).
        -  Seria considerado falta de educao falar de negcios durante o almoo? 
- perguntou a Deniador.
        -  Pelos padres comporelianos, seria, sim, conselheiro. Entretanto, so 
meus convidados e tm o direito de se guiar pelos seus prprios padres. Se acham 
que uma conversa sria no vai impedir que apreciem a comida, no tenho nada a 
opor.
        -  Obrigado - disse Trevize. - A ministro Lizalor insinuou... no, ela 
afirmou que os cticos so muito impopulares neste planeta. Isso  verdade?
        Deniador pareceu animar-se.
        - Claro que sim. Ficaramos muito desapontados se no o fssemos. 
Comporellon  um mundo de frustrados! Diz a lenda que antigamente, h muitos 
milnios, quando a Galxia habitada era pequena, Comporellon era o centro de
tudo. Nunca nos esquecemos disso... o fato de que em todo o perodo histrico
Comporellon jamais passou de um planeta secundrio nos parece... quando digo 
"ns", estou me referindo  populao em geral... nos parece uma grande injustia.
        "O que podemos fazer? Antigamente, tnhamos que jurar lealdade ao 
imperador. No momento, fazemos parte dos Planetas Associados, sujeitos  
liderana da Fundao. Quanto mais patente a nossa posio subalterna, mais 
forte a crena em um misterioso passado de glria!
        "Que fazem, ento, os comporelianos? Ontem, no tinham coragem de 
enfrentar o Imprio; hoje, no podem desafiar a Fundao. Sua vlvula de escape, 
portanto, consiste em nos atacar, j que no acreditamos nas lendas e achamos 
graa nas supersties.
        "Entretanto, estamos a salvo dos efeitos mais srios dessa perseguio. A 
tecnologia do planeta est em nossas mos e controlamos boa parte do magistrio 
das universidades. Alguns de ns, que temos a coragem de externar abertamente 
nossos pontos de vista, encontram alguma dificuldade para lecionar em pblico. 
Meus alunos, por exemplo, preferem se encontrar comigo em algum lugar discreto, 
fora do campus. Caso, porm, fssemos realmente excludos da vida pblica, a 
indstria do planeta entraria em colapso e o ensino superior ficaria muito 
prejudicado. Talvez a ameaa de um suicdio intelectual no os impedisse de dar 
vazo ao seu dio... tal  a dimenso da tolice de que so capazes os seres 
humanos... mas a prpria Fundao nos apoia. Assim, somos constantemente 
criticados, denunciados, reprovados... mas ningum faz nada a respeito!
        -   o medo da opinio pblica que o impede de nos revelar a localizao da 
Terra? - perguntou Trevize. - O senhor teme que, apesar de tudo, o movimento 
contra os cticos possa apanh-lo se o senhor for longe demais?
        Deniador sacudiu a cabea.
        - No. No conheo a localizao da Terra. No estou escondendo nada de 
vocs, nem por medo nem por nenhuma outra razo.
        -  Escute - insistiu Trevize. - Existe um nmero limitado de planetas 
neste setor da Galxia que possuem todas as caractersticas associadas  
habitabilidade, e quase todos devem ser no apenas habitveis, mas tambm 
habitados, e portanto bem conhecidos do senhor. Seria to difcil assim procurar 
por um planeta que teria tudo para ser habitvel, a no ser pelo fato de apresentar 
altos nveis de radioativi-dade? Alm disso, o planeta estaria acompanhado por um 
satlite de tamanho fora do comum. No, a Terra se destacaria claramente, mesmo 
em uma busca superficial. Encontr-la seria apenas uma questo de tempo!
        - Acontece - replicou Deniador - que, de acordo com os cticos, a 
radioatividade da Terra e a existncia de um satlite no passam de lendas.
        -  Talvez, mas isso no deveria impedir os outros comporelianos de tentar. 
Se encontrassem um planeta radioativo de tamanho suficiente para ser habitado, 
com um grande satlite em rbita, as lendas relativas  antiga grandeza de 
Comporellon passariam a ser encaradas com muito mais seriedade pelos outros 
planetas...
Deniador deu uma risada.
        - Pode ser que os comporelianos no tentem exatamente por esse motivo. Se 
a busca no der em nada, ou se encontrarmos uma Terra muito diferente da que  
descrita nas nossas lendas, acontecer o oposto. O passado glorioso de 
Comporellon cair em descrdito. Seremos motivo de riso para toda a Galxia. Meus 
compatriotas no esto dispostos a correr esse risco!
        Trevize pensou um pouco e depois insistiu, em tom ansioso:
        -  Escute, mesmo que a Terra no esteja radioativa, mesmo que no tenha 
nenhum satlite, existe uma terceira caracterstica que, por definio, tem que 
existir, independentemente de qualquer lenda. A Terra, por ser o mais antigo de 
todos os planetas, deve abrigar uma notvel diversidade de formas de vida, ou os 
restos de uma, ou, na pior das hipteses, os vestgios fsseis de uma.
        - Conselheiro - replicou Deniador -, embora Comporellon jamais se tenha 
empenhado em uma busca sistemtica do planeta Terra, viajamos bastante pelo 
espao e ocasionalmente temos tido notcia de naves que, por uma razo ou por 
outra, se desviaram da rota. Os Saltos, como o senhor deve saber, nem sempre so 
exatos. Mesmo assim, nunca foi descoberto nenhum planeta com as caractersticas 
atribudas pelas lendas ao planeta Terra, ou que apresentasse uma variedade de 
formas de vida fora do comum. Assim, se em milhares de anos no foi observado 
nenhum indcio da existncia da Terra, estou propenso a acreditar que  impossvel 
encontrar a Terra porque a Terra no est aqui para ser encontrada.
        - Mas a Terra tem que estar em algum lugar! - exclamou Trevize. - Em 
algum ponto do Universo existe um planeta no qual a espcie humana e todas as 
formas de vida a ela associadas tiveram origem. Se a Terra no fica neste setor da 
Galxia, isso no quer dizer que ela no exista.
        - Pode ser - concordou Deniador, muito srio -, mas at agora ningum 
conseguiu encontr-la.
        -  Talvez no tenham procurado direito.
        -  O que o senhor est disposto a fazer. Desejo-lhe boa sorte, mas no estou 
disposto a apostar no seu xito.
        -  Tem conhecimento de alguma tentativa de descobrir a localizao da 
Terra por meios indiretos, por outros meios que no uma busca direta? - 
perguntou Trevize.
        - Tenho - disseram duas vozes ao mesmo tempo. Deniador, a quem 
pertencia uma das vozes, disse para Pelorat:
        -  Est pensando no projeto de Yariff?
        -  Isso mesmo - confirmou Pelorat.
        -  Ento quer explicar ao conselheiro? Aeho que ele confia mais no senhor 
do que em mim.
        -  Voc sabe, Golan - disse Pelorat -, nos ltimos dias do Imprio, houve 
uma poca em que a Busca das Origens, como era chamada, tornou-se um 
passatempo muito popular, talvez como forma de escapar  realidade desagradvel 
do cotidiano. Na ocasio, o Imprio estava se desintegrando.
        "Pois ocorreu a um historiador lvio chamado Humbal Yariff que o planeta 
original da espcie humana, qualquer que fosse, certamente teria colonizado 
primeiro os planetas mais prximos para depois colonizar os mais distantes. Em 
outras palavras, quanto mais longe um mundo estivesse do planeta de origem, mais 
recentemente teria sido colonizado.
        "Suponhamos, ento, que algum verificasse a data de colonizao de todos 
os planetas habitveis da Galxia e ligasse todos os que tivessem sido colonizados 
no mesmo milnio. Haveria uma superfcie ligando todos os planetas que foram 
colonizados h dez mil anos; outra, ligando os planetas que foram colonizados h 
vinte mil anos; uma terceira, ligando os planetas que foram colonizados h quinze 
mil anos. Teoricamente, todas as superfcies seriam aproximadamente esfricas e 
aproximadamente concntricas. As superfcies associadas a mundos mais antigos 
teriam, raios menores que as associadas a mundos mais recentes. No centro 
comum de todas as esferas estaria o planeta de origem... a Terra.
        Pelorat olhou para o amigo enquanto desenhava superfcies esfricas no ar 
com as mos em concha.
        -  Est acompanhando o meu raciocnio, Golan? Trevize assentiu.
        -   Sim, mas suponho que no deu certo.
        -  Teoricamente, deveria ter dado, meu caro amigo. O problema  que as 
datas de colonizao eram extremamente imprecisas. Todos os planetas 
exageravam, em maior ou menor grau, a prpria antiguidade, e no havia uma 
maneira fcil de determinar a data de colonizao de forma confivel.
        -  Por que no usaram o mtodo do carbono 14 em amostras de madeira? - 
quis saber Bliss.
        -  Para isso, minha cara - explicou Pelorat -, seria preciso a colaborao 
do planeta investigado, o que no era fcil de conseguir. Nenhum planeta queria 
correr o risco de ver abaladas todas as suas tradies; por outro lado, o Imprio no 
estava mais em posio de impor sua vontade. Assim, Yariff teve que se contentar
com planetas que tinham sido colonizados no mximo h dois mil anos e cuja fundao
tinha sido registrada de forma confivel. No havia muitos desses planetas, e
embora estivessem distribudos de forma aproximadamente esfrica, o centro 
ficava, no na Terra, mas perto de Trantor, a capital do Imprio, de onde haviam 
partido as expedies que haviam colonizado esses planetas.
        "Esse, naturalmente, era outro problema. A Terra no era o nico ponto de 
origem para a colonizao de outros planetas. Com o passar do tempo, outros 
planetas tambm se tornaram focos de colonizao; quando o Imprio estava no 
apogeu, Trantor era o mais importante desses focos. Quando os resultados da 
investigao foram conhecidos, Yariff ficou desmoralizado e sua teoria tornou-se 
objeto de ridculo, o que, em minha opinio, foi uma grande  injustia.
        - Obrigado pela explicao, Janov. Dr. Deniador, ento no me pode 
fornecer nenhuma informao til? Sabe de algum outro planeta onde eu possa 
encontrar alguma pista a respeito da localizao da Terra?
        Deniador pensou por alguns instantes.
        - Hum... - comeou, afinal, com muita hesitao - como Ctico, quero 
preveni-lo de que no estou certo da existncia da Terra. Entretanto... - 
Interrompeu-se de novo.
        Afinal, Bliss interveio:
        -  Acho que se lembrou de algo que pode ser importante, doutor.
        -  Importante? Duvido muito - disse Deniador. - Curioso seria um termo 
mais apropriado. A Terra no  o nico planeta cuja localizao constitui um 
mistrio. Existem tambm os mundos da primeira leva de Colonizadores, os 
Espaciais, como so chamados em nossas lendas. Alguns chamam os planetas que 
eles colonizaram de "mundos dos Espaciais"; outros, de "Mundos Proibidos". Hoje 
em dia, o segundo nome  mais comum.
        "No seu apogeu, diz a lenda, os Espaciais viviam centenas de anos e no 
permitiam que nossos ancestrais pousassem em seus mundos. Depois que ns os 
derrotamos, a situao se inverteu. Recusamo-nos a comerciar com eles e 
proibimos que nossas naves e as dos Mercadores visitassem os seus planetas. 
Assim, eles se tornaram Mundos Proibidos. Estvamos certos, diz a lenda, que 
Aquele Que Pune acabaria por destruir os mundos dos Espaciais. A verdade  que 
h vrios milnios que ningum ouve falar dos Espaciais.                               
        - Acha que os Espaciais conhecem a localizao da Terra? - perguntou 
Trevize.
        -   possvel, j que seus planetas so mais antigos do que os nossos. Isto , 
se  que ainda existem Espaciais, o que considero extremamente improvvel.                                         
        -  Mesmo que no existam mais, podem ter deixado registros em seus 
planetas.
        -  Para ter acesso a esses registros, primeiro seria preciso encontrar os 
planetas dos Espaciais...
        Trevize parecia exasperado.
        - Est querendo dizer que as pistas para a localizao da Terra podem ser 
encontradas nos planetas dos Espaciais, para cuja localizao no h nenhuma 
pista?
        Deniador fez uma careta.
        -  Nosso ltimo contato com eles foi h mais de vinte mil anos... Os 
Espaciais, como a Terra, esto perdidos nas trevas da Histria.
        -  Quantos eram os planetas dos Espaciais?
        -  As lendas falam de cinquenta planetas... um nmero redondo demais 
para ser verdadeiro. Provavelmente eram muito menos.
        -  E o senhor no conhece a localizao de pelo menos um desses planetas?
        -  Talvez sim, talvez no...
        -  O que quer dizer?
        Deniador deu um suspiro e explicou:
        -  Meu passatempo, como o do dr. Pelorat,  a Histria antiga. Assim, dedico 
parte do meu tempo ao exame de velhos documentos. No ano passado, chegou s 
minhas mos o dirio de bordo de uma velha espaonave. Os registros, que eram 
quase indecifrveis, datavam de uma poca to antiga que nosso planeta ainda no 
era chamado de Comporellon. O nome que usavam era "Baleyworld", que, a meu 
ver, no passa de uma verso primitiva do "mundo de Benbally" de nossas lendas.
        -  O senhor publicou alguma coisa a respeito? - quis saber Pelorat.
        -  No - respondeu Deniador. - Como diz o ditado, no gosto de 
mergulhar sem ter certeza de que a piscina est cheia. Acontece que, de acordo com 
o dirio, o comandante da nave tinha visitado um planeta dos Espaciais e levado 
com ele uma mulher Espacial.
        -  Mas o senhor disse que os Espaciais no recebiam visitas! - protestou 
Bliss.
        -  Exatamente! Foi por isso que no escrevi nada sobre minha descoberta. 
Parece impossvel. Conheo muitas lendas a respeito dos Espaciais e suas disputas 
com os Colonizadores, nossos antepassados. Essas lendas existem no s em 
Comporellon mas tambm em outros mundos e apresentam muitas variaes, mas 
sob um aspecto esto todas de acordo: os dois grupos, Espaciais e Colonizadores, 
no se misturavam. No havia contatos sociais e muito menos sexuais. No entanto, 
de acordo com o dirio da nave, o comandante Colonizador e a mulher Espacial 
estavam apaixonados um pelo outro. Isto  to incrvel que no vejo nenhuma 
possibilidade de que a histria seja considerada como algo mais que um romance
de fico. Trevize parecia desapontado.
        -  Isso  tudo?
        -  No, conselheiro, h mais uma coisa. Encontrei no dirio de bordo 
daquela nave uma srie de nmeros que poderiam ou no representar coordenadas 
espaciais. Supondo que representassem... como Ctico, sinto-me na obrigao de 
repetir que se trata apenas de uma conjectura... supondo que representassem 
coordenadas espaciais, poderiam indicar a localizao de trs dos planetas dos 
Espaciais. Um deles seria o planeta onde o comandante pousou e de onde partiu 
com a mulher Espacial.
        -  Acha possvel que mesmo que a histria seja fictcia as coordenadas 
sejam reais? - perguntou Trevize.
        -  Pode ser - disse Deniador. - Vou dar os nmeros a vocs. Podem us-
los  vontade, mas talvez no os levem a lugar nenhum... Entretanto, fico 
imaginando...
        -  Imaginando o qu? - perguntou Trevize.
        -  E se entre esses nmeros estivessem as coordenadas da Terra?


27.

O SOL de Comporellon, de cor alaranjada, era maior em aparncia que o sol de 
Terminus, mas estava baixo no cu e dava pouco calor. O vento, que felizmente no 
era forte, tocou o rosto de Trevize com dedos gelados.
        O rapaz estremeceu, apesar do casaco aquecido eletricamente que havia 
recebido de Mitza Lizalor, que no momento estava de p a seu lado.
        -  O sol de vocs no esquenta nada, Mitza - disse Trevize. A ministro 
olhou rapidamente para o sol e continuou ali parada no espaoporto quase vazio, 
sem nenhum sinal de desconforto... alta, corpulenta, usando um traje muito mais 
leve que o de Trevize. Se estava sentindo um pouco de frio, sabia disfarar muito 
bem.
        -  Na verdade, Trevize, temos um lindo vero. No  longo, mas nossas 
lavouras esto adaptadas ao clima do planeta. Usamos variedades que se 
desenvolvem muito depressa na estao quente e resistem bem s geadas. Nossos 
animais domsticos so todos muito peludos; a l de Comporellon  considerada 
com justia a melhor da Galxia.
        Temos tambm algumas fazendas em rbita onde plantamos frutas tropicais. 
Na verdade, somos grandes exportadores de abacaxi em conserva! Pouca gente sabe 
disso. Para muitos, no passamos de um mundo gelado...
        -  Obrigado por vir despedir-se de ns - disse Trevize. - Obrigado tambm 
por nos ajudar em nossa misso. Para minha paz de esprito, entretanto, gostaria 
de saber se isso no lhe vai causar problemas.
        - No! - respondeu a ministro, sacudindo a cabea orgulhosamente. - 
Nenhum problema. Em primeiro lugar, ningum vai questionar minhas ordens. Sou 
encarregada dos meios de transporte. Sou eu quem dita as regras a serem 
cumpridas neste e nos outros espaoportos, sou eu quem decide quais as naves que 
podem pousar e quais as que podem partir. O primeiro-ministro me encarregou 
dessa tarefa e no faz a mnima questo de conhecer os detalhes. Alm disso, mesmo
que eu fosse interrogada, bastaria contar a verdade. O governo me aplaudiria
por no entregar a nave  Fundao. A populao tambm me apoiaria, se chegasse 
a conhecer os fatos.
Trevize insistiu:
        - Concordo em que o governo talvez no quisesse entregar a nave  
Fundao, mas tem certeza de que aprovaria o fato de voc nos deixar partir com 
ela?
        Lizalor sorriu.
        - Voc  um homem decente, Trevize. Lutou com todas as foras para no 
perder a nave e agora que conseguiu o que queria encontra tempo para preocupar-
se com o meu bem-estar!
        Estendeu a mo para o rapaz, como se estivesse a ponto de fazer um gesto de 
carinho, mas controlou o impulso com dificuldade. Prosseguiu, de forma mais 
impessoal:
        -  Se no concordarem com minha deciso, terei apenas que revelar que 
vocs estavam, e ainda esto,  procura d'O Mais Antigo. Todos vo dizer que fiz 
muito bem em me livrar de vocs, com nave e tudo. Vo encenar todo um ritual de 
expiao, apenas pelo fato de vocs terem pisado no planeta!
        - Acha que nossa presena pode trazer m sorte para voc e para 
Comporellon?
        -  Acho, sim - declarou Lizalor, em tom de desafio. Depois prosseguiu, de 
forma mais branda: - Voc j me trouxe m sorte, pois agora, que conheci voc, os 
homens de Comporellon vo me parecer mais inspidos que nunca. Ficarei com um 
desejo insacivel. Aquele Que Pune j providenciou para que isso acontecesse.
Trevize hesitou por um momento e depois disse:
        -  No quero que mude de opinio a meu respeito, mas tambm no quero 
que se preocupe sem necessidade. Essa histria de que minha chegada lhe trouxe 
m sorte no passa de superstio.
        -  Aposto que foi o Ctico quem disse isso.
        -  No preciso de que o Ctico me diga.
        Lizalor passou a mo pelo rosto, pois uma fina camada de gelo estava se 
acumulando nas sobrancelhas espessas. Depois, disse:
        -  Sei que alguns consideram isso superstio. Estou convencida, porm, de 
que O Mais Antigo traz m sorte. Este fato j foi demonstrado vezes sem conta e 
nem todos os argumentos engenhosos dos Cticos so suficientes para mudar a 
verdade.                       
        A ministro estendeu a mo.                                        
        -  Adeus, Golan. Entre na nave e junte-se aos seus companheiros antes que 
o seu corpo frgil de terminiano sucumba ao nosso vento frio mas gentil.
        -  Adeus, Mitza. Espero voltar em breve.
        -  Voc fala em voltar e eu procuro me convencer de que isso ser possvel. 
Cheguei a pensar em ir ao seu encontro no espao, para que a m sorte recaia 
apenas sobre mim e no sobre meu planeta... mas a verdade  que voc nunca 
voltar.
        - Est enganada! Eu voltarei! No desistiria com tanta facilidade de uma 
mulher como voc! - exclamou Trevize, com toda a sinceridade.
        -  No duvido dos seus impulsos romnticos, meu galante terminiano, mas 
aqueles que partem  procura d'o Mais Antigo jamais retornam.
        Trevize esforou-se para evitar que os dentes batessem de frio. No queria
que a ministro pensasse que estava com medo.
        -  Lizalor, isso no passa de superstio.
        -  Para mim,  a mais pura verdade.


28.

ERA BOM estar de volta  sala de comando do Estrela Distante. Podia ser apertada. 
Podia ser uma bolha de confinamento no espao infinito. Mesmo assim, era 
familiar, amistosa, e morna.
        - At que enfim! - disse Bliss. - Estava imaginando quanto tempo voc 
ficaria com a ministro.
         -  Fiquei morrendo de frio - disse Trevize.
        -  Estava com medo de que voc resolvesse ficar com ela e adiar a viagem 
em busca da Terra - disse a moa. - Sabe que no gosto de ler seus pensamentos, 
mas no pude deixar de perceber a tentao que passou por sua cabea.
        -  Tem razo. Senti forte tentao de ficar. A ministro  uma mulher notvel, 
nunca conheci ningum igual a ela. Bliss, voc me fez mudar de idia?
        -  J lhe disse vrias vezes que no devo e no vou influenci-lo de forma 
alguma, Trevize. Imagino que afinal o seu senso de dever tenha prevalecido.
        -  No, acho que no foi isso - disse o rapaz, com um sorriso irnico. -
Nada de to nobre. Acontece que, para comear, eu estava mesmo morrendo de frio, 
e, alm disso, ocorreu-me o triste pensamento de que eu simplesmente no tenho 
preparo fsico para viver por muito tempo com uma mulher como aquela.
        -  Seja como for, voc est de volta a bordo - disse Pelorat. - O que vamos 
fazer agora?
        -  No futuro imediato, vamos viajar por este sistema planetrio at estarmos 
suficientemente afastados do sol de Comporellon para executarmos um Salto.
        -  Acha que algum vai nos deter ou tentar nos seguir?
        -  No. Acredito que a ministro est realmente ansiosa para que a gente v 
embora o mais depressa possvel, de forma a que o castigo d'Aquele Que Pune no 
recaia sobre o planeta. Na verdade...
        -  Sim?
        - Na verdade, Lizalor tem certeza de que seremos punidos. Acredita 
firmemente que jamais retornaremos de nossa busca. Isto, apresso-me a 
acrescentar, no  uma estimativa do meu grau provvel de infidelidade, coisa que 
ela no teve tempo de avaliar. No, o que ela pensa  que a Terra constitui um 
smbolo to terrvel de m sorte que os que a buscam no tm chance alguma de 
sobreviver.
        - Quantos comporelianos partiram do planeta em busca da Terra para que 
ela possa fazer esse tipo de afirmao? - perguntou Bliss.
        -  Duvido que algum comporeliano jamais tenha partido em busca da Terra. 
Eu disse para ela que seus temores eram infundados, que tudo no passava de 
superstio.
        -  Tem certeza de que acredita nisso, ou ela o deixou em dvida?
        -  O medo de Lizalor se baseia apenas na superstio, mas mesmo assim 
pode ser justificado.
        -  Est querendo dizer que a radioatividade nos matar se nos 
aproximarmos demais da Terra?
        -  No acredito que a Terra esteja radioativa. Em minha opinio, o que a 
Terra faz  proteger-se dos intrusos. Lembre-se de que todas as referncias  Terra 
na Biblioteca de Trantor foram removidas. Lembre-se de que nem a memria 
maravilhosa de Gaia, da qual todo o planeta participa, desde as pedras das 
montanhas at o ncleo de metal fundido,  capaz de revelar-nos coisa alguma a 
respeito da Terra.
        " evidente que se a Terra  suficientemente poderosa para apagar todos os 
vestgios de sua existncia, tambm  capaz de disseminar a crena de que se 
tornou radioativa, desencorajando possveis buscas. Talvez Comporellon fique 
suficientemente prximo da Terra para representar um perigo especial, que 
justifique esse esforo extraordinrio. Deniador, que  um ctico e um cientista, 
est totalmente convencido de que no adianta procurar a Terra.  por isso que eu 
acho que talvez a superstio da ministro, afinal de contas, tenha razo de ser. Se a 
Terra est to interessada em esconder-se, no seria capaz de matar aqueles que 
estivessem prximos de descobri-la?
        Bliss franziu a testa e comeou:
        -  Gaia...
        - No diga que Gaia nos proteger - interrompeu Trevize. - Se a Terra 
conseguiu apagar as memrias mais antigas de Gaia,  evidente que em qualquer 
conflito entre os dois, a Terra sair vitoriosa.
        - Como sabe que essas memrias foram removidas? - protestou Bliss. - 
Pode ser que Gaia tenha levado um certo tempo para desenvolver uma memria 
planetria, de modo que hoje no podemos ler acesso a fatos que ocorreram antes 
que essa memria estivesse bem desenvolvida. Mas mesmo que algumas memrias 
tenham sido removidas, como pode ter certeza de que a responsvel foi a Terra?
        - No posso - admitiu Trevize. - Estou apenas especulando Pelorat 
interveio timidamente:
        - Se a Terra  to poderosa e est to preocupada em resguardar sua 
privacidade, por assim dizer, de que adianta continuarmos a busca? Voc parece 
acreditar que a Terra ser capaz de matar-nos se for necessrio para impedir que 
sua localizao seja revelada. Nesse caso, no seria mais sensato desistirmos 
enquanto ainda estamos vivos?
        -  Admito que pode parecer assim, mas tenho uma forte convico de que a 
Terra existe e de que devo e posso encontr-la. E Gaia me assegura que quando 
tenho uma forte convico, sempre estou certo.
        -  Pode ser, mas como vamos fazer para sobreviver  descoberta, meu caro 
amigo? - Talvez a prpria Terra seja forada a reconhecer que eu tenho o dom de 
sempre tomar a deciso acertada e decida deixar-me em paz. Por outro lado... e  
isso o que me preocupa... no tenho a menor garantia de que vocs dois vo 
sobreviver. Venho pensando nisso h algum tempo, mas agora, que voc mesmo 
tocou no assunto, acho que devemos tomar uma atitude. Por que no levo vocs 
devolta para Gaia e continuo sozinho? Afinal, fui eu, e no vocs, que achei que era 
importante localizar a Terra. Ento sou eu, e no vocs, que devo correr o risco. 
Que acha, Janov?
        O rosto comprido de Janov pareceu ainda mais longo Quando ele enterrou o 
queixo no pescoo.
        -  No vou negar que esteja com medo, Golan, mas  jamais o abandonaria. 
Para mim,  uma questo de honra.
        -  Bliss?
        -  Gaia tambm no pode abandon-lo, Trevize. Se a  Terra o ameaar, Gaia 
far tudo para proteg-lo. Alm disso, como Bliss, quero estar ao lado de Pel; se ele 
resolveu continuar, devo continuar tambm.
        -  Est bem - disse Trevize, muito srio. - Vocs tiveram a sua 
oportunidade de desistir. Continuaremos juntos.
        -  Juntos - repetiu Bliss.
        Pelorat sorriu e deu um tapinha no ombro do amigo.
        -  Juntos. Sempre juntos.

29.

BLISS DISSE:
        - Olhe para isso, Pel.
        A jovem tinha estado manipulando o telescpio, praticamente ao acaso, como 
alternativa a examinar no vdeo uma das obras da biblioteca de Pelorat a respeito 
da Terra.
        Pelorat aproximou-se, colocou o brao no ombro da moa e olhou para a tela. 
Um dos gigantes gasosos do sistema planetrio de Comporellon estava  vista, 
ampliado at parecer o grande astro que realmente era.
O planeta tinha cor alaranjada, com faixas mais claras. Visto do plano da eclptica, 
e mais afastado do sol que a nave, era um crculo luminoso quase completo.
        -   lindo! - exclamou Pelorat.
        -  A faixa central  maior que o planeta, Pel. Pelorat franziu a testa e disse:
        -  Sabe que voc tem razo?
        -  Acha que se trata de uma iluso de tica?
        -  No sei, Bliss. Sou um novato no espao tanto quanto voc... Golan!
        Trevize respondeu ao grito com um "Que foi?" pouco entusiasmado e entrou 
na sala de comando com a aparncia um pouco amarrotada de quem estava tirando 
um cochilo de roupa e tudo... o que era exatamente o que tinha estado fazendo.
        -  No brinquem com os instrumentos! - exclamou, mal-humorado.
        -   apenas o telescpio - disse Pelorat. - Veja isso. Trevize olhou.
        -   um gigante gasoso, aquele que os comporelianos chamam de Gallia.
        -  Como pode reconhec-lo com tanta facilidade?
        -  Na distncia a que estamos do sol, e dadas as posies atuais dos 
planetas, que tive que examinar quando estava calculando nosso curso,  o nico 
gigante gasoso que poderia aparecer deste tamanho no telescpio. Alm disso, estou 
vendo o anel.
        -  Anel? - repetiu Bliss, surpresa.
        -  Tudo o que se v  uma faixa central mais clara, porque estamos olhando 
para o anel praticamente de perfil. Posso tirar a nave do plano da eclptica para 
termos uma vista melhor. Esto interessados?
        -  No quero obrig-lo a recalcular o nosso curso, Golan - disse Pelorat.
        -  No se preocupe, o computador far isso para mim num instante.
        Enquanto falava, Trevize sentou-se e colocou as mos sobre as "mos" do 
computador, assumindo o controle na nave.
        O Estrela Distante, livre de problemas de combustvel e de inrcia, acelerou 
rapidamente e mais uma vez Trevize sentiu uma onda de paixo pela combinao 
de computador e nave que atendia to prontamente aos seus desejos, como se fosse 
controlada diretamente por seus pensamentos, como se no passasse de uma 
extenso poderosa e obediente de sua vontade.
        No era de admirar que a Fundao a quisesse de volta; era mais do que 
compreensvel que Comporellon desejasse conserv-la. A nica coisa estranha era 
que a fora da superstio tivesse sido suficiente para fazer Comporellon mudar de 
idia.
        Equipada com armamentos pesados, o Estrela Distante seria capaz de vencer 
em combate qualquer nave da Galxia, ou mesmo qual-quer combinao de naves... 
contanto que no tivesse que se defrontar com outra nave da sua classe.
        Naturalmente, no momento a nave no dispunha de armamentos pesados, 
ou de qualquer outro tipo de armamentos. Antes de entregar o Estrela Distante a 
Trevize, a prefeito Branno tinha mandado remover, por prudncia, todos os 
sistemas de armas.
        Pelorat e Bliss observaram atentamente enquanto o planeta Gal-lia rolava 
devagar, bem devagar, na tela do telescpio. O plo superior ficou bem visvel, 
rodeado por um grande crculo de turbulncia, enquanto o plo inferior escondeu-
se atrs do planeta.
        Na parte de cima, o lado escuro do planeta invadiu o disco de luz alaranjada 
e o belo crculo transformou-se pouco a pouco em um crescente.
O mais interessante, porm, foi que a faixa central, que originalmente era reta, 
passou a exibir uma curvatura perceptvel. O mesmo ocorreu, em menor grau, com 
as outras faixas acima e abaixo.
        Agora a faixa central estendia-se nitidamente alm do planeta e exibia uma 
curvatura acentuada nas extremidades. No podia ser uma iluso de tica; no 
havia mais dvidas quanto a sua natureza. Era um anel de matria, girando em 
torno do planeta.
        - Daqui j d para vocs terem uma idia - disse Trevize. Se nos 
colocssemos acima de um dos plos, vocs veriam o anel em sua forma circular, 
concntrico com o planeta, sem toc-lo em ponto algum. Tambm devem estar 
reparando que no se trata de apenas um anel, mas de vrios anis concntricos.
        -  No pensei que uma coisa dessas fosse possvel - disse Pelorat, 
admirado.         - O que  que mantm o anel em posio?
        -  A mesma coisa que mantm um satlite no espao - explicou Trevize. - 
Os anis so constitudos por pequenas partculas, todas em rbita em torno do 
planeta. Os anis esto to prximos do planeta que o efeito de mar impede que as 
partculas se fundam para formar um nico corpo.
Pelorat sacudiu a cabea.
        -  Meu amigo, fico triste s de pensar. Como  possvel que eu tenha
passado a vida inteira estudando e saiba to pouco de astronomia?
        -  E eu no sei nada a respeito de Histria antiga. Ningum pode dominar
todos os ramos do conhecimento... A verdade  que esses anis planetrios no tm
nada de especial. Esto presentes, em maior ou menor escala, em quase todos os
gigantes gasosos. Infelizmente, o sistema de Terminus no tem nenhum planeta
que possa ser considerado um gigante gasoso, de modo que a menos que um
terminiano seja um viajante espacial, ou tenha feito um curso de Astronomia, o
mais provvel  que nunca tenha ouvido falar em anis planetrios. Por outro lado,
o anel que vocs esto vendo  excepcionalmente largo e brilhante.  lindo... deve
ter no mnimo duzentos quilmetros de largura. Nesse momento, Pelorat estalou os
dedos.
        -  Ento  isso!
        Bliss olhou para ele, espantada.
        - Isso o qu, Pel? Pelorat explicou:
        - Uma vez tive nas mos um fragmento de uma poesia muito antiga, escrita
em uma verso arcaica de galctico que era difcil de entender mas que constitua,
por si s, uma garantia da autenticidade do documento... Eu devia ser o ltimo a
reclamar dos dialetos arcaicos, meu amigo. Devido  minha profisso, tornei-me por
necessidade um especialista nas diversas variantes do galctico antigo, o que, para
mim, constitui motivo de orgulho, mesmo que no tenha utilidade alguma na vida
prtica... De que  mesmo que eu estava falando?
        -  De uma velha poesia, querido - disse Bliss.
        -  Obrigado, Bliss. - Voltou-se para Trevize: - Bliss se acostumou a
prestar muita ateno no que estou dizendo para me colocar de novo nos trilhos
quando eu me desvio do assunto, o que est sempre acontecendo.
        -  Isso faz parte do seu charme, Pel - disse Bliss, sorrindo.
        - Seja como for, essa poesia supostamente continha uma descrio do 
sistema planetrio do qual a Terra fazia parte. No sabemos o que motivou o poeta, 
pois jamais conseguimos localizar o resto da obra. Sobreviveu apenas esse 
fragmento, talvez por conter informaes de carter astronmico. Falava de um anel
trplice, muito brilhante, no sexto planeta do sistema, um anel "mui grandes y
bellos, elles phaziam o astro insigniphicante em comparaam". Ainda me lembro de
cor, como podem ver. Na poca, no sabia o que podia ser um anel planetrio.
Pensei em trs crculos flutuando acima da superfcie do planeta. Parecia uma coisa
to sem sentido! Nem me dei ao trabalho de pesquisar mais a fundo. Agora estou 
arrependido. - Sacudiu a cabea. - Ser um historiador nos dias de hoje  um trabalho
to solitrio que a gente se esquece das vantagens de consultar os
especialistas.
        Trevize observou,  guisa de consolo:
        -  Provavelmente voc estava certo quando no levou o poema a srio, 
Janov. Tudo no devia passar de uma imagem literria.
        - Mas agora eu sei o que o poeta queria dizer! - exclamou Pe-lorat, 
apontando para a tela. - Trs anis enormes, concntricos, mais largos que o 
prprio planeta!
        -  Nunca ouvi falar de nada parecido - disse Trevize. - No acho que possa 
haver anis to largos. Comparados com o planeta que circundam, so sempre 
muito estreitos.
        -  Tambm nunca ouvimos falar de um planeta com um satlite gigantesco
- objetou Pelorat. - Ou com uma crosta radioativa. Trata-se apenas de mais uma
entre vrias peculiaridades do sistema da Terra. Se encontrarmos um planeta
radioativo com um grande satlite e outro planeta do mesmo sistema tiver grandes
anis, no terei a menor dvida de que encontramos a Terra!
        Trevize sorriu.
        - De acordo, Janov. Se encontrarmos todos os trs indcios, certamente 
teremos encontrado a Terra.
        -  Se! - exclamou Bliss, com um suspiro.


30.

ESTAVAM AGORA nos limites do sistema planetrio de Comporellon. Depois de 
ultrapassarem a rbita do ltimo gigante gasoso, estavam passando entre os dois 
planetas mais afastados do sistema, de modo que no havia nenhuma massa 
significativa em um raio de 1, 5 bilho de quilmetros.  frente havia apenas a 
tnue nuvem de cometas, que, para todos os efeitos prticos, podia ser ignorada.
        O Estrela Distante tinha atingido uma velocidade de 0, 1c, um dcimo da 
velocidade da luz. Trevize sabia que, teoricamente, a nave era capaz de atingir uma 
velocidade prxima  da luz, mas sabia tambm que, na prtica, 0, 1c era o limite 
razovel.
        Nessa velocidade, qualquer objeto de tamanho aprecivel podia ser evitado, 
mas no havia meio de impedir que a nave colidisse com partculas de poeira 
espacial ou mesmo com molculas e tomos isolados, ainda mais numerosos. Em 
alta velocidade, mesmo esses pequenos objetos podiam causar danos, arranhando e 
corroendo o casco da nave. Em velocidades prximas  da luz, cada tomo que 
penetrava no casco tinha as propriedades de uma partcula de radiao csmica. 
Submetida a essa radiao, a tripulao da nave no sobreviveria por muito tempo. 
As estrelas distantes pareciam imveis na tela do telescpio; embora a nave 
estivesse se movendo a trinta mil quilmetros por segundo, era como se estivesse 
parada.
        O computador esquadrinhava o espao em todas as direes, em busca de 
objetos, grandes ou pequenos, que pudessem estar em rota de coliso, preparado 
para executar uma pequena mudana de curso no caso extremamente improvvel 
em que ela fosse necessria. Graas ao pequeno tamanho da imensa maioria dos 
objetos,  velocidade com que passavam e  falta de qualquer efeito de inrcia no 
caso de uma manobra brusca, os passageiros no tinham meios de saber se alguma 
vez haviam corrido perigo. Assim, Trevize no se preocupava com essas coisas. Em
vez disso, concentrava a ateno dos trs conjuntos de coordenadas que havia
recebido de Deniador, particularmente no objeto que ficava mais prximo na
posio atual da nave.
        -  H alguma coisa errada com os nmeros? - perguntou Pelorat, em tom
ansioso.
        -  Ainda no sei - respondeu Trevize. - As coordenadas no servem para
nada, a no ser que se conheam o ponto de origem e as convenes usadas para
marc-las: direes, escalas, etc.
        -  E como se pode saber essas coisas? - perguntou Pelorat.
        -  Obtive as coordenadas de Terminus e de alguns outros pontos conhecidos 
em relao a Comporellon. Se eu as colocar no computador, ele calcular quais 
devem ser as convenes para que a localizao de Terminus e dos outros pontos 
seja determinada corretamente. Estou apenas tentando organizar as coisas na 
minha mente de modo a poder programar o computador de forma adequada para 
esta tarefa, Depois de conhecidas as convenes, os nmeros de que dispomos para 
os Mundos Proibidos talvez adquiram algum significado.
        -  Talvez? - repetiu Bliss.
        -  Talvez - confirmou Trevize. - Esses nmeros so muito antigos... pode 
ser que se baseiem nas convenes usadas em Comporellon, mas isto no  certo. E 
se as convenes forem outras?
        -  E se forem?
        -  Nesse caso, os nmeros no tero nenhuma utilidade. Mas logo 
saberemos.
Trevize apertou as teclas do computador com dedos geis, fornecendo-lhe as 
informaes necessrias. Depois, colocou as mos sobre as "mos" da escrivaninha. 
Esperou um momento, enquanto o computador determinava as convenes usadas 
nas coordenadas conhecidas, interpretava as coordenadas do Mundo Proibido mais 
prximo com base nas mesmas convenes e finalmente localizava essas
coordenadas no mapa da Galxia.
        Um campo estelar apareceu na tela e comeou a mudar rapidamente.
Quando as estrelas se estabilizaram, a imagem foi ampliada ra-pidamente. A 
maioria das estrelas desapareceu nas bordas da tela. Afinal, restou apenas uma 
regio cbica com um dcimo de parsec de lado (de acordo com o nmero que 
apareceu em um canto da tela). No houve mais nenhuma alterao. A escurido 
da tela era quebrada apenas por uma meia-dzia de pontos pouco brilhantes.
        -  Qual deles  o Mundo Proibido? - perguntou Pelorat, em tom ansioso.
        -  Nenhum deles - respondeu Trevize. - Quatro so ans vermelhas, uma 
 uma an infravermelha e a ltima  uma an branca. Nenhuma dessas estrelas 
pode ser orbitada por um planeta habitvel.
        -  Como pode saber quais as que so ans vermelhas? No vejo nenhuma 
diferena.
        -  No estamos olhando para estrelas de verdade - explicou Trevize. - 
Estamos olhando para uma parte do mapa da Galxia, que est guardado na 
memria do computador. Junto com o mapa, esto armazenadas informaes a 
respeito de todas as estrelas. O computador no mostra essas informaes na tela, 
mas enquanto minhas mos estiverem em contato com ele, posso obter os dados 
que quiser, bastando para isso fixar os olhos na estrela desejada.
        -  Ento as coordenadas so inteis - disse Pelorat, desanimado. Trevize 
olhou para ele.
        -  No, Janov. Ainda no desisti. Temos que nos lembrar de que esses 
registros so muito antigos. As coordenadas do Mundo Proibido so as de h vinte 
mil anos atrs. Nesse tempo, tanto ele como Comporellon tm girado em torno do 
centro da Galxia, e podem muito bem estar girando com velocidades diferentes e 
em rbitas com diferentes inclinaes e excentricidades. Com o tempo, portanto, os 
dois planetas podem ter se aproximado ou se afastado. Em vinte mil anos, a 
distncia entre Comporellon e o Mundo Proibido pode muito bem ter variado de uns 
cinco parsecs, o que o colocaria bem fora do cubo de um dcimo de parsec.
        -  O que vamos fazer, ento?
        -  Vamos pedir ao computador para fazer a Galxia voltar vinte mil anos no
tempo em relao a Comporellon.
        -  Isso  possvel? - perguntou Bliss, admirada.
        -  Pelo menos, o computador pode mudar a posio das estrelas no mapa da
Galxia, de modo a represent-las como eram h vinte mil anos atrs.
        -  O que vai acontecer na tela? - perguntou Bliss.
        -  Observe - disse Trevize. Muito lentamente, as seis estrelas comearam a 
se deslocar na tela. Uma nova estrela apareceu no lado esquerdo da tela e Pelorat 
apon-tou para ela, animado:
        -  Ali est! Ali est!
        -  Sinto muito - disse Trevize. - Outra an vermelha. Elas so muito 
comuns. Pelo menos trs quartos das estrelas da Galxia so vermelhas.
        As estrelas pararam de se mover na tela.
        -  E ento? - perguntou Bliss.
        -   isso a - disse Trevize. - Era assim que era esse setor da Galxia h 
vinte mil anos atrs. No centro da tela fica o ponto onde deveria estar o Mundo 
Proibido, se o seu sol acompanhou o movimento mdio das estrelas da regio.
        -  Deveria, mas no est - disse Bliss.
        - No, no est - repetiu Trevize, sem emoo. Pelorat deu um longo 
suspiro.
        -  uma pena, Golan.
        - No se desespere - disse Trevize. - Eu no estava esperando encontrar 
nenhuma estrela nesse lugar.
        -  No?
        -  No. J lhe disse que o que estamos vendo no  a Galxia, mas um 
mapa da Galxia que est guardado na memria do computador. Se uma estrela 
no est na memria, no aparece na tela. Ora, um planeta que  chamado de 
"Proibido" e que vem sendo chamado assim nos ltimos vinte mil anos 
provavelmente no foi includo no mapa e portanto no pode aparecer na tela.
        -  Por outro lado - argumentou Bliss -, pode ser que ele simplesmente no 
exista. Talvez a lenda seja falsa ou as coordenadas estejam erradas.
        -  verdade. Agora, porm, que o computador determinou o local onde o 
Mundo Proibido deveria ter estado h vinte mil anos atrs, ele pode calcular suas 
coordenadas no momento presente. Usando essas novas coordenadas, o que 
somente foi possvel calcular com o auxlio do mapa estelar, podemos passar agora 
para uma vista da Galxia de verdade.
        -  Voc sups que o sol do Mundo Proibido acompanhou o movimento mdio 
das estrelas da regio - disse Bliss. - E se isso no ocorreu? Ele pode estar longe
da posio calculada!
        -   verdade. Por outro lado, a posio das estrelas mudou tanto nos
ltimos vinte mil anos que mesmo uma correo com base em uma velocidade 
estimada  melhor que nenhuma correo. Espero que a posio que calculamos 
no esteja muito longe da posio real. - Voc espera! - repetiu Bliss, em tom 
irnico.
        -  Exatamente. No mais que isso - disse Trevize. - Agora, vamos dar uma
olhada na Galxia de verdade.
        Bliss e Pelorat observaram atentamente enquanto Trevize (talvez para relaxar
a tenso e adiar o momento da verdade) falava devagar, como se estivesse dando
uma aula.
        -  A Galxia de verdade  mais difcil de observar. O mapa do computador 
uma estrutura artificial que pode ser manipulada  vontade. Se h uma nuvem de
gs atrapalhando minha viso, posso remov-la. Se o ponto de vista no me 
satisfaz, posso mud-lo, e assim por diante. No caso da Galxia de verdade, porm, 
as coisas so como so. Se quero observ-la de outro ngulo, tenho que 
movimentar minha nave para a posio desejada, o que leva muito mais tempo que 
ajustar um mapa.
Enquanto falava, a tela mostrava um aglomerado de estrelas to denso que parecia 
uma nuvem de poeira.
        - Esta  uma vista geral da Via Lctea - disse Trevize. - Naturalmente, 
terei que aumentar bastante a ampliao para examinar o setor em que estamos 
interessados. O ponto cujas coordenadas calculamos est suficientemente prximo 
de Comporellon para que a imagem ampliada corresponda ao ponto de vista do 
mapa que vimos na tela h alguns minutos. Deixem-me fornecer as instrues 
necessrias para o computador. Pronto.
        A imagem na tela se expandiu rapidamente. Milhares e milhares de estrelas 
comearam a se deslocar rapidamente para as bordas da tela, onde desapareciam. 
A sensao de movimento era to forte que os trs inclinaram o corpo para trs, 
como que para compensar uma acelerao inexistente.
        Afinal, a tela mostrou uma imagem muito semelhante  do mapa que haviam 
observado anteriormente. Entretanto, alm das seis estrelas visveis no mapa, havia 
uma nova estrela, muito mais brilhante que as outras.
        -   ela - sussurrou Pelorat.
        -  Pode ser. Vou mandar o computador analisar o espectro. - Depois de 
algum tempo, Trevize disse: - Classe espectral G-4, o que a faz um pouquinho 
menor e mais fraca que o sol de Terminus, mas bem mais brilhante que o sol de 
Comporellon. Acontece que nenhuma estrela da classe G deveria ser excluda do 
mapa da Galxia que est na memria do computador. Para mim, o fato de esta 
estrela no constar do mapa  uma forte indicao de que estamos na pista certa.
        -   possvel que, afinal de contas, no haja nenhum planeta girando em 
torno dessa estrela? - perguntou Bliss.
        -  Sim,  possvel - respondeu Trevize. - Nesse caso, tentaremos localizar
os outros dois Mundos Proibidos.
        -  E se tambm no conseguirmos nada com os outros dois? - insistiu
Bliss.
        - Tentaremos outra coisa.
        -  O qu?
        - Gostaria de saber - disse Trevize, sombriamente.


















PARTE TRS
 

AURORA














Captulo 8

O Mundo Proibido





31.

GOLAN - disse Pelorat. - Voc se incomoda se eu ficar olhando?
        - Claro que no, Janov - disse Trevize. -   E se eu fizer perguntas? - V
em frente.
        -  Que  que voc est fazendo? Trevize levantou os olhos da tela.
        -  Tenho que medir a distncia a que estamos de todas aquelas estrelas que 
voc est vendo na tela. Preciso conhecer as massas e as posies das estrelas para 
calcular o campo gravitacional na regio. Sem essa informao, seria arriscado
executarmos o Salto.
        -  Como  que voc calcula tudo isso?
        - Cada estrela que estou vendo tem suas coordenadas nos bancos de 
memria do computador e elas podem ser transformadas em coordenadas no 
sistema de Comporellon. Essas, por sua vez, podem ser corrigidas de modo a levar 
em conta a posio atual do Estrela Distante em relao ao sol de Comporellon. Isso 
me d a distncia a que nos encontramos de cada uma das estrelas. As ans 
vermelhas parecem prximas do Mundo Proibido quando vistas na tela do telescpio,
mas algumas podem estar muito mais prximas do que outras. O telescpio
nos d apenas uma viso bidimensional, voc compreende?
        Pelorat assentiu e disse: -  E voc j tem as coordenadas do Mundo 
Proibido...
        -  Sim, mas no  suficiente. Tenho que conhecer as distncias a que se 
encontram as outras estrelas com uma preciso de aproximadamente um por cento. 
O campo gravitacional dessas estrelas nas vizinhanas do Mundo Proibido  to 
fraco que um pequeno erro no faria nenhuma diferena. Entretanto, o sol do 
Mundo Proibido produz um campo gravitacional to intenso nas proximidades do 
Mundo Proibido que preciso conhecer sua distncia com uma preciso mil vezes 
maior. Nesse caso, no basta conhecer as coordenadas.
        -  O que vai fazer, ento?
        -  Estou medindo a distncia aparente entre o sol do Mundo Proibido e trs 
estrelas que aparecem na tela mas que so to fracas que devem estar muito mais 
longe de ns que o Mundo Proibido. Vou manter uma dessas estrelas do centro da 
tela e dar um Salto de um dcimo de parsec na direo perpendicular  reta que 
liga nossa nave  posio do Mundo Proibido.
        "A estrela de referncia continuar no centro da tela depois do Salto. Se as 
outras duas estrelas apagadas estiverem realmente muito distantes, sua posio 
no mudar apreciavelmente depois do Salto. Por outro lado, o sol do Mundo 
Proibido est muito mais prximo de ns, de modo que sua posio aparente dever
mudar, graas ao efeito de paralaxe. Medindo o deslocamento aparente do sol do
Mundo Proibido, poderemos calcular a que distncia se encontra de ns. Para ter 
certeza absoluta, pretendo escolher trs outras estrelas e repetir tudo de novo.
        -  Quanto tempo vai levar? - perguntou Pelorat.
        -  Menos do que voc pensa. O computador se encarrega do trabalho 
pesado; basta que eu lhe diga o que fazer. O que leva mais tempo  analisar os 
resultados, verificar se so razoveis e se todas as instrues foram corretas. Se eu 
fosse um daqueles sujeitos que depositam f ilimitada em si prprios e nos 
computadores, poderia executar toda a operao em poucos minutos.
        -  fantstico - observou Pelorat. - Pense no que os computadores 
modernos so capazes de fazer!
        -  Penso nisso o tempo todo.
        -  O que faria sem o seu computador?
        -  O que faria sem uma nave gravtica? O que faria sem meus 
conhecimentos de astronutica? Que faria sem vinte mil anos de tecnologia 
hiperespacial por trs de mim? O que importa  que sou eu mesmo... aqui... agora. 
Imagine que pudssemos nos transportar para daqui a vinte mil anos. Que 
maravilhas tecnolgicas encontraramos? Ou ser que daqui a vinte mil anos a 
humanidade estar extinta?
        -  No diga isso - protestou Pelorat. - Mesmo que no nos tornemos parte 
de Gaia, ainda teremos a psico-histria para nos guiar.
        Trevize virou-se na cadeira, soltando a "mo" do computador.
        -  Vou deix-lo calcular as distncias e conferir os resultados  vontade... 
No estamos com pressa.
        Olhou de soslaio para Pelorat e exclamou:
        - Psico-histria! Voc sabe, Janov, por duas vezes esse assunto surgiu em 
Comporellon, e por duas vezes foi chamado de superstio, primeiro por mim e 
depois por Deniador. Afinal de contas, como se pode definir a psico-histria a no 
ser como a superstio favorita da Fundao? No se trata de uma crena sem 
provas palpveis? O que acha, Janov? Afinal,  mais do seu campo do que do meu.
        -  Por que est afirmando que no h provas? A imagem holo-grfica de Hari
Seldon j apareceu muitas vezes no Cofre do Tempo, referindo-se a fatos que 
realmente ocorreram. Seldon no poderia ter conhecimento desses fatos se no 
pudesse prev-los com o auxlio da psico-histria.
        Trevize assentiu.
        - Realmente, os resultados que Seldon conseguiu so impressionantes. Ele 
no foi capaz de prever o aparecimento do Mulo, mas mesmo assim os resultados 
so impressionantes. Entretanto, o que ele fez parece mgica. Todo ilusionista tem 
seus truques.
        -  Nenhum ilusionista  capaz de prever o futuro.
        - Nenhum ilusionista  capaz de fazer o que o pblico pensa que ele est 
fazendo.
        -  Deixe disso, Golan. No consigo pensar em nenhum truque que me 
permita prever o que vai acontecer daqui a cinco sculos.
        - Nem consegue pensar em nenhum truque que permita a um mgico 
conhecer o contedo de um envelope colocado em um satlite no-tripulado. Mesmo 
assim, j vi um mgico fazer isso. J lhe ocorreu que o Cofre do Tempo, juntamente 
com a imagem hologrfica de Hari Seldon, pode ser uma farsa do governo?
        Pelorat pareceu revoltado com a idia
        -  Eles no teriam coragem. Trevize fez um muxoxo.
        -  E seriam desmascarados se tentassem - acrescentou Pelorat.
        -  No estou to certo. A verdade, porm,  que no sabemos como a psico-
histria funciona.
        - No sabemos como esse computador a funciona, mas sabemos que 
funciona. -  Acontece, meu amigo, que outras pessoas sabem como funciona. E se 
ningum soubesse como ele funciona? Ento, se por alguma razo ele parasse de 
funcionar, ningum saberia consert-lo. Se as previses da psico-histria de 
repente deixarem de se concretizar...
        -  A Segunda Fundao conhece os fundamentos da psico-histria.
        -  Como sabe isso, Janov?
        -  Ouvi dizer.
        - Isso no quer dizer que seja verdade... Ah, o computador calculou a 
distncia a que estamos do sol do Mundo Proibido. Vamos ver se os nmeros so 
razoveis...
        Trevize ficou olhando para a tela por muito tempo, movendo os lbios de vez 
em quando, como se estivesse fazendo clculos de cabea. Afinal, disse, sem 
levantar os olhos: - O que  que Bliss est fazendo?
        - Ela est dormindo, meu amigo - disse Pelorat. Acrescentou, em tom 
defensivo: - Ela precisa dormir, Golan. Manter-se como parte de Gaia atravs do 
hiperespao  uma atividade muito cansativa.
        -  Suponho que sim - disse Trevize, voltando-se de novo para o 
computador.         Colocou as mos na escrivaninha e murmurou: - Vou executar 
vrios pequenos Saltos e verificar a distncia depois de cada um. - Retirou de novo 
as mos e disse: - Estou falando srio, Janov. O que  que voc sabe a respeito da 
psico-histria?
        Pelorat pareceu embaraado.
        - Nada. Ser um historiador como eu  muito diferente de ser um psico-
historiador... Naturalmente, conheo os dois princpios fundamentais da psico-
histria, mas isso todos conhecem.
        - At eu. O primeiro princpio exige que o nmero de seres humanos 
envolvidos seja suficientemente grande para que as leis estats-ticas tenham 
validade. Mas o que quer dizer "suficientemente grande"?
        - De acordo com a ltima estimativa - disse Pelorat - a Galxia tem uma 
populao de pelo menos dez quatrilhes de habitantes. Este nmero certamente  
suficientemente grande.
        -  Como  que voc sabe?
        - Porque a psico-histria funciona, Golan. Diga voc o que disser, ela 
funciona.
        -  O segundo princpio - prosseguiu Trevize - diz que os seres humanos 
no devem ter conhecimento da psico-histria, para que esse conhecimento no 
afete o seu comportamento... mas acontece que eles tm esse conhecimento!
        -  Eles apenas sabem que a psico-histria existe, meu amigo. No  isso o 
que importa. O segundo princpio diz que os seres humanos no devem conhecer as 
previses da psico-histria, como realmente no conhecem... a no ser, talvez, os 
membros da Segunda Fundao... mas isso  um caso especial.
        -  E com base apenas nesses dois princpios foi desenvolvida toda a cincia 
da psico-histria. No acha difcil de acreditar?
        -  No foi com base apenas nesses princpios - protestou Pelorat. - Foram 
usados mtodos matemticos e estatsticos bastante sofisticados. De acordo com a 
histria... ou de acordo com a tradio, se voc quiser... Hari Seldon chegou  
psico-histria tomando como modelo a teoria cintica dos gases. Os tomos ou 
molculas de um gs se movem aleatoriamente e  impossvel conhecer a posio 
ou velocidade de um deles. Mesmo assim, usando a estatstica, podemos determinar
com grande preciso as leis que governam o seu comportamento coletivo. Da
mesma forma, Seldon pretendeu determinar o comportamento coletivo de 
sociedades inteiras, mesmo que as solues no se apliquem ao comportamento 
individual dos seres humanos.
        -  Talvez, mas homens no so tomos.                           
        -  verdade - concordou Pelorat. - Os homens tm conscincia e seu 
comportamento  suficientemente complexo para dar a impresso de que possuem 
livre-arbtrio. No sei como Seldon resolveu este problema e no sei se entenderia 
mesmo que algum que soubesse tentasse me explicar... a verdade, porm,  que 
Seldon foi bem-sucedido!
        - E tudo depende de lidar com pessoas que sejam ao mesmo tempo 
numerosas e desprevenidas - acrescentou Trevize. - No lhe parece um 
fundamento muito pouco slido para uma imensa estrutura matemtica? Caso um 
desses requisitos no seja atendido, toda a estrutura desaba!
        -  Acontece que o Plano no desabou...
        -  Por outro lado, se os requisitos forem atendidos apenas parcialmente, 
pode ser que a psico-histria funcione adequadamente durante vrios sculos e 
depois, em consequncia de uma determinada crise, as previses deixem 
repentinamente de funcionar... como j aconteceu uma vez, no caso do Mulo. E 
voc j pensou que pode ser que exista um terceiro princpio?
        -  Que terceiro princpio? - perguntou Pelorat, franzindo a testa.
        - No sei - disse Trevize. - Um teorema pode parecer totalmente lgico e  
elegante e mesmo assim conter suposies implcitas. Talvez o terceiro princpio
seja um requisito to bvio que ningum se lembre de mencion-lo.
        - Um requisito to bvio que chega a ser esquecido deve ser satisfeito na 
imensa maioria dos casos, do contrrio no se esqueceriam dele.
        Trevize fez uma careta.
        -  Se voc conhecesse a histria da cincia to bem quando conhece a 
histria tradicional, Janov, saberia que no h um pingo de verdade no que acabou 
de afirmar... Mas estou vendo que chegamos s proximidades do sol do Mundo 
Proibido.
E realmente, no centro da tela, havia uma estrela muito brilhante... to brilhante 
que a tela reduziu automaticamente sua luminosidade a tal ponto que todas as 
outras estrelas desapareceram.


32.

As INSTALAES destinadas a lavagem e higiene pessoal a bordo do Estrela Distante 
eram compactas e o uso da gua devia ser limitado ao mnimo indispensvel, de 
forma a no sobrecarregar as mquinas de reciclagem. Por vrias vezes, Trevize j 
havia sentido a necessidade de falar a respeito com Bliss e Pelorat. Mesmo assim, 
Bliss mantinha um ar permanente de frescor; os longos cabelos negros estavam 
sempre reluzentes, as unhas faiscantes.
        A moa entrou na sala de comando e exclamou:
        -  A esto vocs!
        Trevize levantou os olhos e disse:
        -  No vejo razo para a surpresa. Dificilmente teramos deixado a nave e 
bastaria uma busca de trinta segundos para voc nos localizar dentro da nave, 
mesmo sem usar seus poderes mentais.
        -  A expresso foi apenas uma forma de cumprimento e no deve ser 
tomada literalmente, como voc deve estar farto de saber - disse Bliss. - Onde  
que estamos?... E no v responder: "na sala de comando"!
        -  Bliss querida - disse Pelorat, estendendo o brao para a moa -, 
acabamos de penetrar no sistema planetrio a que pertence o mais prximo dos 
trs Mundos Proibidos.
        Bliss se aproximou e apoiou o brao no ombro de Pelorat, que a abraou pela 
cintura. A moa disse:
        -  No deve ser muito proibido. At agora, ningum fez nada para nos deter.
        Trevize explicou:
        -  S  proibido porque Comporellon e os outros mundos da segunda onda 
de colonizao decidiram voluntariamente manter-se afastados dos mundos 
colonizados pelos membros da primeira onda, os Espaciais. Se no nos sentimos 
obrigados a guardar distncia, quem nos deter?
        - Pode ser que os Espaciais, se ainda existem, tambm no desejem manter
contato com os mundos da segunda onda. S porque no nos incomodamos de 
encontrar-nos com eles, no quer dizer que a recproca seja verdadeira.
        -  verdade - concordou Trevize. - Se eles ainda existirem. At agora, 
porm, no sabemos nem ao menos se existe um planeta que eles possam habitar. 
At agora, tudo o que encontramos foram os costumeiros gigantes gasosos. Dois 
deles, e no particularmente grandes.
        - Isso no quer dizer que o mundo dos Espaciais no exista - interveio 
Pelorat. - Qualquer mundo habitvel teria que ficar muito mais prximo do sol, 
seria muito menor e praticamente impossvel de detectar a esta distncia. Para 
podermos observar um planeta desse tipo, teremos que dar um pequeno Salto para 
mais perto do sol.
        Parecia muito orgulhoso por estar falando como um astronauta experiente.
        - Nesse caso - disse Bliss -, o que estamos esperando?
        -Pedi ao computador para procurar qualquer vestgio de estru-turas 
artificiais. Vamos nos aproximar aos poucos, com muita cautela. No quero cair em 
uma armadilha, como aconteceu quando nos aproximamos de Gaia. Lembra-se, 
Janov?
        -  Bendita armadilha! Graas a ela, conheci Bliss - observou Pelorat, 
olhando para a moa com carinho.
Trevize sorriu.
        -  Est esperando encontrar outra Bliss?        
        Pelorat fez uma expresso magoada e Bliss observou, com certa impacincia:
        -  Meu velho amigo... ou como quer que seja que Pelorat insiste em cham-
lo... no precisa perder mais tempo. Enquanto eu estiver com vocs, no cairo em
nenhuma armadilha.
        -  O poder de Gaia?
        -  Para detectar a presena de outras mentes? Certamente.
        -  Tem certeza de que est suficientemente forte para isso, Bliss? Observei 
que voc precisa dormir bastante para recuperar-se do esforo para manter-se em 
contato com Gaia atravs do hiperespao. Posso confiar em sua capacidade, mesmo 
a uma distncia to grande da fonte?
        Bliss enrubesceu.
        -  A ligao ainda est bem forte.
        -  No fique ofendida. Estou apenas perguntando... No acha que esta  
uma desvantagem de voc ser Gaia? Eu no sou Gaia. Sou um indivduo completo e 
independente. Isso significa que posso me afastar o quanto quiser do meu mundo e 
do meu povo e continuar a ser Golan Trevize. Os poderes que eu tenho continuam a 
ser os mesmos, e no mesmo grau, onde quer que me encontre. Se estivesse sozinho 
no espao, a milhares de anos-luz de qualquer ser humano, e impossibilitado, por 
alguma razo, de comunicar-me com outro ser vivente, ou mesmo de ver o brilho de 
uma nica estrela no cu, seria e continuaria a ser Golan Trevize. Talvez no 
conseguisse sobreviver, mas morreria como Golan Trevize.
        Bliss objetou:
        -  Sozinho no espao, longe dos seus semelhantes, voc no poderia recorrer 
aos talentos e  experincia de outros indivduos da sua raa. Isolado de todos, voc 
teria muito menos capacidade que como membro de uma sociedade integrada.  
um fato inegvel.
        -  No seu caso, Bliss,  muito pior. Existe uma ligao entre voc e Gaia que 
 muitssimo mais forte que a que existe entre mim e a minha sociedade. Para 
manter essa ligao atravs do hiperespao, voc consome uma quantidade to 
grande de energia que chega a ficar exausta. Se essa ligao fosse rompida, voc 
teria muito mais a perder do que eu ao me afastar dos meus semelhantes...
        O rosto de Bliss assumiu uma expresso severa e por um momento pareceu 
mais Gaia do que Bliss. Ela disse:
        -  Mesmo que seja verdade tudo o que est dizendo, Golan Trevize, no acha 
que h um preo a pagar por tudo o que conquistamos? No  melhor ser uma 
criatura de sangue quente como voc do que um animal de sangue frio como um 
peixe ou sei l o qu?
        -  As tartarugas so animais de sangue frio - interveio Pelorat. - Terminus 
no tem tartarugas, mas elas so comuns em outros planetas. Tm uma carapaa 
dura, movem-se devagar e vivem muito tempo.
        -  Pois no  melhor ser um homem do que uma tartaruga? No  melhor 
ser rpido do que vagaroso? No  melhor dispor de um organismo capaz de 
consumir energia rapidamente, de msculos que se contraiam depressa, de fibras 
nervosas que permitam pensamentos complexos, do que arrastar-se pela existncia, 
com apenas uma plida idia das vizinhanas e sem a menor possibilidade de um 
planejamento a longo prazo? Hein?
        -  Claro que sim - concordou Trevize. - E da?
        -  Da que voc no sabe o preo que precisa pagar para ser um animal de 
sangue quente. Para manter a temperatura do seu corpo acima da temperatura 
ambiente, voc precisa gastar energia, mesmo quando no est fazendo 
absolutamente nada. Assim, tem que alimentar-se constantemente para repor a 
energia perdida. Uma tartaruga pode passar muito mais tempo que voc sem 
comer. Alm disso, as tartarugas vivem mais tempo. Voc preferiria ser uma 
tartaruga, viver devagar e ter uma existncia mais longa? Ou prefere pagar o preo 
e ser uma criatura de movimentos rpidos, sentidos aguados e raciocnio gil?
        -  Esta analogia  correta, Bliss?
        -  No, Trevize, a situao de Gaia  ainda mais favorvel. Quando estamos 
juntos, no precisamos gastar uma grande quantidade de energia.  apenas 
quando uma parte de Gaia se encontra a uma distncia considervel do resto de
Gaia que o consumo de energia aumenta. No se esquea tambm de que voc no
optou apenas por um Gaia maior, pela expanso de apenas um planeta. Voc 
escolheu a Galxia Viva, um vasto complexo de mundos. Em qualquer ponto da 
Galxia, voc ser parte da Galxia Viva, estar cercado de perto por partes de uma 
entidade que se estender desde os traos mais distantes de poeira csmica at o 
buraco negro central. No ser necessria muita energia para manter a coeso do 
todo. Nenhuma parte estar muito afastada de todas as outras partes. Foi por isso 
que voc optou, Trevize. Como pode ter dvida de que fez a escolha certa?
        Trevize baixou a cabea, pensativo. Depois de alguns momentos, olhou para 
Bliss e disse:
        -  Posso ter tomado a deciso correta, mas quero ter certeza disso. A escolha 
que fiz  a mais importante da histria da Humanidade. No  suficiente que seja 
uma boa escolha. Preciso saber que foi uma boa escolha.
        -  O que mais  necessrio alm do que eu j lhe disse?
        -  No sei, mas descobrirei quando encontrar a Terra - afirmou Trevize, 
com absoluta convico.
        Pelorat interrompeu:
        -  Golan, a estrela se transformou em um disco.
        Era verdade. Enquanto os dois discutiam, o computador, obedecendo s 
instrues de Trevize, tinha levado a nave, atravs de pequenos saltos, at a posio 
determinada pelo rapaz.
        Continuavam fora do plano da eclptica e o computador dividiu a tela em trs 
partes para mostrar simultaneamente os trs planetas interiores. Desses planetas, 
o mais prximo do sol tinha uma atmosfera de oxignio. Alm disso, a temperatura 
da superfcie estava dentro da faixa em que a gua permaneceria lquida. Trevize 
esperou que o computador determinasse a rbita e a primeira estimativa grosseira 
pareceu razovel. O rapaz deixou que o computador continuasse o clculo, pois 
quanto maior fosse o tempo de observao, mais precisos seriam os resultados.
        -  Temos um planeta habitvel - afirmou Trevize, calmamente.
        -  Ah!
        A expresso de felicidade no rosto de Pelorat era inconfundvel.
        -  Infelizmente - disse Trevize -, no existe nenhum satlite gigantesco. 
Para dizer a verdade, o computador no detectou nenhum satlite natural, grande 
ou pequeno. Assim, no deve ser a Terra. Pelo menos, se as lendas estiverem 
corretas.
        -  No se preocupe, Golan - disse Pelorat. - Suspeitei de que no se 
tratava da Terra desde o momento em que vi que nenhum dos gigantes gasosos 
possua anis.
        -  Muito bem, ento - disse Trevize. - O prximo passo  verificar que tipo 
de vida existe no planeta. Como possui uma atmosfera de oxignio, podemos ter 
certeza de que existe vida vegetal, mas...
        -  Vida animal, tambm - interrompeu Bliss. - E em grande quantidade.
        -  O qu? - exclamou Trevize, voltando-se para a moa.
        -  Posso senti-la. Apenas fracamente, a essa distncia, mas asseguro-lhe 
que o planeta no s  habitvel, mas tambm  habitado.


33.

O ESTRELA DISTANTE estava em rbita polar em torno do Mundo Proibido, a uma 
distncia to grande que levava quase seis dias para circundar o planeta. Trevize 
parecia no estar com pressa alguma para sair de rbita.
        - J que o planeta  habitado - explicou -, e j que, segundo Deniador, 
antigamente era habitado por seres humanos que eram muito adiantados do ponto 
de vista tecnolgico e que representam a primeira leva de Colonizadores, os 
chamados Espaciais, pode ser que os habitantes ainda sejam tecnologicamente 
avanados e no morram de amores por ns, que pertencemos  segunda leva que 
os substituiu. Gostaria que se mostrassem, para que pudssemos observ-los um 
pouco antes de pousar.
        -  Talvez no saibam que estamos aqui - aventurou Pelorat.
        -  Ns saberamos, se estivssemos no lugar deles. Temos que supor que, se 
ainda existem, tentaro entrar em contato conosco. Talvez at queiram vir nos 
pegar.
        -  Mas se eles vierem e se so to adiantados assim, estaremos perdidos...
        -  Vamos com calma - disse Trevize. - O progresso tecnolgico nem 
sempre ocorre simultaneamente em todos os setores. Pode ser que estejam muito  
nossa frente sob alguns aspectos, mas  evidente que no esto acostumados s 
viagens interestelares. Fomos ns, e no eles, que colonizamos a Galxia, e em toda 
a histria do Imprio no sei de nenhuma ocasio em que tenham deixado seus 
mundos. E se no esto habituados s viagens interestelares, como espera que 
tenham progredido muito na cincia da astronutica? E se no progrediram muito, 
 impossvel que disponham de uma espaonave gravtica como a nossa. Podemos 
estar desarmados, mas se vierem atrs de ns, mesmo que seja com um 
encouraado, jamais nos alcanaro... No, no estaremos perdidos...
        -  E se eles progrediram muito no campo das cincias mentais? E se o Mulo 
era um Espacial?
        Trevize fez um muxoxo de irritao.
        -  O Mulo no podia ser tudo ao mesmo tempo. Os gaianos o descreveram 
como um gaiano renegado. Outros o consideram como um mutante...
        -  Tambm h quem diga que o Mulo era uma mquina - observou Pelorat. 
        - Um rob, em outras palavras.
        -  Se houver algum perigo mental, estou contando com Bliss para 
neutraliz-lo. Afinal, ela mesma disse que... a propsito, ela est dormindo?
        -  Estava - respondeu Pelorat. - Mas quando sa de l, tinha comeado a 
se mexer.
        - Comeado a se mexer, hein? Pois vai ter que estar bem acordada se algo 
acontecer. Estou contando com voc para isso, Janov.
        -  Est bem, Golan.
        Trevize desviou sua ateno para o computador.
        - Uma coisa que me preocupa so as estaes espaciais. Em geral, 
constituem um sinal seguro de que os habitantes do planeta desenvolveram uma 
tecnologia avanada. Neste caso, porm...
        -  H algo de errado com elas?
        -  Vrias coisas. Em primeiro lugar, so muito antigas. Podem ter mais de 
mil anos de idade. Em segundo lugar, a nica radiao que emitem  radiao 
trmica.
        -  O que  isso?
        -  Radiao trmica  aquela que  emitida por um objeto mais quente que 
as vizinhanas. Consiste em uma larga faixa de freqncias e apresenta um 
espectro bastante caracterstico, que  funo da temperatura.  isso que as 
estaes espaciais esto irradiando. Se houvesse instrumentos funcionando a bordo 
das estaes, provavelmente captaramos uma radiao com um espectro diferente, 
mais compacto. Existem duas possibilidades: ou as estaes esto vazias, e podem 
ter estado vazias, ao que sabemos, nos ltimos mil anos, ou esto sendo ocupadas 
por seres com uma tecnologia to avanada que seus equipamentos no produzem 
nenhum tipo de radiao.
        - Talvez - props Pelorat - o planeta continue a ser habitado por uma 
civilizao avanada, mas as estaes espaciais estejam vazias porque o planeta 
est isolado h tanto tempo que ningum se preocupa mais em vigiar o espao.
        -  Pode ser. Pode ser tambm que se trate de algum tipo de armadilha.
        Bliss entrou no aposento e Trevize, observando-a com o canto do olho, 
resmungou:
        -  Aqui estamos ns.
        -  Estou vendo - disse Bliss. - E continuamos na mesma rbita. Pelorat 
apressou-se a explicar:
        -  Golan est sendo cauteloso, querida. As estaes espaciais parecem 
desertas e ainda no sabemos o que isso significa.
        -  No precisa se preocupar - disse Bliss, com indiferena. - No h sinais 
detectveis de vida inteligente no planeta.
        Trevize olhou para ela, admirado.
        -  De que est falando? Voc disse...
        -  Eu disse que havia vida animal no planeta, e  verdade, mas de onde 
tirou a idia de que onde h vida animal tem que haver vida humana?
        -  Por que voc no me disse isso assim que detectou vida animal no 
planeta?
        -  Porque daquela distncia, no podia ter certeza. Era capaz de perceber os 
traos inconfundveis da atividade de neurnios, mas com um sinal to fraco, seria 
impossvel distinguir um homem de uma borboleta.
        -  E agora?
        - Agora estamos muito mais prximos e voc pode achar que eu estava 
dormindo, mas no estava... pelo menos, no o tempo todo. Eu estava, para usar 
uma palavra pouco apropriada, escutando atentamente o planeta,  procura de 
uma atividade mental suficientemente complexa para indicar a presena de 
inteligncia.
        -  E no encontrou nenhuma?
        - Tenho a impresso - disse Bliss, com sbita cautela - de que se no 
consegui perceber nada a essa distncia, no pode haver mais que alguns milhares
de seres humanos no planeta. Se chegarmos mais perto, poderei fornecer-lhe uma
informao mais precisa.
        -  Bem, isso muda tudo - observou Trevize, confuso.
        - Acho que sim - concordou Bliss, que parecia estar sonolenta e, 
conseqentemente, de mau humor. - Voc pode parar com toda essa histria de 
analisar radiaes e tirar concluses e tudo mais que possa ter estado fazendo. 
Meus sentidos gaianos podem fazer esse trabalho com muito maior eficincia e 
preciso. Talvez um dia voc entenda o que quero dizer quando afirmo que  melhor 
ser um gaiano que um Isolado.
        Trevize custou para responder. Era evidente que estava lutando para 
controlar-se. Quando falou, foi de forma polida, quase formal.
        -  Grato pela informao. Entretanto, espero que compreenda que, para 
usar uma analogia, a idia de melhorar meu sentido de olfato no constitui 
incentivo suficiente para tornar-me um co de caa.


34.

AGORA PODIAM ver claramente o Mundo Proibido, pois haviam ultrapassado a 
camada de nuvens. O planeta tinha um ar curiosamente decrpito.
        As regies polares eram geladas, como seria de se esperar, mas pouco 
extensas. As regies montanhosas eram despidas de vegetao, com uma ou outra 
geleira, mas tambm no eram muito extensas. Havia pequenas reas desrticas, 
bem espalhadas.
        Deixando tudo isso de lado, o planeta era, potencialmente, muito bonito. As 
massas continentais eram grandes, mas sinuosas, de modo que havia longos 
litorais e ricas plancies costeiras. Havia vastas florestas tropicais e temperadas, 
entremeadas com prados e savanas. Mesmo assim, a impresso de decrepitude era 
geral. No meio das florestas havia grandes clareiras, e partes das savanas eram 
desprovidas de vegetao.
        -  Algum tipo de praga? - sugeriu Pelorat.
        -  No - afirmou Bliss. - Alguma coisa muito pior e mais permanente.
        -  Conheo muitos planetas - disse Trevize -, mas nunca vi nada parecido.
        -  Conheo poucos planetas - declarou Bliss -, mas meus pensamentos 
so os pensamentos de Gaia e isto  o que se pode esperar de um mundo de onde a 
humanidade desapareceu.
        -  Por qu? - perguntou Trevize.
        -  Pense bem - disse Bliss, em tom mordaz. - Nenhum planeta habitado 
possui um equilbrio ecolgico real. A Terra deve ter tido um, pois foi o mundo em 
que a humanidade surgiu e muitos sculos se passaram antes que surgisse o ser 
humano, a nica espcie capaz de modificar intencionalmente o equilbrio natural. 
Nesse caso, o equilbrio deve ter existido. Em todos os outros mundos habitados, 
porm, o homem transformou cuidadosamente os novos ambientes e introduziu a 
vida animal e vegetal, mas os sistemas ecolgicos que introduziu eram necessariamente
desequilibrados. Esses sistemas possuam apenas um nmero
limitado de espcies, apenas as que os seres humanos consideravam como 
desejveis ou no podiam deixar de introduzir...
        - Sabe o que isso me faz lembrar? - disse Pelorat. - Perdoe-me, Bliss, por 
interromper, mas  to pertinente que gostaria de contar logo para voc antes que 
eu me esquea. Uma vez ouvi falar de uma lenda a respeito da criao. Nessa lenda, 
a vida tinha surgido em um planeta e consistia apenas em um pequeno nmero de 
espcies, aquelas que eram teis ou agradveis para a humanidade. Os primeiros 
seres humanos ento cometeram um grande erro... no me pergunte qual, meu 
velho amigo, pois os velhos mitos geralmente contm muitos elementos de 
simbolismo e no devem ser tomados ao p da letra... e o solo do planeta foi 
amaldioado. "Maldita  a terra por tua causa: em fadigas obters dela o sustento 
durante todos os dias de tua vida. Ela produzir tambm cardos e abrolhos"...  
isso que diz a passagem, embora soe muito melhor no galctico arcaico em que 
estava escrita. A questo, porm,  a seguinte: seria realmente uma maldio? As 
coisas que os seres humanos no querem, como os cardos e os abrolhos, podem ser 
necessrias para equilibrar a ecologia. Bliss sorriu.
        -  realmente espantoso, Pel, como tudo faz voc se lembrar de uma antiga 
lenda, e como essas lendas s vezes podem ser interessante. Quando se instalam 
em um planeta, os seres humanos tendem a deixar de fora os cardos e abrolhos e 
depois tm que trabalhar muito para manter o mundo funcionando. Os 
ecossistemas criados pelo homem no so organismos auto-suficientes como Gaia, 
mas sim conjuntos heterogneos de Isolados, conjuntos esses que no so 
suficientemente heterogneos para atingirem o equilbrio. Se a humanidade 
desaparece, se o seu controle sobre as outras formas de vida deixa de existir, o 
planeta inteiro entra em colapso.
        - Se  isso que est acontecendo aqui, est acontecendo muito devagar - 
observou Trevize ceticamente. - Este planeta pode estar abandonado h quase 
vinte mil anos e mostra muito poucos sinais de decadncia.
        - Isso depende muito da forma como o equilbrio ecolgico  estabelecido 
inicialmente - observou Bliss. - Se o equilbrio inicial  razovel, o ecossistema 
pode durar muito tempo sem interveno humana. Afinal, vinte mil anos no so 
nada em comparao com o tempo de vida de um planeta.
        - Suponho - disse Pelorat, observando o planeta na tela do telescpio - 
que se o planeta est em decadncia,  sinal de que os seres humanos se foram.
        - Ainda no consegui detectar nenhum sinal de vida inteligente - disse 
Bliss.         - Posso afirmar com razovel certeza que no h seres humanos l embaixo. 
        Por outro lado, estou captando sinais de conscincias primitivas mas 
suficientemente complexas para representarem pssaros e mamferos. No estou 
certa, porm, de que a deteriorao do ecossistema constitua uma indicao segura 
da inexistncia de seres humanos. Um planeta habitado pode entrar em colapso se 
a populao no compreender a importncia da preservao do ambiente.
        - Tenho certeza - disse Pelorat - de que uma sociedade assim seria 
rapidamente destruda. No acredito que os seres humanos deixassem de 
compreender a importncia de conservar os prprios meios que tornam possvel a 
sua sobrevivncia.
        -  No compartilho da sua f na racionalidade do homem - observou Bliss. 
- Para mim  bem possvel que em uma sociedade planetria constituda apenas 
por Isolados, os interesses locais ou mesmo individuais tenham primazia sobre o 
bem coletivo.
        -  Sou forado a concordar com Pelorat - disse Trevize. - Quando mais 
no seja, pelo fato de que milhes de planetas j foram colonizados e nunca ouvi 
falar de um caso como o que voc descreveu. Bliss, acho que o medo que voc tem 
das sociedades de Isolados no tem razo de ser. Nesse instante, a nave deixou o 
hemisfrio iluminado. O efeito foi o de um rpido crepsculo, logo seguido pela 
escurido absoluta do lado de fora, quebrada apenas pelo brilho das estrelas no cu 
quase sem nuvens.
        A nave conservava a altitude medindo com preciso a presso atmosfrica e a 
intensidade do campo gravitacional. Estavam a uma distncia segura da superfcie 
do planeta, que no possua grandes elevaes, j que o ltimo ciclo de formao de 
montanhas havia ocorrido h muito tempo. Mesmo assim, o computador apalpava o 
caminho  frente com dedos de microondas, para ter certeza de que no havia 
perigo.
Trevize olhou para a escurido aveludada e disse, pensativo: 
        - Na minha opinio, a prova mais convincente de que um planeta  
desabitado  a ausncia de luzes artificiais no lado escuro. Nenhuma civilizao 
tecnolgica suporta a escurido... Assim que chegarmos ao lado iluminado, vamos 
baixar um pouco.
        -  Para qu? - perguntou Pelorat. - No h nada l embaixo!
        -  Quem foi que disse que no h nada l embaixo?
        -  Bliss. E voc, tambm.
        -  No, Janov. O que eu disse foi que no havia conseguido captar nenhum 
tipo de radiao artificial. Bliss falou que no havia sinais de atividade mental de 
seres humanos. Isso, porm, no quer dizer que l embaixo no exista nada que 
nos interesse. Mesmo que os seres humanos tenham abandonado o planeta, 
certamente deixaram algum tipo de runas. Estou atrs de informaes, Janov, e os 
restos de uma tecnologia podem conter informaes muito valiosas.
        - Depois de vinte mil anos? - A voz de Pelorat tornou-se aguda. - Que 
material sobreviveria durante vinte mil anos? No vamos encontrar filmes, nem 
livros, nem fitas. O metal estar enferrujado, a madeira, podre, o plstico, reduzido 
a p. At os artefatos de pedra tero sido atacados pela eroso a ponto de ficarem 
irreconhecveis!
        -  Pode no ter sido vinte mil anos - explicou Trevize, pacientemente. - 
Falei em vinte mil anos porque, de acordo com as lendas comporelianas, naquela 
poca havia uma civilizao florescente habitando este planeta. Suponha, porm, 
que os ltimos seres humanos tenham morrido ou deixado o planeta h apenas um 
milnio.
Chegaram de volta ao hemisfrio iluminado e, depois de uma breve aurora, o sol 
tornou a brilhar do lado de fora.
        O Estrela Distante reduziu a velocidade e diminuiu a altitude at que os 
detalhes da superfcie do planeta se tornaram claramente visveis. Naquela regio, o 
litoral era semeado de pequenas ilhas, quase todas cobertas de vegetao.
        -  Acho que devemos concentrar nossa ateno nas reas devastadas - 
disse Trevize. - No meu entender, os lugares em que havia maior densidade 
populacional foram aqueles em que o equilbrio ecolgico foi mais prejudicado. 
Esses foram provavelmente os ncleos iniciais da praga que est tomando conta do 
planeta. O que acha, Bliss?
        -  possvel. De qualquer forma, na falta de informaes concretas, acho 
que devemos procurar onde for mais fcil. Os prados e florestas provavelmente
engoliram todos os sinais de civilizao, de modo que procurar ali poderia ser perda 
de tempo.
        -  Acaba de me ocorrer - observou Pelorat - que talvez este planeta possa 
um dia estabelecer um novo equilbrio com o que lhe restou; que novas espcies se 
desenvolvam; que as regies devastadas tornem a ser colonizadas em novas bases.
        -   possvel, Pel - concordou Bliss. - Depende, suponho, do grau de 
desequilbrio que lhe foi imposto. Entretanto, para um mundo curar suas feridas e 
atingir um novo equilbrio atravs da evoluo, seria preciso muito mais que vinte 
mil anos. Estaramos falando em milhes de anos!
        O Estrela Distante no estava mais em rbita em torno do planeta; 
sobrevoava lentamente uma clareira de quinhentos metros de largura na qual s 
cresciam algumas plantinhas raquticas.
        -  Que acham disso? - disse Trevize de repente, apontando para baixo.
A nave reduziu ainda mais a velocidade at ficar parada, suspensa no ar. Um 
zumbido fraco mas persistente mostrou que os motores gravticos estavam 
funcionando a toda fora, neutralizando o campo gravitacional do planeta.
No havia muita coisa para ver no local que Trevize havia indicado. Um terreno 
levemente ondulado, onde havia tufos esparsos de capim.
        -  No estou vendo nada - disse Pelorat.
        -  Aquelas marcas no cho no so naturais... so linhas paralelas, e 
existem outras linhas perpendiculares s primeiras. No est vendo? Sinais de 
arquitetura humana, vestgios de alicerces e paredes, to ntidos como se as 
construes ainda estivessem de p!
        -  Mesmo que voc esteja certo - disse Pelorat -, no passam de runas. 
Para fazer uma pesquisa arqueolgica, vamos ter que cavar muito. Os profissionais 
levam anos para desenterrar um nico edifcio...
        - No somos profissionais e no temos anos para perder. Parece que 
encontramos os restos de uma antiga cidade e talvez uma parte dela ainda esteja de 
p. Vamos seguir essas linhas no cho e ver o que encontramos.
        Foi quase no final da clareira que chegaram a um edifcio que ainda estava 
intacto... ou quase intacto.
        -  um bom lugar para comearmos - disse Trevize. - Vamos descer.



Captulo 9

Enfrentando a Matilha





35.

O ESTRELA DISTANTE pousou na base de uma pequena colina, uma das poucas que 
havia na grande plancie. Quase sem pensar, Trevize tinha escolhido o lugar para 
que a nave ficasse em um local pouco visvel. Ele disse para os companheiros:
        -  A temperatura l fora  de 24 graus centgrados, est soprando um vento 
de oeste para leste de onze quilmetros por hora e o cu est parcialmente 
encoberto. O computador no conhece o suficiente a respeito do clima do planeta 
para fazer uma previso do tempo; entretanto, como a umidade relativa do ar  de 
40%, no  provvel que esteja para chover. No conjunto, parece que o tempo l 
fora est muito agradvel, o que, comparado com Comporellon, certamente constitui
um alvio.
        -  Suponho que se o planeta continuar entregue  prpria sorte, as
condies climticas se tornaro mais extremas - observou Pelorat
        -  Tenho certeza disso - afirmou Bliss.
        -  Para ns,  o que menos importa - disse Trevize. - Temos milhares de 
anos de vantagem. No momento, ainda  um planeta bem agradvel e continuar 
assim durante muito tempo.
        Enquanto falava, o rapaz estava afivelando um cinto largo na cintura. Bliss 
perguntou, curiosa:
        -  O que  isso, Trevize?
        -  Estou lembrando meu treinamento militar - disse Trevize. - No vou 
desembarcar desarmado em um planeta desconhecido.
        -  Est falando seriamente em carregar armas?
        -  Isso mesmo. Aqui na minha direita - mostrou um coldre que continha 
uma arma pesada, com um cano grosso -, est meu desintegrador, e na minha 
esquerda - uma arma menor, com um cano fino e fechado na ponta -, est meu 
chicote neurnico.
        -  Dois tipos de armas mortais - observou Bliss, com ar de desdm.
        -  Est enganada. Apenas o desintegrador  capaz de matar. O que o chicote 
neurnico faz  estimular os nervos, produzindo uma dor to intensa que a pobre 
vtima preferiria estar morta. Pelo menos, foi o que me contaram; nunca tive o 
desprazer de estar do lado errado de um chicote neurnico.
        -  Para qu as armas?
        -  J lhe disse.  um mundo desconhecido.
        -  Trevize,  um mundo deserto!
        -   mesmo? Tudo leva a crer que no exista nenhuma civilizao 
adiantada, mas j pensou em raas primitivas? Paus e pedras tambm matam, voc 
sabe!
        Bliss parecia irritada, mas baixou a voz em um esforo para ser razovel.
        -  No fui capaz de detectar nenhuma atividade neurnica humana, Trevize. 
Isso elimina tambm as raas primitivas.
        - Ento no vou ter que usar minhas armas - disse Trevize. - Qual o 
problema de carreg-las comigo? S me tornaro um pouquinho mais pesado, e 
como a gravidade na superfcie deste planeta  9% menor que a de Terminus, acho 
que no sentirei a diferena. Escute, a nave pode estar desarmada como nave, mas 
transporta um suprimento considervel de armas portteis. Por que vocs dois 
tambm no...
        -  No - interrompeu Bliss. - Jamais seria capaz de matar algum... ou 
mesmo de causar sofrimento.
        -  No  uma questo de matar, mas de no ser morto.
        -  Posso proteger-me de outras formas.
        -  Janov? Pelorat hesitou.
        -  No usamos armas em Comporellon.
        -  Ora, vamos, Janov, Comporellon era terreno conhecido, um planeta 
aliado da Fundao. Alm disso, fomos detidos assim que chegamos. Se 
estivssemos armados, teriam tomado nossas armas. No quer levar um 
desintegrador?
        Pelorat sacudiu a cabea.
        -  Nunca tive treinamento militar, meu velho amigo. No saberia como usar
uma dessas coisas e, em uma emergncia, no sangue-frio suficiente para us-la.
Tentaria correr e... e seria morto. -  Ningum vai ser morto, Pel - disse Bliss. - 
Gaia tem sob a minha/nossa/sua proteo, tanto quanto esse bravo soldado aqui 
ao lado.
        -  timo - disse Trevize. - No tenho nenhuma objeo a sair protegido. 
Vou levar as armas simplesmente como precauo adicional e, asseguro-lhe, no 
pretendo us-las a no ser um ltimo caso Mesmo assim, prefiro no desembarcar 
sem elas.
        Trevize deu um tapinha afetuoso no coldre e acrescentou:
        -  Agora vamos desembarcar neste mundo que pode no ter sentido o peso 
de ps humanos nos ltimos milhares de anos.


36.

- TENHO a sensao de que est para anoitecer - disse Pelorat -, mas, a julgar 
pela altura do sol, ainda deve ser por volta do meio-dia.
        -  Isso  porque o sol aqui tem uma cor alaranjada - explicou Trevize -, o 
que d  luz do dia a aparncia de crepsculo. Se ainda estivermos aqui ao 
entardecer, e se o tempo ajudar, voc ver o cu ficar vermelho escuro. No sei se 
vai ser um espetculo bonito ou deprimente. A propsito: o pr-do-sol em 
Comporellon tambm deve ser bem extico, mas passamos o tempo todo em 
ambiente fechado.
        Voltou-se devagar, examinando os arredores. Alm da iluminao quase 
fantasmagrica, havia o odor caracterstico do planeta... ou pelo menos daquela 
parte do planeta. Era um cheiro um pouco ranoso, mas estava longe de ser 
desagradvel.                            
        As rvores prximas eram de altura mediana e pareciam muito antigas, com 
a casca irregular e os troncos levemente inclinados em relao  vertical, embora 
fosse difcil dizer se por causa dos ventos dominantes na regio ou devido s 
ondulaes do solo. Seriam as rvores que emprestavam um aspecto algo 
ameaador quela paisagem ou seria alguma outra coisa... menos material?
        Bliss perguntou:
        -  O que pretende fazer, Trevize? Certamente no veio at aqui para admirar 
a vista!                                                    
        -  Acho que no momento  a isso que vai se reduzir a minha participao. 
Minha sugesto  de que Janov v explorar as runas. Est em melhores condies 
do que eu para julgar a importncia de qualquer achado. Afinal, ele conhece 
galctico arcaico e eu no. E suponho, Bliss, que voc queira ir com ele para 
proteg-lo. Quanto a mim, ficarei aqui, do lado de fora das runas, montando 
guarda.
        -  Montando guarda contra quem? Um bando de nativos armados com paus 
e pedras?
        - Talvez. - De repente, o sorriso desapareceu dos lbios de Trevize e ele 
acrescentou: - No sei por que, Bliss, no me sinto  vontade neste lugar. No sei 
por qu.
        Pelorat disse:
        - Vamos, Bliss. Tenho sido um colecionador de lendas durante toda a 
minha vida, mas nunca tive a oportunidade de descobrir um documento antigo. 
Imagine se encontrarmos...
        Trevize ficou olhando enquanto os dois se afastavam, a voz de Pelorat 
desaparecendo ao longe enquanto ele se dirigia para as runas com passos 
ansiosos, acompanhado de perto por Bliss.
        Trevize voltou a examinar as vizinhanas. Por que estava to preocupado?
        Nunca havia posto os ps em um mundo desabitado, mas tinha observado 
muitos desses mundos do espao. Em geral, eram planetas pequenos, com 
gravidade insuficiente para reter a gua e o ar, mas serviam como pontos de 
referncia durante as manobras militares (no tinha havido nenhuma guerra nos 
ltimos dois sculos, mas mesmo assim as manobras militares prosseguiam) ou os 
exerccios de reparos de emergncia simulados. A nave em que se encontrava tinha 
entrado em rbita em torno desses planetas, ou mesmo pousado em alguns deles, 
mas nessas ocasies Trevize no havia desembarcado.
        Seria o fato de que agora estava pisando em um mundo deserto? Teria a 
mesma sensao se tivesse pisado num daqueles planetas pequenos, sem ar e sem 
vida, que tinha conhecido nos tempos de estudante?
        Sacudiu a cabea. No era a mesma coisa. Em primeiro lugar, estaria usando 
um traje espacial, como nas inmeras ocasies em que havia trabalhado no espao, 
fora da nave. Era uma situao familiar e o simples contato dos ps com o solo no 
teria mudado grande coisa. Naturalmente!
        Naturalmente... no momento, no estava usando um traje espacial.
        Estava na superfcie de um mundo habitvel, de clima to agradvel quanto 
o de Terminus... muito mais agradvel, por exemplo, que o de Comporellon. Sentiu 
o vento no rosto, o calor do sol, o sussurro das rvores. Tudo era familiar, a no ser 
o fato de que naquele mundo no havia mais seres humanos.
        Seria isso? Seria isso que tornava aquele mundo to soturno? Seria o fato de 
se tratar no apenas de um mundo inabitado, mas de um mundo abandonado?
        Trevize nunca havia estado antes num mundo abandonado; nunca havia 
ouvido falar de um mundo abandonado; nunca havia imaginado que um mundo 
pudesse ser abandonado. De todos os mundos que conhecia, os que tinham sido 
colonizados pelo homem continuavam habitados para sempre.
        Olhou para o cu. Apenas os seres humanos haviam abandonado o planeta. 
Um pssaro cruzou sua linha de viso, parecendo mais natural, de alguma forma, 
do que o cu azul-acinzentado e as nuvens alaranjadas. (Trevize tinha certeza de 
que, se passasse alguns dias no planeta, acabaria por acostumar-se com as cores 
do cu e das nuvens.). Ouviu o canto de pssaros nas rvores e o rudo mais suave 
dos insetos. Bliss havia falado em borboletas e ali estavam elas... em grande 
nmero e muitas variedades coloridas.
        Havia tambm rudos ocasionais nos tufos de capim em volta das rvores, 
mas Trevize no conseguiu descobrir sua causa.
        A presena de vida animal nas vizinhanas no lhe trazia desconforto. Como 
Bliss havia dito, os mundos colonizados pelo homem jamais haviam abrigado seres 
perigosos. Os contos de fadas da infncia e as fantasias hericas da juventude 
invariavelmente se passavam em um mundo fabuloso que sem dvida tinha sido 
inspirado nos antigos mitos a respeito da Terra. Nos hiperdramas, a holotela estava 
sempre cheia de monstros: lees, unicrnios, drages, baleias, brontossauros, 
ursos.         Havia dezenas de animais, cujos nomes Trevize j havia esquecido, 
muitos certamente mitolgicos, talvez todos. Havia animais menores que mordiam e 
picavam, at mesmo plantas venenosas... mas apenas nas histrias. Uma vez tinha 
ouvido falar que as abelhas primitivas eram capazes de picar, mas as abelhas que 
conhecia eram totalmente inofensivas.
        Caminhou devagar para a direita, contornando a colina. O capim era alto e 
cerrado, mas esparso, crescendo em tufos. Passou por entre as rvores, que 
tambm formavam moitas.
        A boca de Trevize se abriu em um bocejo. Tudo parecia to calmo que teve
vontade de voltar  nave para dormir um pouco. No, no seria prudente. Era
melhor continuar bancando a sentinela.
        Talvez fosse melhor comear a portar-se como uma sentinela de verdade... 
comeando a marchar, um, dois, um, dois, dando meia-volta  e executando 
evolues complicadas com um eletrobasto de parada. (Era uma arma que estava 
fora de uso h mais de trs sculos, mas era considerada essencial nas paradas, 
por uma razo que ningum saberia explicar.) 
        Trevize sorriu ao pensar no eletrobasto e imaginou se no seria melhor ir 
juntar-se a Pelorat e Bliss nas runas. Para qu? Em que poderia ajud-los?
        E se observasse alguma coisa que Pelorat havia deixado escapar? Ora, teria 
tempo para tentar depois que Pelorat voltasse. Se houvesse alguma coisa 
interessante a ser descoberta nas runas, preferia mil vezes que Pelorat a 
encontrasse primeiro.
        E se os dois estivessem em dificuldades? Bobagem! Que tipo de dificuldades?
        E se houvesse algum problema, bastaria que eles gritassem.
        Parou para escutar. No ouviu nada.
        Foi ento que sentiu uma vontade irresistvel de marchar. Quando deu por 
si, estava batendo com os ps no cho, jogando para o alto um eletrobasto 
imaginrio, agarrando-o de novo... jogando o basto para o alto, agarrando-o de 
novo... Trevize fez meia-volta e se viu de frente para a nave, agora bem mais 
distante.
        E assim que olhou naquela direo, Trevize ficou imvel, no no papel de 
sentinela, mas de pura surpresa.
        No estava sozinho.
        At ento, no tinha visto nenhuma criatura viva a no ser plantas, insetos e 
um ou outro passarinho. No tinha visto nem ouvido ningum se aproximar... mas 
agora havia um animal entre ele e a nave.
        O inesperado da situao o privou, por um momento, da capacidade de 
interpretar o que via. Foi apenas depois de um intervalo perceptvel que reconheceu 
o que tinha diante de si.
        Era apenas um cachorro.
        Trevize nunca havia possudo um co e no sentia nenhuma simpatia 
especial pelos cachorros que encontrava. Daquela vez no foi diferente. Apenas 
pensou, com certa impacincia, que no havia nenhum mundo colonizado pelo 
homem em que o cachorro no o houvesse acompanhado. Existia um nmero 
incontvel de raas e Trevize se lembrava de haver pensado que cada planeta 
provavelmente teria pelo menos uma raa prpria. Mesmo assim, todas as raas 
tinham algo em comum: fossem criados para entretenimento, para trabalhar em 
espetculos ou para realizar algum tipo de trabalho til, todos os ces eram criados 
para amar os seres humanos e confiar neles.
Era um amor e uma confiana que Trevize no apreciava nem um pouco. Uma vez 
morou com uma mulher que tinha um cachorro. Aquele cachorro, que Trevize 
tolerava por causa da mulher, tinha uma adorao inexplicvel por ele, seguia-o por 
toda parte, cobria-o de saliva e plos nos momentos mais inesperados e encostava-
se na porta e comeava a uivar toda vez que ele e a mulher tentavam fazer amor.
        Depois daquela experincia, Trevize ficara com a firme convico de que por 
alguma razo, conhecida apenas pelas mentes caninas e a capacidade delas de 
analisar odores, ele, Trevize, constitua um dos objetos preferidos da devoo 
canina.
        Assim, depois de passada a surpresa inicial, observou o cachorro sem muito 
receio. Era um cachorro grande, magro e esguio, com pernas compridas. Olhava 
para ele sem nenhum sinal de adorao. A boca estava aberta no que poderia ser 
interpretado como um sorriso de boas-vindas, mas os dentes que apareciam tinham 
um aspecto perigoso.
        Ocorreu-lhe, ento, que o cachorro nunca tinha visto um ser humano, nem 
ele nem seus antepassados mais recentes. O cachorro devia ter ficado to surpreso 
ao ver um ser humano quanto Trevize havia ficado ao ver o cachorro. Trevize, pelo 
menos, havia reconhecido rapidamente o animal, mas o co no tivera a mesma 
 vantagem. Ainda estava espantado, talvez at receoso.
        No convinha deixar que um animal daquele tamanho, e com aqueles dentes,
permanecesse assustado por muito tempo. Trevize percebeu que era melhor
conquistar a amizade do animal, e quanto mais depressa melhor.
        Aproximou-se do animal, muito devagar (nenhum movimento brusco, 
naturalmente). Estendeu a mo, pronto a permitir que o cachorro a cheirasse, 
enquanto emitia sons tranqilizadores, do tipo "cachorrinho bonito", que o 
deixaram profundamente envergonhado.
        O cachorro, com o olhar fixo em Trevize, recuou um passo ou dois, como se 
estivesse desconfiado. Depois, o lbio superior se contraiu e a boca emitiu um som 
gutural. Embora Trevize nunca tivesse visto um co se comportar assim, no podia 
deixar de interpretar a atitude do animal como ameaadora.
        Trevize parou onde estava. Percebeu um movimento com o canto dos olhos e 
virou a cabea devagar. Dois outros cachorros estavam e aproximando. Pareciam 
to assassinos quanto o primeiro.
        Assassinos? A palavra s lhe havia ocorrido agora, mas lhe parecia 
estranhamente apropriada.
        O corao de Trevize comeou a bater com fora. O caminho para a nave 
estava bloqueado. No podia sair correndo sem rumo, pois aquelas longas patas 
caninas o alcanariam em questo de metros. Se ficasse onde estava e usasse o 
desintegrador, s teria tempo para matar um deles; os outros dois o fariam em 
pedaos.  distncia, podia ver outros cachorros se aproximando. Ser que se 
comunicavam de alguma forma? Ser que caavam em grupos?
        Comeou a andar de lado, bem devagar, para a esquerda, uma direo onde 
no havia nenhum animal... ainda. Devagar. Devagar. Os cachorros o 
acompanharam. Trevize tinha certeza de que a nica coisa que o havia salvo de um 
ataque imediato era o fato de que os cachorros jamais haviam encontrado algum 
como ele. Por essa razo, no sabiam o que esperar dele.
        Se sasse correndo, isso representaria um comportamento familiar para os 
animais. Eles saberiam o que fazer se alguma coisa do tamanho de Trevize 
demonstrasse medo e sasse correndo. Correriam atrs dele. E o alcanariam sem 
dificuldade.
        Trevize continuou a andar de lado, aproximando-se de uma rvore. Sentiu 
uma vontade sbita de estar l em cima, onde os cachorros no poderiam alcan-
lo. Os ces se aproximaram mais, rosnando baixinho. Todos os trs tinham os olhos 
fixos nele. Havia mais dois chegando. Mais alm, Trevize podia ver muitos outros 
cachorros. Em uma certa hora, quando estivesse suficientemente prximo, teria que 
tentar. No poderia esperar demais, nem precipitar-se, caso contrrio estaria 
perdido.
        Agora!
        Trevize provavelmente nunca havia corrido to depressa na vida, e mesmo 
assim escapou por um triz. Sentiu um par de mandbulas se cravar no calcanhar 
da bota e ficou imobilizado at os dentes do cachorro escorregarem no duro 
material ceramide.
        O rapaz no tinha prtica de subir em rvores. Da ltima vez que havia 
tentado, e mesmo assim sem sucesso, tinha dez anos de idade. Felizmente para ele, 
o tronco era inclinado e a casca bastante rugosa, com muitos pontos de apoio. Alm 
do mais, o medo o impelia, e  impressionante o que se pode fazer quando se est 
com medo.
        Trevize se viu sentado em uma forquilha, a uns dez metros do solo. Por um 
momento, no se deu conta de que havia arranhado uma das mos e que ela estava 
pingando sangue. Na base da rvore, cinco cachorros agora estavam sentados nas 
patas traseiras, olhando para cima, com a lngua de fora, esperando pacientemente. 
E agora?        

37.

TREV1ZE no estava em condies de pensar logicamente a respeito da situao. 
Em vez disso, experimentou lampejos de pensamento em uma seqncia estranha e 
distorcida que, se fossem ordenados, resultariam no seguinte:
        Bliss havia sustentado que, ao colonizarem um planeta, os seres humanos 
estabeleciam uma ecologia desequilibrada, que s eram capazes de manter atravs 
de constantes intervenes. Por exemplo: nenhum Colonizador havia jamais levado 
com ele os grandes predadores. Os pequenos animais nocivos, era impossvel evitar: 
insetos, parasitas... at mesmo ratos.
        E os animais dramticos das lendas, alguns dos quais talvez tivessem 
realmente existido na Terra, os tigres, ursos, crocodilos? Quem os levaria para 
outros mundos, mesmo que houvesse alguma razo para isso? E qual seria a razo 
para isso?
        O resultado era que o homem era o nico predador de grande porte, e era 
sua responsabilidade cuidar das plantas e animais que, entregues  prpria sorte,
se reproduziriam de forma indiscriminada, sufocando-se no excesso de fertilidade.
        E se os seres humanos desaparecessem, outros predadores teriam que tomar 
o seu lugar. Que predadores? Os maiores predadores tolerados pelo homem eram os 
ces e gatos, domesticados e vivendo da generosidade humana.
        E se no houvesse mais seres humanos para aliment-los? Ento teriam que 
procurar alimento... tanto para a prpria sobrevivncia quanto, com toda a
propriedade, para a sobrevivncia das espcies das quais se alimentassem, cuja
populao, se no fosse mantida sob controle, aumentaria de forma explosiva, com
um prejuzo cem vezes maior para a espcie do que as aes dos predadores.
        Assim, os ces se multiplicariam, em todas as suas variedades, com as raas 
maiores atacando os grandes herbvoros e as raas menores se alimentando de 
pssaros e roedores. Os gatos caariam  noite e os cachorros de dia; os primeiros, 
isoladamente, e os segundos, em matilhas.
        Alm disso, talvez a prpria evoluo se encarregasse de dar origem a novas 
raas para ocupar outros nichos ecolgicos. Ser que alguns cachorros chegariam a 
desenvolver hbitos aquticos que afinal lhes permitissem alimentar-se de peixes, 
enquanto certos gatos aprenderiam a planar para poderem perseguir no prprio ar 
os pssaros mais desajeitados?
        Tudo isso passou pela mente de Trevize, em curtos lampejos, enquanto ele 
tentava decidir o que fazer.
        O nmero de ces continuava aumentando. Contou 23 em volta da rvore e 
havia mais nas vizinhanas. Qual seria o tamanho da matilha? Que importava? J 
havia cachorros demais no momento.
        Trevize sacou o desintegrador, mas o peso da arma na mo no lhe 
transmitiu nenhuma sensao de segurana. Qual a ltima vez em que havia 
substitudo a unidade de energia? Quantos tiros poderia disparar? Muito menos de 
23.
        E que dizer de Pelorat e Bliss? Se os dois aparecessem, os cachorros sairiam 
correndo atrs deles? Estariam seguros, mesmo que no aparecessem? Se os 
cachorros farejassem os dois seres humanos nas runas, nada os impediria de 
atac-los l mesmo.
        Ser que Bliss era capaz de det-los ou mesmo de afugent-los? O poder de 
Gaia, transmitido atravs do hiperespao, seria suficiente? Por quanto tempo Bliss 
conseguiria mant-los  distncia?
        No seria melhor ento gritar por socorro? Se gritasse, os dois viriam 
correndo e os cachorros fugiriam diante do olhar zangado de Bliss? (Seria preciso 
um olhar ou a moa afugentaria os ces atravs de um processo mental invisvel 
para os no-iniciados?) Ou, se os dois aparecessem, seriam reduzidos a pedaos 
diante dos olhos de Trevize, obrigado a observar, impotente, da segurana relativa 
do seu posto na rvore?
        No, teria que usar o desintegrador. Se pudesse matar um dos ces e 
assustar os outros por alguns momentos, haveria tempo para descer da rvore, 
chamar Pelorat e Bliss, matar um segundo cachorro se a matilha tentasse 
aproximar-se de novo e ento os trs poderiam correr para a nave.
        Trevize ajustou a intensidade do raio de microondas para trs quartos da 
intensidade mxima. Seria o suficiente para matar um cachorro com um grande 
estrondo. O estrondo serviria para assustar os outros ces, e ele estaria poupando 
energia.
        Apontou cuidadosamente para um cachorro no meio da matilha, aquele que 
parecia (pelo menos na imaginao de Trevize) irradiar mais maldade do que os 
outros... talvez apenas porque estivesse mais quieto e portanto parecesse mais frio e 
calculista. O cachorro estava agora olhando diretamente para a arma, como que em 
um gesto de desafio. Ocorreu ao rapaz que ele jamais havia disparado um 
desintegrador contra um ser vivo, ou visto algum fazer isso. Durante o servio militar,
tinha atirado em bonecos de plstico cheios d'gua; a gua se transformava
quase que instantaneamente em vapor e o boneco explodia.
        Mas quem, em tempo de paz, atiraria em um ser vivo? E que ser vivo 
desafiaria o poder de tiro de um desintegrador? S ali, em um inundo que a
ausncia do homem havia tornado doente, era que...
        Com aquela estranha capacidade do crebro de observar detalhes totalmente
irrelevantes, Trevize se deu conta de que uma nuvem havia escondido o sol... e
ento atirou.
        Um feixe de luz trmula ligou instantaneamente o cano da arma ao corpo do
cachorro; uma luz to tnue que poderia ter passado despercebida se o sol ainda 
estivesse iluminando diretamente a cena.
        Ao sentir a onda inicial de calor, o cachorro fez um pequeno movimento, 
como se estivesse se preparando para pular; em seguida, explodiu, quando boa 
parte dos seus fluidos internos foi transformada em vapor.
        A exploso fez um rudo decepcionante, pois o revestimento externo do 
animal era simplesmente muito menos rgido que o dos bonecos de treinamento. 
Entretanto,         carne, pele, sangue e ossos voaram pelo ar e Trevize sentiu o estmago 
embrulhado.
        Os ces, alguns dos quais tinham sido bombardeados pelos fragmentos 
ainda quentes da exploso, recuaram ligeiramente. Foi, porm, uma hesitao 
momentnea. No instante seguinte, estavam disputando os restos de carne que 
haviam cado do cu. O enjo de Trevize piorou. Em vez de assust-los, o que estava 
fazendo era alimentar os malditos animais! Desse jeito, nunca iriam embora. Na
verdade, o cheiro de sangue fresco atrairia mais cachorros e talvez outros predadores.
        Algum chamou:
        -  Trevize! O que...
        O rapaz olhou na direo da voz. Bliss e Pelorat tinham sado das runas.
Bliss estava parada, com os braos abertos para impedir que Pelorat prosseguisse.
Olhava para os cachorros. A situao era clara; no havia necessidade de nenhuma 
explicao.
        Trevize gritou:
        - Tentei afugent-los antes que voc e Janov voltassem. Pode mant-los  
distncia?
        -  Vou tentar - disse Bliss, sem gritar, de modo que Trevize mal conseguiu 
ouvi-la, embora os cachorros tivessem parado de latir como que por encanto.                                             
        Bliss falou:
        -  So muitos e no conheo direito os padres de atividade neurnica 
desses animais. Em Gaia no existem animais ferozes.
        -  Nem em Terminus - gritou Trevize. - Nem em nenhum outro mundo 
civilizado. Vou matar quantos puder e voc tenta cuidar dos restantes.
        -  No, Trevize. Isso s servir para atrair outros animais... Fique atrs de
mim, Pel. No h nada que voc possa fazer... Trevize, sua outra arma!
        -  O chicote neurnico?
        -  Isso mesmo. A arma que produz dor. Use baixa potncia. Baixa potncia!
        -  Est com pena deles? - gritou Trevize, zangado. - Acha que isso  hora 
para pensar na santidade da vida?
        -  Estou pensando na vida de Pel. E tambm na minha. Faa o que eu digo. 
Baixa potncia, e atire em um dos cachorros. No posso agentar muito tempo.
        Os cachorros tinham se afastado da rvore e estavam em volta de Bliss e 
Pelorat, que haviam recuado at ficarem com as costas coladas a um muro em 
runas. Os ces mais prximos da dupla fizeram algumas tentativas frustradas de 
se aproximarem mais ainda, ganindo baixinho ao perceberem que alguma coisa os 
impedia de atacar. Outros tentaram, sem sucesso, subir o muro para atac-los por 
trs.
        A mo de Trevize tremia quando ele ajustou o chicote neurnico para baixa 
potncia. A arma usava muito menos energia que o desintegrador e um nico 
cartucho era suficiente para centenas de tiros, mas a verdade era que Trevize no 
se lembrava da ltima vez em que havia trocado o cartucho.
        No era importante apontar o chicote. Como no havia necessidade de 
poupar energia, Trevize poderia, se quisesse, disparar uma rajada de tiros contra a 
matilha.         Era o mtodo que os policiais usavam para manter as multides sob 
controle.
        Entretanto, o rapaz atendeu  sugesto de Bliss. Apontou para um dos 
cachorros e atirou. O cachorro caiu, contorcendo-se em dores. De sua boca saam 
ganidos estridentes.
        Os outros ces afastaram-se do companheiro ferido, as orelhas cadas, o rabo 
entre as pernas. Em seguida, comearam tambm a ganir, deram meia-volta e 
foram embora, primeiro devagar, depois mais depressa e, finalmente, a toda 
velocidade. O cachorro que tinha sido atingido levantou-se com esforo e saiu 
correndo atrs dos outros. O rudo desapareceu ao longe e Bliss falou:
        -  melhor irmos para a nave. Eles vo voltar. E se no forem eles, sero 
outros.
        Trevize teve a impresso de que nunca havia manipulado to depressa o 
mecanismo de acesso ao interior da nave. E talvez tivesse razo.



38.

QUANDO TREVIZE sentiu que estava voltando ao normal, j era noite. A pequena tira 
de plastopele na palma da mo havia acalmado a dor fsica, mas havia uma ferida 
psquica que era muito mais difcil de curar.
        No era a simples exposio ao perigo; Trevize sentia-se capaz de reagir ao 
perigo como qualquer pessoa medianamente corajosa. Era a direo totalmente 
imprevista de onde tinha vindo o perigo. Era a sensao de ridculo. Como se 
sentiria se os amigos descobrissem que tinha sido posto para correr por um bando 
de cachorros? No teria sido muito pior se ele tivesse sido afugentado por um grupo
de canrios furiosos.
        Durante vrias horas, o rapaz ficou muito quieto, esperando ouvir a qualquer 
momento o som dos latidos, o barulho das garras arranhando o casco da nave.
Pelorat, por outro lado, parecia bastante calmo.
        - No tenho a menor dvida, meu velho amigo, de que Bliss seria capaz de 
enfrentar a situao, mas tenho que reconhecer que voc sabe atirar com aquela 
arma!
        Trevize amarrou a cara. No estava com vontade de discutir o assunto.
        Pelorat estava com a biblioteca na mo... o pequeno disco no qual estava 
armazenada uma vida inteira de pesquisa... e com ela retirou-se para o quarto de 
dormir, onde conservava uma unidade de leitura.
        Parecia muito satisfeito consigo mesmo. Trevize no o seguiu. Teriam tempo 
para conversar quando ele no estivesse com a cabea to cheia de cachorros.
        Quando os dois ficaram sozinhos, Bliss observou:
        -  Suponho que voc foi apanhado de surpresa.
        -  Isso mesmo - confirmou Trevize, em tom pesaroso. - Quem diria que 
um dia eu teria que fugir de um bando de cachorros!
        - Mais alguns milhares de anos sem homens e eles no sero mais 
cachorros. Aqueles animais devem ser atualmente os maiores predadores do 
planeta...
        Trevize assentiu.
        - Pensei a mesma coisa quando estava empoleirado naquela rvore. Voc 
tinha toda a razo quando falou a respeito do que pode acontecer em uma ecologia 
desequilibrada.
        - Desequilibrada, sim, do ponto de vista humano... mas considerando a 
forma eficiente como os cachorros assumiram seu novo papel, estou comeando a 
achar que Pel est certo quando diz que um ecossistema pode atingir um novo 
ponto de equilbrio, com os vrios nichos ecolgicos sendo gradualmente
preenchidos por modificaes das poucas espcies que inicialmente povoavam o
planeta.
        - Sabe que a mesma idia me ocorreu?
        - Contanto, naturalmente, que o desequilbrio no seja excessivo, pois do 
contrrio o planeta poder se tornar totalmente invivel antes que as espcies 
tenham tempo de se adaptar.
        Trevize resmungou alguma coisa.
        Bliss olhou para ele, pensativa.
        -  Como foi que voc teve aquela idia de desembarcar armado?
        -  De pouco me adiantou - disse Trevize. - Se no fosse voc...
        - Espere a. Eu precisei da sua arma. Assim de repente, apenas um contato 
hiperespacial com o resto de Gaia, tendo que enfrentar tantos inimigos pouco 
familiares, eu no poderia ter feito nada sem o seu chicote neurnico.
        -  Meu desintegrador no serviu para nada, no foi?
        - Quando voc usa um desintegrador, Trevize, um cachorro simplesmente 
desaparece. Os outros podem ficar surpresos, mas no assustados.
        -  Pior que isso. Eles comeram os restos! O efeito foi o contrrio do que eu 
pretendia.
        -  Entendo. Pois com o chicote neurnico  diferente. Ele causa dor, e um 
cachorro em agonia emite gemidos que os outros ces compreendem muito bem, e 
que os deixam assustados. Como j estavam predispostos a sentir medo, no foi 
preciso muito esforo da minha parte para faz-los fugir em pnico.
        -  Sim, mas foi voc que percebeu que nesse caso o chicote era uma arma 
mais eficaz que o desintegrador.
        -  Estou acostumada a lidar com mentes. Voc, no. Foi por isso que insisti 
em que usasse baixa potncia e apontasse para um dos animais. No queria que o 
cachorro sentisse tanta dor a ponto de morrer e calar-se. No queria que a dor se 
dispersasse entre vrios cachorros. Era preciso uma dor intensa, concentrada em 
um ponto.
        -  E foi o que voc teve, Bliss. Funcionou perfeitamente. Fico-lhe 
imensamente grato.
        -  Voc est de mau humor - disse Bliss, muito sria - porque pensa que 
fez um papel ridculo. No entanto, repito, no poderia ter feito nada sem suas 
armas. O que no entendi ainda  por que voc insistiu em desembarcar armado, 
mesmo depois que lhe assegurei que no havia seres humanos no planeta. 
Esperava encontrar cachorros ferozes?
        -  No, claro que no. Pelo menos conscientemente. E tambm no costumo 
andar armado. Quando desembarcamos em Comporellon, nem pensei em armas... 
Por outro lado, recuso-me em acreditar em poderes mgicos. Desconfio que quando
conversamos sobre ecossistemas desequilibrados, tive uma viso inconsciente do 
que poderia acontecer com os outros animais na ausncia de seres humanos. Nada 
mais que isso.
        -  No seja to modesto. Participei da mesma conversa a respeito de 
ecossistemas desequilibrados e no tive o mesmo palpite.  por causa desse dom 
que voc tem de chegar a concluses corretas que Gaia est interessado em voc. 
Posso ver, tambm, que deve ser irritante para voc ter impulsos sem causa 
aparente; saber como agir, mas no saber por qu.
        -  A expresso que usamos em Terminus  "agir com base num palpite".
        -  Em Gaia, chamamos isso de "saber sem pensar". Voc no gosta de saber 
sem pensar, gosta?
        -  Claro que isso me incomoda. No gosto de ser movido por palpites. Sei 
que em geral existe uma razo oculta, mas o fato de no conhecer a razo me faz 
sentir como no tendo controle sobre meus prprios pensamentos... como se 
estivesse sofrendo de uma espcie de loucura mansa.
        - Quando voc decidiu a favor de Gaia e da Galxia Viva, agiu com base em 
um palpite e agora quer saber a razo.
        -  J lhe disse isso mais de mil vezes.
        - E at agora eu no estava totalmente convencida. Peo desculpas. No 
duvidarei mais dos seus motivos. Espero, porm, que me permita continuar a 
apresentar argumentos a favor de Gaia.
        -   vontade - disse Trevize. - Contanto que reconhea o meu direito de 
discordar deles.
        -  J lhe ocorreu, ento, que esse Mundo Desconhecido est revertendo a 
um estado de selvageria, e talvez de total desolao e inabilabilidade, porque a 
nica espcie que era capaz de agir com inteligncia no est mais presente? Se o 
planeta fosse Gaia, ou melhor ainda, se o planeta fosse uma parte da Galxia Viva, 
isso no aconteceria. A inteligncia estaria presente na Galxia como um todo e 
qualquer ecossistema tenderia sempre para o equilbrio, mesmo que perdesse quase 
todas as suas espcies.
        -  Isso significa que os cachorros deixariam de comer?... 
        -   claro que eles teriam que comer. Sua alimentao, porm, atenderia a 
um objetivo maior, o de manter o equilbrio ecolgico, em vez de depender apenas 
do acaso. - A perda da liberdade individual pode significar pouco para um co, mas 
 muito importante para os homens - disse Trevize. - E se todos os seres 
humanos deixassem de existir, em toda parte, e no apenas em um ou vrios 
mundos? E se no houvesse mais nenhum ser humano na Galxia? Ainda haveria 
inteligncia? As outras formas de vida e a matria inanimada conseguiriam, juntas, 
desenvolver uma inteligncia comum que fosse suficientemente sofisticada para 
controlar o funcionamento do todo? Bliss hesitou.
        -  Uma situao assim nunca ocorreu - disse, afinal. - E no  provvel 
que venha a ocorrer no futuro.
        -  Mas no lhe parece bvio que a mente humana  qualitativamente 
distinta de tudo o mais e que, se estivesse ausente, nada poderia substitu-la? 
Nesse caso, no reconhece que os seres humanos constituem um caso especial? 
Eles no devem ser fundidos nem mesmo uns com os outros, quanto mais com 
seres no-humanos!
        -  Mesmo assim, voc decidiu a favor da Galxia Viva.
        -  Por uma razo que desconheo.
        - Talvez tenha pensado no perigo que representam os ecossistemas 
desequilibrados... Quem sabe no reconheceu, talvez inconscientemente, o fato de 
que todos os planetas da Galxia esto na corda bamba, por assim dizer, e que 
apenas a Galxia Viva poder impedir uma sucesso de desastres, causados pela 
guerra, a corrupo e a incompetncia!
        - No. No momento em que tomei a deciso, no estava pensando na 
instabilidade dos ecossistemas.
        -  Como pode estar to certo?
        -  Mesmo que eu no saiba por que tomei uma deciso, se algum me 
aponta um motivo, posso dizer se  razovel... como no caso em que talvez tenha 
previsto a existncia de animais perigosos neste planeta.
        - De qualquer maneira - disse Bliss -, poderamos ter sido mortos por 
esses animais se no fosse uma combinao das nossas qualidades, a sua intuio 
e os meus poderes mentais. Ento vamos ser amigos.
        Trevize fez que sim com a cabea.
        -  Se voc quiser. Havia um gelo na voz do rapaz que fez Bliss franzir a 
testa, mas nesse instante Pelorat entrou, sacudindo a cabea como se quisesse 
livrar-se dela.
        -  Descobri! - exclamou. - Acho que descobri!


39.

EM GERAL, Trevize no acreditava em vitrias fceis, mas naquele caso era 
perfeitamente compreensvel que se deixasse iludir. Sentiu um n na garganta, mas 
conseguiu dizer:
        -  A localizao da Terra? Voc descobriu onde fica a Terra, Janov?
        Pelorat olhou para Trevize durante um momento e depois baixou os olhos.
        
        -  No  bem isso - respondeu, visivelmente contrafeito. - No, Golan, no 
 nada parecido. Para dizer a verdade, no estava nem pensando na Terra. Foi uma 
coisa que descobri nas runas. Nada de importante.
        Trevize respirou fundo e conseguiu falar:
        -  No diga isso, Janov. Qualquer descoberta  importante. O que  que voc 
veio contar para ns?
        -  Acontece, meu velho amigo, que quase nada restou, depois de tanto 
tempo. Afinal, foram vinte mil anos de vento e chuva. Alm do mais, as plantas e os 
animais tambm podem ser foras destrutivas. Mas no importa. O que interessa  
que "quase nada" no  o mesmo que "nada".
        "Entre as runas devia haver um edifcio pblico, pois encontramos um 
pedao de pedra, ou de concreto, com inscries, As letras estavam quase invisveis, 
voc entende, mas tirei fotografias com uma dessas cmaras que ns temos a 
bordo, em que a imagem  processada por um computador... no pedi permisso a 
voc para levara cmara, mas era importante, de modo que...
        Trevize fez um gesto impaciente.
        -  Prossiga!
        - Consegui decifrar parte da escrita, que era muito antiga. Mesmo com a 
ajuda do computador e dos meus conhecimentos de galctico arcaico, s foi possvel 
recuperar duas palavras completas. Nessas duas palavras, as letras eram maiores e 
um pouco mais ntidas que no resto do texto. Talvez tenham sido gravadas com 
mais capricho porque representavam o nome do prprio planeta. Essas palavras 
so: "Planeta Aurora", de modo que cheguei  concluso de que este planeta se 
chama Aurora, ou pelo menos se chamava Aurora.
        -  Tinha que ter um nome - disse Trevize.
        -  Sim, mas os nomes raramente so escolhidos ao acaso. Acabo de realizar 
uma busca meticulosa em minha biblioteca e encontrei duas lendas, originrias, 
incidentalmente, de dois planetas muito afastados um do outro, de modo que 
podemos ter uma razovel certeza de que tiveram origem independente... Mas no 
importa. Na duas lendas, a palavra "aurora"  usada como sinnimo de 
"amanhecer". Na verdade, tudo indica que "aurora" queria dizer amanhecer em 
alguma lngua antiga.
        "Por outro lado, sabemos que palavras como "amanhecer", "nascer do dia", 
etc, so freqentemente usadas para designar estaes espaciais ou outras 
estruturas que so as primeiras do seu tipo". Se este planeta recebeu o nome de 
Amanhecer, pode ser que tambm seja o primeiro do seu tipo.
        -  Est querendo dizer que este planeta  a Terra e que foi chamado de 
Aurora porque representa o nascer do dia para a vida e para o homem? - 
perguntou Trevize.
        -  Eu no iria to longe, Golan.
        -  Afinal, esto faltando a radioatividade, o satlite gigantesco, o gigante 
gasoso com imensos anis - observou Trevize, com ironia na voz.
        -  Isso mesmo. Mas Deniador, aquele historiador l de Comporellon, achava 
que este foi um dos mundos habitados pela primeira leva de Colonizadores... os 
Espaciais. Se isso for verdade, ento o nome, Aurora, pode indicar que este foi o 
primeiro planeta a ser colonizado pelos Espaciais. Podemos, neste instante, estar 
pisando no mais antigo planeta humano da Galxia, com exceo da prpria Terra. 
No  emocionante?
        -  Claro que sim, Janov, mas no acha que est tirando concluses demais 
de apenas um nome?
        -  No  s isso - prosseguiu Pelorat, entusiasmado. - De acordo com o 
que pude verificar em minhas anotaes, hoje em dia no existe nenhum planeta na 
Galxia com o nome de "Aurora". Como j disse, existem muitos planetas e outros 
objetos chamados "Amanhecer" ou coisa parecida, mas ningum usa a palavra 
"Aurora".
        -  E da? Como voc mesmo reconhece,  um termo arcaico.
        -  Acontece que os nomes tendem a ficar, mesmo que as palavras caiam em 
desuso. Se este foi o primeiro mundo a ser colonizado, deve ter sido famoso; talvez 
at, durante algum tempo, tenha sido o planeta dominante da Galxia. Certamente 
teria que haver outros mundos com os nomes de "Nova Aurora", ou "Aurora Menor", 
ou alguma coisa assim. E no entanto...
        - Talvez este no tenha sido o primeiro planeta a ser colonizado - 
interrompeu Trevize. - Talvez este planeta jamais tenha sido importante.
        -  Meu velho amigo, acho que encontrei uma explicao melhor.
        -  Pode me dizer qual , Janov?
        -  Se, como Deniador nos contou, a primeira onda de colonizao foi seguida 
por uma segunda onda,  qual todos os planetas da Galxia hoje pertencem, 
provavelmente houve um perodo de hostilidade entre as duas ondas de 
Colonizadores. Os Colonizadores da segunda onda evitariam usar os nomes 
escolhidos pelos Colonizadores da primeira. Assim, do fato de que o nome "Aurora" 
jamais foi repelido podemos deduzir que realmente houve duas ondas de 
colonizao e que este planeta pertence  primeira onda.
        Trevize sorriu.
        -  Estou percebendo agora como vocs, mitologistas, trabalham. Constroem 
lindos castelos, mas no se preocupam com os alicerces. Dizem as lendas que os 
Colonizadores da primeira onda no podiam passar sem os robs, e que esta era 
sua fraqueza. Ora, se voc pudesse me mostrar um rob que fosse neste planeta, eu 
ainda poderia aceitar sua teoria, mas acontece que no...
Pelorat afinal conseguiu recuperar a voz.
        - Mas, Golan, eu no lhe disse? No, claro que no disse. Estou to nervoso 
que no consigo colocar os pensamentos em ordem. Eu achei um rob.


40.

TREVIZE esfregou a testa, como se no estivesse acreditando no que ouvia.                                                                                   
        -  Um rob? Voc viu um rob?
        -  Isso mesmo - confirmou Pelorat, movendo a cabea para cima e para 
baixo.
        -  Como  que sabe?
        -  Ora, era um rob! Como poderia deixar de reconhecer um rob?
        -  Voc j tinha visto um?
        -  No, mas era um objeto de metal que se parecia com um ser humano. 
Cabea, tronco, braos, pernas. Claro que estava muito enferrujado, e quando me 
aproximei, a vibrao dos meus passos deve ter abalado sua estrutura, de modo 
que quando estendi a mo para toc-lo...
        -  Para que iria toc-lo?
        -  Acho que para ter certeza de que meus olhos no estavam me enganando. 
Foi uma reao involuntria. No momento em que o toquei, ele se desfez. Mas antes 
disso...
        -  Sim?
        -  Antes disso, os olhos do rob pareceram brilhar e ele fez um rudo, como 
se estivesse querendo dizer alguma coisa.
        -  Ento ainda estava funcionando?
        -  S funcionou um pouquinho, Golan. Trevize se voltou para Bliss.
        -  Voc confirma tudo isso, Bliss?
        -  Era um rob, sim - disse Bliss.
        -  E ainda estava funcionando?
        -  Pouco antes de se desfazer, captei um fraco sinal de atividade neurnica...
        -  Como podia haver atividade neurnica? Um rob no tem um crebro 
orgnico, feito de neurnios!
        -  Deve ter circuitos eltricos equivalentes a clulas nervosas - sugeriu 
Bliss.         - Provavelmente, foi a atividade desses circuitos que eu captei.
        -  Voc seria capaz de distinguir os pensamentos de um rob dos de um ser 
humano?
        -  Sim, mas no tive tempo suficiente.
        Trevize olhou para Bliss, depois para Pelorat, e disse, em tom irritado:
        -  Isto muda tudo.














PARTE 4
 

SOLARIA















Captulo 10

Robs





41.

DURANTE O jantar, Trevize parecia perdido em pensamentos e Bliss concentrou-se 
na comida.
        Pelorat, o nico que parecia ansioso para falar, observou que se o mundo em 
que se encontravam era Aurora e se Aurora tinha sido o primeiro planeta a ser 
colonizado, ento deveriam estar muito perto da Terra.
        -  Talvez valha a pena investigar as estrelas vizinhas - disse. 
        Trevize resmungou que s recorreria ao mtodo de tentativa-e-erro como 
ltimo recurso e que, mesmo que encontrasse a Terra, queria obter o mximo 
possvel de informaes antes de desembarcar no planeta. Depois no disse mais
nada e Pelorat, muito a contragosto, tambm mergulhou em um silncio profundo.
Depois da refeio, como Trevize continuasse calado, Pelorat perguntou:
        -  Vamos ficar aqui muito tempo, Golan?
        -  Pelo menos at amanh - respondeu o rapaz. - Preciso pensar um 
pouco.
        -  Acha que  seguro?
        -A menos que aparea algo pior do que os cachorros, estaremos 
perfeitamente seguros aqui dentro.
        - Quanto tempo levaria para decolarmos, se aparecer alguma coisa pior que 
os cachorros?
        - O computador est em alerta permanente. Acho que conseguiramos 
decolar em menos de trs minutos. E o computador nos avisar imediatamente se 
ocorrer algum fato inesperado, de modo que  melhor dormirmos um pouco. 
Amanh de manh decidiremos qual ser nosso prximo passo.
         fcil de dizer, pensou Trevize, enquanto olhava para a escurido. Estava 
deitado, parcialmente vestido, no cho da sala do computador. Era bastante 
desconfortvel, mas o rapaz tinha certeza de que no conseguiria dormir mesmo 
que fosse para o quarto. Ali, pelo menos, poderia tomar providncias imediatas em
caso de emergncia. 
        Foi ento que ouviu o rudo de passos e se sentou instintivamente, batendo 
com a cabea na borda da escrivaninha... no com fora suficiente para machucar-
se, mas com fora suficiente para dar um grito de dor e fazer uma careta.
        -  Janov? - perguntou em voz abafada, com os olhos lacrimejando.
        -  No. Sou eu, Bliss.
        Trevize colocou uma das mos no tampo da mesa para fazer contato com o 
computador e uma luz mortia mostrou Bliss. A moa estava usando uma manta 
cor-de-rosa.
        -  O que foi? - perguntou Trevize.
        -  Procurei voc no seu quarto, mas no o encontrei. Entretanto, no foi 
difcil localiz-lo pela atividade neurnica. Quando percebi que estava acordado, 
decidi entrar.
        -  Est bem, mas o que  que voc quer?
        A jovem se sentou com as costas apoiadas na parede e apoiou a cabea nos 
joelhos levantados.
        -  No se preocupe. No pretendo acabar com o que resta da sua virgindade.
        -  Tenho certeza de que no - disse Trevize, em tom irnico. - Por que no 
est dormindo? Voc precisa mais de sono do que eu. 
        - Acredite - disse Bliss, com voz sentida -, que o incidente com os 
cachorros foi muito cansativo para mim.
        -  Acredito.
        -  Eu tinha que falar com voc enquanto Pel est dormindo.
        -  Falar sobre o qu?
        -  Quando ele lhe contou a respeito do rob, voc afirmou que isso mudava 
tudo. O que queria dizer?
        -   difcil de entender? Ns temos trs conjuntos de coordenadas: trs 
Mundos Proibidos. Quero visitar todos os trs para descobrir o mximo possvel a 
respeito da Terra antes de tentar chegar l.
        Aproximou-se da moa, para poder falar ainda mais baixo, mas mudou de 
idia e recuou bruscamente.
        -  Escute, no quero que Janov aparea aqui  nossa procura. No sei o que 
ele iria pensar.
        -  No se preocupe. Pel est dormindo e tornei o sono dele ainda mais 
pesado. Alm disso, se ele acordar, saberei imediatamente... Prossiga. Voc quer 
visitar os trs planetas. O que foi que mudou?
        - No pretendo passar mais tempo em um planeta que o estritamente 
necessrio. Se este mundo, Aurora, no  habitado h quase vinte mil anos,  
pouco provvel que alguma informao til tenha sobrevivido. Eu no estava 
disposto a passar semanas ou meses vagando na superfcie de um planeta inspito, 
defendendo-me de cachorros, gaios, touros e outros animais que possam ter 
revertido ao estado selvagem s com a esperana de encontrar um fragmento 
inteligvel no meio do lixo secular. Pode ser que em um dos outros dois Mundos 
Proibidos haja seres humanos e bibliotecas intactas... Assim, estava disposto a 
deixar imediatamente este planeta. A esta altura, podamos estar no espao...
        -  Mas... ?
        -  Mas, se ainda existem robs funcionando neste mundo, podemos 
aprender muita coisa com eles. Ser muito mais seguro lidar com eles do que com 
seres humanos, j que, pelo que sei, os robs cumprem ordens sem pestanejar e 
so incapazes de fazer mal a um ser humano.
        - Assim, voc mudou de idia e agora est disposto a passar algum tempo 
neste planeta procurando robs.
        -  Ainda no cheguei a uma deciso, Bliss. A mim me parece impossvel que 
um rob consiga durar vinte mil anos sem manuteno... mas j que voc detectou 
sinais de atividade em um deles,  evidente que no posso confiar no meu bom 
senso quando se trata de robs. Talvez sejam mais resistentes do que eu pensava, 
ou possuam uma capacidade limitada de automanuteno...
        -  Escute o que eu vou dizer, Trevize - interrompeu Bliss -, por favor, seja 
discreto.
        - Discreto? - repetiu Trevize, surpreso, levantando a voz. - A quem no 
devo contar?
        -  Psiu! A Pel,  claro. Escute, voc no precisa mudar os planos. Seu 
palpite estava certo. No existe nenhum rob funcionando neste mundo. No 
consegui detectar nenhum sinal de atividade neurnica.
        - A no ser naquele rob. Se aquele rob estava funcionando, pode ser que 
outros...
        -  No detectei nenhuma atividade naquele rob. Ele estava parado; estava 
parado h muito tempo.
        - Mas voc disse...
        - Eu sei o que disse. Pel teve a impresso de que viu o rob mover-se e 
produzir rudos.  Pel  um romntico incurvel. Passou a vida coletando
informaes, mas essa  a maneira mais difcil de algum ficar famoso no mundo 
acadmico. Pel adoraria ter uma descoberta importante a seu crdito. A descoberta
do nome "Aurora" foi legtima e deixou-o mais feliz do que voc pode imaginar. Ele
queria desesperadamente encontrar mais alguma coisa.
        -  Est me dizendo que ele queria tanto fazer uma descoberta importante
que se convenceu de que havia encontrado um rob ainda funcionando?
        - O que ele encontrou foi um monte de ferrugem com tanta conscincia 
quanto a pedra em que estava apoiado.
        -  Mas voc confirmou a histria dele.
        -  No tive coragem de decepcion-lo. Ele significa tanto para mim...
        Trevize ficou olhando para a moa durante quase um minuto. Depois, disse:
        -  Voc se incomodaria de explicar por que ele significa tanto para voc? 
Quero saber. Quero mesmo saber. Para voc, ele deve parecer um homem idoso e 
sem nenhum romantismo.  um Isolado e voc sente desprezo pelos Isolados. Voc 
 jovem e linda e deve haver outras partes de Gaia que tm os corpos de rapazes 
fortes e simpticos. Com eles, voc pode ter uma relao fsica capaz de lev-la ao 
auge do prazer. Ento, o que foi que viu em Janov?
        Bliss olhou para Trevize, muito sria.
        -  Voc no o ama? Trevize franziu a testa e disse:
        -  Gosto muito dele. Acho que poderia dizer que o amo, de uma forma no 
sexual.
        -  Voc no conhece Pel h muito tempo. Por que acha que o ama, dessa 
sua forma no sexual?
        Quando Trevize deu por si, estava sorrindo.
        -  Ele  uma pessoa to diferente... Acho sinceramente que nunca na vida 
pensou uma nica vez em si mesmo. Pediram que viesse comigo e veio. Nenhuma 
objeo. Queria que fssemos para Trantor, mas quando eu disse que preferia ir 
para Gaia, no discutiu. Agora, comigo nesta busca, embora saiba perfeitamente 
dos perigos que corremos. Tenho certeza de que se tivesse que sacrificar a vida por 
mim... ou por qualquer um... o faria sem pestanejar.
        -  E voc, sacrificaria a vida por ele, Trevize?
        -  Acho que sim, se no tivesse tempo de pensar. Se tivesse tempo, hesitaria 
e talvez recuasse. No sou to bom quanto ele. Por isso mesmo, sinto esse impulso 
de proteg-lo e faz-lo feliz. No quero que a Galxia o ensine a no ser bom. Est 
entendendo? E tenho que proteg-lo especialmente de voc. No suporto a idia de 
v-lo jogado fora quando voc se cansar dele!
        -  J desconfiava que voc estivesse pensando alguma coisa desse tipo. No 
percebe que eu vejo em Pel a mesma coisa que voc, s que com muito mais 
clareza, j que posso ler diretamente os seus pensamentos? J procedi alguma vez 
como se quisesse mago-lo? Alimentaria a sua fantasia de encontrar um rob 
funcionando se no fosse por no suportar a idia de v-lo decepcionado? Trevize, 
estou muito acostumada ao que voc chama de bondade, pois qualquer parte de 
Gaia est disposta a sacrificar-se pelo todo. No conhecemos nem compreendemos 
outro tipo de atitude. Entretanto, no sacrificamos nada quando agimos assim, pois 
cada parte  o todo, embora seja difcil para voc compreender isso. Com Pel  
diferente...
        Bliss no estava mais olhando para Trevize. Era como se estivesse falando 
para si mesma.
        - Ele  um Isolado. Pel no  desprendido porque faz parte de um todo;  
desprendido porque  desprendido. Est me entendendo? Ele tem tudo a perder e
nada a ganhar, mas mesmo assim  como . Pel me deixa envergonhada de ser o
que sou sem medo de perder, enquanto ele  o que  sem possibilidade de ganhar.
        Olhou de novo para Trevize, muito sria.
        -  Sabe que eu conheo Pel muito melhor do que voc? E que eu seria 
incapaz de mago-lo?
        -  Bliss, h algumas horas atrs, voc me disse: "Vamos ser amigos. " Tudo 
o que eu repliquei foi: "Se voc quiser. " Eu estava de mau humor, porque estava 
pensando no sofrimento que voc poderia causar a Janov. Agora  a minha vez de 
falar: Bliss, vamos ser amigos. Voc pode continuar falando das virtudes da Galxia 
Viva e eu posso continuar me recusando a aceitar seus argumentos, mas, mesmo 
assim, vamos ser amigos.
        E estendeu a mo.
        - Claro que sim, Trevize - disse a jovem, apertando-lhe a mo com fora.


42.

TREVIZE sorriu consigo mesmo. Era um sorriso apenas mental, pois os cantos da 
boca no se moveram.
        Quando ele pedira ao computador para verificar se havia alguma estrela no 
ponto correspondente ao primeiro conjunto de coordena das, Pelorat e Bliss tinham 
observado atentamente e feito vrias perguntas. Agora, ficavam no quarto e 
deixavam a tarefa inteiramente por sua conta.
        De certa forma, era lisonjeiro, pois revelava que os dois tinham se convencido 
de que Trevize sabia o que estava fazendo e no precisava de superviso ou de 
encorajamento. Na verdade, depois do primeiro episdio, Trevize tinha aprendido a 
confiar mais no computador e a deixar quase todas as operaes por conta dele.
        No ponto indicado pelo segundo conjunto de coordenadas havia outra 
estrela, que tambm no constava do mapa da Galxia. Era mais luminosa que o 
sol do sistema de Aurora, o que tornava ainda mais estranho o fato de no estar 
registrada na memria do computador.
        Trevize maravilhou-se com as peculiaridades da tradio. Sculos inteiros 
podiam ser relegados ao esquecimento. Civilizaes podiam ser varridas das 
pginas da Histria. Entretanto, no meio desses sculos obscuros, legado de uma 
dessas civilizaes, uma ou outra informao podia ser preservada sem distores... 
como as coordenadas daqueles planetas.
        O rapaz havia comentado a respeito com Pelorat e Pelorat lhe dissera que era
exatamente isso o que tornava to interessante e proveitoso o estudo de antigas
lendas e mitos. "O segredo" - tinha dito Pelorat - " descobrir quais as partes de
uma lenda que correspondem  verdade histrica. Isso no  nada fcil; diferentes 
mitologistas podem optar por partes diferentes, escolhendo, em geral, as que esto 
mais de acordo com suas teorias favoritas."
        Fosse como fosse, a estrela estava bem no lugar onde as coordenadas de 
Deniador, atualizadas pelo computador, diziam que ela deveria estar. Naquele 
momento, Trevize seria capaz de apostar muito dinheiro no fato de que haveria uma 
estrela no local indicado pelo terceiro conjunto de coordenadas. E se houvesse, 
Trevize estava preparado para acreditar que a lenda tambm estava correta ao 
afirmar que havia cinqenta Mundos Proibidos (apesar do nmero redondo) e para 
imaginar onde estariam os outros quarenta e sete.
        Havia um planeta habitvel, um Mundo Proibido, em rbita em torno da
estrela... o que no foi surpresa para Trevize. Ele colocou  Estrela Distante numa
rbita conveniente.
        A cobertura de nuvens era suficientemente rala para permitir uma vista  
razovel da superfcie. Era um planeta muito mido, como quase todos os mundos 
habitveis. Havia um oceano tropical e dois oceanos polares. Em uma faixa de 
latitudes mdias, havia um continente mais ou menos sinuoso que dava a volta ao 
planeta, com baias dos dois lados produzindo vrios istmos bastante estreitos. Em 
outra faixa de latitudes mdias, havia trs grandes massas continentais, todas mais 
largas no sentido norte-sul que o continente mais comprido.
        Trevize gostaria de entender o suficiente de meteorologia para poder prever, 
com base no que estava vendo, como seria o clima do planeta. Por um momento, 
brincou com a idia de submeter o problema ao computador. Entretanto, tinha 
coisas mais importantes com que se preocupar.
        Mais uma vez, o computador no havia detectado nenhum tipo de radiao 
artificial. Por outro lado, de acordo com o telescpio, no havia nenhuma regio 
devastada ou mesmo desrtica. O solo era coberto de vegetao; no havia vestgios 
de cidades do lado iluminado nem luzes no lado escuro.
        Seria outro planeta habitado apenas por seres sem inteligncia?
        Trevize bateu na porta do outro quarto de dormir.
        -  Bliss? - chamou, enquanto batia de novo. Houve um barulho l dentro e 
        Bliss respondeu:
        -  O que ?
        -  Voc pode vir aqui? Estou precisando de ajuda.
        -  Espere s um instante, enquanto dou um jeitinho na minha aparncia.
        Quando Bliss afinal apareceu, estava mais bonita do que nunca. Trevize 
sentiu uma ponta de irritao porque a moa o tinha feito esperar. Entretanto, 
como agora eram amigos, fez o que pde para disfarar.
        -  O que posso fazer por voc, Trevize? - disse Bliss, com um sorriso.
        Trevize apontou para a tela.
        - Como pode ver, estamos em rbita em torno de um mundo que parece 
perfeitamente saudvel, com plantas em abundncia. Entretanto, no h luzes  
noite nem qualquer radiao artificial. Escute, por favor, e verifique para mim se 
existe algum tipo de vida animal. Houve uma hora em que julguei ter visto uma 
manada de herbvoros, mas no tenho certeza.
        Bliss "escutou" por alguns momentos. Pelo menos, seu rosto as sumiu 
expresso atenta. Afinal, disse:
        -  Oh, sim...  rico em vida animal.
        -  Mamferos?
        - Em quantidade.
        -  Humanos?
        Bliss pareceu concentrar-se. Passou-se um minuto inteiro, depois mais um, 
at que ela declarou:
        -  difcil dizer. De vez em quando, eu tinha a impresso de estar captando 
um sopro de inteligncia suficientemente intenso para ser considerado humano. 
Mas era to fraco e espordico que, como no caso dos seus herbvoros, no tenho 
certeza.  como se...
        A jovem parou para pensar e Trevize apressou-a com um "Como se o qu?"
        -   como se fosse um tipo de inteligncia a que no estou acostumada... 
No consigo imaginar outra explicao a no ser...
        O rosto de Bliss se contraiu enquanto ela "escutava" mais um pouco.
        -  A no ser o qu? - perguntou Trevize, ansioso.
        -  A no ser que sejam robs - disse a moa afinal.
        -  Robs!
        -  Robs. E se estou conseguindo detect-los, certamente poderia detectar 
seres humanos, tambm. Mas no h nenhum!
        -  Robs! - repetiu Trevize, franzindo a testa.
        -  E pelo que posso julgar, so muito numerosos - acrescentou Bliss.


43.

QUANDO SOUBE da histria, Pelorat exclamou "Robs!" praticamente com a mesma 
entonao que Trevize. Depois, sorriu, meio sem graa.
        -  Voc estava certo, Golan, e eu estava errado em duvidar de voc.
        -  Quando foi que duvidou de mim?
        -  Acontece, meu amigo, que preferi no lhe contar as minhas dvidas. No 
ntimo, achava que era um erro partirmos to depressa de Aurora, onde havia boa 
probabilidade de encontrarmos um rob ainda funcionando. Agora compreendo que 
voc sabia onde achar um nmero muito maior de robs.
       - No  verdade, Janov. Eu no sabia. Foi apenas um palpite. Bliss me
contou que, pelo que ela conseguiu verificar atravs das emisses mentais, os robs 
parecem estar em bom estado. A mim me parece que os robs no podem funcionar 
muito tempo sem a superviso de seres humanos. No entanto, ainda no 
conseguimos localizar nenhum ser humano.
        Pelorat olhou para a tela do telescpio.
        -  Este planeta  cheio de florestas, no ?
        -  , sim. O resto so regies cobertas de vegetao rasteira; praticamente 
no h desertos. Acontece, porm, que no encontramos nenhum vestgio de 
cidades e a nica radiao que captamos  a radiao trmica.
        -  Ento no existem seres humanos?
        -  Sei l. Bliss est na cozinha, tentando concentrar-se. Defini ar-
bitrariamente um meridiano de origem para o planeta, de modo que o computador 
conta com um sistema completo de latitudes e longitudes. Bliss est com um 
pequeno transmissor que aciona toda vez que encontra o que parece ser uma 
concentrao incomum de atividade mental. O transmissor est ligado ao 
computador, que guarda na memria as coordenadas dos locais indicados. Vou 
deixar que ele escolha o lugar onde iremos pousar.
        Pelorat parecia insatisfeito.
        -  Acha que devemos deixar a deciso por conta do computador?
        -  Por que no, Janov?  um computador muito competente. Alm disso, 
no temos outra maneira melhor de escolher, temos?
        Pelorat pareceu tranqilizar-se.
        -  Lembrei-me de uma coisa, Golan. Algumas lendas antigas falam de cubos 
que as pessoas usavam para tomar decises.
        -  Como era isso?
        -  Cada face do cubo tinha uma opo diferente: sim, no, talvez, deixe para
depois, etc. A pessoa jogava o cubo e seguia o conselho contido na face que caa 
para cima. Ou ento fazia girar uma bolinha em uma roda com vrios 
compartimentos, cada um com uma opo diferente, e seguia o conselho 
correspondente ao compartimento onde a bola caa. Alguns mitologistas acreditam 
que essas atividades representavam jogos de azar, e no de adivinhao, mas em 
minha opinio as duas coisas so muito parecidas.
        -  De certa forma - disse Trevize -, estamos jogando um jogo de azar ao 
escolhermos o local de aterrissagem.
        Bliss entrou no aposento a tempo de ouvir o ltimo comentrio e emendou: 
        -  Nada de jogos de azar. Depois de vrios "talvez", acabei encontrando um 
"sim", e  para o "sim" que ns vamos.
        -  O que quer dizer com isso?
        -  Captei um pensamento humano. Sem sombra de dvida.


44.

TINHA CHOVIDO recentemente, pois a grama estava mida. No cu, as nuvens se 
moviam rapidamente e estavam se dissipando.
        O Estrela Distante pousou perto de um pequeno bosque. (O que viria a calhar 
se encontrassem cachorros selvagens, pensou Trevize, meio de brincadeira, meio a 
srio.). Estavam no meio do que parecia uma pastagem e durante a descida Trevize 
tinha visto o que pareciam pomares e plantaes de cereais, alm de, com toda a 
certeza, animais herbvoros.
        Por outro lado, no havia nenhuma construo visvel. Nada de artificial, se 
bem que a regularidade das rvores no pomar e as fronteiras ntidas que separavam 
os campos plantados fossem to artificiais quanto teria sido uma estao receptora 
de microondas.
        Poderia esse grau de artificialismo ter sido produzido por robs? Sem a 
interveno de seres humanos?
        Trevize foi buscar o coldre. Dessa vez, fez questo de verificar se as duas 
armas estavam carregadas. Quando percebeu que Bliss estava olhando, 
interrompeu o que estava fazendo.
        -  Continue - disse a moa. - No acho que sero necessrias, mas j 
pensei isso uma vez e estava enganada, no  mesmo?
        -  Quer uma arma para voc, Janov? - perguntou Trevize. Pelorat 
estremeceu.
        -  No, obrigado. Com voc e suas defesas materiais e com Bliss e suas 
defesas mentais, eu me sinto perfeitamente seguro. Talvez seja covardia minha 
recorrer  proteo de vocs, mas no posso me sentir envergonhado quando estou 
to grato por no precisar recorrer  fora.
        -  Compreendo - disse Trevize. - S lhe peo que no v a lugar nenhum 
sozinho. Se Bliss e eu nos separarmos, fique com um de ns.
        -  Fique tranqilo, Trevize - disse Bliss. - Eu cuidarei dele.
        Trevize foi o primeiro a saltar da nave. O vento era um pouquinho frio, mas 
agradvel. Provavelmente tinha sido quente e mido antes da chuva.
        O rapaz respirou fundo e teve uma surpresa. O odor do planeta era delicioso. 
Cada planeta tinha um cheiro diferente, um cheiro sempre estranho e em geral 
desagradvel... talvez apenas porque era estranho. Por acaso um cheiro estranho 
no podia ser agradvel? Ou seria uma coincidncia de desembarcarem pouco 
depois da chuva, em uma certa estao do ano? Fosse como fosse...
        -  Venham - chamou. - Est muito agradvel aqui fora. Pelorat saiu da 
nave e disse:
        -  Agradvel  a palavra certa. Ser que o planeta tem sempre Um cheiro to 
bom?
        -  No importa. Daqui a uma hora, vamos estar acostumados ao aroma, 
nossos receptores nasais estaro saturados e no sentiremos mais cheiro algum.
        -  Que pena! - exclamou Pelorat.
        -  A grama est molhada - observou Bliss, com reprovao na voz.
        -  Por que no? Afinal de contas, em Gaia tambm chove - disse Trevize. 
Enquanto falava, um raio de sol surgiu no meio das nuvens. Logo haveria outros.
        -   verdade - disse Bliss. - Mas quando chove, estamos preparados.
        -  Pior para vocs. As coisas inesperadas tm muito mais graa.
        -  Tem razo. Vou procurar ser menos provinciana. Pelorat olhou em torno e 
disse, em tom desapontado:
        -  No estou vendo nada.
        -  Esto atrs daquela lombada - explicou Bliss. A moa se voltou para 
Trevize. - Acha que devemos ir ao encontro deles?
        Trevize sacudiu a cabea.
        -  No. Viajamos muitos anos-luz para encontr-los. Deixe-os percorrer os 
poucos metros que faltam. Vamos esperar aqui mesmo.
        Bliss era a nica que podia acompanhar o progresso deles at que, na 
direo para onde estava apontando, um vulto surgiu na crista da lombada, logo 
seguido por mais dois.
        -  Acho que no momento so s esses - disse a moa.
        Trevize observou-os com curiosidade. Embora jamais tivesse visto um rob, 
no tinha a mnima dvida quanto  identidade dos recm-chegados. Tinham a 
forma de seres humanos estilizados, mas no a aparncia metlica comumente 
associada a homens mecnicos. A superfcie dos robs era fosca e parecia macia, 
como se estivesse coberta de pelcia.
Como o rapaz sabia que a maciez era ilusria? Sentiu uma vontade sbita de 
apalpar aquelas figuras que se aproximavam com tanta segurana. Se fosse verdade 
que aquele era um Mundo Proibido, do qual as espaonaves nunca se aproximavam 
(e devia ser verdade, pois a estrela do sistema no constava do mapa da Galxia), 
ento o Estrela Distante e sua tripulao deviam representar uma experincia 
totalmente nova para os robs. Mesmo assim, estavam reagindo com toda a 
tranqilidade, como se estivessem executando um exerccio de rotina. Trevize disse, 
em voz baixa:
        - Esses robs podem nos fornecer informaes preciosas. Podemos 
perguntar a eles qual a localizao da Terra em relao a este planeta; se souberem, 
tero que nos dizer. Quem sabe h quanto tempo essas mquinas existem? Podem 
ter vinte mil anos de memrias. Pensem nisso.
        -  Por outro lado - argumentou Bliss -, podem ter sido construdos 
recentemente e no saber de nada.
        -  Ou podem saber, mas se recusarem a nos contar - sugeriu Pelorat.
        -  Acho que no podem deixar de nos responder, a menos que tenham 
ordens estritas nesse sentido - disse Trevize.         - E quem daria esse tipo de 
ordem, quando seguramente ningum neste planeta esperava a nossa chegada?
        Quando chegaram a trs metros de distncia, os robs pararam. No 
disseram nada nem fizeram mais nenhum movimento.
        Trevize, com a mo no desintegrador, disse para Bliss, sem tirar os olhos dos 
robs:
        -  Voc pode saber se so hostis?
        -  No tenho nenhuma experincia com os processos mentais deles, Trevize, 
mas at onde posso perceber, no consegui detectar nenhum sinal de hostilidade.
        Trevize tirou a mo direita da coronha da arma, mas a manteve prxima. 
Levantou a mo esquerda, com a palma voltada para os robs, no que esperava que 
fosse reconhecido como um gesto de paz, e disse, falando bem devagar:
        - Saudaes. Viemos a este mundo como amigos. O rob que estava no meio 
balanou levemente a cabea no que um otimista poderia interpretar tambm como 
um gesto de paz e respondeu.
        Trevize ficou de boca aberta. Aquela possibilidade no lhe havia ocorrido. O 
rob no estava falando em galctico padro ou em qualquer outra lngua 
conhecida. Na verdade, Trevize no conseguiu compreender uma nica palavra.


45.

A SURPRESA de Pelorat foi to grande quanto a de Trevize,. mas seu rosto assumiu 
um ar de satisfao.
        -  No  estranho? - observou.
          Trevize voltou-se para ele e disse, com certa aspereza na voz:
        -  Estranho, no.  incompreensvel.
        -  No exagere - disse Pelorat. - Ele est falando um dialeto arcaico de 
galctico. Consigo entender algumas palavras. Provavelmente, conseguiria 
compreender perfeitamente o que ele est dizendo, se estivesse escrito. O problema 
 a pronncia...
        -  Ento o que foi que ele disse?
        -  Acho que disse que no compreendeu o que voc disse. Bliss interveio:                                                           
        -  No sei o que ele disse, mas posso sentir que est surpreso, o que 
combina com a sua interpretao. Isso se posso confiar em minha anlise das 
emoes de um rob... se  que um rob tem emoes.
        Falando bem devagar e com muito esforo, Pelorat disse alguma coisa que fez 
os trs robs sacudirem a cabea em unssono.
        -  O que foi que voc disse? - perguntou Trevize.
        -  Disse que no sabia falar muito bem a lngua deles, mas estava disposto 
a tentar. Pedi que tivessem pacincia. Golan, meu velho amigo, isto  extremamente 
interessante!
        -  Para mim,  uma grande decepo - resmungou Trevize.
        -  Na verdade - disse Pelorat -, cada planeta habitvel da Galxia tem seu 
dialeto prprio do idioma galctico, de modo que existem milhes de dialetos, 
alguns dos quais quase incompreensveis para homens de outros planetas. 
Entretanto, depois da adoo do galctico padro, todos os dialetos tendem a 
evoluir mais ou menos da mesma forma. Se este planeta esteve isolado do resto da 
Galxia durante vinte mil anos, seu dialeto deveria ter divergido tanto que a esta 
altura teria que ser uma lngua totalmente diferente. O fato de que no  sugere que 
o planeta tem um sistema social baseado em robs, que podem compreender 
apenas a lngua para a qual foram programados. Assim, a lngua no evoluiu nada 
e o que temos agora  simplesmente um dialeto muito antigo do idioma galctico.
        -  Eis um exemplo de como a robotizao de uma sociedade pode impedir o 
seu progresso e faz-la degenerar - disse Trevize.
        -  Meu caro amigo - protestou Pelorat -, manter uma lngua intocada 
durante muitos sculos no  necessariamente um sinal de degenerao. Existem 
muitas vantagens. Documentos antigos podem ser lidos  vontade e emprestam 
autenticidade aos registros histricos. No resto da Galxia, a linguagem empregada 
nos decretos imperiais do tempo de Hari Seldon j comea a parecer pouco natural.
        -  E voc conhece esse galctico arcaico?
        -  No posso dizer que conheo, Golan, mas de tanto estudar mitos e lendas 
antigas acostumei-me com certas peculiaridades do galctico arcaico. O vocabulrio 
no  muito diferente, mas certas palavras so usadas com outro significado. Alm 
disso, existem muitas expresses idiomticas que j caram em desuso e, como j 
disse, a pronncia mudou totalmente. Posso funcionar como intrprete, mas um 
intrprete bastante medocre.
Trevize suspirou fundo.
        -  Isso  melhor que nada. Prossiga, Janov.
        Pelorat voltou-se para os robs, pensou um pouco e depois olhou para 
Trevize.
        -  O que devo dizer a eles?
        -  V direto ao assunto. Pergunte a eles onde fica a Terra. Pelorat fez a 
pergunta destacando bem as palavras e acompanhando o que dizia com gestos 
exagerados.
        Os robs se entreolharam e fizeram alguns rudos. Depois, o do meio disse 
alguma coisa para Pelorat, que replicou abrindo os braos como se estivesse 
esticando uma tira de elstico. O rob acrescentou alguma coisa, falando to 
 pausadamente quanto Perolat havia sugerido.
        Pelorat disse para Trevize:
        -  No sei se entenderam o que significa "Terra". Acho que pensam que 
estou falando de uma regio qualquer deste planeta e insistem em dizer que no 
conhecem nenhuma regio com esse nome.
        -  Sabe como eles chamam este planeta, Janov?
        -  Pelo que entendi, o nome deste planeta  Solaria.
        -  Conhece alguma lenda que mencione esse nome?
        -  No... mas tambm nunca tinha ouvido falar de Aurora.
        -  Pergunte ento para eles se existe algum lugar chamado Terra no cu... 
entre as estrelas. Aponte para cima.
Houve nova troca de palavras e depois Pelorat explicou:
        -  Tudo o que consegui deles, Golan, foi a informao de que no existem 
lugares no cu.
        Bliss sugeriu:
        -  Pergunte a esses robs quantos anos eles tm... ou por outra, h quanto 
tempo foram construdos.
        -  No sei como dizer "construdos" - disse Pelorat, sacudindo a cabea. - 
Acho que tambm no sei dizer "quantos anos". Como j disse, sou um intrprete 
medocre.
        -  Faa o melhor que puder, Pel querido - disse Bliss. Depois de conversar 
mais um pouco com os robs, Pelorat declarou:
        -  Eles foram construdos h 26 anos.
        -  Vinte e seis anos - murmurou Trevize, desapontado. - So pouco mais 
velhos que voc, Bliss.
        Bliss retrucou, ofendida:
        -  Acontece que...
        -  Eu sei. Voc  Gaia, que tem milhares de anos de idade... Seja como for, 
esses robs no tm idade suficiente para conhecer coisa alguma de primeira mo a 
respeito da Terra, e seus bancos de memria provavelmente no incluem 
informaes suprfluas. Assim, por exemplo, no sabem nada a respeito de 
astronomia.
        -  Pode haver outros robs no planeta que sejam bem mais antigos - 
sugeriu Pelorat.
        -  Duvido muito - disse Trevize. - Em todo caso, pergunte a eles, Janov... 
se conseguir encontrar as palavras certas.
        Pelorat passou muito mais tempo falando com os robs do que das vezes 
anteriores. Finalmente, interrompeu a conversa, com o rosto afogueado e um ntido 
ar de frustrao.
        -  Golan - explicou -, no compreendi parte do que tentaram me dizer, 
mas parece que os robs mais velhos so usados para trabalhos mais pesados e 
no sabem de nada. Se esse rob fosse um homem, eu diria que sente desprezo 
pelos robs mais velhos. Esses trs so robs domsticos, dizem eles, que so 
substitudos antes de ficarem velhos. So eles que realmente sabem das coisas... 
afirmao deles, no minha.
        -  No sabem muita coisa - observou Trevize, de mau humor.
        -  Pelo menos, no sabem o que nos interessa.
        -  Agora estou achando que no devamos ter sado de Aurora - disse 
Pelorat. - Se encontrssemos um rob funcionando, o que seria bastante provvel, 
j que logo o primeiro que vimos no estava totalmente parado, poderamos 
perguntar a ele a localizao da Terra e ele seria suficientemente velho para 
responder.
        -  No sabemos quanto tempo dura a memria de um rob, Janov - fez 
Trevize. - Se for necessrio, voltaremos a Aurora, mesmo que seja preciso 
enfrentar aqueles cachorros. Acontece que se esses robs tm pouco mais de duas 
dcadas, algum os fabricou recentemente, e esses fabricantes devem ser humanos.
        Voltou-se para Bliss.
        -  Voc tem certeza de que captou... A moa levantou a mo para faz-lo 
calar e disse, em voz baixa:
        -  Ele est chegando agora.
        Trevize olhou para a lombada e viu aparecer o vulto inconfundvel de um ser
humano. Tinha pele clara e cabelos louros e compridos. O rosto era srio, mas de
aparncia muito jovem. Os braos e pernas no eram particularmente musculosos.
        Os robs abriram caminho para deix-lo passar, e ele avanou at ficar no 
meio deles. Ento falou, com uma voz muito melodiosa. As palavras, embora 
pronunciadas com sotaque desconhecido, eram de galctico padro e fceis de 
entender.
        - Saudaes, visitantes do espao. O que desejam dos meus robs?


46.

TREVIZE no tentou impressionar o desconhecido. Perguntou, sem necessidade:
        -  Voc fala galctico?
        -  E por que no, j que no sou mudo? - respondeu o solariano, com um 
sorriso irnico.
        -  E eles? - Trevize apontou para os robs.
        -  So robs. Falam a lngua do planeta, como eu. Mas eu sou solariano e 
escuto as transmisses hiperespaciais de outros mundos, de modo que aprendi a 
maneira de vocs falarem, como meus antecessores. Meus antecessores deixaram 
descries da lngua que vocs falam, mas estou sempre ouvindo novas palavras e 
expresses, como se vocs Colonizadores tivessem aprendido a dominar os mundos, 
mas no as palavras. Por que ficou surpreso quando descobriu que eu falava sua 
lngua?
        - No devia ter ficado - disse Trevize. - Peo desculpas. Depois que ouvi os 
robs, fiquei com a impresso de que no se falava galctico neste planeta.
        Observou o solariano. Estava usando um manto branco, de tecido fino, que 
pendia frouxamente dos ombros, com grandes aberturas para os braos. Era aberto 
na frente, expondo um peito nu e uma tanga mais abaixo. Um par de sandlias 
leves completava o traje.
        Ocorreu a Trevize que era impossvel dizer se o solariano era homem ou 
mulher. O peito era liso como o de um homem, mas no tinha plos; a tanga no 
revelava nenhuma salincia.
        O rapaz se voltou para Bliss e disse, em voz baixa:
        -  Pode ser outro rob, mas um rob muito... Bliss sussurrou:
        -  A atividade mental  de um ser humano. O solariano disse:
        -  Vocs no responderam  minha pergunta inicial. Vou desculp-los 
porque foram pegos de surpresa. Perguntarei de novo e espero que no falhem pela 
segunda vez. O que desejam dos meus robs?
        Trevize respondeu:
        -  Somos viajantes e precisamos de informaes para chegarmos ao nosso 
destino. Consultamos os robs, mas eles no puderam nos ajudar.
        -  O que querem saber?
        -  Estamos indo para a Terra. Sabe onde fica? O solariano franziu a testa.
        -  Pensei que o seu primeiro objeto de curiosidade fosse a minha pessoa. 
Vou apresentar-me. Meu nome  Sarton Bander e esto em minha propriedade, que 
se estende at onde a vista pode alcanar e muito alm. No posso dizer que so 
bem-vindos, pois, ao pousarem aqui, desafiaram uma tradio. So os primeiros 
Colonizadores a pisarem no planeta em muitos milhares de anos e, ao que parece, 
vieram aqui simplesmente para se informar quanto ao melhor meio de chegar a 
outro planeta. Nos velhos tempos, Colonizadores, vocs e sua nave teriam sido 
imediatamente destrudos.
        - Seria uma forma injusta de tratar pessoas que vieram em paz - disse 
Trevize, cautelosamente.                                           
        - Concordo, mas quando os membros de uma raa em expanso se 
encontram com uma sociedade esttica e indefesa, o simples contato pode ser 
perigoso. Enquanto temamos esse contato, no permitamos que nenhum 
forasteiro desembarcasse neste planeta. Agora, que no temos mais nada a temer, 
estamos, como vem, dispostos a conversar.
        - Aprecio as informaes que nos ofereceu espontaneamente - disse Trevize 
-, mas no respondeu  minha pergunta. Vou repeti-la. Sabe onde fica o planeta 
Terra?
        -  Quando fala em Terra, suponho que esteja se referindo ao mundo no qual 
se originou o homem, alm de todas as espcies de plantas e animais.
        Fez um gesto gracioso, indicando tudo que os cercava.
        -  Sim senhor.
        O rosto do solariano adquiriu uma estranha expresso de repugnncia. Ele 
disse:
        - Por favor, chame-me apenas de Bander. No use nenhuma palavra que 
tenha uma conotao de sexo. No sou homem nem mulher. Sou completo.
        Trevize assentiu (suas dvidas tinham razo de ser, pensou).
        -  Como quiser, Bander. Pode nos dizer, ento, onde fica a Terra, o mundo 
de origem de todos ns?
        -  No sei. No estou interessado em saber. Mesmo que soubesse, ou que 
pudesse descobrir, no adiantaria nada para vocs, pois a Terra no existe mais 
como mundo. Ah... - prosseguiu Bander, espreguiando-se -... como  bom sentir 
o calor do sol. No  sempre que venho  superfcie; fao questo de que o sol esteja 
de fora. Quando mandei meus robs ao encontro de vocs, o sol estava escondido 
atrs das nuvens. S sa quando as nuvens se dissiparam.
        -  Por que a Terra no existe mais como mundo? - insistiu Trevize, 
lembrando-se da lenda a respeito da radioatividade da Terra.
        Bander, porm, ignorou a pergunta, ou por outra, colocou-a de lado sem a 
menor cerimnia.
        -   uma histria comprida. Voc me disse que vieram em paz.
        -  Isso mesmo.
        -  Ento por que est armado?
        -   apenas por precauo. No sabia o que iria encontrar.
        -  No importa. Suas armas no representam perigo para mim. Entretanto, 
estou curioso. Naturalmente, conheo alguma coisa a respeito das armas que usam 
e da histria curiosamente brbara de sua raa, na qual as armas parecem 
desempenhar um papel to importante. Mesmo assim, tive a oportunidade de 
examinar uma arma de perto. Posso ver a sua?
        Trevize recuou um passo.
        -  Sinto muito, Bander. Bander pareceu achar graa.
        -  Perguntei apenas para ser educado. No tinha necessidade de pedir.
        Estendeu a mo e o desintegrador emergiu do coldre direito de Trevize, 
enquanto o chicote neurnico saa do coldre esquerdo. Trevize tentou segurar as 
armas, mas os braos se recusaram a obedecer-lhe, como se estivessem amarrados 
com uma tira de borracha. Pelorat e Bliss no conseguiram sair de onde estavam.
        - No tentem interferir. Vocs no podem - disse Bander. As armas voaram 
para suas mos e ele as examinou com interesse.
        - Esta aqui - disse, mostrando o desintegrador - gera um feixe de 
microondas que produz calor, vaporizando os fluidos de um corpo e fazendo-o 
explodir. A outra  mais sutil; teria que estud-la com mais profundidade para 
compreender como funciona. De qualquer forma, j que vieram em paz, no 
precisam de armas. Assim, estou descarregando as fontes de energia das duas 
armas. Isso as torna inofensivas, a no ser que pretenda us-las como tacapes, o 
que seria uma grande tolice.
        O solariano largou as armas e elas flutuaram novamente no ar. Cada uma 
voltou para o seu coldre.
        Trevize, percebendo que era novamente senhor dos seus movimentos, sacou 
o desintegrador e constatou que a fonte de energia estava totalmente descarregada. 
O mesmo havia acontecido com o chicote neurnico.
        Olhou para Bander, que disse, sorrindo:
        -  Vocs esto inteiramente nas minhas mos, forasteiros. Da mesma forma 
como descarreguei essas armas, poderia ter destrudo vocs e a sua nave.


Captulo 11

No Subsolo





47.

TREVIZE estava atnito. Olhou para Bliss, procurando respirar normalmente.
        A moa tinha passado o brao na cintura de Pelorat, num gesto protetor, e 
parecia muito calma. Sorriu levemente e fez um movimento ainda mais discreto 
com a cabea.
        Trevize olhou de volta para Bander. Tendo interpretado a atitude de Bliss 
como tranqilizadora e rezando aos cus para que a interpretao estivesse correta, 
perguntou para o solariano:
        -  Como foi que fez isso, Bander? Bander sorriu, satisfeito.
        -  Digam-me, pequenos forasteiros, acreditam em bruxaria?
        -  No, no acreditamos, pequeno solariano - respondeu Trevize.
        Bliss puxou Trevize pela manga da camisa e sussurrou ao seu ouvido:
        -  No o provoque. Ele  perigoso.
        -  J percebi - disse Trevize, controlando-se para no levantar o tom de 
voz. - Faa alguma coisa!
        -  Ainda no - cochichou Bliss. - Quero que ele se sinta seguro. Bander 
no prestou ateno ao curto dilogo. Afastou-se dos forasteiros. Os robs abriram 
caminho para ele passar.
        O solariano olhou para trs e dobrou o dedo languidamente.
        -  Venham. Sigam-me. Todos os trs. Vou contar-lhes uma histria que 
talvez no interesse a vocs, mas que interessa muito a mim.
        Continuou a caminhar, sem pressa.
        Trevize ficou por alguns momentos onde estava, sem saber o que
fazer. Bliss, 
entretanto, deu um passo  frente, puxando Pelorat consigo. Afinal, Trevize os
acompanhou; a alternativa era ficar para trs, na companhia dos robs.
        Bliss disse, em tom despreocupado:
        -  Se Bander quiser nos contar a histria que talvez no nos interesse...
        Bander  voltou a cabea e olhou para Bliss como se estivesse vendo a moa 
pela primeira vez.
        -  Voc  a meio-humana feminina, no ? A metade inferior?
        -  A metade menor, Bander. Sou, sim.
        -  Esses dois so meio-humanos masculinos, ento?
        -  Isso mesmo.
        -  Voc j teve o seu filho, feminina?
        -  Bander, meu nome  Bliss. Ainda no tive nenhum filho. Este aqui  
Trevize. Este  Pel.
        -  Qual desses dois masculinos vai ajud-la quando chegar a hora? Ou 
sero os dois? Ou nenhum?
        -  Pel vai me ajudar, Bander. Bander voltou-se para Pelorat.
        -  Estou vendo que tem cabelos brancos.
        -   verdade - disse Pelorat.
        -  Eles sempre foram assim?
        -  No, Bander, ficaram assim com a idade.
        -  Quantos anos voc tem?
        -  Cinqenta e dois, Bander - respondeu Pelorat. - Cinqenta e dois anos 
galcticos.
        Bander continuou a caminhar (em direo  manso distante, imaginou 
Trevize), mas mais devagar. Ele disse:
        -  No sei quanto  um ano galctico, mas no deve ser muito diferente do 
nosso. Com quantos anos voc vai morrer, Pel?
        -  No sei. Pode ser que eu viva mais uns trinta anos.
        -  Oitenta e dois anos, ento. Vivem muito pouco e so apenas metade 
humanos.  incrvel pensar que meus antepassados distantes eram como vocs e 
viviam na Terra... at que alguns deles deixaram a Terra e fundaram outros 
mundos, mundos maravilhosos, mundos organizados, uma infinidade deles.
        -  Infinidade, no - protestou Trevize, em voz alta. - Apenas cinqenta.
        Bander olhou com desprezo para Trevize. J no parecia to bem humorado.
        -  Trevize. Voc se chama Trevize.                                         
        -  Meu nome completo  Golan Trevize. Eu disse que os Espaciais s 
colonizaram cinqenta planetas. Nossos mundos so milhes e milhes!
        -  Ento j conhece a histria que eu ia contar? - perguntou Bander.
        -  Se  a histria de que os Espaciais colonizaram cinqenta planetas, ns 
j a conhecemos.
        -  No so os nmeros que importam, pequeno meio-humano, mas a 
qualidade. Eram cinqenta, sim, mas que valiam mais que todos os seus milhes. E 
Solaria foi o qinquagsimo, e, portanto, o melhor. Solaria estava to acima dos 
outros mundos dos Espaciais quanto os mundos dos Espaciais estavam acima da 
Terra.
        "Fomos ns, de Solaria, que aprendemos como a vida devia ser vivida". No 
nos juntamos em bandos, como animais, da forma como se fazia na Terra ou 
mesmo nos outros planetas dos Espaciais. No, vivamos sozinhos, com robs para 
nos ajudar, em contato eletrnico com os outros habitantes, mas raramente havia a 
oportunidade para um contato fsico. Faz muitos anos que no me aproximo de 
seres humanos tanto quanto me aproximei de vocs. Entretanto, como so apenas 
metade humanos, sua presena no me incomoda mais que a de uma vaca, 
digamos, ou a de um rob.
        "Acontece que no passado tambm ramos meio-humanos". Por mais que 
aperfeiossemos nossa liberdade, por mais que nos cercssemos de robs capazes 
de atender a todas as nossas necessidades, nossa liberdade nunca era absoluta. 
Para reproduzir a espcie, era necessria a colaborao de dois indivduos. 
Naturalmente, seria possvel recolher vulos e esperma e realizar a fecundao e o 
desenvolvimento do embrio em ambiente artificial. As crianas poderiam 
perfeitamente ser criadas por robs. Tudo isso seria vivel, mas os meio-humanos 
se recusavam a abrir mo do prazer associado  fecundao biolgica. Em 
conseqncia, desenvolviam-se ligaes anormais entre meio-humanos masculinos 
e femininos, o que punha em risco a nossa liberdade. No compreendem que isso 
tinha que mudar?
        -  No, Bander, porque o nosso conceito de liberdade  diferente do seu - 
observou Trevize.
        -  Isso  porque no conhecem a verdadeira liberdade. Passaram a vida em 
grupos, sendo constantemente forados, at mesmo nas pequenas coisas, a ceder  
vontade de outros, ou, o que  igualmente desprezvel, a lutar para impor aos 
outros a sua vontade. Desse jeito, como pode haver liberdade? A liberdade consiste 
em viver como se quer! Exatamente como se quer!
        "Ento chegou a poca em que o povo da Terra comeou mais uma vez a 
migrar para o espao". Os outros Espaciais tentaram competir com eles. Ns, no. 
Mudamo-nos para o subsolo e rompemos todos os contatos com o resto da Galxia.
Estvamos decididos a proteger nossa liberdade, custasse o que custasse. 
Construmos robs e sistemas de armas para proteger a superfcie do planeta, e eles 
executaram a tarefa de forma admirvel. Naves chegaram e foram destrudas, at 
que pararam de chegar. O planeta foi considerado deserto e todos se esqueceram 
dele.
        "Enquanto isso, no subsolo, trabalhvamos para resolver nossos problemas". 
Comeamos a manipular nossos genes. Muitas experincias fracassaram, mas 
algumas deram certo. Levamos muitos sculos, mas afinal nos tornamos seres 
humanos completos, combinando os princpios masculino e feminino em um s 
corpo, capaz de atender plenamente s prprias necessidades de prazer e de 
produzir, no momento prprio, vulos fertilizados para serem criados pelos robs.
        -  So hermafroditas - observou Pelorat.
        -   assim que nos chamam na lngua de vocs? - perguntou Bander, com 
indiferena. - Nunca tinha ouvido essa palavra antes.
        -  O hermafroditismo  um golpe mortal para a evoluo - disse Trevize. - 
O filho passa a ser geneticamente idntico ao pai.
        -  No seja tolo - disse Bander. - Est falando como se a evoluo s 
pudesse acontecer por tentativa e erro. Sabemos como mudar e aperfeioar os 
nossos genes e  o que fazemos, ocasionalmente... Mas j estamos quase chegando 
na minha casa. Vamos entrar. Est ficando tarde e daqui a pouco vai esfriar. 
Estaremos mais  vontade dentro de casa.
        Passaram por uma porta que no tinha nenhum tipo de fechadura, mas que 
se abriu quando se aproximaram e se fechou depois que haviam passado. No havia 
janelas, mas quando entraram em uma sala espaosa, as paredes comearam a 
brilhar. O cho parecia nu, mas era macio e flexvel. Em cada um dos quatro cantos 
da sala havia um rob, imvel.
        -  Aquela parede - disse Bander, apontando para a parede em frente  
porta, que no parecia diferente das outras -  a minha tela para o exterior. O 
mundo se abre para mim atravs dessa tela, mas isso de forma alguma limita a 
minha liberdade, pois no sou obrigado a us-la.
        -  Nem pode obrigar outra pessoa se quiser v-la atravs dessa tela e a 
pessoa no concordar - quis saber Trevize.
        -  Obrigar outra pessoa? Isso jamais me passaria pela cabea - disse 
Bander, com arrogncia.
        Havia uma cadeira na sala, em frente  parede que servia de tela, e Bander 
sentou-se.
        Trevize olhou em torno, como se esperasse que outras cadeiras se 
materializassem do ar.
        -  Podemos nos sentar tambm? - perguntou.
        -  Se quiserem - respondeu Bander.
        Bliss sentou-se no cho, sorrindo. Pelorat sentou-se ao lado da moa. Trevize 
continuou teimosamente de p. Bliss perguntou:
        -  Bander, quantos seres humanos vivem neste planeta?
        -  Diga solarianos, Bliss. A expresso "seres humanos" est contaminada 
pelo fato de que os meio-humanos se consideram seres humanos. Poderamos nos 
referir a ns mesmos como "humanos completos", mas preferimos ser chamados 
apenas de solarianos.
        -  Est bem. Quantos solarianos vivem neste planeta?
        -  No sei ao certo. Talvez uns mil e duzentos.
        -  Apenas mil e duzentos em todo o planeta?
        -  Tenho que lembrar a voc que no  a quantidade que conta, mas a 
qualidade... Tambm no entende o que  a verdadeira liberdade. Se existe outro 
solariano para contestar minha soberania absoluta em relao a qualquer parte de 
minhas terras, em relao a qualquer rob ou outro objeto de minha propriedade, 
ento minha liberdade no  completa. Para que minha liberdade seja total,  
preciso que os outros solarianos estejam to afastados de mim que um contato 
fsico seja extremamente improvvel. Para que isso seja possvel, a populao de 
Solaria no deve ultrapassar cerca de mil e duzentos habitantes. Se a populao 
ultrapassasse esse limite, nossa vida se tornaria insuportvel.
        -  Isso quer dizer que os nascimentos devem ser planejados, de modo a 
compensar as mortes - disse Pelorat, de repente.
        -  Claro que sim. Isso acontece em qualquer planeta com uma populao 
estvel... at mesmo no de vocs, suponho.
        -  E como vocs tm poucos falecimentos, tambm nascem poucas crianas.
        -   verdade.
        Pelorat fez que sim com a cabea e no disse mais nada. Trevize disse:
        -  Quero saber como voc fez minhas armas flutuarem no ar.
        -  J propus uma explicao: bruxaria. Recusa-se a aceit-la?
        -  Claro que me recuso! Por quem me toma?
        -  Ser, ento, que acredita nas leis de conservao de energia e de 
maximizao da entropia?
        -  Acredito. Acredito tambm que nem em vinte mil anos vocs poderiam 
abolir essas leis ou modific-las um milmetro que fosse.
        -  E tem razo, meio-humano. Mas acompanhe o meu raciocnio. L fora, 
temos a luz do sol. - O solariano fez um gesto gracioso para mostrar que o sol 
banhava toda a superfcie do planeta. - Aqui dentro, estamos na sombra.  mais 
quente no sol do que na sombra e o calor passa espontaneamente das regies 
iluminadas para as que esto na sombra.
        -  Tudo isso eu j sei - observou Trevize.
        -  Deixe-me continuar.  noite, a superfcie de Solaria  mais quente que os 
objetos que esto alm da atmosfera, de modo que o calor da superfcie  irradiado 
para o espao.
        -  Sei disso, tambm.
        -  E de dia ou de noite, o interior do planeta  mais quente que a superfcie. 
Assim, o calor passa espontaneamente do interior para a superfcie. Imagino que 
saiba disso, tambm.
        -  E da, Bander?
        -  O fluxo de calor dos corpos mais quentes para os mais frios, que deve 
ocorrer de acordo com a segunda lei da termodinmica, pode ser aproveitado para 
realizar trabalho.
        -  Teoricamente, sim, mas a luz do sol  diluda, o calor da superfcie do 
planeta  ainda mais diludo e a velocidade com que o calor escapa do interior do 
planeta torna essa fonte ainda mais diluda. A potncia que voc pode extrair no 
seria suficiente para mover uma pedra.
        -  Isso depende do aparelho usado para aproveitar essa energia - disse 
Bander. - O nosso levou milhares de anos para ser aperfeioado e  nada menos 
que uma parte do nosso crebro.
        Bander levantou o cabelo dos dois lados da cabea, revelando a parte do 
crnio atrs das orelhas. Virou a cabea para l e para c e Trevize pde ver, atrs 
das orelhas, duas protuberncias do tamanho e forma da extremidade mais 
achatada de um ovo de galinha.
        -  Esta parte do crebro  que me faz diferente de vocs - disse o solariano.


48.

TREVIZE olhou de soslaio para Bliss, que parecia inteiramente concentrada no que 
Bander dizia. O rapaz achava que sabia o que estava acontecendo.
        Bander, apesar do seu amor pela liberdade, no pudera resistir quela 
oportunidade nica. No podia conversar de igual para igual com os robs, e muito 
menos com os animais. Conversar com os outros solarianos seria desagradvel, 
alm de representar uma intromisso na liberdade alheia.
        Quanto a Trevize, Bliss e Pelorat, para Bander eram apenas parcialmente 
humanos e tinham tanto direito  liberdade quanto um rob ou uma vaca. Por 
outro lado, eram intelectualmente seus iguais (ou quase isso) e portanto conversar 
com eles constitua uma experincia rara.
        No admira, pensou Trevize, que esteja se divertindo tanto. E Bliss 
certamente estava encorajando essa atitude, pensou o rapaz. Provavelmente a moa 
estava partindo da suposio de que se Bander falasse bastante, talvez revelasse 
alguma coisa de til a respeito da Terra. Trevize concordava com a idia, de modo 
que, embora no estivesse muito interessado nas explicaes do solariano, 
procurou manter a conversao acesa.
        -  Qual  a funo desses lobos cerebrais? - perguntou.
        -  So transdutores - respondeu Bander. - So ativados pelo calor e 
transformam diretamente o calor em energia mecnica.
        -  No posso acreditar. A energia trmica  insuficiente.
        -  Pequeno meio-humano, voc no pensa. Se houvesse muitos solarianos 
vivendo juntos, todos tentando usar a energia trmica, a sim, o suprimento seria 
insuficiente. Acontece que tenho mais de quarenta mil quilmetros quadrados que 
so meus, unicamente meus. Posso recolher o calor de todos esses quilmetros 
quadrados e us-los apenas para mim. Est entendendo?
        -   to fcil recolher o calor em uma grande regio? O simples ato de 
concentrar-se representa um certo consumo de energia.
        -  Talvez, mas no tenho conscincia disso. Meus lobos transdutores esto 
continuamente concentrando a energia trmica, de modo que posso usar essa 
energia na hora que quiser. Quando fiz suas armas flutuarem no ar, um certo 
volume da superfcie iluminada pelo sol perdeu uma parte do seu excesso de calor 
em relao  outra parte da superfcie que estava na sombra, de modo que, em 
ltima anlise, usei a energia solar para fazer as armas se moverem. S que, em vez 
de captar e utilizar essa energia atravs de um dispositivo mecnico ou eletrnico, 
fiz uso de um dispositivo neurnico. - Bander deu um tapinha em um dos lobos 
transdutores. - Ele trabalha com rapidez e eficincia... e sem nenhum esforo.
        -   incrvel - murmurou Pelorat.
        -  No, no  incrvel - protestou Bander. - Pense na sensibilidade do olho 
e do ouvido, na forma como conseguem transformar em informao quantidades 
diminutas de luz e de som. Pareceria incrvel, se no estivesse familiarizado com 
eles. A mesma coisa acontece com os lobos temporais. Para ns, so um rgo como 
outro qualquer.
        -  E o que  que vocs fazem normalmente com esse rgo? - quis saber 
Trevize.
        -  Fazemos nosso mundo funcionar - respondeu Bander. - Todos os meus 
robs so alimentados por mim... ou por outra, so alimentados pela energia solar, 
por meu intermdio. Quando um rob ordenha uma vaca ou derruba uma rvore, a 
energia que consome  reposta por transduo mental.
        -  E quando voc est dormindo.
        -  Os lobos transdutores funcionam o tempo todo, pequeno meio-humano. 
Por acaso voc no respira enquanto est dormindo? Seu cotao pra de bater?  
noite, o interior de Solaria esfria um pouquinho para que os meus robs possam 
continuar funcionando. A mudana  extremamente pequena em termos relativos e 
somos apenas mil e duzentos, de modo que toda a energia que usamos no  
suficiente para esfriar apreciavelmente o ncleo do planeta.
        -  J lhe ocorreu que esse rgo poderia ser usado como arma? Bander 
olhou para Trevize como se estivesse dizendo um absurdo.
        -  Est insinuando que Solaria poderia enfrentar outros mundos com armas 
baseadas na transduo mental? Para qu? Mesmo que pudssemos derrot-los, o 
que no  certo, o que ganharamos com isso? O domnio de outros planetas? Para 
que conquistar outros planetas, quando vivemos em um mundo ideal? Para 
dominar os meio-humanos e us-los como escravos? Temos nossos robs, que so 
muito mais eficientes. No, ns temos tudo o que desejamos. No queremos nada... 
a no ser que nos deixem em paz. Escute aqui... vou contar outra histria.
        -  V em frente - disse Trevize.               
        -  H vinte mil anos atrs, quando os meio-humanos da Terra invadiram o 
espao e ns nos refugiamos no subsolo, os outros mundos dos Espaciais estavam 
dispostos a enfrentar os novos colonizadores vindos da Terra. Para isso, atacaram a 
prpria Terra.
        -  Atacaram a prpria Terra - repetiu Trevize, procurando disfarar a 
satisfao que estava sentindo por afinal o assunto "Terra" ter surgido na conversa.
        -  Sim, o centro de tudo. Uma atitude sensata, de certa forma. Se voc quer 
matar uma pessoa, no aponta para o brao ou para a perna, mas para o corao. 
E os nossos colegas Espaciais, cujas paixes ainda eram bastante primitivas, como 
as dos terrqueos, conseguiram tornar radioativa a superfcie da Terra, de modo 
que o planeta ficou praticamente inabitvel.
        -  Ah, ento foi isso o que aconteceu! - exclamou Pelorat, sacudindo no ar 
o punho cerrado. - Sabia que no podia ser um fenmeno natural. Como foi que 
eles conseguiram isso?
        -  No conheo os detalhes - disse Bander, com indiferena. - A verdade  
que os Espaciais no ganharam muito com isso.  o que estou tentando mostrar. 
Os Colonizadores continuaram a se expandir e os Espaciais... desapareceram. 
Tinham tentado competir e foram extintos. Ns, solarianos, nos escondemos, nos 
recusamos a competir e ainda estamos aqui.
        -  Ns, Colonizadores, tambm - disse Trevize, agressivamente.
        -  Sim, mas no para sempre. Vocs tm que lutar, tm que competir, e 
acabaro por se destruir. Pode levar dezenas de milhares de anos, mas no temos 
pressa. Quando isso acontecer, ns, solarianos, completos, solitrios, liberados, 
teremos a Galxia inteira para ns. Poderemos ento usar, ou no usar, qualquer 
planeta que quisermos alm do nosso.
        -  Voltando  questo da Terra - disse Pelorat, estalando os dedos com 
impacincia. - O que nos contou  uma lenda ou um fato histrico?
        -  Qual a diferena, meio-humano? - perguntou Bander. - Toda lenda tem 
um fundo de verdade.
        -  Sim, mas o que dizem os seus registros? Posso ver os seus registros a 
respeito do assunto? Compreenda que essa questo de mitos, lendas e Histria 
antiga est dentro do meu campo de interesse. Sou um cientista especializado em 
Histria antiga, especialmente a da Terra.
        -  Estou me limitando a repetir o que me contaram - disse Bander. - No 
existem registros a respeito. Nossos registros so apenas sobre os assuntos de 
Solaria; os outros mundos so mencionados apenas de passagem, quando a sua 
existncia nos afeta de alguma forma.
        -  A existncia da Terra certamente afetou vocs.
        -  Claro que sim, mas isso foi h muito, muito tempo, e a Terra, de todos os 
mundos, sempre foi o que nos causava mais repulsa. Se tivermos algum registro a 
respeito da Terra, estou certo de que foi destrudo por pura averso.
        Trevize rangeu os dentes, furioso.
        -  Por vocs? - perguntou.
        Bander voltou sua ateno para Trevize.
        -  No havia ningum mais para destru-los. Pelorat no estava disposto a 
deixar o assunto morrer.
        -  Que mais voc ouviu falar a respeito da Terra? Bander pensou um pouco. 
Depois, disse:
        -  Quando era moo, ouvi de um rob uma histria a respeito de um 
terrqueo que uma vez visitou Solaria e de uma solariana que partiu com ele e ficou 
famosa em toda a Galxia. Em minha opinio, a histria foi inventada.
        Pelorat mordeu o lbio inferior.
        -  Tem certeza?
        -  Como posso ter certeza? - disse Bander. - Apenas acho muito pouco 
provvel que um terrqueo tivesse a coragem de vir a Solaria e que os solarianos 
permitissem a intruso.  ainda menos provvel que uma mulher solariana... ainda 
ramos meio-humanos, mas mesmo assim... abandonasse este mundo 
voluntariamente... Agora vamos, quero mostrar minha casa para vocs.
        -  Sua casa? - disse Bliss, olhando em torno. - No estamos na sua casa?
        -  No - disse Bander. - Esta  uma ante-sala. Uma sala de visitas.  aqui 
que, muito raramente, me encontro com outros solarianos. Suas imagens aparecem 
na parede, ou tridimensionalmente no espao diante da parede. Assim, esta sala  
um lugar pblico e no pode fazer parte de minha casa. Venham comigo.
        O solariano atravessou o aposento sem olhar para trs para ver se estava 
sendo seguido, mas os quatro robs haviam deixado seus cantos e Trevize sabia que 
se ele e os companheiros no o acompanhassem, os robs os obrigariam a faz-lo.                                   
Os outros dois se puseram de p e Trevize sussurrou para Bliss:
        -  Voc o estimulou a falar? Bliss apertou-lhe a mo e assentiu.
        -  Mesmo assim, ficaria bem mais tranqila se soubesse o que pretende - 
acrescentou, com ar preocupado.                      


49.

OS TRS seguiram Bander. Os robs permaneceram a uma distncia discreta, mas 
sua presena era uma ameaa permanente.
        Estavam caminhando por um corredor e Trevize resmungou, desanimado:
        -  J vi que no vamos descobrir nada de til a respeito da Terra neste 
planeta. Apenas variaes em torno do velho tema da radioatividade. - Franziu a 
testa. - Talvez seja melhor prosseguirmos para o terceiro conjunto de coordenadas.
        Uma porta se abriu diante deles, revelando uma pequena sala. Bander disse:
        -  Entrem, meio-humanos, quero que vejam como vivemos. Trevize 
sussurrou:
        -  O sujeito tem um prazer infantil de se mostrar. Estou com vontade de 
amassar-lhe o nariz.
        -  No tente competir com ele em infantilidade - disse Bliss. Bander fez os 
trs entrarem no aposento. Um dos robs os seguiu.
        Bander mandou os outros robs embora com um gesto e entrou tambm. A 
porta se fechou atrs dele.
        -   um elevador! - exclamou Pelorat, surpreso.
        -  Isso mesmo - confirmou Bander. - Depois que nos retiramos para o 
subsolo, nunca mais voltamos a morar na superfcie, embora eu goste de tomar sol 
de vez em quando. Entretanto, nunca vou l fora  noite ou quando est nublado, 
pois tenho a impresso de estar em um lugar coberto sem realmente estar em um 
lugar coberto, se  que me entendem.  uma espcie de dissonncia cognitiva que 
considero extremamente desagradvel.
        -  Houve uma poca em que os habitantes da Terra tambm moravam no 
subsolo - disse Pelorat. - As cidades eram chamadas de Cavernas de Ao. 
Trantor, a capital do antigo imprio, tambm tinha muitas construes 
subterrneas. O mesmo acontece com Comporellon nos dias de hoje. Pensando 
bem,  uma tendncia bastante comum.
        -  Meio-humanos amontoados debaixo da Terra e solarianos vivendo no 
subsolo com toda a privacidade e conforto tm muito pouco em comum - disse 
Bander.
        -  Em Terminus, todas as residncias ficam na superfcie - disse Trevize.
        -  Expostas s intempries - disse Bander, em tom de reprovao. - Muito 
primitivo!
        Depois da sensao inicial de perda de peso que havia revelado sua natureza 
a Pelorat, o elevador parecia totalmente imvel. Trevize tinha comeado a imaginar 
quanto tempo duraria a viagem quando houve uma breve sensao de aumento de 
peso e a porta se abriu.
        Diante deles estava uma sala espaosa e mobiliada com requinte. Estava 
iluminada com uma luz difusa, de origem desconhecida. Era como se o prprio ar 
fosse levemente luminoso.
        Bander apontou com o dedo e, no lugar para onde havia apontado, a luz 
ficou mais forte. Apontou em outra direo e aconteceu a mesma coisa. Apoiou a 
mo esquerda em uma espcie de cano com a ponta arredondada que estava ao 
lado da porta e fez um gesto circular com a mo direita. No mesmo instante, toda a 
sala se iluminou como se estivesse ao sol, mas a sensao de calor estava ausente.
        Trevize fez uma careta e exclamou, em voz no muito baixa:
        -  Esse homem  um charlato! Bander protestou, zangado:
        -  No diga "homem", e sim "solariano". No sei o que significa "charlato", 
mas pelo tom de sua voz, deve ser alguma coisa ofensiva!
        Trevize explicou:
        -  Charlato  quem no  autntico, quem faz as coisas parecerem mais 
extraordinrias do que realmente so.
        -  Tenho que admitir que gosto de efeitos dramticos - disse Bander -, 
mas o que mostrei a vocs no  nenhum truque.  de verdade!
        Deu um tapinha no cano em que a mo esquerda estava pousada.
        -  Este cano condutor de calor atinge uma profundidade de vrios 
quilmetros. Existem canos semelhantes em muitos outros pontos de minha 
propriedade. Sei que existem canos como este em outras propriedades. Os canos 
aumentam a velocidade com que o calor  transferido do interior de Solaria para a 
superfcie e facilita a converso da energia trmica em mecnica. No precisava dos 
gestos para produzir a luz, mas assim foi muito mais interessante, no acham?
        -  Quantas oportunidades voc tem de experimentar o prazer desses 
pequenos toques dramticos? - perguntou Bliss.
        -  No muitas - disse Bander, sacudindo a cabea. - Meus robs no se 
impressionam com essas coisas. Nem os outros solarianos. Esta oportunidade de 
mostrar a casa para meio-humanos  muito... divertida.
        -  Havia uma luz difusa na sala quando entramos - disse Pelorat. - Ela 
fica acesa o tempo todo?
        -  Fica. Isso representa um pequeno consumo de energia... como o 
necessrio para manter os robs funcionando. Minha propriedade est sempre 
ativada; as unidades que no se encontram empenhai das em nenhum servio ativo 
so mantidas operando com capacidade reduzida.
        -  E voc fornece constantemente energia para toda a propriedade?
        -  A energia  fornecida pelo sol e pelo ncleo do planeta; limito-me a 
canalizar essa energia. Alm disso, nem toda a minha propriedade  produtiva. 
Conservo a maior parte em estado selvagem, abrigando uma boa variedade de 
animais; primeiro, para proteger os meus domnios e segundo, porque isso me 
agrada. Na verdade, minhas fbricas e plantaes so pequenas. Servem apenas
para suprir minhas necessidades e produzir alguns itens especiais, que troco com 
outros, solarianos. Tenho robs, por exemplo, que so capazes de fabricar e instalar
canos condutores de calor. Muitos solarianos contratam os servios desses robs.
        -E a sua casa? - quis saber Trevize. -  muito grande? O rapaz devia ter 
feito a pergunta certa, pois um largo sorriso iluminou o rosto do solariano.
        -  Muito grande. Uma das maiores do planeta, acredito eu. Estende-se por 
quilmetros e quilmetros em todas as direes. Tenho tantos robs cuidando da 
minha casa no subsolo quanto em todos os milhares de quilmetros quadrados da 
superfcie.
        -  Voc no pode morar nela toda,  claro - disse Pelorat.
        -  Pode haver um quarto ou outro que nunca visitei, mas e da? ! Os robs
mantm todos os aposentos limpos, arrumados e bem ventilados. Venham, venham.
        Passaram por uma porta diferente da que haviam usado para entrar na sala 
e foram dar em outro corredor. Diante deles estava um pequeno carro sem teto, que 
corria em trilhos.
        Bander fez um gesto para que subissem a bordo e os trs obedeceram. No 
havia lugar suficiente para todos os quatro e mais o rob, mas Pelorat e Bliss se 
apertaram de modo a deixar espao para Trevize. Bander sentou-se na frente, ao 
lado do rob, e o carro se ps em movimento, sem nenhum sinal de que o solariano 
estivesse usando algum tipo de controle.
        - Na verdade, trata-se de um rob em forma de carro - declarou Bander, 
com ar de indiferena.
        Prosseguiram com velocidade razovel, passando por portas que se abriam 
quando o carro se aproximava e tornavam a se fechar depois que ele passava. Cada 
porta estava pintada com um desenho geomtrico diferente, como se os robs 
tivessem recebido instrues para decor-las com motivos escolhidos ao acaso.                       
        O corredor  frente e atrs do carro estava sempre escuro. O local em que se 
encontravam, porm, estava sempre bem iluminado. As salas tambm se acendiam 
assim que as portas eram abertas.
        A viagem parecia no ter mais fim. De vez em quando, o carro fazia uma 
curva, demonstrando que a casa se estendia em duas dimenses. (No, em trs 
dimenses, pensou Trevize, quando percebeu que o carro tinha descido uma rampa 
suave.).
        Onde quer que passassem, havia robs, dezenas, centenas de robs... 
empenhados em trabalhos que Trevize era incapaz de precisar. Passaram uma 
grande sala na qual havia dezenas de robs sentados diante de escrivaninhas.
        -  O que  que eles esto fazendo, Bander? - perguntou Pelorat.
        - Contabilidade - explicou Bander. - Dados estatsticos, contas 
financeiras, coisas assim com as quais, felizmente, no preciso me preocupar. Esta 
propriedade  altamente produtiva. Cerca de um quarto da rea cultivada  
dedicado s rvores frutferas. Tambm produzo vrios cereais, mas meu orgulho 
so as frutas. Minhas frutas so as melhores do planeta. Em Solaria, os pssegos 
de Bander so famosos. Ningum mais se d ao trabalho de cultiv-los. Tenho 27 
diferentes variedades de mas... e assim por diante. Os robs podem fornecer a 
voc os dados completos.
        -  O que  que voc faz com todas essas frutas? - perguntou Trevize. - No 
pode comer todas.
        -  Claro que no! Pessoalmente, nem gosto muito de frutas. Elas so 
trocadas com os outros solarianos.
        -  O que  que voc recebe em troca?
        -  Minrios, principalmente. Minha propriedade praticamente no tem 
recursos minerais. Tambm adquiro de vez em quando os espcimes necessrios 
para manter o equilbrio ecolgico. Tenho uma grande variedade de animais e 
vegetais em minha propriedade.
        -  Os robs tomam conta de tudo isso, suponho - disse  Trevize.
        -  Tomam. E muito bem.
        -  Tudo para um solariano.
        -  Tudo para a propriedade e seus padres ecolgicos. Acontece que sou o 
nico solariano a visitar as vrias partes da propriedade... mas isso faz parte da 
minha liberdade absoluta.
        Pelorat disse:
        -  Suponho que os outros... os outros solarianos tambm mantenham o 
equilbrio ecolgico nos pntanos, ou regies montanhosas, ou litorais, ou seja qual 
for o tipo de terreno em que esto suas propriedades.
        -  Claro que sim. Este  um dos assuntos que discutimos nas conferncias 
que s vezes as questes mundiais tornam necessrias.
        -  Com que freqncia vocs se renem? - perguntou Trevize. Estavam 
passando por um corredor muito estreito e comprido, no qual no havia salas. 
Trevize imaginou que o terreno ali no devia ser apropriado para construo e que o 
corredor servia apenas para ligar duas alas da casa.
        -  Com maior freqncia do que eu gostaria.  raro o ms em que no tenho 
que me reunir com os outros membros de uma das comisses de que fao parte. 
Embora no haja pntanos nem montanhas em minha propriedade, meus pomares, 
viveiros de peixes e jardins botnicos so considerados os melhores de Solaria!
        Pelorat disse:
        -  Meu velho amigo... quero dizer Bander... suponho que nunca saiu da sua 
propriedade para visitar outras...
        -  Claro que no! - exclamou Bander, com ar ofendido.
        -  Nesse caso - prosseguiu Pelorat -, como pode estar certo de que os seus 
produtos so os melhores?
        -  Posso avaliar - explicou Bander - pela forma como meus produtos so 
valorizados no comrcio entre as propriedades.
        -  E as indstrias? - perguntou Trevize.
        -  Existem propriedades que fabricam mquinas e ferramentas. Como eu j 
disse, na minha propriedade fazemos canos condutores de calor.
        -  E os robs?
        -  Os robs so fabricados aqui e ali. No passado mais remoto, os robs de 
Solaria j eram considerados os melhores da Galxia.
        -  Hoje em dia tambm, suponho - disse Trevize, tomando cuidado para 
que o outro interpretasse a frase como uma afirmao e no como uma pergunta.
        -  Hoje em dia? Com quem vamos competir hoje em dia? Hoje em dia somos 
os nicos que fabricamos robs. Vocs pararam de fabric-los, se entendi 
corretamente o que ouvi nas transmisses hiperespaciais.
        -  E os outros mundos dos Espaciais?
        -  J lhe disse que no existem mais.
        -  Todos eles?
        -  No acredito que hoje exista um nico Espacial vivo fora de Solaria.
        -  Ento no existe ningum que conhea a localizao da Terra?
        -  Por que algum iria se interessar em saber a localizao da Terra?
        -  Estou interessado em saber - interrompeu Pelorat. - Afinal,  o meu 
campo de estudo.
        -  Pois  melhor estudar outra coisa - disse Bander. - No sei onde fica a 
Terra, nunca ouvi falar de algum que soubesse e no estou interessado no 
assunto.
        O carro diminuiu a velocidade e por um momento Trevize pensou que Bander 
tivesse ficado ofendido. A parada, entretanto, foi suave e Bander, ao saltar do carro, 
parecia o mesmo de sempre.
        A sala em que entraram era mal iluminada, mesmo depois que Bander 
aumentou a luz com um gesto. Dava para um corredor lateral, flanqueado por salas 
menores. Cada uma dessas salas continha um ou dois vasos decorados, s vezes 
acompanhados por objetos que pareciam projetores de cinema.
        -  O que  isso, Bander? - perguntou Trevize.
        -  So as cmaras morturias dos meus ancestrais, Trevize.


50.

PELORAT olhou em torno com interesse.
        -  As cinzas dos seus ancestrais esto enterradas aqui? - perguntou.
        -  "Enterradas" no  o termo que usamos - disse Bander. - As cinzas 
esto no subsolo, mas minha casa tambm.         Na nossa lngua, dizemos que, ao 
serem colocadas aqui, as cinzas foram "encasadas".
        Trevize olhou rapidamente em torno.
        -  Esses so todos seus ancestrais? Quantos?
        -  Quase uma centena - respondeu Bander, sem disfarar o orgulho na 
voz. - Noventa e quatro, para ser mais exato. Naturalmente, os primeiros no eram 
solarianos de verdade. Eram meio-humanos, masculinos e femininos. Foram 
colocados em urnas contguas por seus descendentes imediatos. Naturalmente, no 
entro nas salas onde eles esto. Seria "vergonhfero" de minha parte. Pelo menos, 
esta  a expresso em solariano; no conheo a palavra equivalente em galctico.
        -  E os filmes? - perguntou Bliss. - Essas mquinas so projetores, no 
so?
        -  Dirios - explicou Bander. - A histria de suas vidas. Cenas em que 
aparecem nos locais que gostavam de freqentar. Graas aos dirios, no esto 
totalmente mortos. Parte deles permanece aqui, e  parte de minha liberdade a 
possibilidade de vir aqui sempre que quiser e juntar-me a eles. Posso ver o trecho 
de suas vidas que desejar.
        -  Mas no os... os vergonhferos. Bander baixou os olhos.
        -  No - admitiu. - Mas afinal, todos ns solarianos compartilhamos desse 
passado desagradvel.  uma desgraa coletiva.
        - Coletiva? Ento os outros solarianos tambm tm cmaras como essas? - 
perguntou Trevize.
        -  Oh, sim, ns todos temos, mas as minhas so as melhores, as mais 
requintadas, as mais bem conservadas.
        -  J preparou a sua cmara morturia? - perguntou Trevize.
        -  Certamente. Est pronta para receber minhas cinzas. Foi a primeira coisa 
que fiz quando herdei a propriedade. Quando chegar a minha vez, meu sucessor 
far a mesma coisa.
        -  Voc tem um sucessor?
         - Terei, quando chegar a ocasio. Ainda me restam muitos anos de vida. 
Quando partir, deixarei um sucessor adulto, suficientemente maduro para 
aproveitar a propriedade e com lobos transdutores suficientemente desenvolvidos 
para faz-la funcionar.
        -    Ser seu descendente, imagino.
        -  Oh, sim!
        -  E se as coisas no correrem conforme o previsto? - perguntou Trevize. - 
Mesmo aqui em Solaria devem ocorrer acidentes. O que acontece se um solariano 
tem que partir prematuramente e no deixa sucessor, ou deixa um sucessor que 
no est suficientemente maduro para aproveitar a propriedade?
        -  Isso  muito raro. Na minha famlia, s aconteceu uma vez. Acontece, 
Trevize, que existem outros sucessores em outras propriedades. Alguns desses 
sucessores tm idade bastante para herdar, mas seus pais so suficientemente 
jovens para poder gerar um segundo descendente e continuar vivos at que esse 
segundo descendente atinja a idade adulta. Um desses sucessores veteranos, como 
so chamados, seria escolhido para herdar minha propriedade.
        -  Quem faria a escolha?
        -  Solaria  governado por um conselho. Uma das poucas atribuies do
conselho  exatamente essa: escolher um sucessor em caso de partida prematura. 
Naturalmente, tudo  feito por holoviso.
        Pelorat disse:
        -  Escute aqui, se os solarianos nunca se vem, como  que ficam sabendo 
quando algum mor... quando algum tem que partir, inesperadamente ou no?
        -  Quando um de ns tem que partir, a propriedade fca sem energia; todas 
as mquinas deixam imediatamente de funcionar. Se um sucessor no assume o 
lugar, a situao anormal chega ao conhecimento dos outros solarianos e so 
tomadas medidas corretivas. Asseguro-lhe que nosso sistema social funciona 
perfeitamente.
        -  Poderia me mostrar alguns desses filmes que voc tem aqui? O rosto de 
Bander revelou uma indignao genuna. Ele disse:
        -  S a sua ignorncia se justificaria como desculpa. O que est me 
propondo  obsceno.
        -  Peo desculpas - disse Trevize. - No quero parecer insistente, mas j 
expliquei que estamos interessados em obter informaes a respeito da Terra. 
Ocorreu-me que os filmes mais antigos que voc tem podem ser da poca em que a 
Terra ainda no era radioativa. Nesse caso, talvez mencionem a Terra. Pode ser at 
que digam alguma coisa a respeito da sua localizao.  claro que no queremos 
nos intrometer em sua privacidade, mas no haveria uma forma de voc mesmo 
examinar esses filmes, ou mandar um rob examin-los, e nos transmitir qualquer 
informao que contenham a respeito da Terra? Naturalmente, se entende os 
nossos motivos e compreende que faremos o possvel para respeitar os seus 
sentimentos, talvez nos permita examinar pessoalmente os filmes.
        Bander disse secamente:
        -  Imagino que voc no tem meios de saber que est me ofendendo cada 
vez mais. Entretanto, podemos encerrar de vez esta conversa, pois lhe asseguro que 
no h filmes nas cmaras que contm as cinzas dos meus antepassados meio-
humanos.
        -  No? - O desapontamento de Trevize era evidente.
        -  Esses filmes existiram um dia. At voc, porm, pode imaginar o que 
continham. Dois meio-humanos mostrando interesse um pelo outro, ou mesmo... - 
Bander pigarreou e completou, com esforo -... ou mesmo interagindo. 
Naturalmente, todos os filmes a respeito dos meio-humanos foram destrudos h 
muitas geraes.
        -  E os filmes guardados por outros solarianos?
        -  Todos destrudos.
        -  Tem certeza?
        -  Conserv-los seria loucura.
        -  Pode ser que algum solariano seja louco, sentimental ou esquecido. Acho 
que no se incomodar se visitarmos seus vizinhos.
        Bander olhou para Trevize, surpreso.
        -  Pensa que outros solarianos vo ser to tolerantes quanto eu?
        -  Por que no?
        -  Vocs vo ver.
        -  Estamos dispostos a correr o risco.
        -  No, Trevize. No posso permitir. Havia robs por perto e Bander parecia 
cada vez menos amistoso.
        -  Que foi que houve, Bander? - perguntou Trevize, pouco  vontade.
        -  Escute, no posso dizer que no me diverti conversando com vocs, 
conhecendo pessoas to... to diferentes. Foi uma experincia rara, que me trouxe 
prazer, mas no posso registr-la no meu dirio nem imortaliz-la em filme.
        -  Por que no?
        -  Falar com vocs, escutar vocs, receb-los em minha casa, traz-los aqui, 
nas cmaras morturias dos meus antepassados... tudo isso constitui grave 
violao das normas sociais de Solaria.
        -  No somos solarianos. Para vocs, no somos mais importantes que um 
rob, no  verdade?
        -  Foi a desculpa que usei para mim mesmo. Os outros talvez no pensem 
da mesma forma.
        -  E da? Voc tem liberdade absoluta para fazer o que quiser, no tem?
        -  Claro que no. Se eu fosse o nico habitante de Solaria, ento sim, teria 
liberdade absoluta. Mas existem outros solarianos no planeta, de modo que minha 
liberdade, embora muito grande, tem suas limitaes. Existem mil e duzentos 
solarianos neste planeta que me desprezariam se soubessem o que fiz.
        -  Eles no precisam saber...
        -   verdade. Tenho pensado nisso desde que vocs chegaram. Tenho 
pensado nisso o tempo todo. Os outros no devem saber.
        Pelorat interveio:
        -  Se tem medo de que nossa visita s outras propriedades em busca de 
informaes sobre a Terra lhe traga complicaes, pode ficar tranqilo. Basta no 
revelarmos que estivemos aqui. Voc tem nossa palavra.
        Bander sacudiu a cabea.
        -  J me arrisquei demais. No vou falar com os outros sobre vocs,  claro. 
Meus robs no vo falar sobre vocs; vou providenciar para que se esqueam de 
tudo a respeito da estada de vocs em Solaria. A nave ser trazida c para baixo e 
revistada...
        -  Espere! - protestou Trevize. - Quanto tempo acha que podemos esperar 
enquanto revista nossa nave? Queremos...
        -  No esto em posio de querer nada - interrompeu Bander. Sinto 
muito. Gostaria de discutir muitas outras coisas com vocs, mas no estou disposto 
a correr o risco.
        -  No entendo qual  esse risco.
        -  No precisa entender, pequeno meio-humano. Vou fazer agora o que 
meus ancestrais teriam feito assim que vocs desembarcaram no planeta. Vou 
mat-los... todos os trs.


Captulo 12

Volta  Superfcie





51.

TREVIZE olhou imediatamente para Bliss. A moa estava com os olhos fixos em
Bander. O rosto no revelava qualquer emoo. Parecia alheia ao que estava 
acontecendo.
        Pelorat ficou de boca aberta, como se no acreditasse nos prprios ouvidos.
        Trevize, sem saber exatamente o que Bliss seria capaz de fazer para salv-los, 
lutou para superar uma imensa sensao de perda (no tanto a idia de morrer, 
pensou, mas a idia de morrer sem saber onde ficava a Terra, sem saber por que 
havia escolhido Gaia como futuro da humanidade). Era preciso ganhar tempo.
        Fazendo o possvel para conservar a voz firme, o rapaz comeou:
        -  Bander, voc se revelou uma pessoa gentil e educada. No se irritou com 
nossa intruso no seu planeta. Deu-se ao trabalho de nos mostrar pessoalmente 
sua propriedade e sua manso, no se furtou de responder s nossas perguntas. 
Estaria muito mais de acordo com o seu carter se nos deixasse partir agora. 
Ningum jamais saberia que estivemos aqui e no temos nenhum motivo para 
voltar. Chegamos em paz, em busca de informao, e partiramos em paz.
        -  O que est dizendo  verdade - concordou Bander, com um sorriso - e  
por isso que at agora permiti que vivessem. No momento em que entraram na 
atmosfera de Solaria, suas vidas j no valiam mais nada. O que eu podia ter feito... 
o que devia ter feito... era mat-los assim que pousassem. Em seguida, meus robs 
dissecariam os cadveres e revistariam a nave. Informaes a respeito dos 
Forasteiros so sempre bem-vindas.
        "No foi isso que fiz". Cedi  curiosidade e  minha generosidade natural. 
Agora basta. No posso continuar. O que est em risco  a prpria segurana de 
Solaria, pois se, por alguma fraqueza, permitisse que vocs me persuadissem a 
deix-los partir, tenho certeza de que outros viriam.
        "Entretanto, vocs tm um consolo". A morte ser indolor. Vou simplesmente 
aquecer o crebro de vocs at que ele deixe de funcionar. No sentiro nada. Mais 
tarde, depois que os robs acabarem de dissecar e examinar os corpos, eles sero 
reduzidos a cinzas por um pulso de calor intenso e tudo estar terminado.
        -  Se vou morrer - disse Trevize -, nada tenho a opor a uma morte rpida 
e indolor, mas por que temos que morrer, quando no cometemos nenhum crime?
        -  A chegada de vocs a este planeta foi um crime.
        -  No do ponto de vista moral, porque no tnhamos meios de saber que era 
um crime.
        -   a sociedade local que define o que constitui um crime. Para vocs, pode 
parecer irracional e arbitrrio, mas, para ns, no . Como este  o nosso mundo, 
no qual temos todo o direito de decidir o que  certo e o que  errado, vocs 
cometeram um crime e merecem morrer.                                                                 .
        Bander sorriu como se estivesse entretendo um grupo de convidados e 
prosseguiu:
        -  Tambm no podem se queixar com base em pretensas virtudes morais.
Voc, por exemplo, carrega uma arma que utiliza um feixe de microondas para
aquecer os tecidos da vtima at mat-la. Faz a mesma coisa que eu pretendo fazer
com vocs, mas de forma muito mais cruel e dolorosa. Voc, Trevize, no hesitaria 
em us-la contra mim neste instante, se eu no tivesse tomado a precauo de 
descarreg-la e se fosse suficientemente tolo para permitir-lhe liberdade de 
movimentos.
        Trevize protestou, desesperado, com medo de olhar para Bliss e atrair para 
ela a ateno de Bander:
        -  Por favor, no faa isso! Tenha pena de ns!
        -  Tenho que pensar primeiro em mim e no meu mundo. Por isso, vocs tm 
que morrer - disse Bander, subitamente srio.
        Levantou a mo e imediatamente Trevize viu tudo escurecer.

52.

POR UM momento, Trevize sentiu a escurido sufoc-lo e pensou consigo mesmo: 
Isto  a morte?
        Como se fosse um eco para os seus pensamentos, ouviu um sussurro:
        -  Isto  a morte? Era a voz de Pelorat. Trevize tentou falar e descobriu que 
podia.
        -  No precisa perguntar - disse, com uma imensa sensao de alvio. - O 
simples fato de estar falando significa que isto no  a morte.
        -  Muita gente acredita que existe vida depois da morte.
        -  Bobagem - resmungou Trevize. - Bliss? Voc est aqui, Bliss?
        No houve resposta. Pelorat chamou tambm:
        -  Bliss? Bliss? Golan, que aconteceu?
        -  Bander deve estar morto - explicou Trevize. - Por isso, a propriedade 
ficou sem energia. Todas as luzes se apagaram.
        -  Mas como foi que... voc acha que foi Bliss?
        -  Deve ter sido. Espero que no tenha sado ferida.
        Trevize comeou a rastejar na escurido absoluta do complexo subterrneo 
(sem contar o brilho ocasional, muito tnue, de um tomo   radioativo 
desintegrando-se nas paredes).
        De repente, sua mo tocou alguma coisa quente e macia. Apalpou-a e 
reconheceu uma perna, que segurou. Era muito pequena para pertencer a Bander.
        -  Bliss?
        A perna se moveu com fora, obrigando Trevize a larg-la.
        -  Bliss? Diga alguma coisa! - exclamou o rapaz.
        -  Estou viva - disse a voz de Bliss, curiosamente distorcida.
        -  Voc est bem?
        -  No.
        Nesse momento, a luz voltou... muito fraca. As paredes comearam a brilhar, 
mas a luz aumentava e diminua erraticamente.
        Bander estava cado no cho, inerte. A seu lado, segurando-lhe a cabea, 
estava Bliss.
        A jovem olhou para Trevize e Pelorat.
        - O solariano est morto - declarou, com os olhos marejados de lgrimas.
        Trevize estava atnito.
        -  Por que est chorando?
        -  No deveria chorar, depois de ter matado uma criatura viva e  inteligente? 
No era essa a minha inteno.
        Trevize abaixou-se para ajud-la a levantar-se, mas Bliss o repeliu. Pelorat 
ajoelhou-se ao lado da moa e disse baixinho:
        -  Por favor, Bliss, nem mesmo voc  capaz de traz-lo de volta  vida. 
Conte-nos o que aconteceu.
        A jovem permitiu que Pelorat a levantasse e disse, sem emoo:
        -  Gaia pode fazer a mesma coisa que os solarianos. Gaia pode fazer uso da 
distribuio desigual de energia no universo e transform-la em trabalho til,
usando apenas o poder mental.
        -  Sei disso - afirmou Trevize, procurando acalmar a moa, mas sem saber 
muito bem como faz-lo. - Lembro-me do nosso encontro no espao, quando 
voc... ou melhor, quando Gaia capturou nossa nave. Pensei nisso quando Bander 
me imobilizou, depois de tomar minhas armas. Voc foi imobilizada, tambm, mas 
eu tinha certeza de que voc poderia resistir, se quisesse.
        -  Pois estava enganado. Quando eu/ns/Gaia capturamos sua nave, eu e 
Gaia ramos uma coisa s. Agora, minha ligao com Gaia tem que ser feita atravs 
do hiperespao, o que limita consideravelmente o que eu/ns/Gaia podemos 
realizar. Alm do mais, Gaia faz o que faz atravs da conjugao dos esforos de 
crebros humanos comuns; nenhum desses crebros possui o equivalente aos lobos 
transdutores dos solarianos. No podemos fazer uso da energia da mesma forma 
delicada, eficiente, descontrada que um ser como Bander. No consigo nem 
iluminar direito esta sala... j estou ficando cansada apenas por manter a luz como 
est. Bander era capaz de fornecer energia para toda a propriedade, mesmo quando 
estava dormindo.
        -  Mas voc o venceu - disse Trevize.
        -  Porque ele no conhecia meus poderes - explicou Bliss - e porque no 
fiz nada que chamasse sua ateno. Bander se preocupou muito mais com voc, 
Trevize, o nico que estava armado... mais uma vez, suas armas foram muito 
teis... e tive a oportunidade de atingi-lo com um golpe rpido e inesperado, No 
momento em que se preparava para matar-nos, quando toda a sua ateno estava 
concentrada nessa tarefa, e em voc, arrisquei nesse nico golpe.
-  E funcionou magnificamente.
-  Como pode dizer uma coisa to cruel, Trevize? No pretendia mat-lo. Minha 
inteno era apenas impedi-lo de usar o transdutor. No momento de surpresa em 
que tentasse destruir nosso crebro e descobrisse que continuvamos vivos, e que, 
alm disso, a iluminao estava ficando cada vez mais fraca, usaria meus poderes 
para faz-lo dormir e ao mesmo tempo liberaria o transdutor. Nesse caso, as luzes 
continuariam acesas e poderamos sair da casa, entrar na nave e ir embora do 
planeta. Arranjaria as coisas de tal forma que, quando Bander finalmente 
acordasse, no se lembraria de nada a respeito da nossa visita. Gaia no tem desejo 
de matar ningum, quando existem outros meios de atingir os mesmos objetivos.
        -  O que foi que deu errado, Bliss? - perguntou Pelorat.,
        -  Eu nunca havia encontrado nada parecido com aqueles lobos 
transdutores e no tivera oportunidade de examin-los de perto. Limitei-me a 
bloque-los mais ou menos s cegas, e, ao que parece, a manobra no funcionou da 
forma desejada. No foi a entrada da energia nos lobos que foi bloqueada, mas a 
sada dessa energia. A energia est sempre entrando nos lobos, mas, normalmente, 
o crebro se protege descarregando o excesso. Quando bloqueei a sada, porm, a 
energia se acumulou nos lobos e, em frao de segundo, a temperatura subiu a tal 
ponto que as protenas do crebro coagularam e as clulas morreram. As luzes se 
apagaram e removi imediatamente o bloqueio, mas era tarde demais.
        -  No vejo como poderia ter agido de outra forma, querida - disse Pelorat.
        -  Grande consolo, considerando que eu o matei.
        -  Bander estava disposto a nos matar - disse Trevize.
        -  Tinha razes para impedi-lo, no para mat-lo. Trevize hesitou. No 
queria demonstrar a impacincia que estava sentindo; seria bobagem ofender ou 
irritar Bliss, que era, afinal de contas, sua nica defesa naquele mundo 
extremamente hostil. Ele disse:
        -  Bliss, precisamos pensar nas conseqncias da morte de Bander. No 
momento, toda a propriedade est sem energia. Mais cedo ou mais tarde, talvez 
mais cedo do que pensamos, os solarianos se daro conta do fato e viro investigar. 
No acho que voc seja capaz de enfrentar simultaneamente vrios nativos do 
planeta. Alm disso, como voc mesma confessou, no conseguir nem mesmo 
manter as luzes desta sala acesas por muito tempo.  importante, portanto, que a 
gente volte sem demora para a superfcie e para a nossa nave.
        - Como vamos fazer isso, Golan? - perguntou Pelorat. - Para chegar at 
onde estamos, atravessamos quilmetros de tneis tortuosos. Aqui embaixo deve 
ser um verdadeiro labirinto! No tenho a menor idia do que devemos fazer para 
voltar  superfcie. E voc?
        Trevize olhou em volta e se deu conta de que Pelorat tinha razo. Ele disse 
para o outro:
        -  Deve haver muitas comunicaes com a superfcie... no precisamos 
voltar pela mesma que usamos na vinda.
        -  Est certo, mas no sabemos onde esto as passagens. Como vamos 
encontrar uma delas?
        Trevize voltou-se para Bliss.
        -  Voc pode detectar algo, mentalmente, que nos ajude a localizar uma 
sada?
        -  Todos os robs da propriedade esto inativos - respondeu a moa. - 
Estou captando alguns traos de vida animal acima de ns, mas isso apenas revela 
que a superfcie fica para cima, coisa que estamos fartos de saber.
        -  Ento vamos ter que procurar uma sada - disse Trevize.
        -   uma agulha num palheiro - disse Pelorat. - Pode levar anos!
        -  No temos alternativa - disse Trevize. - Se ficarmos aqui, mais cedo ou 
mais tarde os solarianos nos pegaro. Vamos, temos que tentar!
        -  Espere - disse Bliss. - Estou captando mais alguma coisa!
        -  O qu? - perguntou Trevize.
        -  Pensamentos.
        -  Inteligncia?
        -  Sim, mas limitada. Uma emoo, porm,  muito forte.
        -  Qual? - perguntou Trevize, lutando novamente para controlar a 
impacincia.
        -  Medo! Um medo incontrolvel! - explicou Bliss.


53.

TREVIZE olhou em volta, desconsolado. Sabia por onde tinham entrado, mas no 
tinha nenhuma esperana de poder refazer o trajeto de vinda. Afinal, no tinha 
prestado nenhuma ateno s curvas do caminho. Quem teria imaginado que 
seriam forados a voltar sozinhos, sem nenhuma ajuda, guiados apenas por uma 
luz mortia?
        -  Acha que pode fazer o carro funcionar, Bliss? - perguntou para a moa.
        -  Tenho certeza, Trevize, mas isso no quer dizer que eu saiba como dirigi-
lo.
        -  Acho que Bander dirigia o carro mentalmente - disse Pelorat  - Pelo 
menos, no o vi mexer em nenhum controle durante a viagem.
        -  Eu sei, Pel - concordou Bliss. - Mas como! Suponha qual soubssemos 
que Bander havia usado algum tipo de controle. Se no soubssemos operar os 
controles, isso no ajudaria muito, no ?
        -  Voc pode tentar - disse Trevize.
        -  Para tentar, vou ter que me concentrar tanto que duvido que consiga 
manter as luzes acesas. O carro no nos servir de nada no escuro.
        -  Ento vamos ter que procurar a sada a p?
        -  Acho que sim.
        Trevize olhou para a escurido que cercava a rea precariamente iluminada 
em que os trs se encontravam. No viu nada, no ouviu nada. Perguntou:
        -  Bliss, ainda est captando aquela criatura amedrontada?
        -  Estou, sim.
        -  Pode dizer onde est? Pode guiar-nos at l?
        -  As ondas mentais se propagam em linha reta. No so difratadas 
apreciavelmente pela matria comum, de modo que tenho certeza de que est nessa 
direo.
        A jovem apontou para um ponto na parede e disse:
        -  Acontece que no podemos atravessar a parede. O melhor que podemos 
fazer  seguir os corredores e escolher sempre o caminho para o qual as ondas se 
tornem mais fortes. Em outras palavras, acho que vamos ter que brincar de 
chicotinho-queimado!
        -  Ento vamos logo.
        -  Espere, Golan - protestou Pelorat. - Tem certeza de que quer encontrar 
essa criatura? Se est assustada, talvez haja motivo para ficarmos assustados, 
tambm.
        Trevize sacudiu a cabea, impaciente.
        -  No temos escolha, Janov. Assustado ou no,  um ser inteligente, que 
talvez possa nos mostrar o caminho para a superfcie.
        -  Vamos deixar Bander aqui? - perguntou Pelorat. Trevize puxou-o pelo 
brao.
        -  Vamos, Janov. Nesse caso tambm no temos escolha. Um dia algum 
solariano vai reativar a propriedade e um rob vai encontrar o corpo de Bander e 
cuidar dele... s espero que, quando isso acontecer, a gente esteja longe daqui!
        Fez um gesto para que Bliss fosse na frente. A luz era sempre mais forte 
perto da jovem e ela parava em cada cruzamento, procurando localizar a fonte das 
transmisses mentais. s vezes, experimentava um caminho, dava meia-volta e 
escolhia outra rota, enquanto Trevize a observava, impotente.
        Cada vez que Bliss fazia uma escolha e se encaminhava com passos 
decididos em certa direo, a luz a precedia. Trevize observou que a luz parecia um 
pouco mais forte. Talvez seus olhos se estivessem habituando  penumbra. Podia 
ser tambm que Bliss estivesse aprendendo a energizar o sistema de iluminao de 
forma mais eficiente. A certa altura, quando passaram por um dos canos 
condutores de calor, a moa apoiou a mo na extremidade do cano e as luzes 
ficaram bem mais fortes. Bliss balanou a cabea, como se estivesse satisfeita 
consigo mesma.
        Nada parecia familiar. Trevize tinha certeza de que estavam em uma parte da 
manso por onde no haviam passado para chegar s cmaras morturias.
        O rapaz estava  procura de corredores que levassem para cima e tambm 
examinava constantemente o teto em busca de algo que lembrasse um alapo. 
Como no apareceu nada semelhante, a nica esperana continuava a ser a 
criatura amedrontada.
        Caminhavam em silncio, a no ser pelo som dos prprios passos, e no 
escuro, exceto pela luz que acompanhava Bliss. De vez em quando, encontravam 
um rob, sentado ou de p, mas sempre imvel. Uma vez, passaram por um rob 
que estava deitado no cho, os braos e pernas em posies grotescas. Tinha sido 
pego de surpresa pela falta de energia, pensou Trevize, e havia perdido o equilbrio. 
Bander, vivo ou morto, no podia modificar a lei da gravidade. Provavelmente havia 
robs inativos na superfcie; talvez fosse a primeira coisa a atrair a ateno dos 
vizinhos.
        Ou talvez no, pensou subitamente. Os solarianos deviam saber quando um 
deles estava para morrer de velhice. Nesse caso, a comunidade estaria preparada e 
alerta. Bander, porm, tinha morrido de repente, sem nenhum aviso, na flor da 
idade. Quem saberia? Quem estaria prestando ateno no comportamento dos seus 
robs?
        Pelorat murmurou, em tom preocupado:
        -  A ventilao deve ter parado! Um lugar como este, no subsolo, precisa de 
ventilao forada. Com a morte de Bander, as mquinas de ventilao pararam de 
funcionar!
        -  No se preocupe, Janov - disse Trevize. - O ar que existe aqui embaixo 
deve ser suficiente para vrios anos.
        -  J estou me sentindo meio sufocado...
        -  Janov, no v me dizer que sofre de claustrofobia! Bliss, estamos 
chegando perto?
        -  Estamos quase l, Trevize. A sensao  cada vez mais forte. A moa 
agora estava caminhando com mais segurana, hesitando menos nos cruzamentos.
        -  Est ali! - exclamou. - Bem  frente!
         - J estou ouvindo alguma coisa - observou Trevize.
        Os trs pararam e, instintivamente, prenderam a respirao. Ouviram 
algum chorando baixinho. De vez em quando, o choro era interrompido por 
soluos.
        Entraram em um salo e, quando as luzes se acenderam, verificaram, que, 
ao contrrio de todos os aposentos que haviam visto at o momento, era ricamente 
mobiliado.
        No meio do salo havia um rob, ligeiramente inclinado para a frente, com os 
braos estendidos no que parecia um gesto quase afetuoso. Naturalmente, o rob 
estava imvel.
        Houve um rudo atrs do rob. Um olho assustado apareceu por um 
instante. O choro continuou.
        Trevize deu um passo em direo ao rob e, do outro lado, um  pequeno vulto 
saiu correndo, gritando. Tropeou, caiu e ficou onde havia cado, cobrindo os olhos, 
dando pontaps em todas as direes, como que para se defender de algum perigo 
iminente, gritando sem parar...
        -  uma criana - observou Bliss, sem a menor necessidade.



54.

TREVIZE parou, surpreso. O que estaria fazendo ali uma criana? Bander tinha 
falado com tanto orgulho de sua solido, de sua privacidade...
        Pelorat foi o primeiro a encontrar a explicao.
        -  Este deve ser o sucessor - disse.
        -   o filho de Bander, sim - concordou Bliss. - Mas acho que  jovem 
demais para herdar a propriedade. Os solarianos vo ter que arranjar outro 
sucessor.
        A moa olhou para a criana, no com os olhos arregalados, mas de uma 
forma suave, hipntica, e pouco a pouco os gritos diminuram. A criana abriu os 
olhos e olhou para Bliss. Os gritos se transformaram em soluos.
Bliss falou com a criana, palavras doces, que pouco significavam em si mesmas, 
mas que serviam para reforar o efeito calmante dos pensamentos da jovem. Era 
como se estivesse acariciando mentalmente o crebro da criana, confortando-a, 
tranqilizando-a.
        Devagar, sem tirar os olhos de Bliss, a criana se ps de p. Ficou ali parada 
por um momento, com o corpo balanando para l e para c, depois, correu na direo
do rob. Envolveu com os braos a perna da mquina, como se estivesse
procurando refgio.
        -  Acho que o rob  a ama da criana. Um solariano no pode cuidar de 
outro solariano, mesmo que seja seu filho.
        -  Suponho que seja hermafrodita - disse Pelorat.
        -  Tem que ser - afirmou Trevize.
        Bliss, com a ateno concentrada na criana, aproximou-se lentamente, com 
as mos  altura dos ombros, as palmas para trs, como que para mostrar  
criaturinha que no tinha inteno de agarr-la. A criana agora estava quieta, 
olhando fixamente para a moa enquanto segurava com fora a perna do rob.
        -  Calma, criana - disse Bliss. -Est tudo bem... no h perigo... somos 
amigos...
        Parou e, sem olhar para trs, disse em voz baixa:
        -  Pel, fale com ela. Diga-lhe que somos robs e viemos cuidar dela porque 
faltou energia.
        -  Robs? - exclamou Pelorat, chocado.                        
        -  Temos que nos fazer passar por robs. A criana no tem medo de robs. 
Ela nunca viu um ser humano, talvez nem mesmo saiba o que so os seres 
humanos.
        -  Vai ser difcil traduzir isso - disse Pelorat. - No sei como  "rob" em 
galctico arcaico.
        -  Ento diga "rob" mesmo, Pel. Se a criana no entender, tente "coisa de 
metal". Faa o que puder.
        Pelorat se dirigiu  criana, procurando falar bem devagar. A criana olhou
para ele e franziu a testa, como se estivesse fazendo fora para compreender.
        -  Aproveite para perguntar como se sai daqui - sugeriu Trevize.
        - No - disse Bliss. - Ainda no. Primeiro temos que conquistar a sua 
confiana para depois tentar obter informaes.
        A criana, que agora estava olhando para Pelorat, largou a perna do rob e 
comeou a falar com uma voz musical, mas muito aguda.
        -  Est falando depressa demais para mim - disse Pelorat, preocupado.
        -  Pea-lhe para repetir mais devagar. Estou fazendo o possvel para acalm-
la e remover seus temores.
        Pelorat escutou de novo a criana e depois disse:
        -  Acho que est perguntando por que Jemby parou. Jemby deve ser o rob.
        -  Procure certificar-se, Pel. Pelorat falou com a criana, ouviu a resposta e 
disse para Bliss:
        -  Isso mesmo. Jemby  o rob. A criana se chama Fallom.
        -  timo!
        Bliss sorriu para a criana, um sorriso alegre, luminoso. Apontou para ela e 
disse:
        -  Fallom. Muito bem, Fallom. Voc  valente. Colocou a mo no prprio 
peito e disse:
        -  Bliss.
        A criana sorriu. Ficava muito bonita quando sorria.
        -  Bliss - repetiu, pronunciando mal o "s". Trevize interveio:
        -  Bliss, se voc puder ativar o rob, talvez ele nos diga o que queremos 
saber. Se Pelorat consegue se entender com a criana, tambm vai conseguir se 
entender com o rob.
        -  No - disse Bliss. - Isso seria um erro. A primeira obrigao do rob 
deve ser proteger a criana. Se for ativado e se vir diante de ns, diante de seres 
humanos desconhecidos, provavelmente nos atacar antes que tenhamos tempo de 
explicar nossa situao. Aqui no  lugar para seres humanos. Se eu tiver que 
desativ-lo de novo, no conseguiremos a informao e a criana, vendo o nico pai 
que conhece ser desativado pela segunda vez... no, acho que no  uma boa idia.
        -  Pelo que sei - disse Pelorat -, os robs no podem fazer mal a seres 
humanos.
        -  Pode ser - concordou Bliss -, mas mesmo que ele no pretenda fazer 
mal a ningum, ter que escolher entre o filho, ou a coisa mais prxima de um filho 
que um rob pode ter, e trs objetos que talvez nem reconhea como seres 
humanos, mas apenas como intrusos perigosos. Naturalmente, escolher a criana 
e nos atacar.
        Voltou-se novamente para a criana.
        -  Fallom. Bliss. Apontou:
        -  Pel... Trev.
        -  Pel. Trev - repetiu a criana, obedientemente. Bliss chegou mais perto e 
estendeu os braos, bem devagar. A criana olhou para ela e recuou um passo.
        -  Calma, Fallom - disse Bliss. - Est tudo bem, Fallom. Venha, Fallom.
        A criana deu um passo  frente e Bliss a encorajou:
        -  Isso mesmo, Fallom.
        Bliss tocou com a mo o brao da criana, que estava exposto, j que ela 
usava, como o pai, apenas um manto aberto na frente e uma tanga. A moa retirou 
a mo, esperou um pouco e tornou a toc-la de leve.
        A criana semicerrou os olhos sob o efeito calmante da mente de Bliss.
        As mos de Bliss se moveram devagar, bem de leve, mal tocando a pele da 
criana, at os ombros, o pescoo, as orelhas e, finalmente, por baixo dos cabelos 
castanhos, at um ponto atrs e acima das orelhas.
        Afinal, Bliss disse para os outros:
        -  Os lobos transdutores so muito pequenos. Os ossos do crnio ainda no 
se consolidaram naquela regio. Existe apenas uma camada de cartilagem, que 
provavelmente vai se expandir aos poucos,  medida que os lobos forem crescendo, 
para depois ser substituda por osso, quando os lobos estiverem totalmente 
desenvolvidos... no momento, no creio que seja capaz de ativar o rob, ou mesmo 
de control-lo. Pergunte quantos anos tem, Pel.
        Depois de conversar um pouco com a criana, Pelorat disse:
        -  Se entendi direito, tem quatorze anos.
        -  No parece ter mais que onze - disse Trevize.
        -  Talvez o ano oficial neste planeta no seja o Ano Galctico Padro. Alm 
disso, os Espaciais vivem muito mais que os seres humanos comuns e, se os 
solarianos so como os outros Espaciais, sua infncia tambm  mais prolongada. 
        Assim, a idade em anos no significa muita coisa.
        -  Chega de antropologia - disse Trevize, com impacincia. - Temos que 
chegar  superfcie e estamos perdendo tempo. Pode ser que a criana no saiba 
como chegar  superfcie. Pode ser que nunca tenha estado na superfcie!
        Bliss exclamou:
        -  Pel!
        Pelorat sabia o que ela queria e teve uma longa conversa com Fallom. Depois, 
disse para os outros:
        -  A criana conhece o sol. Ela disse que j viu o sol. Eu acho que j viu 
algumas rvores. No parecia muito certa do significado da palavra "rvore"... ou 
pelo menos da palavra que eu usei para tentar transmitir o significado de "rvore"...
        -  Est bem, Janov - disse Trevize. - E da?
        -  Disse a Fallom que se nos ajudasse a chegar  superfcie, talvez 
pudssemos reativar o rob. Na verdade, eu disse que ns reativaramos o rob 
quando chegssemos  superfcie. Acha isso possvel?
        -  Veremos quando chegar a hora - disse Trevize. - A criana concordou 
em guiar-nos?
        -  Concordou. Achei que se prometesse reativar o rob, ela teria uma boa 
razo para colaborar. No gostaria de desapont-la...
        -  Vamos - disse Trevize. - J perdemos muito tempo. Se formos pegos 
aqui embaixo, a mesmo  que voc no vai poder cumprir sua promessa.
        Pelorat disse alguma coisa para a criana, que comeou a andar, mas parou 
e olhou para Bliss.
        Bliss estendeu a mo e os dois saram andando de mos dadas. - Sou o seu 
novo rob - disse a moa, sorrindo. -  Parece que ela aceitou bem a mudana - 
disse Trevize. Fallom continuou a caminhar, saltitante, e Trevize ficou pensando se 
a criana parecia feliz por influncia de Bliss ou se, alm disso, havia a novidade de 
visitar a superfcie e de possuir trs novos robs, ou se seria a perspectiva de ter 
Jemby de volta. No que fosse to importante assim... contanto que a criana os 
ajudasse a encontrar a sada.
        A criana parecia saber muito bem para onde estava indo; nas bifurcaes, 
nem ao menos reduzia o passo. Ser que conhecia realmente o caminho ou estava
apenas brincando com eles, vagando ao acaso  pelo labirinto subterrneo?
        Logo Trevize percebeu, pelo esforo que estava fazendo, que o caminho que 
seguiam levava para cima. A criana, que ia na frente, muito orgulhosa, apontou 
para alguma coisa e comeou a falar. Trevize olhou para Pelorat, que pigarreou e 
disse: 
        - Acho que o que ela est dizendo  "sada". 
        - Espero que tenha entendido bem - disse Trevize. A criana largou a mo 
de Bliss e saiu correndo. Apontou para uma parte do piso que parecia mais escura 
que as vizinhanas. A criana chegou ali, pulou algumas vezes no mesmo lugar, 
com uma expresso cada vez maior de desapontamento no rosto, e comeou a falar 
sem parar, com voz estridente.
        Bliss disse, com uma careta:
        - Vou ter que fornecer a energia... j estou ficando cansada disso! O rosto 
da moa ficou um pouco vermelho e as luzes piscaram, mas uma porta se abriu 
bem  frente de Fallom, que deu gritinhos de prazer. A criana passou correndo 
pela porta e os dois homens a seguiram. Bliss saiu por ltimo e olhou para trs no 
momento em que as luzes no interior se apagaram e a porta tornou a se fechar. A 
moa parou para recuperar o flego. Parecia exausta.
        -  At que enfim conseguimos sair - disse Pelorat. - Onde est a nave?
        Estavam na superfcie do planeta, banhados pela luz do crepsculo.
        -  Acho que estava naquela direo - murmurou Trevize.
        -  Tambm acho - disse Bliss. - Vamos - acrescentou, estendendo a mo 
para Fallom.
        No havia nenhum rudo, a no ser o sussurro do vento e os sons dos 
animais. A certa altura, passaram por um rob que estava de p, imvel, ao lado de 
uma rvore, segurando um objeto de utilidade desconhecida.
        Pelorat fez meno de aproximar-se, curioso, mas Trevize o deteve.
        -  No temos nada com isso, Janov. Vamos andando. Passaram por outro 
rob, a uma distncia um pouco maior, que estava cado no cho.
        -  Deve haver robs espalhados por toda a propriedade - observou Trevize. 
Ah, ali est a nave! - exclamou, triunfante.
        Apressaram o passo, mas de repente Fallom deu um grito agudo e todos 
pararam.
        Prximo  nave estava estacionado um veculo areo primitivo, com um rotor 
que, alm de frgil, dava a impresso de ser muito pouco eficiente. Ao lado do 
veculo, bloqueando o acesso do pequeno grupos de forasteiros a sua nave, havia 
quatro figuras humanas.
        -  Tarde demais - lamentou-se Trevize. - Perdemos muito tempo. E agora?
        Pelorat observou, como se estivesse pensando em voz alta:
        -  Quatro solarianos? No pode ser. No ficariam juntos assim. Ser que 
no passam de projees hologrficas?
        -  Eles so reais - afirmou Bliss. - Tenho certeza. S que no so 
solarianos. Pelos padres mentais, so todos robs.


55.

- ENTO - disse Trevize, com firmeza -, vamos em frente! Continuou a andar na 
direo da nave e os outros o seguiram.
        -  O que pretende fazer? - perguntou Pelorat.
        -  Se so robs, tm que obedecer a ordens.
        Os robs permaneceram onde estavam. Quanto chegaram mais perto, Trevize 
os observou atentamente.
        Sim, deviam ser robs. Os rostos, embora parecessem humanos na cor e na 
textura, eram curiosamente desprovidos de expresso. Os quatro usavam uniformes 
que, a no ser pelo rosto, no deixavam de fora um nico centmetro quadrado de 
pele. At as mos estavam cobertas por luvas feitas de um tecido fino mas opaco.
        Trevize fez um gesto para que os robs o deixassem passar.
        Os robs no se mexeram.
        Trevize disse para Pelorat, em voz baixa:
        -  Fale com eles, Janov. Seja firme.
        Pelorat pigarreou e falou devagar, em um tom de voz mais grave que o de 
costume, pedindo que os robs abrissem caminho. Um dos robs, que talvez fosse 
um pouquinho mais alto que os outros, disse alguma coisa com uma voz fria e 
incisiva.
        Pelorat voltou-se para Trevize.
        -  Acho que ele disse que somos forasteiros.
        -  Diga que somos seres humanos e que deve nos obedecer.
        O rob falou ento em galctico. Apesar do sotaque carregado, Trevize no 
teve dificuldade para compreender.
        -  Entendi o que disse, forasteiro. Eu falo galctico. Ns somos Robs 
Guardies.
        -  Ento voc me ouviu dizer que somos seres humanos e que portanto deve 
nos obedecer.
        -  Somos programados para obedecer apenas aos governantes,  forasteiro. 
Vocs no so governantes e no so solarianos. O governante Bander no 
respondeu na hora normal de Contato e viemos investigar o que aconteceu.  o 
nosso dever. Encontramos uma espaonave que no foi fabricada em Solaria, vrios 
forasteiros presentes e descobrimos que todos os robs do governante Bander foram 
desativados. Onde est o governante Bander?
        Trevize sacudiu a cabea e disse, com voz pausada:
        -  No sei do que est falando. Tivemos problemas com o computador da 
nossa nave. Viemos parar perto deste planeta desconhecido contra a nossa vontade. 
Pousamos para verificar nossa posio. Encontramos todos os robs desativados. 
No sabemos o que aconteceu aqui.
        -  No  uma histria plausvel. Se todos os robs da propriedade esto 
desativados e alm disso falta energia, o governante Bander deve estar morto. No  
lgico supor que o governante Bander, por coincidncia, tenha morrido no momento 
em que vocs pousaram. Deve haver uma relao causal entre os dois 
acontecimentos.
        -  Mas no est faltando energia - protestou Trevize, com o nico objetivo 
de mostrar a prpria ignorncia. - Caso contrrio, voc e os outros no estariam 
ativos.
        -  Ns somos Robs Guardais - disse o rob. - No pertencemos a
nenhum governante, pertencemos a Solaria. No somos movidos por nenhum
governante, somos movidos por energia nuclear. Vou perguntar de novo: onde est 
o governante Bander?
        Trevize olhou em torno. Pelorat parecia assustado. Bliss estava muito sria, 
mas tinha expresso serena. Fallom estava tremendo; Bliss colocou a mo no 
ombro da criana e ela se aquietou. (Ser que Bliss a havia sedado?).
        O rob disse:
        -  Vou perguntar pela ltima vez: onde est o governante Bander?
        -  No sei - respondeu Trevize, de cara feia.
        O rob fez um gesto e dois dos seus companheiros se afastaram.
        -  Meus companheiros vo revistar a casa - disse o rob. - Enquanto isso, 
prosseguirei o interrogatrio. Passe-me os objetos que esto pendurados na sua 
cintura.
        Trevize recuou um passo.
        -  So inofensivos.
        -  Fique onde est. No perguntei se so perigosos. Pedi que me entregasse 
os objetos.
        -  No.
        O rob deu um passo  frente e esticou o brao. Antes que Trevize tivesse 
tempo de perceber o que estava acontecendo, a mo do rob pousou no seu ombro e 
comeou a empurr-lo para baixo. O rapaz caiu de joelhos.
        -  Passe os objetos - disse o rob, estendendo a outra mo.
        -  No - gemeu Trevize.
        Bliss se adiantou, tirou o desintegrador do coldre antes que Trevize, seguro 
pelo rob, pudesse impedi-la e ofereceu a arma ao rob.
        -  Tome, rob. Espere um instante... aqui est o outro. Agora solte meu 
companheiro.
        O rob recuou com as duas armas na mo e Trevize se ps de p devagar, 
com o rosto contrado de dor, esfregando o ombro esquerdo. (Fallom comeou a 
chorar baixinho e Pelorat segurou-o no colo.).  Bliss disse para Trevize, furiosa:
        -  Para que est discutindo com ele? Pode matar voc com dois dedos!
        Trevize murmurou, entre os dentes:
        -  Por que voc no cuida dele?
        -  Estou tentando. Pode demorar. Sua mente  programada logicamente, 
difcil de ser influenciada. Preciso estud-la melhor. Procure ganhar tempo.
        - No estude a mente dele. Destrua-o - disse Trevize, baixinho. Bliss olhou 
furtivamente para o rob. Estava examinando as armas atentamente, enquanto o 
outro rob que havia ficado vigiava os. Nenhum dos dois parecia interessado na 
conversa entre Trevize e Bliss.
         - No. Nada de destruio - disse a moa. - No primeiro mundo, 
matamos um cachorro e ferimos outro. Neste mundo, voc sabe o que aconteceu. - 
(Outro olhar furtivo para os Robs Guardais). - Gaia no gosta de sacrificar vidas 
ou inteligncias desnecessariamente. Preciso de tempo para encontrar uma soluo 
pacfica. A moa recuou um passo e olhou fixamente para o rob.
        -  Estes objetos so armas - disse o rob.
        -  No so, no - negou Trevize.
        -  So, sim - disse Bliss. - Acontece que no funcionam. EM to 
descarregadas.
        -   mesmo? Por que ele levaria armas descarregadas na cintura? Talvez 
no esteja falando a verdade.
        O rob empunhou uma das armas e colocou o dedo no gatilho.
        -   assim que se faz para disparar?
        -   - disse Bliss. - S que no vai acontecer nada, porque est 
descarregada.
        -  Tem certeza? - perguntou o rob, apontando a arma para Trevize. - Se 
eu disparar a arma agora, no vai acontecer  nada?
        -  No - disse Bliss. Trevize ficou onde estava, paralisado de medo. Tinha 
verificado o desintegrador depois que Bander o devolvera e estava realmente 
descarregado. Entretanto, a arma que o rob estava apontando para ele era o 
chicote neurnico, que ele no havia testado.
        Se o chicote ainda tivesse algum resduo de energia, por menor que fosse, o 
que Trevize ia sentir faria a presso da mo do rob parecer um afago.
        Durante o servio militar, Trevize, como os outros cadetes, tinha sido exposto 
a uma chicotada neurnica de baixa intensidade, apenas o suficiente para saber 
como era. O rapaz no sentia nenhum desejo de repetir a dose.
        O rob apertou o gatilho, Trevize retesou o corpo... e nada aconteceu. O 
chicote tambm estava totalmente descarregado.
        O rob olhou para Trevize e jogou as duas armas no cho.
        -  Como foi que essas armas ficaram descarregadas? - perguntou. - Se 
no funcionam, por que as carrega na cintura?
        -  Estou to acostumado com elas que gosto de lev-las comigo, mesmo 
agora que no tm mais nenhuma utilidade - explicou Trevize. - Isso no faz 
sentido - disse o rob. - Vocs trs esto sob custdia. Sero interrogados 
novamente e, se os governantes assim decidirem, sero desativados... Como se faz 
para entrar na nave? Preciso revist-la.
        -  No vai adiantar nada - disse Trevize. - Voc no vai entender como 
funciona.
        -  Se eu no entender, os governantes entendero.
        -  Eles tambm no vo entender.
        -  Ento voc explicar a eles.
        -  No.
        -  Ento ser desativado.
        -  Se me desativarem, continuaro sem entender como a nave funciona.
        Bliss sussurrou:                  
        -  Agente mais um pouco. Estou comeando a entender como o crebro 
dele funciona. 
        O rob ignorou Bliss. (Seria o poder mental da moa?, pensou Trevize, e 
rezou para que estivesse certo.)
        Sem tirar os olhos de Trevize, o rob disse:
        -  Se no quiser cooperar, teremos que desativ-lo parcialmente. Ento nos 
revelar tudo o que queremos saber.
        De repente, Pelorat exclamou, com voz esganiada:
        -  Ei, voc no pode fazer isso! Guardio, voc no pode fazer isso!
        -  Tenho minhas instrues - disse o rob tranqilamente. - Claro que 
posso fazer isso. Naturalmente, procurarei limitar os danos ao mnimo necessrio 
para obter a informao.
        -  Escute! Somos forasteiros, eu e meus dois amigos, mas esta criana -
Pelorat olhou para Fallom, que ainda estava no seu colo - nasceu em Solaria.
Vocs tm que obedecer a ela.
        Fallom olhou para Pelorat com olhos que estavam abertos, mas pareciam 
vazios.
        Bliss fez que no com a cabea, mas Pelorat pareceu no notar.
        Os olhos do rob se detiveram em Fallom por um momento. Ele disse:
        -  A criana no tem importncia. Ela no possui lobos transdutores.
        -  Os lobos transdutores ainda no esto desenvolvidos - disse Pelorat, 
ofegante - porque ele ainda  muito jovem.         Mesmo assim,  um solariano.
        -  Enquanto no tiver lobos transdutores desenvolvidos, no ser um 
solariano. No sou obrigado a proteg-lo ou a obedecer a sua ordens.
        -  Mas ele  filho do governante Bander!
        -   mesmo? Como sabe?
        Pelorat comeou a gaguejar, como costumava fazer quando ficava nervoso.
        -  Co... co... como poderia haver o... outra criana aqui?
        -  Como sabe que s h uma criana?
        -  Voc viu mais alguma?
        -  Sou eu que fao as perguntas!
        Nesse momento, a ateno do rob foi atrada pelo companheiro, que tocou-
lhe o brao. Os outros dois robs, que tinham sido enviados para examinar a casa, 
estavam voltando com passos rpidos, mas que, mesmo assim, tinham certa 
irregularidade.
        Todos ficaram calados esperando que se aproximassem. Ento, um deles 
disse alguma coisa em solariano e os quatro robs pareceram perder toda a 
elasticidade. Era como se estivessem confusos e deprimidos.
        -  Encontraram Bander - disse Pelorat, antes que Trevize tivesse tempo de 
silenci-lo com um gesto.
        O rob se voltou para Pelorat e disse, com voz pastosa:
        -  O governante Bander est morto. Pelo que acaba de dizer, voc j sabia 
disso. Como foi que ele morreu?
        -  Como  que ele vai saber? - interveio Trevize.
        -  Voc sabia que ele estava morto - insistiu o rob, ignorando Trevize. - 
Sabia que o encontraramos dentro da casa. Como poderia saber se no tivesse 
estado l... se no o tivesse matado?
        O rob estava pronunciando melhor as palavras. J se tinha recuperado do 
choque.
        -  Como poderamos ter matado Bander? - perguntou Trevize. - Com seus 
lobos transdutores, ele no nos deixaria nem chegar perto...
        -  Como voc sabe do que os lobos transdutores so capazes?
        -  Voc mesmo falou desses lobos.
        -  Apenas os mencionei. No os descrevi nem enumerei suas qualidades.
        -  O conhecimento me foi revelado em um sonho.
        -  Esta explicao no  plausvel.
        -  Imaginar que fomos ns os culpados tambm no  uma explicao 
plausvel para a morte de Bander.
        Pelorat acrescentou:
        -  Seja como for, se o governante Bander est morto, esta propriedade agora 
pertence ao governante Fallom. Vocs devem obedincia a ele.
        -  J expliquei - disse o rob - que um descendente sem lobos 
transdutores desenvolvidos no  um solariano e portanto no pode ser um 
Sucessor. Outro Sucessor, da idade apropriada, ser enviado para c assim que 
comunicarmos a morte do governante Bander.
        -  O que ser feito do governante Fallom?
        -  No existe nenhum governante Fallom. Existe apenas uma Criana e 
temos um excesso de crianas. Ela ser eliminada.
        -  Vocs no teriam coragem! - protestou Bliss. - Uma pobre criana 
indefesa!
        -  No serei eu o executor da tarefa - disse o rob - nem muito menos o 
responsvel pela deciso. A questo estar a cargo dos governantes. Sei, porm, o 
que os governantes costumam decidir quando h excesso de crianas.
        -  No pode ser!
        -  A criana no vai sentir nada... Vejo que est chegando outra nave. 
Devemos entrar na casa que era do governante Bander e convocar o Conselho por 
holoviso para escolher um Sucessor e decidir o que ser feito com vocs... Passe-
me a criana.
        Bliss arrancou o corpinho semiconsciente de Fallom das mos de Pelorat. 
Apertando-o com fora, disse para o rob:
        -  No toque nesta criana!
        O rob deu um passo  frente e estendeu o brao. Bliss desviou-se, mas o 
rob no interrompeu o movimento. Inclinou-se para a frente, equilibrou-se por um 
momento nas pontas do ps e depois caiu de bruos no cho. Os outros trs 
ficaram imveis, os olhos sem brilho.
        Bliss estava soluando de raiva e de tristeza.
        -  Estava quase descobrindo como control-los, mas ele me fez agir antes do 
tempo. Fui obrigada a desativar todos os quatro... Agora vamos sair daqui antes 
que a outra nave pouse. Chega de robs por hoje!









PARTE CINCO
 

MELPOMENIA


Captulo 13

Saindo de Solaria





56.

A PARTIDA foi rpida. Trevize apanhou as armas no cho, abriram a escotilha e 
entraram correndo na nave. S depois da decolagem foi que Trevize percebeu que 
Fallom tambm estava a bordo.
        Provavelmente no teriam escapado a tempo se as aeronaves de Solaria no 
fossem to primitivas. A segunda nave tinha levado um tempo enorme para pousar. 
Por outro lado, o computador do Estrela Distante no precisara de mais que alguns 
segundos para fazer a nave gravtica deixar o planeta.
        Embora o fato de a nave no estar sujeita  atrao gravitacional (e portanto 
 inrcia) eliminasse os efeitos da acelerao sobre os passageiros, que de outra 
forma teriam sido intolerveis, tal a pressa com que haviam decolado, a resistncia 
do ar era uma realidade que no podia ser ignorada. A temperatura externa do 
casco aumentou rapidamente, atingindo valores maiores que os recomendados nas 
especificaes da nave.
        Enquanto subiam, podiam ver vrias outras naves se aproximarem da casa 
de Bander. Trevize imaginou quantos robs Bliss conseguiria enfrentar ao mesmo 
tempo e chegou  concluso de que se tivessem ficado mais quinze minutos em 
Solaria, estariam perdidos.
        Uma vez no espao (ou quase no espao, cercados apenas pela tnue 
exosfera planetria), Trevize dirigiu a nave para o lado noturno do planeta. Era 
apenas um pulo, j que haviam decolado no final da tarde. No escuro, o Estrela 
Distante poderia esfriar mais depressa, em quanto continuava a se afastar do 
planeta em uma rbita em espiral. Pelorat saiu do quarto que dividia com Bliss e
disse:
        -  A criana est dormindo tranqila. Ns a ensinamos a usar o banheiro e 
ela aprendeu depressa.                                              
        -  Isso no me surpreende. Em casa, devia dispor de instalaes parecidas 
com as nossas.
        -  No vi nenhuma l, e olhe que estava procurando - disse Pelorat. - 
Voltamos para a nave bem a tempo.
        -   mesmo. Mas por que trouxemos a criana conosco? Pelorat encolheu os 
ombros.
        -  Bliss no queria deix-la. Era como salvar uma vida para compensar a 
que ela tirou. Bliss ainda no se conformou...
        -  Eu sei - disse Trevize.
        -   uma criana bem estranha - disse Pelorat.
        - Sendo hermafrodita, era de se esperar - disse Trevize.
        -  Tem um par de testculos...
        -  Eu j imaginava.
        -  E o que eu s posso descrever como uma vagina muito pequena. Trevize 
fez uma careta.
        -  Repugnante.
        -  Nem tanto, Golan - protestou Pelorat. -  adaptada s necessidades 
locais. Dela sai apenas um vulo fertilizado, ou um embrio muito pequeno, que  
ento cultivado em laboratrio por robs especializados.
        -  O que aconteceria se o sistema de robs deixasse de funcionar? Os 
solarianos no poderiam mais ter filhos.
        -  Qualquer mundo enfrentaria srios problemas se sua estrutura social 
entrasse em colapso.
        -  No que eu fosse morrer de pena dos habitantes de Solaria...
        -  Tenho que admitir que no  um mundo simptico - disse Pelorat. -
Acontece que os solarianos so muito diferentes de ns, meu velho amigo. Se no 
fosse a populao local e os robs, voc teria um mundo...
        -  ... que em pouco tempo estaria to devastado quanto Aurora - disse 
Trevize. - Como est Bliss, Janov?
        -  Exausta. No momento, est dormindo. Ela passou por um mau pedao, 
Golan.
        -  Todos ns passamos. Trevize fechou os olhos e descobriu que tambm 
estava precisando dormir um pouco. Antes, porm, precisava certificar-se de que os 
solarianos no dispunham de naves espaciais.
        Pensou com irritao nos dois planetas dos Espaciais que haviam visitado: 
um, habitado por ces selvagens; o outro, por hermafroditas hostis; em nenhum 
dos dois, nenhuma pista, por pequena que fosse, para a localizao da Terra. 
Fallom era tudo o que havia restado da dupla visita.                                                  
        Abriu os olhos. Pelorat ainda estava sentado do outro lado do computador, 
observando-o.                               
        Trevize disse bruscamente:                   
        -  Devamos ter deixado a criana em Solaria.
        -  Pobrezinha... eles a teriam matado!
         -  Mesmo assim. O lugar dela era l. Ela pertence quela sociedade. Ser 
executado por ser considerado suprfluo faz parte do jogo.
        -  Meu velho amigo, que coisa cruel de se dizer!
        -  Estou sendo prtico. No sabemos direito como cuidar da criana... pode 
ser que acabe morrendo de qualquer maneira. O que  que ela come?
        -  O mesmo que ns, suponho. O problema : o que  que ns vamos comer? 
Como estamos de suprimentos?
        -  Muito bem. Mesmo contando com o novo passageiro Pelorat no parecia 
entusiasmado com a resposta. Ele disse:
        -  J estou farto da comida de bordo. Devamos ter comprado alguns 
mantimentos em Comporellon... no que a cozinha deles fosse l essas coisas, 
mas...
        -  No pudemos, lembra-se? Tivemos que partir s pressas, como alis 
aconteceu tambm em Aurora e em Solaria. Afinal, que h de errado com um pouco 
de monotonia? Pode estragar o prazer da gente, mas pelo menos nos mantm vivos.
        -  Seria possvel reabastecer a nave em caso de necessidade?
        -  Claro, Janov. Com uma nave gravtica e motores hiperespaciais, a Galxia 
passa a ser pequena. Em poucos dias, poderamos atravess-la de uma 
extremidade a outra. Acontece, porm, que metade dos planetas da Galxia j deve 
saber que a Fundao quer sua nave de volta, de modo que prefiro manter-me 
afastado dos grandes centros.
        -  Faz muito bem... reparou que Bander no parecia interessado na nave?                                                       
        -  At certo ponto, isso  compreensvel. H muito tempo que os solarianos 
devem ter renunciado s viagens espaciais. Seu desejo de isolamento  to grande 
que seria uma contradio se sassem do planeta para visitar outros mundos.
        -  Que vamos fazer agora, Golan?
        -  Temos um terceiro conjunto de coordenadas para verificar
        -  A julgar pelo resultado das duas primeiras tentativas, nem sei se vale a 
pena...
        -  Nem eu, mas assim que eu puser o sono em dia, vou pedir ao computador 
para calcular o nosso curso para o terceiro planeta.


57.

TREVIZE dormiu muito mais do que pretendia, mas aquilo no fez a menor diferena. 
A bordo da nave no havia nem dia nem noite e o ritmo circadiano nem sempre era 
obedecido. Ningum dava muita importncia ao relgio; era relativamente comum 
que Trevize, Pelorat e Bliss (principalmente esta ltima) comessem e dormissem a 
intervalos extremamente irregulares.
        Trevize estava at pensando, enquanto enxugava a espuma (para economizar 
gua, os trs se tinham acostumado a enxugar a espuma em vez de tir-la com 
gua), em voltar para a cama por uma hora ou duas, quando se voltou e deu de 
cara com Fallom, inteiramente despido. O rapaz deu um pulo, o que, no espao 
restrito do banheiro, no poderia fazer sem esbarrar violentamente em alguma coisa 
dura. Praguejou.
        Fallom estava olhando para ele com interesse e apontando para o pnis de 
Trevize. Suas palavras eram incompreensveis, mas a criana parecia no acreditar 
no que via. Trevize instintivamente cobriu o pnis com as mos.
        Foi ento que Fallom disse, com sua voz de soprano:
        -  Saudaes.
        Trevize teve um leve sobressalto quando percebeu que a criana estava 
falando em galctico, mas a palavra parecia ter sido memorizada. Fallom 
prosseguiu com esforo, destacando as palavras:
        -  Bliss... dizer... voc... me... lavar.
        -   mesmo? - exclamou Trevize. Colocou as mos nos ombros da criana.
        -  Voc... fique... aqui. Apontou para o cho e Fallom, naturalmente, olhou 
para onde Trevize estava apontando. No parecia ter compreendido a frase.
        -  No saia da - disse Trevize, segurando a criana com firmeza pelos dois 
braos e comprimindo-os contra o corpo, para indicar imobilidade. Enxugou-se 
rapidamente e vestiu-se mais depressa ainda. Saiu do banheiro e gritou, furioso:                   
        -  Bliss!                                                       
        A moa apareceu imediatamente na porta do quarto e disse, sorrindo:
        -  Est me chamando, Trevize, ou o que ouvi foi o som da brisa suave 
acariciando as folhas das rvores?               
        -  No estou achando graa, Bliss. O que  isso? - perguntou Trevize, 
apontando para o banheiro.                        
        A moa olhou na mesma direo e disse:
        -  Ora, parece a criana solariana que trouxemos ontem para bordo.
        -  A criana que voc trouxe para bordo. Por que quer que eu d banho 
nela?
        -  Pensei que voc fosse gostar da idia.  uma criatura muito inteligente. 
Est aprendendo a falar galctico comigo. Nunca esquece nada que lhe ensino. 
Naturalmente, estou usando meus poderes mentais para facilitar as coisas.
        -  Naturalmente.
        -  Fao o que posso para mant-la calma. Conservei-a em uma espcie de 
torpor enquanto estvamos no planeta. Depois que partimos, cuidei para que 
dormisse bastante e agora estou tentando faz-la aceitar a perda de Jemby, de 
quem, aparentemente, gostava muito.
        -  De modo que ela vai acabar gostando daqui...
        -  Espero que sim. Tem a vantagem de ser muito jovem e portanto 
adaptvel. Vou ensin-la a falar galctico.
        -  Ento voc fica encarregada de dar banho nela, est bem? Bliss deu de 
ombros.
        -  Est bem, se voc insiste, mas gostaria de que ela se sentisse  vontade 
com todos ns. Para isso, achei que uma boa idia seria ns nos revezarmos no 
papel de pais. Posso contar com a sua cooperao?
        -  No a ponto de dar banho na criana. E quando terminar, livre-se dela. 
Quero falar com voc em particular.
        Bliss perguntou, em tom hostil:
        -  O que quer dizer com "livre-se dela"?
        -  No estou dizendo para jog-la para fora da nave. Deixe-a no seu quarto. 
Mande-a sentar-se num canto. Preciso falar com voc.
        -  Estarei ao seu dispor - disse Bliss, friamente.
        Trevize ficou onde estava por um momento, procurando acalmar-se; depois, 
foi at a sala de comando e ligou o telescpio.
        Solaria era um disco escuro, com um crescente luminoso do lado esquerdo. 
Trevize colocou as mos sobre a mesa e imediatamente a raiva passou. A ligao 
entre homem e computador era uma atividade absorvente; atravs de um reflexo 
condicionado, o rapaz associava o contato com o computador a uma serenidade 
absoluta.
        No havia nenhum objeto artificial entre a nave e o planeta. Os solarianos 
(ou seus robs) no os estavam seguindo.
        Muito bem. Podiam ento sair da sombra. Mesmo que no mudasse o curso, 
a nave acabaria por entrar na zona iluminada, pois, ao afastar-se de Solaria, o 
tamanho aparente do planeta ficaria menor que o do sol do seu sistema.                                                         
        Instruiu o computador para tirar a nave do plano da eclptica, j que isso lhe 
permitiria acelerar a nave com maior segurana. Assim, chegariam mais depressa a 
uma regio em que a curvatura do espao fosse suficientemente pequena para 
permitir um Salto seguro.
        Como freqentemente acontecia nessas ocasies, Trevize ficou apreciando as 
estrelas, quase hipnticas em sua imobilidade. Toda a turbulncia e instabilidade 
eram eliminadas pela distncia, que as transformava em pontinhos luminosos.
        Um desses pontinhos podia muito bem ser o sol em torno do qual a Terra 
girava... o Sol original, cuja radiao havia banhado as primeiras formas de vida, 
cujo calor havia aquecido os primeiros seres humanos da Galxia.
        Se os mundos dos Espaciais giravam em torno de estrelas que eram 
membros brilhantes e proeminentes da famlia estelar e que mesmo assim no 
figuravam no mapa da Galxia que estava na memria do computador, o mesmo 
podia acontecer com o sol da Terra.
        Ou seriam apenas os sis dos planetas dos Espaciais que tinham sido 
omitidos, graas a algum tratado antigo que os havia deixado isolados do resto da 
Galxia. Estaria o sol da Terra includo no mapa da Galxia, mas sem nada que o 
distinguisse dos milhares e milhares de estrelas da mesma classe?
        Afinal, havia uns trinta bilhes de estrelas como o Sol na Galxia, e dessas 
estrelas uma em cada mil, aproximadamente, possua pelo menos um planeta 
habitvel. Podia haver mais de mil planetas habitveis em um raio de algumas 
centenas de parsecs da posio em que se encontravam no momento. Seria 
praticvel investigar todas essas estrelas, uma por uma?
        E se o Sol original nem estivesse naquele setor da Galxia? Quantas outras 
regies estavam convencidas de que o Sol estava nas vizinhanas, de que eles 
tinham sido os primeiros colonizadores?
        Precisava de informaes mais precisas que as que conseguira obter at o 
momento. Tinha quase certeza de que nem mesmo uma investigao minuciosa das 
runas milenares de Aurora revelaria alguma coisa a respeito localizao da Terra. 
Duvidava tambm de que os solarianos pudessem contribuir para a soluo do 
enigma.
        Afinal, se todas as referncias  Terra haviam desaparecida da grande 
Biblioteca de Trantor, se no restava nenhuma recordao da Terra na grande 
Memria Coletiva de Gaia, era pouco provvel que restasse alguma informao til 
a respeito da Terra nos mundos perdidos dos Espaciais.
        O que aconteceria, se, por um golpe de sorte, conseguisse encontrar o sol da 
Terra e, conseqentemente, a prpria Terra? Alguma fora estranha o obrigaria a 
esquecer-se do fato? As defesas da Terra seriam intransponveis? Os atuais 
habitantes do planeta estariam decididos a permanecer ocultos do resto da Galxia, 
custasse o que custasse?
        Afinal de contas, o que  que estava procurando?
        Seria a Terra? Ou uma falha no Plano de Seldon, que acreditava (por alguma 
razo obscura) poder encontrar na Terra?
        O Plano de Seldon estava funcionando h mais de quinhentos anos e 
culminaria (assim se dizia) com o Segundo Imprio Galctico, maior, mais justo e 
mais duradouro que o primeiro. Mesmo assim, ele, Trevize, havia votado contra o 
Segundo Imprio e a favor da Galxia Viva.
        A Galxia Viva seria um organismo nico, de tamanho descomunal, 
enquanto que o Segundo Imprio Galctico, por mais organizado que fosse, no 
passaria de uma unio de organismos independentes, cada um de dimenses 
microscpicas em comparao com o todo. O Imprio representaria mais um 
exemplo do tipo de associao de indivduos livres que sempre havia caracterizado 
as aglomeraes humanas. O Segundo Imprio Galctico talvez fosse o maior e mais 
desenvolvido dos exemplares da espcie, mas mesmo assim seria apenas mais um 
membro dessa espcie.
        Para que a Galxia Viva, um membro de uma espcie totalmente diferente de 
organizao, fosse prefervel ao Segundo Imprio Galctico, era preciso que 
houvesse uma falha no Plano, alguma coisa que nem o prprio Hari Seldon 
houvesse previsto.
        Mas se havia mesmo uma falha no plano, o que  que ele, Trevize, poderia 
fazer? No era matemtico; no sabia nada, absolutamente nada, a respeito dos 
detalhes do Plano; nem seria capaz de compreender, se algum tentasse explicar-
lhe.
        Tudo o que conhecia eram as duas hiptese bsicas. Primeira: que houvesse 
um grande nmero de seres humanos envolvidos. Segunda que nenhum deles 
conhecesse as previses do Plano. A primeira hiptese era certamente realista, dada 
a enorme populao da Galxia; a segunda tinha que ser verdadeira, j que os 
nicos que conheciam os detalhes a respeito do Plano eram os membros da 
Segunda Fundao, que guardavam ciosamente o segredo.
        Tudo o que podia restar era alguma hiptese adicional, no explicitada por 
Seldon, alguma coisa to natural, to bvia que jamais tivesse sido mencionada... e 
que no entanto pudesse ser falsa. Uma hiptese que, se fosse falsa, impediria a 
concluso triunfal do Plano e tornaria a Galxia Viva prefervel ao Imprio.
        Mas se a hiptese era to bvia e natural que ningum se lembrava de 
mencion-la, como poderia ser falsa? E se ningum se referia a ela, ou a levava em 
conta, como poderia Trevize ter conhecimento de sua existncia?
        Seria ele um homem com uma intuio infalvel, como Gaia parecia 
acreditar? Saberia sempre o que fazer, mesmo que no conhecesse as prprias 
razes?
        Agora estava visitando os mundos dos Espaciais... seria a coisa certa a fazer? 
A resposta estaria nos mundos dos Espaciais... ou pelo menos o incio da resposta?
        O que havia em Aurora alm de runas e ces selvagens? (E, provavelmente, 
outras criaturas ferozes. Touros furiosos? Ratos gigantes? Gatos assassinos?) 
Solaria era habitado por seres inteligentes, mas qual a relao entre ele, Trevize, e 
aqueles estranhos homens e robs? O que  que esses dois mundos tinham a ver 
com o Plano de Seldon, a menos que contivessem alguma pista para a localizao 
da Terra?
        Mesmo que isso fosse verdade, o que  que a Terra tinha a ver com o Plano de 
Seldon? Tudo aquilo seria loucura? Ser que ele se tinha deixado levar por uma 
fantasia infantil?
        Uma sensao de vergonha se apossou de Trevize a ponto de quase impedi-lo 
de respirar. Olhou para as estrelas, remotas, impessoais, e pensou: devo ser O 
Grande Idiota da Galxia.


58.

A voz de Bliss interrompeu-lhe os devaneios.
        - Ento Trevize, o que  que voc queria discutir... ei, aconteceu alguma 
coisa?
        A moa parecia genuinamente preocupada. Trevize olhou para ela e, por um 
momento, no conseguiu sair da depresso em que se encontrava. Mesmo assim, 
respondeu:
        -  No, no aconteceu nada... eu estava apenas pensando. Sabe, uma vez ou 
outra eu tambm penso.
        A lembrana de que Bliss era capaz de detectar suas emoes o deixava 
inquieto. Tinha apenas a palavra da moa de que no tentaria examinar-lhe a 
mente.
        Entretanto, Bliss pareceu aceitar a negativa sem pestanejar. Ela disse:
        -  Pelorat est com Fallom, ensinando-lhe algumas frases em galctico. 
Parece que a criana pode comer o que ns comemos sem nenhum problema... mas 
afinal sobre que assunto voc queria falar comigo?
        -  Aqui, no - disse Trevize. - No momento o computador no precisa de 
mim. Se quiser vir para o meu quarto, a cama est feita e voc pode sentar-se nela 
enquanto eu me sento na cadeira. Ou o contrrio, se preferir.
        -  Tanto faz.
        Encaminharam-se para o quarto de Trevize. Bliss olhou para o rapaz, 
desconfiada.
        -  Voc no parece mais furioso.
        -  Andou lendo meus pensamentos?
        -  Nada disso. Apenas reparei na sua expresso.
        -  No estou furioso. Posso perder a pacincia uma vez ou outra, mas isso  
diferente de ficar furioso. Agora, se no se importa, gostaria de fazer-lhe algumas 
perguntas.
        Bliss se sentou na cama de Trevize, com o corpo ereto e uma expresso 
solene nos olhos castanho-escuros. Os cabelos negros estavam penteados e o corpo 
exalava um leve odor de perfume.
        Trevize sorriu.
        -  Voc se enfeitou antes de vir para c. Deve achar que eu no teria 
coragem de gritar com uma mocinha bonita.
        -  Pode gritar comigo quanto quiser, se isso o faz sentir-se melhor. O que 
no quero  que grite com Fallom.
        -  No pretendo gritar com ele. Nem com voc. No resolvemos que amos 
ser amigos?
        -  Gaia sempre foi seu amigo, Trevize.
        -  No estou falando de Gaia. Sei que voc  parte de Gaia e que voc  Gaia. 
Mesmo assim, existe alguma coisa pessoal em voc. Estou falando com algum 
chamado Bliss. No resolvemos que amos ser amigos, Bliss?
        -  Resolvemos, Trevize.                                                  
        -  Ento por que custou tanto para cuidar dos robs em Solaria depois que 
samos da casa de Bander? Eles me humilharam, me machucaram e voc no fez 
nada. A cada momento nossa situao se tornava mais perigosa e voc no fez 
nada.
        Bliss olhou para ele, muito sria, e falou como se estivesse querendo explicar 
os seus atos e no justific-los.
        -  Eu estava fazendo alguma coisa, Trevize. Estava estudando as mentes dos 
Robs Guardies, tentando descobrir como control-los.
        -  Eu sei que era isso que voc estava fazendo. Pelo menos, foi o que me 
disse na ocasio. Acontece que no me parece razovel. Para que controlar os robs 
quando voc era perfeitamente capaz de desativ-los, como alis acabou fazendo?
        -  Acha que  to fcil destruir um ser inteligente?
        Os lbios de Trevize se contraram em uma expresso de desagrado.
         -  Ora, deixe disso, Bliss. Um ser inteligente? Era apenas um rob!
        -  Apenas um rob? - O tom de voz da moa perdeu um pouco da frieza. - 
 sempre o mesmo argumento. Apenas. Apenas! Por que o solariano hesitaria em 
matar-nos? ramos apenas seres humanos sem transdutores. Por que deveramos 
ter pena de Fallom? Era apenas uma criana de outra raa. Se comear a desprezar 
a tudo e a todos com um  apenas isso ou apenas aquilo, sentir-se- livre para 
eliminar qualquer coisa que o esteja incomodando no momento. Sempre haver 
uma desculpa.
        -  No leve uma observao razovel a tornar-se ridcula. O rob era apenas 
um rob. No h como negar isso. Ele no era humano. No era inteligente. Era 
uma mquina projetada para imitar um comportamento inteligente.
        -  Com que segurana voc fala de coisas que desconhece por completo! - 
exclamou Bliss. - Eu sou Gaia. Sim, sou Bliss, tambm, mas sou Gaia. Sou um 
mundo que considera cada tomo precioso e importante, e qualquer organizao de 
tomos ainda mais preciosa e importante. Eu/ns/Gaia jamais desfazemos 
levianamente uma organizao, mas temos o maior prazer em incorpor-la a uma 
organizao mais complexa, contanto que isso no prejudique o conjunto.
        "A mais alta forma de organizao que conhecemos produz a inteligncia; a 
destruio da inteligncia nos traz profundo pesar". O fato de se tratar de 
inteligncia mecnica ou bioqumica  irrelevante. Na verdade, o Rob Guardio 
representava uma forma de inteligncia que eu/ns/Gaia nunca havamos 
encontrado. Estud-la constitua uma experincia maravilhosa. Destru-la seria 
inadmissvel... a no ser como ltimo recurso.
        Trevize disse secamente:
        -  Havia trs inteligncias maiores em risco: a sua, a de Pelorat, o ser 
humano que voc ama, e, se me permite, a minha. 
        -  Quatro! Voc se esqueceu de Fallom... No, no estvamos correndo 
nenhum risco... pelo menos, foi o que pensei na ocasio. Escute... suponha que 
estivesse diante de uma pintura, uma obra-prima, cuja existncia significasse a 
morte para voc. Tudo o que teria a fazer seria dar uma pincelada ao acaso no meio 
da pintura e pronto, ela estaria mutilada para sempre e voc estaria salvo. 
Suponha, porm, que se voc examinasse a pintura com ateno e acrescentasse 
um retoque aqui, outro ali, removesse um pequeno trecho em um terceiro lugar
e
assim por diante, conseguiria modificar a pintura o suficiente para escapar  morte,
mas ela continuaria a ser uma obra-prima. Naturalmente, as alteraes teriam que
ser feitas com extremo cuidado. Levaria tempo, mas se voc dispusesse desse 
tempo, certamente seria prefervel salvar tanto a sua vida como a pintura.
        -  Talvez - disse Trevize. - Mas no fim voc mutilou a pintura. Deu uma 
pincelada ao acaso e acabou com todos os leves retoques, com todas as pequenas 
sutilezas de cor e de forma. E s fez isso quando achou que o pequeno hermafrodita 
estava em perigo. Enquanto as vidas em risco eram a minha, a de Pelorat e a sua 
prpria, voc no tez nada.
        -  Ns, forasteiros, no estvamos correndo um risco imediato. Com Fallom, 
porm, era diferente. Tive que escolher entre Fallom e os Robs Guardies, e tive 
que escolher depressa. Voc j sabe que escolhi Fallom.
        -  Foi assim mesmo, Bliss? Uma avaliao instantnea, uma comparao 
entre duas inteligncias, para decidir qual das duas valia mais a pena salvar?
        -  Isso mesmo.
        -  E se lhe disser que na hora s viu uma criana indefesa na sua frente? 
Uma pobre criana em perigo? O instinto maternal entrou em ao e voc agiu 
rapidamente, ao passo que antes, quando as vidas de trs adultos estavam em jogo, 
era toda lgica e moderao...
        Bliss enrubesceu.
        - Pode ser que eu tenha sentido pena da criana, mas no agi 
irracionalmente como voc parece insinuar. No, fiz o que me parecia mais lgico na 
ocasio.
        -  No concordo. Se voc estivesse pensando logicamente, perceberia que a 
criana estava sofrendo o mesmo tratamento que a maioria das crianas nascidas 
naquele planeta. Quem sabe quantos milhares de crianas foram mortas para 
manter a populao de Solaria no nvel considerado ideal pelos seus habitantes?
        -  No  s isso, Trevize. A criana ia ser morta porque era jovem demais 
para ser um sucessor, e isso porque seu pai havia morrido prematuramente, e isso 
porque eu havia matado o seu pai.
        -  Em legtima defesa.
        -  Isso no importa. Eu matei o pai. No podia ficar impassvel e permitir 
que o filho sofresse as conseqncias do meu ato... Alm disso, havia a 
oportunidade de estudarmos um crebro que nunca foi estudado por Gaia.
        -  Um crebro de criana.
        -  No ser um crebro de criana por muito tempo. Em breve, os lobos 
transdutores comearo a se desenvolver. Esse lobos do aos solarianos poderes 
maiores que os de Gaia. Tive que fazer um grande esforo apenas para manter 
umas poucas luzes acesas. Bander era capaz de fornecer energia para uma 
propriedade to grande em tamanho e complexidade quanto a cidade que vimos em 
Comporellon... e fazer isso mesmo quando estava dormindo.
        -  Ento voc considera a criana como um interessante objeto de pesquisa 
neurolgica.
        -  De certa forma, sim.
        -  No  assim que eu a vejo. Para mim, ela  um passageiro perigoso. Muito 
perigoso.
        -  Perigoso por qu? A criana se adaptar perfeitamente... com a minha 
ajuda.  muito inteligente e parece que gosta de ns.   Come o que comemos, ir 
para onde formos e eu/ns/Gaia aprenderemos muita coisa estudando o seu 
crebro.
        -  E se tiver filhos? Ela no precisa de parceiros, voc sabe.
        -  Ainda falta muito para que atinja a idade de procriar. Os Espaciais viviam 
vrios sculos e os solarianos limitam estritamente a populao do seu planeta. 
Provavelmente modificaram geneticamente os habitantes para que tivessem filhos o 
mais tarde possvel. No precisa se preocupar; Fallom no poderia se reproduzir 
mesmo que quisesse.
        -  Como sabe?
        -  No sei. Estou apenas usando a lgica.
        -  E eu estou lhe dizendo que Fallom ainda vai nos trazer encrenca.
        -  Voc tambm no sabe. Pior ainda, no est sendo lgico.
        -  apenas um palpite, Bliss, sem base nos fatos... pelo menos, at o 
momento. E  voc, e no eu, quem insiste que a minha intuio  infalvel.
        Bliss franziu a testa, mas no disse mais nada.


59.

PELORAT parou na porta da sala de comando e olhou para dentro, pouco  
vontade. Parecia estar verificando se Trevize estava muito ocupado ou no.
        Trevize tinha colocado as mos sobre a mesa, como sempre fazia quando 
estava em contato com o computador, e seus olhos estavam fixos na tela. Pelorat 
concluiu, portanto, que o amigo estava trabalhando e esperou pacientemente, 
procurando no fazer barulho ou, de outra forma qualquer, incomodar o outro.
        Por fim, Trevize desviou os olhos da tela e deu com Pelorat. No pareceu 
tomar conscincia imediatamente da presena do amigo. Os olhos de Trevize 
sempre pareciam um pouco vidrados e fora de foco quando estava em contato com o 
computador; era como se no estivesse olhando, pensando, vivendo da mesma 
forma que uma pessoa comum.
        Mesmo assim, balanou a cabea devagar para Pelorat, como se a viso, 
penetrando com dificuldade, tivesse finalmente conseguido impressionar os lobos 
pticos. Depois de alguns instantes, levantou as mos, sorriu e voltou a ser o 
Trevize de sempre.
        -  Desculpe pela interrupo, Golan - disse Pelorat.
        -  No tem importncia, Janov. Estava apenas verificando se estamos 
prontos para o Salto. De acordo com o computador, poderamos saltar agora 
mesmo, mas decidi esperar mais algumas horas, para no abusar da sorte.
        -  O que  que a sorte... ou o acaso... tm a ver com isso?
        -  Foi apenas uma maneira de falar - disse Trevize, sorrindo -, mas a 
verdade  que todo Salto est sujeito a fatores aleatrios... O que  que voc quer?
        -  Posso sentar-me?
        - Claro, mas vamos para o meu quarto. Como est Bliss?
        -  Muito bem. - Pelorat pigarreou. - Est dormindo de novo. Ela precisa 
do sono, voc entende.
        -  Compreendo perfeitamente.  a ligao hiperespacial que a deixa exausta.
        -  Exatamente, meu velho amigo.
        -  E Fallom?
        Trevize reclinou-se na cama, deixando a cadeira para Pelorat.
        -  Sabe aqueles livros da minha biblioteca que voc mandou o computador 
imprimir para mim? Os livros de histrias? Fallom est lendo esses livros. Ainda 
no consegue compreender muita coisa, mas  parece divertir-se com o som das 
palavras. Ele ... quando penso em Fallom,  sempre como algum do sexo 
masculino. Por que ser? Trevize deu de ombros.
        -  Talvez porque voc seja homem.
        -  Talvez. Ele  uma criana muito inteligente.
        -  J notei. Pelorat hesitou.
        -  Tenho a impresso de que voc no gosta muito de Fallom.
        -  No  nada pessoal, Janov. Nunca tive filhos e no me interesso 
especialmente por crianas. Voc tem filhos, no tem?
        -  Um filho... ainda me lembro do prazer que sentia s de olhar para ele, 
quando era da idade de Fallom... talvez seja por isso que penso em Fallom como um 
menino.  como se estivesse voltando vinte anos no tempo.
        -  No me incomodo de voc gostar dele, Janov.
        -  Voc gostaria tambm, se estivesse disposto a tentar. -. Tenho certeza 
que sim, Janov... um dia, quem sabe...
         Pelorat hesitou novamente.
        -  Tambm deve estar cansado de discutir com Bliss.
        -  Acho que no vamos discutir mais, Janov. Na verdade, eu e Bliss estamos 
nos dando muito bem. Tivemos uma conversa bastante adulta outro dia... voc 
sabe, sem gritos nem recriminaes... a respeito do tempo que ela levou para 
desativar os Robs Guardies. Afinal, Bliss vive salvando nossas vidas, de modo 
que, pelo menos por gratido, no devemos implicar com ela, no  mesmo?
        -  Est bem, entendo o que quer dizer, mas no estava falando em discutir 
no sentido de brigar. Estava me referindo  discusso a respeito do futuro da raa 
humana... a respeito das vantagens da Galxia Viva em relao  individualidade.
        -  Ah, isso! Suponho que continuaremos a discutir o assunto... mas de 
forma educada.
        -  Voc se importaria, Golan, se eu tentasse defender o ponto de vista de 
Bliss?
        -  Claro que no. Voc est convencido de que a Galxia Viva  uma boa 
idia, ou simplesmente se sente mais feliz quando concorda com Bliss?
        - Sinceramente, estou convencido. Acho que a Galxia Viva  um passo 
natural na evoluo humana. Voc mesmo escolheu esse curso de ao e cada vez 
me conveno mais de que est certo.
        -  S porque fui eu que escolhi? Isso no  motivo. Apesar do que pensa 
Gaia, eu posso perfeitamente me enganar. No deixe Bliss convenc-lo com esse 
tipo de argumento.
        -  No acho que voc se tenha enganado. Quem me convenceu foi Solaria e 
no Bliss.                                                         
        -  Como?
        -  Para comear, somos Isolados, voc e eu.
        -  Essa expresso  de Bliss, Janov. Prefiro pensar em ns como indivduos.
        -  Uma questo de semntica, meu velho amigo. Chame voc como quiser, 
estamos trancados dentro de nossa prpria pele e pensando em primeiro lugar em 
ns mesmos. A autodefesa  a primeira lei da nossa natureza, mesmo que isso 
signifique fazer mal aos semelhantes.
        -  Muita gente deu a vida pelos semelhantes.
        - Um fenmeno relativamente raro. Muito mais pessoas sacrificaram as 
necessidades e at mesmo as vidas dos semelhantes para satisfazer um mero 
capricho.
        -  O que  que isso tem a ver com Solaria?
        - Em Solaria, tivemos oportunidade de observar os estgios finais de 
evoluo dos Isolados... ou indivduos, se preferir. Os solarianos aceitam a 
contragosto a idia de compartilhar um planeta com os semelhantes. Para eles, a 
liberdade perfeita est em uma vida de total isolamento. No tm pena nem mesmo 
das crianas, que eliminam friamente para evitar o excesso de populao. Cercam-
se de escravos mecnicos, que abastecem pessoalmente de energia, de modo que,
quando morrem, toda a sua enorme propriedade morre tambm. Voc considera
isso um exemplo a ser seguido, Golan? Existe algum termo de comparao com a 
decncia, bondade e respeito mtuo das partes de Gaia? Bliss no discutiu o 
assunto comigo. Estou dizendo exatamente o que penso.
        - Sei disso, Janov. Eu concordo com voc. Tambm achei horrvel a 
sociedade dos solarianos, mas nem sempre foi assim. Eles descendem dos 
terrqueos e, mais recentemente, dos Espaciais, que levavam uma vida muito mais 
normal. Os solarianos escolheram um caminho, por alguma razo, que levou a uma 
situao extrema, mas no devemos julgar por extremos. Em toda a Galxia, com 
seus milhes de mundos habitados, voc j ouviu falar de algum planeta, no 
presente ou no passado, que tenha abrigado uma sociedade como a de Solaria, ou 
mesmo remotamente parecida com a de Solaria? Mesmo Solaria teria chegado ao 
ponto que chegou se no tivesse robs? Pode imaginar uma sociedade como a de 
Solaria sem robs? 
        Pelorat fez uma careta.                                                 
        - Voc parece muito  vontade defendendo o tipo de Galxia contra o qual 
voc mesmo votou, Golan.                                    
        -  No  bem assim. Deve haver alguma razo para eu haver optado pela 
Galxia Viva. Quando encontrar essa razo, ficarei tranqilo. Isto , se eu encontrar 
essa razo.
        -  Acha que talvez no a encontre? Trevize deu de ombros.
        -  Como vou saber? Sabe por que decidi esperar algumas horas para dar o 
Salto e por que estou quase convencido a esperar mais alguns dias?
        -  Voc me disse que isso tornaria o Salto mais seguro.
        -  Sim, foi o que eu disse, mas no  s isso. O que eu realmente temo  que 
aquelas coordenadas dos mundos dos Espaciais no tenham nenhuma utilidade 
para ns, afinal de contas. Comeamos com trs conjuntos de coordenadas e j 
usamos dois. Nos dois casos, tivemos sorte de escapar com vida e no conseguimos 
nenhuma pista nova a respeito da localizao da Terra ou mesmo a respeito da 
prpria existncia da Terra. Agora estamos prestes a iniciar a terceira viagem. E se 
o resultado tambm for negativo?
        Pelorat suspirou.
        - Meu velho amigo, existem lendas antigas... na verdade, uma delas aparece 
no livro de histrias que emprestei a Fallom... nas quais uma pessoa tem direito a 
trs desejos, no mais que trs. Trs parece ser um nmero muito importante nas 
lendas, talvez por se tratar do primeiro nmero mpar maior que um e portanto o 
menor nmero decisivo. Voc sabe, dois pontos em trs significam a vitria. 
Acontece que, de acordo com as lendas, os trs desejos nunca servem para nada. 
Ningum sabe us-los corretamente, o que reflete, de acordo com a minha 
interpretao, uma lio de moral no sentido de que devemos trabalhar para 
conseguir o que desejamos e no...
        Interrompeu o que estava dizendo e baixou a cabea, envergonhado.
        -  Sinto muito, Golan, por estar tomando o seu tempo. Quando comeo a 
falar de histria, no sei a hora de parar.
        -  Tenho sempre muito prazer em ouvi-lo, Janov. Achei a analogia 
interessante. Temos direito a trs desejos e j gastamos dois sem nenhum sucesso. 
S nos resta um. Estou com o pressentimento de que vamos fracassar de novo e  
por isso que estou adiando o Salto o mximo possvel.
        -  O que vai fazer se no encontrarmos nenhuma pista no terceiro planeta? 
Voltar para Gaia? Para Terminus?
        -  Oh, no! - protestou Trevize, sacudindo a cabea. - Vou continuar a 
busca... como, ainda no sei.


































Captulo 14

O Planeta Morto





60.

TREVIZE estava deprimido. As poucas vitrias que conseguira desde o incio da 
busca no tinham sido decisivas; serviam apenas para adiar um pouco a derrota 
final.
        Agora, tinha adiado o Salto para o terceiro planeta dos Espaciais a ponto de 
deixar os outros nervosos. Quando finalmente se decidiu a dar a ordem ao 
computador, Pelorat estava de p na entrada da sala de comando, com ar muito 
solene, e Bliss estava logo atrs. At mesmo Fallom l estava, olhando com 
curiosidade para Trevize, mas sem largar a mo de Bliss.
        Trevize levantou os olhos da tela do computador e comentou, de forma um 
tanto grosseira: - Mas que famlia!
        Era, porm, uma forma de disfarar o prprio mal-estar. Instruiu o 
computador para voltar ao espao normal mais longe da estrela em questo do que 
o absolutamente necessrio. Repetiu para si mesmo que estava sendo cauteloso em 
vista do que acontecera nos outros planetas dos Espaciais, mas sabia que no era 
verdade. No fundo, esperava completar o Salto a uma distncia to grande da 
estrela que no saberia imediatamente se ela possua ou no um planeta habitvel. 
Isso lhe daria mais alguns dias de viagem at que fosse forado a enfrentar (talvez) 
uma amarga decepo.
        Assim, observado atentamente pela "famlia", Trevize inspirou fundo, reteve o 
ar por alguns instantes e depois expulsou-o ruidosamente por entre os lbios 
semicerrados enquanto fornecia a instruo final para o computador.
        A imagem vista pelo telescpio mudou bruscamente e a tela ficou mais vazia, 
pois haviam sido transportados para uma regio em que as estrelas eram um pouco 
mais esparsas. Bem no meio da tela, havia um ponto luminoso.
        Trevize deu um largo sorriso, pois aquilo era um bom sinal. Afinal de contas, 
o terceiro conjunto de coordenadas podia estar errado e podia no haver nenhuma 
estrela da classe G na posio indicada. Olhou para os outros trs e disse:
        - A est. A estrela nmero trs.  - Tem certeza? - perguntou Bliss.
        - Observe! - disse Trevize. - Vou passar para o mapa da Galxia, visto da 
mesma posio. Se a estrela desaparecer,  porque no consta do mapa e portanto  
a que queremos.
        O computador obedeceu ao comando e a estrela desapareceu 
instantaneamente, enquanto todas as outras permaneceram exatamente onde 
estavam, em sublime indiferena.
        -  ela - disse Trevize.
        Mesmo assim, fez com que o Estrela Distante se movesse  frente com metade 
da velocidade de cruzeiro. Ainda havia a questo da presena ou ausncia de um 
planeta habitvel e Trevize no estava com pressa de descobrir a verdade. Mesmo 
depois de trs dias de viagem, ainda no era possvel afirmar coisa alguma a 
respeito.
        Ser que no? Havia um gigante gasoso. Girava em torno da estrela em uma 
rbita muito distante e exibia um brilho amarelo-claro no lado iluminado, que, da 
posio em que estavam, parecia um grande crescente.
        Trevize no gostou do que estava vendo, mas procurou no demonstrar e 
falou a respeito de uma forma to impessoal quanto um guia turstico.
        - Existe um gigante gasoso l fora - disse. - Tem um par de anis e dois 
satlites de bom tamanho.
        - Muitos sistemas possuem gigantes gasosos, no ? - perguntou Bliss.
        - Sim, mas este  maior do que a mdia. A julgar pelas distncias dos 
satlites e seus perodos de revoluo, o gigante gasoso  quase duas mil vezes 
maior do que qualquer planeta habitvel que possa existir no sistema.
        - Qual a diferena? - quis saber Bliss. - Gigantes gasosos so gigantes 
gasosos, independentemente do tamanho. Esto sempre a grandes distncias da 
estrela que circundam. Para encontrarmos um planeta habitvel, teremos que 
chegar muito mais perto da estrela.
        Trevize hesitou e depois decidiu pr as cartas na mesa.
        - O problema  que os gigantes gasosos tendem a varrer o espao 
planetrio. O material que no absorvem em geral se condensarem corpos menores 
que acabam por se tornar satlites. Quanto maior um gigante gasoso, maior a 
probabilidade de que seja o nico planeta do sistema.
        -  Est querendo dizer que no existe nenhum planeta habitvel aqui?
        - Quanto maior o gigante gasoso, menor a probabilidade de existir um 
planeta habitvel. Acontece que este gigante gasoso  to grande que pode ser 
considerado como estrela an.
        -  Posso v-lo? - perguntou Pelorat.
        Os trs olharam para a tela (Fallom estava no quarto de Bliss com os livros).
        A vista foi ampliada at o crescente ocupar toda a tela. O crescente era 
cortado por uma linha fina e escura um pouco acima do centro, a sombra do 
sistema de anis, que tambm era visvel, pouco acima da superfcie do planeta, 
como uma curva brilhante que penetrava um pouco no lado escuro antes de ser 
oculta pela sombra do planeta.
        Trevize disse:
        -  O eixo de rotao do planeta tem uma inclinao de cerca de 35 graus em 
relao ao plano de revoluo, e o anel, naturalmente, est no plano do equador, de 
modo que a luz da estrela, neste ponto da rbita, vem de baixo e projeta a sombra 
do anel acima do equador.
        Pelorat olhou para a tela, embevecido.
        -  Esses anis so estreitos...
        -  Na verdade, so um pouco mais largos que a mdia - disse Trevize.
        -  De acordo com a lenda, os anis que existem em volta de um dos gigantes 
gasosos do sistema planetrio a que a Terra pertence so muito mais largos e 
possuem uma estrutura muito mais complexa que os que estamos vendo. Na 
verdade, o gigante gasoso chega a parecer pequeno comparado com os anis.
        - Isso no  de admirar - disse Trevize. - Quando uma histria  
transmitida de gerao a gerao por milhares de anos,  natural que ocorram 
alguns exageros.
        -  lindo! - exclamou Bliss. - Olhando para o crescente, a gente tem a 
impresso de que est pulsando sem parar.
        - So turbulncias atmosfricas - explicou Trevize. - Em geral, ficam mais 
visveis quando se escolhe o comprimento de onda apropriado. Deixe-me tentar.
        Colocou as mos sobre a mesa e mandou o computador varrer o espectro at 
encontrar o comprimento de onda que permitisse o maior contraste.
        O crescente comeou a mudar de cor to rapidamente que era impossvel 
acompanhar as transformaes sem ficar tonto. Finalmente, a imagem se fixou em 
um vermelho alaranjado e, dentro do crescente, apareceram gigantescas espirais, 
que se deslocavam pela face do planeta, enrolando-se e desenrolando-se enquanto 
se moviam.
        -   incrvel! - murmurou Pelorat.
        -  Maravilhoso! - exclamou Bliss.
        No tinha nada de incrvel, pensou Trevize de mau humor, e muito menos de 
maravilhoso. Nem Pelorat nem Bliss, perdidos na beleza do espetculo, se haviam 
detido para pensar que o planeta que admiravam diminua consideravelmente a 
probabilidade de desvendarem o mistrio da localizao da Terra. Mas por que se 
preocupariam com isso? Os dois concordavam com a escolha de Trevize e o haviam 
acompanhado na busca sem nenhum envolvimento emocional. No havia como 
culp-los por isso. Ele disse:
        - O lado escuro parece totalmente negro, mas se nossos olhos fossem 
sensveis a comprimentos de onda um pouquinho maiores que o da luz visvel, sua 
cor seria vermelho escuro. O planeta est despejando radiao infravermelha no 
espao em imensas quantidades, porque  suficientemente grande para ficar quase 
incandescente.  mais que um gigante gasoso:  uma subestrela.
Ficou calado durante algum tempo e depois disse:
        -  Agora, vamos esquecer esse astro e procurar o planeta habitvel, se  que
ele existe.
        -  Existe, sim, meu velho amigo - disse Pelorat, sorrindo. - No desista.
        -  No desisti - afirmou Trevize, com convico. - A formao de planetas 
 complicada demais para ser explicada por uma teoria simples. Falamos apenas 
em probabilidades. Com esse monstro nas proximidades, a probabilidade diminui 
bastante, mas no cai para zero.
        Bliss disse:
        - Por que est to pessimista? Se os dois primeiros conjuntos de 
coordenadas correspondiam a dois planetas colonizados pelos Espaciais, este 
terceiro conjunto, do qual j resultou uma estrela da classe correta, deve tambm 
corresponder a um planeta habitvel. Por que falar em probabilidades?
        - Espero que voc esteja certa - disse Trevize, que no tinha se deixado 
convencer pela argumentao de Bliss. - Agora vamos sair do plano da eclptica e 
aproximar-nos da estrela.
        Assim que o rapaz manifestou sua inteno, o computador comeou a agir. 
Trevize recostou-se  cadeira do piloto e pensou consigo mesmo, mais uma vez, que 
a nica desvantagem de pilotar uma nave gravtica com um computador to 
avanado era que jamais... jamais conseguiria pilotar novamente outro tipo de nave.
Onde encontraria disposio para executar pessoalmente todos os clculos? 
Lembrar-se-ia de levar em conta a acelerao e limit-la a um valor razovel? No... 
provavelmente se esqueceria e continuaria a fornecer energia para os motores at 
que os passageiros fossem esmagados contra as paredes.
        Pois ento teria que continuar a pilotar aquela nave, ou outra exatamente 
igual, para o resto da vida.
        Como no queria pensar na questo do planeta habitvel, sim ou no, 
Trevize comeou a cismar a respeito do fato de haver posicionado a nave acima do 
plano da eclptica e no abaixo. Sempre que tinham escolha, os pilotos preferiam 
subir em vez de descer. Por qu? A propsito, por que essa preocupao em 
considerar uma direo como sendo "para cima" e outra como sendo "para baixo"? 
Na simetria do espao, isso no passava de conveno.
        Mesmo assim, Trevize instintivamente procurava saber em que sentido girava 
o planeta em que estava interessado e em que sentido se movia em torno da sua 
estrela. Quando os dois movimentos eram no sentido contrrio ao dos ponteiros do 
relgio, o norte ficava na direo do brao levantado e o sul na direo dos ps. E 
em toda a Galxia o norte era representado para cima e o sul para baixo.
        Era uma conveno muito antiga, de origem desconhecida, mas que todos 
seguiam  risca. Quando algum olhava um mapa com o sul para cima, ficava 
difcil reconhec-lo. Em igualdade de condies, todos preferiam a direo norte ou 
"para cima".
        Trevize se lembrou de uma batalha travada por Bel Riose, o general do 
Imprio, h trezentos anos, na qual havia posicionado sua esquadra abaixo do 
plano da eclptica em um momento crucial, apanhando a esquadra inimiga 
totalmente despreparada. A manobra fora considerada desleal... pelos adversrios, 
naturalmente.
        Uma conveno to antiga e to universal devia ter comeado na Terra... e 
aquilo trouxe de volta  mente de Trevize, com um sobressalto, a questo do 
planeta habitvel.
        Pelorat e Bliss continuaram a observar o gigante gasoso enquanto girava 
lentamente na tela. A parte iluminada aumentou e, como Trevize manteve o 
espectro concentrado nos comprimentos de onda correspondentes ao vermelho 
alaranjado, as ondulaes tempestuosas se tornaram ainda mais frenticas.
        Foi ento que Fallom apareceu e Bliss declarou que estava precisando dormir 
e levaria a criana com ela.
        Trevize disse para Pelorat, que havia ficado:
        - Tenho que tirar da tela o gigante gasoso, Janov. Vamos procurar um 
pontinho do tamanho certo.
        Entretanto, era mais complicado do que isso. No era apenas um pontinho 
do tamanho certo que o computador tinha que procurar, mas um pontinho do 
tamanho certo e  distncia correta da estrela. Vrios dias se passariam antes que 
pudessem ter certeza.


61.

TREVIZE entrou no quarto, srio, solene, triste... e levou um susto. Bliss estava  
sua espera e a seu lado estava Fallom, o manto e a tanga muito bem lavados e 
passados. O jovem ficava melhor naqueles trajes do que usando uma das camisolas 
de Bliss.
        - No queria incomod-lo quando estava operando o computador, mas 
agora tem que escutar... V em frente, Fallom.
        Fallom disse, com voz de soprano:
        - Saudaes, protetor Trevize.  com prazer que estou ad... at... 
acompanhando o senhor nesta viagem. Sinto-me feliz tambm por estar com meus 
amigos Bliss e Pel.
        Fallom sorriu timidamente e mais uma vez Trevize pensou consigo mesmo: 
Devo trat-lo como menino, como menina ou como nenhum dos dois?
        Balanou a cabea em sinal de aprovao.
        - Muito bem memorizado. A pronncia est quase perfeita.
        - Voc est enganado - protestou Bliss, bem humorada. - Fallom escreveu 
sozinho este pequeno discurso e me perguntou se seria possvel recit-lo para voc. 
Nem eu sabia o que ele iria dizer.
        Trevize forou-se a sorrir.
        -  Nesse caso, est realmente muito bom.
        Bliss voltou-se para Fallom e disse:
        - Eu tinha certeza de que Trevize iria gostar... Agora v pegar outro livro 
com Pel, se quiser.
        Depois que Fallom saiu, Bliss observou:
        -   realmente incrvel a rapidez com que Fallom est aprendendo a falar 
galctico. Os solarianos devem ter um dom especial para lnguas. Lembre-se de 
como Bander aprendeu galctico apenas ouvindo as comunicaes hiperespaciais. 
Aqueles crebros devem ter outras qualidades especiais, alm dos lobos 
transdutores.
        Trevize deu um muxoxo.
        -  No me diga que ainda no gosta de Fallom! - exclamou Bliss.
        -  Nem gosto nem desgosto. Simplesmente no me sinto  vontade em sua 
presena. No estou acostumado a lidar com hermafroditas.
        - Ora, Trevize, isso  ridculo! Fallom  um ser humano perfeitamente 
aceitvel. Pense em como ns, homens e mulheres, devemos parecer estranhos para 
uma sociedade de hermafroditas. Cada um  apenas metade de um todo; para que a 
espcie sobreviva, tem que haver uma unio, uma unio temporria e artificial.
        - A idia no lhe agrada, Bliss?
        - No se faa de desentendido. Estou tentando imaginar o que somos do 
ponto de vista de um hermafrodita. Para eles, o ato sexual deve parecer repulsivo; 
para ns,  natural. Da mesma forma, Fallom pode parecer repulsivo para voc, 
mas  apenas porque voc tem uma viso muito estreita do problema.
        - Francamente, at agora no sei que pronome usar quando me refiro  
criatura, e isso me incomoda.
        - A culpa  da lngua e no de Fallom - argumentou Bliss. - Nenhuma 
lngua humana foi desenvolvida por uma raa de hermafroditas. Mas foi bom voc 
ter trazido este assunto  baila, porque  uma questo que tambm me preocupa. 
Por que no escolhemos arbitrariamente um dos pronomes? Costumo pensar em 
Fallom como menina. Afinal, ela tem voz fina e  capaz de gerar um beb, o que na 
nossa raa constitui um dos principais atributos da feminilidade. Pelorat j 
concordou; por que voc no concorda tambm? De agora em diante, Fallom passa 
a ser "ela"...
        Trevize deu de ombros.                            
        -  Muito bem. Vai parecer estranho comentar que ela possui testculos, mas 
est bem.
        Bliss suspirou.
        - Voc tem este hbito desagradvel de fazer graa com tudo, mas sei que 
est sob tenso e o perdo. Mas de agora em diante, o pronome feminino quando se 
referir a Fallom, por favor.
        -  Est bem.
        Trevize hesitou e depois, no conseguindo se conter, disse:
        -  Fallom est parecendo cada vez mais sua filha adotiva. Ser que voc 
queria ter filhos e Janov no lhe pode dar um?
        Bliss arregalou os olhos.
        -  Fallom no est aqui para me dar filhos! Acha que eu o usaria para isso? 
Ainda no chegou a minha hora de procriar, e quando chegar, o pai ter que ser um 
gaiano!
        -  Ento ter que livrar-se de Janov?
        -  No disse isso. Um afastamento temporrio, talvez. Ou pode ser que eu 
recorra  inseminao artificial.
        - Presumo que voc s ser autorizada a ter um filho quando Gaia 
considerar isso necessrio; quando houver uma lacuna em conseqncia da morte 
de um fragmento humano de Gaia.
        -   uma forma um pouco grosseira de colocar a questo, mas em essncia
voc est certo. Gaia deve manter todas as suas partes em equilbrio.
        -  Como fazem os solarianos.
        Bliss apertou os lbios e empalideceu ligeiramente.
        - Voc est enganado. Os solarianos produzem mais do que precisam e 
destroem o excesso. Ns produzimos exatamente o que precisamos e no temos 
necessidade de destruir... da mesma forma como voc substitui as camadas 
externas da sua pele produzindo o nmero de clulas necessrio para substituir as 
que morreram e nem uma a mais.
        - Estou entendendo. Espero, porm, que voc tenha pensado nos 
sentimentos de Janov.
        -  Com relao aos meus possveis filhos? Ainda no discutimos o assunto.
        -  No, no estava me referindo a isso... Acaba de me ocorrer que se voc se 
mostrar cada vez mais interessada em Fallom, talvez Janov se sinta posto de lado.
        -  No acredito. Pel est to interessado em Fallom quanto eu. Ao lado dela, 
ns nos sentimos mais unidos que nunca. Ser que no  voc que est se sentindo 
posto de lado?
        -  Eu? - exclamou Trevize, genuinamente surpreso.
        -  Voc, sim. No compreendo os Isolados melhor do que voc compreende 
Gaia, mas tenho a impresso de que gosta de ser o centro das atenes e est com 
cimes de Fallom.
        -   absurdo!
        - No mais absurdo que a sua insinuao de que estou deixando Pel de 
lado.
        - Ento vamos fazer as pazes e encerrar a discusso. Tentarei pensar em 
Fallom como uma menina e no vou me preocupar demais com os sentimentos de 
Janov.
        Bliss sorriu.
        -  Obrigada. Est tudo bem, ento. Trevize ia despedir-se da moa, mas ela 
disse:
        -  Espere!
        O rapaz olhou para ela e perguntou, com ar cansado:
        -  Que foi?
        -   evidente, Trevize, que voc est triste e deprimido. No pretendo ler a 
sua mente, mas talvez queira contar-me o que aconteceu. Ontem, voc disse que 
havia descoberto um planeta apropriado neste sistema e parecia bastante 
satisfeito... o planeta ainda est l, suponho. O achado no foi um engano do 
computador, foi?
        -  Existe um planeta apropriado e ele ainda est l - declarou Trevize.
        -   do tamanho certo? Trevize assentiu.
        -  Se no fosse do tamanho certo, no seria apropriado. Tambm est  
distncia certa da estrela.
        -  Ento qual  o problema?
        -  J estamos suficientemente prximos para analisar a atmosfera. Acontece 
que no existe nenhuma atmosfera para ser analisada.
        -  No?
        - Praticamente nenhuma.  um planeta inabitvel e no existem outros 
neste sistema que possam ser habitveis. Nossa terceira tentativa fracassou.

62.

PELORAT no queria interromper o silncio quase hostil que Trevize vinha mantendo. 
Ficou parado na porta da sala de comando, esperando que o outro tomasse a 
iniciativa. Trevize, porm, continuava teimosamente calado. Por fim, Pelorat no 
agentou mais e perguntou, timidamente:
        - O que est fazendo?
        Trevize levantou os olhos, fitou Pelorat por um momento, virou a cabea e 
respondeu:
        - Vamos pousar no planeta.
        - Mas ele no tem atmosfera!
        - O computador disse que no tem atmosfera. At agora, o computador 
sempre me disse o que eu queria ouvir e acreditei. Desta vez, ele me disse algo que 
eu no queria ouvir e vou verificar. Se o computador  capaz de cometer erros, 
espero que esteja errado desta vez.   Acha que ele est errado?
        -  No, no acho.
        - Pode pensar em alguma razo para ele estar errado?  - No, no posso.
        - Ento por que se dar ao trabalho de pousar no planeta, Golan? Trevize 
finalmente se virou no assento para olhar Pelorat de frente e disse, em tom quase 
desesperado:
        - No compreende, Janov, que no me resta mais nada para fazer? Nos dois
primeiros mundos que visitamos no conseguimos nenhuma informao a respeito 
da Terra; este terceiro mundo nem  habitado. O que devo fazer? Vagar de planeta 
em planeta, perguntando a todos que encontrar: "Com licena, amigo. Sabe onde 
fica a Terra?" A Terra soube se esconder muito bem. No deixou nenhuma pista 
para trs. Estou comeando a pensar que mesmo que encontrssemos uma pista a 
Terra no nos deixaria segui-la.
        Pelorat assentiu e disse:
        -  A idia tambm me ocorreu. Que tal discutirmos o assunto? Sei que no 
est de muito bom humor, de modo que se preferir que eu v embora,  s me dizer.
        -  No, fique - disse Golan, com ar resignado. - Vamos discutir o assunto. 
No tenho mesmo nada melhor para fazer...
        -  Seu entusiasmo  comovente. Mesmo assim, acho que a conversa lhe far 
bem. Se achar que no agenta mais, pode me interromper... A mim me parece, 
Golan, que a Terra no precisa tomar apenas medidas passivas e negativas para 
esconder-se. No precisa limitar-se a eliminar todas as referncias  sua 
localizao. E se ela complementasse essas medidas com pistas falsas?
        - O que quer dizer com isso?
        -  Por exemplo: ouvimos falar em vrios lugares que a Terra est radioativa, 
e este  o tipo de informao que dissuadiria muita gente de procur-la. Se a Terra 
estivesse realmente radioativa, seria inacessvel. Provavelmente, jamais 
conseguiramos pousar na superfcie do planeta. Talvez nem mesmo robs 
exploradores, se dispusssemos de robs exploradores, conseguissem sobreviver  
radiao. Nesse caso, para que procurar a Terra? Assim, se a Terra no estiver 
radioativa, o boato pode ajudar a mant-la oculta, a no ser por algum contato 
acidental, pode ser que ela disponha de outros meios que ainda no conhecemos. 
        Trevize conseguiu sorrir.
        -  curioso, Janov, mas a idia passou pela minha cabea. Chegou a me 
ocorrer que o tal satlite gigantesco tenha sido includo de propsito nas lendas a 
respeito da Terra, apenas para dificultar as buscas. O mesmo se aplicaria ao 
gigante gasoso com um sistema de anis to descomunal que provavelmente 
constitua uma impossibilidade fsica. Tudo isso pode ter sido forjado para nos fazer 
procurar por coisas que no existem. Nesse caso, poderamos passar pelo sistema 
da Terra e no parar, poderamos olhar para a Terra de perto e no reconhec-la 
porque na verdade ela no tem um satlite gigantesco, um vizinho com anis e uma 
crosta radioativa. Entretanto, tambm pensei coisa pior...
        Pelorat parecia desanimado.
        - O que  que pode ser pior?
        - Quando voc acorda no meio da noite e sua imaginao comea a 
trabalhar, surgem idias muito estranhas. E se a Terra puder agir diretamente 
sobre ns? Se tiver o poder de nos tornar cegos  sua presena? Se pudermos 
passar ao lado da Terra, com seu satlite gigante, com seu vizinho cheio de anis, e 
no enxergarmos nada porque os habitantes de Terra no querem ser vistos? E se 
isso j tiver acontecido?
        -  Se acredita nisso, por que ainda est...
        - No disse que acredito. Estou falando de fantasias desvairadas. Vamos 
continuar procurando a Terra.
        Pelorat hesitou e depois disse:
        - Por quanto tempo, Trevize? Vai chegar a hora, suponho, em que teremos 
que desistir.
        - Nunca! - exclamou Trevize, com um brilho selvagem nos olhos. - Se tiver 
que passar o resto da vida vagando de planeta em planeta e perguntando aos 
passantes: "Desculpe, meu amigo, mas sabe onde fica a Terra?",  isso o que farei. 
Se quiserem, posso levar voc, Bliss e Fallom de volta para Gaia e continuar a 
busca sozinho.
        -  Oh, no! Sabe que eu no o abandonaria, Golan. Nem Bliss. Passaremos 
o resto da vida viajando com voc, se for preciso, mas qual a razo para isso?                                                            
        -  A razo  simples: eu preciso encontrar a Terra e vou encontr-la, mais 
cedo ou mais tarde... Escute, estou chegando a uma posio de onde posso 
observar a superfcie iluminada do planeta sem que minha viso seja ofuscada pelo 
brilho da estrela. Espere um instante.
        Pelorat parou de falar, mas no foi embora. Continuou a observar enquanto 
Trevize examinava a imagem do planeta na tela. Mais da metade da superfcie 
estava iluminada. Para Pelorat, no era possvel distinguir nenhum detalhe, mas ele 
sabia que para Trevize, em contato com o computador, a imagem aparecia com um 
contraste muito maior.
        -  Estou vendo uma nvoa - sussurrou Trevize.
        -  Ento existe atmosfera! - exclamou Pelorat.
        -  Sim, mas isso no quer dizer grande coisa. A atmosfera pode no ser 
suficientemente densa para sustentar formas de vida, mas suficiente para levantar 
a poeira do solo. As tempestades de poeira so comuns em planetas que possuem 
atmosferas rarefeitas. Podemos encontrar at mesmo pequenas calotas polares. Um 
pouquinho de gelo de gua condensado nos plos, voc sabe. Este mundo  quente 
demais para que o dixido de carbono se transforme em gelo seco... Acho melhor 
usar o radar. Se fizer isso, poderei examinar tambm o lado escuro. -  Verdade?
        - Verdade. Devia ter comeado pelo radar, mas num planeta sem atmosfera 
e portanto sem nuvens, a idia de usar a luz visvel parecia to natural...
        Trevize permaneceu calado durante muito tempo, enquanto a tela mostrava 
os ecos do radar, produzindo uma imagem abstrata do planeta que poderia passar 
como a obra de um artista do perodo cleoniano. Finalmente, disse:
        - Ora... Pelorat esperou um pouco e depois perguntou:
        - O que quis dizer com esse "ora"? Trevize levantou os olhos.
        -  No estou vendo nenhuma cratera.
        -  Nenhuma cratera? Isso  bom?
        -  Isso  totalmente inesperado - disse Trevize, com um largo sorriso. - E  
muito bom. Na verdade,  maravilhoso!


63.

FALLOM estava com o nariz comprimido contra a vigia da nave, onde um pequeno 
segmento do Universo era visvel exatamente como o olho o captava, sem nenhum 
auxlio do computador.
        Bliss, que estava tentando explicar tudo  criana, suspirou e disse em voz 
baixa para Pelorat:
        - No sei at que ponto ela est entendendo, Pel querido. Para ela, o 
Universo era a casa do pai e uma pequena parte da propriedade em volta. Acho que 
ela nunca saa  noite, nunca havia visto uma estrela.
        - Acha mesmo?
        - Palavra de honra. No tive coragem de mostrar-lhe as estrelas at que 
tivesse vocabulrio suficiente para me entender pelo menos um pouquinho... ainda 
bem que voc era capaz de conversar com ela em sua prpria lngua.
        - Mais ou menos - disse Pelorat, modestamente. - E o Universo  mesmo 
difcil de compreender para quem o v pela primeira vez. Ela me disse que se 
aqueles pontinhos luminosos eram mundos inteiros, como Solaria... naturalmente, 
so muito maiores que Solaria... ento no podiam ficar suspensos no ar, mas 
tinham que cair.
        - E est certa, a julgar pelo que conhece. Fallom faz perguntas lgicas e, 
pouco a pouco, comear a compreender o Universo. O importante  que  curiosa e 
no tem medo de ns.
        - Acontece, Bliss, que eu tambm sou curioso. Veja como Golan mudou 
depois que descobriu que no existem crateras no mundo para onde estamos indo. 
No tenho a mnima idia da diferena que isso faz. E voc?
        - Tambm no. Acontece que Trevize entende muito mais de planetologia do 
que ns. Deve saber o que est fazendo.
        -  Pois eu gostaria de saber.
        -  Por que no pergunta a ele? Pelorat fez uma careta.
        - Estou sempre com medo de incomod-lo. Parece que ele acha que eu devia 
ficar sabendo dessas coisas sozinho.
        - Isso  bobagem, Pel. Trevize no hesita em consult-lo a respeito das 
lendas e mitos sobre a Terra, no  mesmo? E voc responde com a maior boa 
vontade. Por que ele no pode fazer a mesma coisa? V perguntar a ele. Se isso o 
incomodar, ter uma oportunidade de praticar a arte da sociabilidade, o que s 
poder lhe fazer bem.
        - Voc vem comigo?
        - No, claro que no. Quero ficar com Fallom e continuar a explicar-lhe o 
conceito de Universo. Depois voc me conta o resultado da conversa.


64.

PELORAT entrou timidamente na sala de comando. Ficou aliviado ao constatar que 
Trevize estava assobiando baixinho e parecia de muito bom humor.
        - Golan - comeou, da maneira mais descontrada que pde. Trevize 
levantou os olhos.
        -  Janov! Voc sempre entra na ponta dos ps, como se fosse contra a lei me 
perturbar. Feche a porta e sente-se. Sente-se! Olhe para isso. 
        Apontou para o planeta na tela e disse:
        -  No encontrei mais que duas ou trs crateras, e das pequenas.
        - Isso faz alguma diferena, Golan?
        -  Se faz diferena? Claro que sim! Como pode perguntar uma coisa dessas?
Pelorat deu de ombros.
        - Tudo isso  um mistrio para mim. Na universidade, diplomei-me em 
Histria. Alm de histria, estudei sociologia e psicologia. Tambm fiz alguns cursos 
de linguagem e literatura, especialmente literatura antiga. No curso de ps-
graduao, especializei-me em mitologia. Nunca cheguei nem perto de planetologia 
ou outras cincias naturais.
        - Isso no  nenhum crime, Janov. Prefiro que voc saiba o que sabe. Seu 
conhecimento de lnguas antigas e de mitologia tem sido extremamente valioso para 
ns... Quanto  planetologia, deixe por minha conta.
        Trevize prosseguiu:
        - Voc sabe, Janov, os planetas se formam a partir da coliso de objetos 
menores. Os ltimos objetos a se chocarem com a massa principal produzem 
marcas que so chamadas de crateras. Ou melhor, podem produzir. Se um planeta 
 suficientemente grande para ser um gigante gasoso, no possui crosta slida e 
portanto as colises finais no deixam marcas.
        "Os planetas menores, que tm uma crosta slida, de gelo ou de pedra, 
possuem marcas de crateras". Essas marcas duram indefinidamente, a no ser que 
sejam apagadas por algum agente natural. Existem trs mecanismos capazes de 
apagar as marcas.
        "Em primeiro lugar, um planeta pode ter uma superfcie de gelo cobrindo um 
oceano lquido". Nesse caso, a coliso de um objeto faz um buraco no gelo. Depois 
que o objeto passa, o lquido no lugar do furo torna a congelar e tapa o buraco. Um 
mundo assim teria que ser muito frio e no seria do tipo normalmente considerado 
como habitvel. 
        "Em segundo lugar, se a atividade vulcnica no planeta  muito Intensa, a 
lava e as cinzas esto continuamente obliterando as crateras que se formam". Um 
planeta desse tipo tambm provavelmente no seria habitvel.                                                                      
        "O terceiro caso  o dos planetas habitveis. Esses mundos podem possuir 
calotas polares, mas a maior parte da gua est no estado liquido. Podem ter 
vulces ativos, mas em pequeno nmero. As crateras so apagadas, no por 
congelamento ou por torrentes de lava, mas por processos de eroso. Lentamente, o 
vento e a gua corrente destroem as crateras; se h vida, o processo  acelerado, 
pois os seres vivos constituem um poderoso agente erosivo. Est entendendo?".
        Pelorat pensou um pouco e depois disse:                      
        -  Ainda no entendi, Golan. O planeta que vamos visitar...
        -  Pousaremos nele amanh - disse Trevize, alegremente.
        -  O planeta que vamos visitar no tem oceanos.            
        -  Apenas finas calotas polares.                                  
        -  Tambm no tem atmosfera.
        -  A densidade do ar  um centsimo da de Terminus.
        -  Nem vida.                                                               
        -  Nada que possamos detectar.                                
        -  Ento qual foi o processo de eroso que destruiu as crateras?
        - Oceanos, uma atmosfera e seres vivos - disse Trevize. - Escute, se este 
planeta no tivesse gua nem ar desde o princpio, toda a superfcie estaria coberta 
de crateras. A ausncia de crateras  uma prova de que no foi assim. Alm disso, 
existem grandes depresses, visveis ao telescpio, que um dia devem ter sido 
mares e oceanos, sem falar das marcas de rios hoje secos. Assim, voc pode ver que 
houve eroso e que ela cessou h relativamente pouco tempo, pois ainda no se 
acumularam as marcas de novas crateras.
        Pelorat no parecia convencido.                                  
        - Posso no ser um planetologista, mas me parece que se um planeta  
suficientemente grande para reter uma atmosfera densa por talvez bilhes de anos, 
no vai perd-la de um momento para outro, vai?
        - Acredito que no - disse Trevize. - Meu palpitei que este mundo abrigou 
seres humanos antes que a atmosfera se dissipasse. Nesse caso, certamente foi 
transformado de modo a atender s necessidades humanas, como aconteceu com 
todos os outros planetas colonizados. O problema  que no sabemos em que 
condies se encontrava antes de chegarem os primeiros colonos, quais as 
transformaes que sofreu e em que circunstncias se tornou inabitvel. Pode ter 
havido uma catstrofe que acabou ao mesmo tempo com a atmosfera e com todas 
as formas de vida. Ou talvez o planeta apresentasse algum estranho desequilbrio 
que os seres humanos mantinham sob controle e quanto estavam aqui, mas que 
resultou na perda da atmosfera depois que eles foram embora. Talvez encontremos 
a resposta quando pousarmos no planeta, talvez no. No importa.
        - Mas tambm no importa que tenha havido vida no planeta. se hoje ele  
um planeta morto. Qual a diferena entre um planeta que sempre foi inabitvel e 
um que se tornou inabitvel?
        - No planeta que se tornou inabitvel deve haver runas deixadas pelos 
antigos habitantes.
        - Havia runas em Aurora...
        - Sim, mas em Aurora essas runas foram submetidas a vinte mil anos de 
chuva e de vento, de frio e de calor. E tambm havia seres vivos... no se esquea 
dos seres vivos. Assim como as crateras, as runas tambm sofrem o processo de 
eroso.  at mais rpido. Depois de vinte mil anos, no restou nada de til... Aqui 
neste planeta, porm, h muito tempo que no h chuva, nem vento, nem vida. Os 
ciclos de frio e de calor continuaram, admito, mas foi tudo. As runas  devem estar
bem preservadas.
        - A menos - murmurou Pelorat, ceticamente - que no existam runas. 
No  possvel que jamais tenha existido vida no planeta, ou pelo menos que ele 
nunca tenha sido habitado por seres humanos, e que a perda da atmosfera se deva 
a algum fenmeno puramente natural?  
        - No, no - disse Trevize. - Seu pessimismo no tem razo de ser. Mesmo 
desta distncia, consegui ver algumas marcas na superfcie e estou certo de que se 
trata dos restos de uma cidade...  para l que vamos amanh.


65.

BLISS disse, em tom preocupado:
        - Fallom est convencida de que vamos devolv-la a Jemby, o rob.
        - Hummm... - fez Trevize, examinando a superfcie do planeta que estavam 
sobrevoando. Ento levantou os olhos, como se tivesse ouvido o comentrio com 
certo retardo. - Afinal, foi o nico pai que conheceu, no foi?
        - Claro que sim, mas pensa que estamos de volta a Solaria. 
        -  Este planeta no se parece com Solaria!
        -  Como ela poderia saber?
        - Explique que no  Solaria. Olhe, vou lhe arranjar alguns manuais de 
bordo com ilustraes. Mostre a ela as fotografias de alguns planetas habitados e 
diga que existem milhes deles. Voc ter tempo de sobra. No sei quanto tempo eu 
e Janov vamos levar examinando as runas depois que pousarmos.
        -  Voc e Janov?
        -  Isso mesmo. Fallom no pode vir conosco, mesmo que eu quisesse, e eu 
s quereria lev-la se fosse louco. Este mundo praticamente no tem ar, Bliss. 
Vamos ter que usar trajes espaciais. No temos nenhum traje que sirva em Fallom. 
Assim, vocs duas vo ficar a bordo.
        -  Por que eu?
        Os lbios de Trevize se contraram em um sorriso amarelo.
        - Admito que me sentiria mais seguro se voc fosse conosco, mas no 
podemos deixar Fallom sozinha. Preciso levar Janov comigo porque  o nico capaz 
de ler inscries em galctico arcaico. Achei que voc no se importaria de ficar com 
Fallom...
        Bliss parecia indecisa. Trevize disse:
        - Bliss, foi voc que quis trazer Fallom... eu sempre achei que ela seria um 
peso morto para ns. Agora, voc vai ter que arcar com as conseqncias. Ela no 
pode ir conosco, de modo que voc vai ter que ficar, tambm. No h outro jeito.
        Bliss suspirou.
        - Acho que tem razo.
        - timo. Onde est Janov?
        - Est com Fallom.
        - Muito bem. V at l e substitua-o. Preciso falar com ele.
        Trevize ainda estava examinando a superfcie do planeta quando Pelorat 
entrou, pigarreando para anunciar a sua presena.
        - Alguma coisa errada, Golan? - perguntou.
        - No exatamente, Janov. Estou indeciso.  um mundo muito estranho... 
no sei o que aconteceu com ele. Os mares devem ter sido muito grandes, a julgar 
pelas depresses que deixaram, mas eram tambm extremamente rasos. Pelo que 
pude observar, este foi um mundo de dessalinizao e de canais... ou talvez os 
oceanos no fossem muito salgados. Se no eram muito salgados, isso explica a 
ausncia de depsitos de sal nas depresses. Ou ento, quando os oceanos 
secaram, o sal foi removido... o que seria uma indicao segura de atividade 
humana.
        - Desculpe minha ignorncia, Golan, mas o que isso tem a vi com o que 
estamos procurando?
        -  Nada, talvez, mas no posso deixar de ficar curioso. Se eu soubesse como 
era este planeta antes de ser colonizado e quais as transformaes a que foi 
submetido para se tornar mais habitvel, talvez chegasse a compreender o que 
aconteceu com ele depois que foi abandonado... ou, talvez, pouco antes de ser 
abandonado. E se soubssemos o que aconteceu com ele, poderamos nos prevenir 
contra surpresas desagradveis.
        - Que tipo de surpresas?  um mundo morto, no ?
        - Acho que sim. Muito pouca gua; atmosfera tnue, irrespirvel; e Bliss 
no detectou nenhum sinal de atividade mental.
        - Ento estamos seguros, no acha?
        - A ausncia de atividade mental no implica necessariamente a ausncia 
de vida.
        - Pode ser que no, mas qualquer forma de vida suficientemente 
desenvolvida para ser perigosa teria que apresentar algum tipo de atividade mental.
        -  No sei... mas no era sobre isso que queria conversar com voc. Existem 
duas cidades que parecem mais indicadas para nossa primeira expedio. Esto 
muito bem conservadas, como alis todas as cidades do planeta; aparentemente, o 
fenmeno que destruiu a atmosfera e os oceanos no afetou as cidades. Seja como 
for, essas duas cidades so particularmente grandes. A maior, porm, no tem 
espaos vazios. Existem espaoportos nos arredores, mas nenhum lugar dentro da
cidade onde a gente possa pousar. A outra possui uma grande praa central. No 
um campo de pouso, mas eu no teria problema algum para pousar ali.
        Pelorat fez uma careta.
        - Voc quer que eu decida, Golan?
        - No, a deciso fica por minha conta. Eu s queria ouvir sua opinio.
        - Para mim, a cidade maior, sem espaos vazios, foi provavelmente um 
centro comercial ou industrial. A cidade menor, com uma grande praa central, 
pode ter sido um centro administrativo.  no centro administrativo que estamos
interessados. Voc observou algum edifcio governamental?
        - Como  um edifcio governamental? Pelorat sorriu.
        - Eu mesmo no sei. A moda varia de planeta para planeta e de poca para 
poca. Desconfio, porm, que eles sempre parecem grandes, luxuosos e pouco 
prticos... como aquele lugar em que estivemos em Comporellon.
        Foi a vez de Trevize sorrir.
        -  difcil dizer aqui de cima, e quando eu tiver uma viso lateral, na hora 
do pouso, ser tarde demais. Por que prefere o centro administrativo?
        - Porque  l que encontraremos os museus, bibliotecas, arquivos, 
universidades e assim por diante.
        - Excelente.  para l que vamos, ento: para a cidade menor. Talvez 
encontremos alguma coisa que preste. Tivemos dois insucessos, mas desta vez pode 
ser que a gente acerte no alvo.























Captulo 15

Musgo






66.

O TRAJE ESPACIAL deixara Trevize com aspecto grotesco. No momento, estava 
ocupado ajeitando os coldres, no os que usava habitualmente na cintura, mas 
uma pea mais volumosa, que podia ser adaptada externamente ao traje espacial. 
Cuidadosamente, introduziu o desintegrador no coldre da direita e o chicote 
neurnico no da esquerda. As armas estavam com a carga completa e desta vez, 
pensou, aborrecido, nada o faria separar-se delas. Bliss sorriu.
        - Vai levar as armas, mesmo sabendo que nesse mundo no existe ar nem... 
deixe para l! Faa como quiser.
        - timo! - exclamou Trevize, voltando-se para ajustar o capacete de Pelorat 
antes de vestir o seu.
        Pelorat, que nunca havia usado um traje espacial, disse, em tom queixoso:
        -  Ser que eu vou mesmo conseguir respirar aqui dentro, Golan?
        -  Juro que sim - disse Trevize.
        Bliss observou-os, com a mo no ombro de Fallom, enquanto testavam as 
juntas dos trajes. A jovem solariana estava visivelmente assustada com aquelas 
figuras estranhas. Comeou a tremer e Bliss abraou-a, dirigindo-lhe palavras 
tranqilizadoras.
        A porta interna se abriu e os dois entraram na cmara de descompresso, 
depois de acenarem para Bliss. A porta interna se fechou. A  porta externa se abriu 
e os dois pisaram desajeitadamente no solo de um mundo morto.
        Estava amanhecendo. O cu estava claro, de cor avermelhada, mas o sol 
ainda no havia nascido. No horizonte, perto do local onde apareceria o sol, havia 
uma pequena nebulosidade.
        -  Que frio! - exclamou Pelorat.
        -  Est com frio? - perguntou Trevize, surpreso.
        Os trajes eram bem isolados e se havia um problema, de vez em quando, era 
o da necessidade de dissipar o calor do corpo. Pelorat respondeu:
        -  No, no estou, mas veja...
        A voz, transmitida pelo rdio, soava bem ntida nos ouvidos de Trevize, que 
virou a cabea para olhar para onde Pelorat estava
apontando.
         luz avermelhada da manh, podiam ver que a fachada de pedra do edifcio 
mais prximo estava coberta por uma fina camada de gelo.
        Trevize explicou:
        - Quando a atmosfera  rarefeita, as noites so muito frias e os dias muito 
quentes. Agora deve ser a hora mais fria; mesmo depois que o sol nascer, vai levar 
vrias horas para ficar quente de verdade.
        Nesse momento, como se suas palavras fossem mgicas, a borda do sol 
apareceu acima do horizonte.
        -  No olhe para o sol - recomendou Trevize. - O visor do capacete tem um 
filtro de ultravioleta, mas mesmo assim pode ser perigoso.
        Deu as costas para o sol nascente e deixou que sua sombra se projetasse no 
edifcio. Enquanto olhava, o sol fazia o gelo derreter. A parede ficou mais escura por 
alguns momentos, por causa da umidade, mas depois a gua evaporou tambm.
        Trevize disse:
        - As construes no esto to bem conservadas quando pareciam. Algumas 
desabaram parcialmente e outras racharam. Deve ser resultado das variaes de 
temperatura e tambm da formao de gelo nas fendas toda noite durante 
possivelmente vinte mil anos.
        - H uma inscrio gravada na pedra logo acima da porta de entrada, mas 
est to gasta que  difcil de ler, - disse Pelorat.
        -  Sabe que edifcio  esse, Janov?
        -  Um tipo de instituio financeira. Pelo menos, acho que uma das palavras 
 "banco".
        -  Que  isso?
        - Um edifcio onde o dinheiro era guardado, retirado, invs do, emprestado...
        -  Um edifcio inteiro s para isso? Sem computadores?
        -  Sem computadores.
        Trevize deu de ombros. s vezes achava a Histria antiga muito sem graa.
Circularam pela cidade, com uma pressa crescente, cada vez passando menos 
tempo nos edifcios. O ar de abandono era deprimente. O lugar parecia um 
esqueleto sem vida.
        Estavam na zona temperada, mas Trevize teve a impresso de que podia 
sentir o calor do sol nas costas.
        Pelorat, que estava uns cem metros  direita, exclamou de repente: - Olhe 
para isso!
        - No grite - advertiu Trevize, com os ouvidos doendo. - Posso ouvi-lo pelo 
rdio como se voc estivesse pertinho de mim. Que foi Pelorat baixou a voz 
imediatamente e explicou:
        - Este edifcio  o "Palcio dos Mundos". Pelo menos,  o que est escrito na 
fachada.
        Trevize aproximou-se. Diante deles estava uma construo de trs andares. 
O teto era irregular, coberto por grandes fragmentos de pedra. como se tivesse 
sustentado uma escultura, agora desfeita em pedaos.
        -  Tem certeza? - perguntou Trevize.
        -  Vamos entrar para confirmar.
        Subiram cinco degraus baixos e largos e atravessaram um vestbulo 
espaoso. Na atmosfera rarefeita, as botas produziam um som metlico que era 
mais uma vibrao do que um rudo.
       - Agora entendo o que voc quis dizer com "grandes, luxuosos e pouco 
prticos" - murmurou Trevize.
        Penetraram em um imenso saguo. Os raios de sol entravam pelas janelas, 
que ficavam muito acima do piso, e iluminavam o interior de forma desigual,
produzindo um grande contraste entre luz e sombra. O ar rarefeito espalhava muito
pouco a luz.
        No centro do saguo havia uma esttua humana, em tamanho maior que o 
natural, feita do que parecia ser pedra sinttica. Um dos braos tinha cado. O 
outro estava rachado na altura do ombro e Trevize teve a impresso de que se 
tocasse de leve naquele brao ele tambm cairia. Recuou um passo, como se 
temesse que, se chegasse mais perto, sentir-se-ia tentado a cometer um ato de 
vandalismo.
        - Quem ser? - disse Trevize. - No vejo nenhuma inscrio. Talvez fosse 
to famoso na poca que no havia necessidade de identific-lo, mas hoje...
        Pelorat estava olhando para cima e Trevize inclinou a cabea para  olhar  na 
mesma direo. Uma das paredes estava coberta de inscries em baixo-relevo que 
eram incompreensveis para o rapaz.
        -   espantoso - observou Pelorat. - Talvez tenham mais de vinte mil anos 
de idade, mas aqui, protegidas do sol e da umidade, ainda so legveis.
        -  No para mim - disse Trevize.                             
        -  A caligrafia  antiga e muito estilizada. Vejamos... sete... uma... duas...
        A voz de Pelorat morreu em um murmrio. Aps alguns momentos, ele falou 
de novo.
        - A lista tem cinqenta nomes, a lenda diz que os Espaciais colonizaram 
cinqenta planetas e este edifcio  chamado "Palcio dos Mundos". A concluso  
inevitvel: esses so os nomes dos cinqenta planetas dos Espaciais, provavelmente 
na ordem em que foram colonizados. Aurora  o primeiro e Solaria o ltimo. Repare 
que existem sete colunas, com sete nomes nas primeiras seis colunas e oito nomes 
na ltima.  como se tivessem planejado um quadrado de sete por sete  
acrescentado o nome de Solaria  ltima hora. Meu palpite, Golan,  que Solaria foi 
colonizado depois da construo deste edifcio!
        -  Como se chama o planeta em que estamos? D para saber?
        -  Repare, meu velho amigo, que o quinto nome da terceira coluna, o dcimo 
nono da lista, est escrito com letras um pouco maiores. Ao que parece, quem 
gravou a lista quis dar pelo menos um pouco de destaque ao seu planeta natal. 
Alm disso...
        -  Qual  o nome?
        - Alguma coisa como Melpomenia. Para mim,  um nome totalmente 
desconhecido.
        -  Poderia ser a Terra?
        Pelorat sacudiu a cabea com veemncia, mas o outro no pde ver o gesto 
por causa do capacete. Ele disse:
        -  Nas lendas antigas, a Terra recebe vrios nomes diferentes. Como voc 
sabe, Gaia  um deles. Erda  outro. Todos so curtos. No conheo nenhum nome 
comprido para a Terra, nem nenhum que se parea com uma verso mais curta de 
Melpomenia.
        -  Ento estamos em Melpomenia e no estamos na Terra.
        -  Isso mesmo. Alm disso, como eu ia dizendo, uma indicao ainda mais 
direta do que as letras grandes  o fato de que as coordenadas de Melpomenia so 
0, 0, 0.  de se esperar que a origem das coordenadas esteja neste planeta, j que 
aqui  que se encontra a lista.                                                           


        -  Coordenadas? - repetiu Trevize, interessado. - Ento a lista tambm d 
as coordenadas dos planetas?
        -  Existem trs nmeros ao lado de cada nome e eu presumo que sejam 
coordenadas. Que mais poderiam ser?
        Trevize no respondeu. Abriu um pequeno compartimento na parte do traje 
espacial que cobria sua coxa direita e tirou um pequeno aparelho que era ligado por 
um fio ao interior do compartimento. Levantou-o  altura dos olhos e focalizou a 
inscrio na parede, as grossas luvas tornando difcil uma tarefa que normalmente 
no levaria mais que um momento.
        - Uma cmara? - perguntou Pelorat sem necessidade.
        - Vou transmitir a imagem diretamente para o computador da nave - disse 
Trevize.
        Tirou vrias fotografias de diferentes ngulos e depois disse: 
        - Espere! Preciso subir um pouco. Ajude-me, Pelorat. Pelorat juntou as 
mos como se fossem um estribo, mas Trevize sacudiu a cabea.
        - Assim voc no vai agentar o meu peso. Fique de quatro. Pelorat 
obedeceu. Trevize guardou a cmara de volta no compartimento, subiu nas costas 
do amigo e da passou para o pedestal. Empurrou a esttua para verificar se estava 
firme. Colocou o p no joelho dobrado e usou-o como base para tomar impulso e 
alcanar o ombro do lado sem brao. Apoiando o bico da bota em uma 
protuberncia do peito, conseguiu finalmente, depois de vrias tentativas, sentar-se 
no ombro. Para aqueles indivduos, mortos h muitos sculos, que haviam 
reverenciado a esttua e o que ela representava, a atitude de Trevize teria parecido 
uma blasfmia; o rapaz tinha conscincia disso, tanto que sentou-se na beirada do 
ombro, pouco  vontade.
        -  Voc vai cair e se machucar! - gritou Pelorat, preocupado.
        -  No vou cair e a nica coisa que est doendo so os meus ouvidos.
        Trevize ligou de novo a cmara e tirou vrias fotografias. Depois, guardou a 
cmara e desceu com cuidado para o pedestal. Pulou para o cho e aparentemente 
a vibrao produzida pelo salto foi demais para a velha esttua, pois o outro brao 
se desprendeu e caiu no cho, partindo-se em vrios pedaos. A queda no 
produziu praticamente nenhum rudo.
        Trevize levou um grande susto; seu primeiro impulso foi procurar um lugar 
para esconder-se antes que o vigia viesse ralhar com ele. Interessante, pensou, 
depois de acalmar-se, como as memrias da infncia voltavam depressa em uma 
situao como aquela, em que havia quebrado acidentalmente uma coisa valiosa. A 
sensao durou apenas um momento, mas deixou-o abalado.
        A voz de Pelorat era hesitante, como convinha a algum que acabava de 
testemunhar e mesmo de participar de um ato de vandalismo, mas ele conseguiu 
encontrar palavras de conforto.
        -  No... no tem importncia, Golan. O brao j devia estar mesmo para 
cair...
        Como que para demonstrar o que estava afirmando, apanhou um dos 
pedaos que estavam espalhados no cho. Olhou para ele e exclamou:
        -  Golan, venha c!
        Trevize aproximou-se e Pelorat, apontando para o pedao de pedra, que havia 
pertencido  parte superior do brao, disse:
        -  Que  isso?
        Trevize olhou. Havia uma mancha esverdeada na pedra. Esfregou-a com o 
dedo e ela saiu com facilidade.
        -  Parece musgo - disse.
        -  A vida sem pensamentos a que voc se referiu?
        - No sei at que ponto  verdade. Bliss provavelmente diria que isto 
tambm tem um pouquinho de conscincia... o que no  vantagem, pois para ela 
at as pedras tm conscincia...
        - Ser que  esse musgo que est fazendo a pedra se esfarelar? - 
perguntou Pelorat.
        -  Eu no ficaria admirado se isso fosse verdade. O planeta tem muito sol e 
um pouco de gua. Metade da atmosfera  constituda por vapor d'gua; o resto  
nitrognio e gases inertes. Muito pouco dixido de carbono, o que nos levaria a 
supor que no existe vida vegetal... mas pode ser que quase todo o carbono se 
tenha combinado com a crosta rochosa. Se a pedra da esttua possui carbonatos, 
talvez o musgo consiga decomp-la secretando cido, o que liberaria o dixido de 
carbono de que ele precisa para viver. Talvez estejamos diante da forma de vida 
dominante do planeta nos dias de hoje.
        -  Fascinante! - exclamou Pelorat.
        - Pode ser que sim - concordou Trevize -, mas no responde s nossas 
perguntas. As coordenadas dos planetas dos Espaciais esto mais prximas do que 
estamos procurando, mas o que queremos na verdade so as coordenadas da Terra. 
Se no esto aqui, pode ser que estejam em outro lugar deste palcio... ou em outro 
edifcio. Vamos, Janov.
        - Voc sabe... - comeou Janov.
        -  No, no - interrompeu Trevize, impaciente. - Deixe para depois. Temos 
que ver o que mais existe neste edifcio. Est ficando cada vez mais quente.
        Olhou para um pequeno termmetro que havia nas costas da luva esquerda.
        - Vamos, Janov.
        Exploraram os aposentos do palcio, pisando de leve, no para evitar fazer 
barulho, j que no havia ningum para ouvi-los, mas para que as vibraes no 
voltassem a causar danos.
        Os passos levantavam alguma poeira, que assentava rapidamente, graas  
atmosfera rarefeita, e deixavam pegadas bastante ntidas no cho.
        Ocasionalmente, em algum canto escuro, um dos dois apontava em silncio
para mais uma colnia de musgo. A presena de vida, ainda que primitiva, parecia
atenuar um pouco a sensao sufocante de caminhar em um mundo morto, 
especialmente um mundo que, como as runas atestavam, havia abrigado, no 
passado remoto, uma civilizao extremamente sofisticada. De repente, Pelorat 
observou:
         - Acho que aqui deve ter sido uma biblioteca. Trevize olhou em torno, 
curioso. Havia prateleiras e mais prateleiras, todas repletas de pequenas caixas. 
Estendeu a mo para uma delas e a abriu com cuidado. No interior havia vrios 
discos. Eram bastante espessos e pareciam quebradios.
        -  Incrivelmente primitivos - observou.
        -  Devem ter milhares de anos - replicou Pelorat, como que desculpando os 
antigos melpomenianos pelo atraso tecnolgico.
        Trevize apontou para a lombada da caixa, onde estavam alguns caracteres 
escritos na caligrafia elaborada dos antigos habitantes.
        -  o ttulo? Pode traduzir para mim? Pelorat examinou o texto.
        - No tenho bem certeza, meu velho amigo. Uma das palavras se refere  
vida microscpica. Acho que quer dizer "microorganismo". O resto devem ser termos 
tcnicos que eu no entenderia mesmo que estivessem escritos em galctico padro.
        - Provavelmente - disse Trevize, de mau humor. - E no nos serviriam 
para nada mesmo que voc conseguisse entend-los. No estamos interessados em 
germes... faa-me um favor, Janov. D uma olhada nos livros e veja se encontra 
algum com um ttulo interessante. Enquanto isso, vou examinar esses aparelhos de 
leitura.
        -   isso o que so? - perguntou Pelorat, admirado.
        Eram mveis de forma cbica, que serviam de suporte para telas inclinadas, 
ao lado das quais havia uma prancha que tanto podia servir  para descansar o 
cotovelo como para apoiar um eletrobloco de notas... se  que havia eletroblocos em
Melpomenia. Trevize disse:
        -  Se isto  uma biblioteca, tem que haver algum tipo de aparelho de leitura.
Essas coisas aqui parecem promissoras...
        Limpou com o dedo a poeira da tela e constatou, aliviado, que a tela, fosse 
qual fosse o material de que era feita, permanecia inteira mesmo depois de ter sido 
tocada. Experimentou os botes, um aps outro. Nada aconteceu. Tentou outra 
leitora, e mais outra, com o mesmo resultado negativo.
        No era nenhuma surpresa. Mesmo que o aparelho ainda estivesse em 
condies de funcionar depois de vinte mil anos de exposio  umidade, havia a 
questo da fonte de energia. Qualquer forma de energia armazenada tinha uma 
tendncia para vazar e esgotar-se, mais cedo ou mais tarde. Era um dos aspectos 
de uma lei universal, a segunda lei da termodinmica.
        Pelorat estava atrs dele.
        -  Golan?
        -  Sim?
        -  Achei um livro que deve ser interessante...
         - Sobre que assunto?
        -  Acho que  sobre a histria dos vos espaciais.
        -  Perfeito... mas no nos adiantar de nada se eu no conseguir fazer esta 
leitora funcionar.
        -  Podemos levar o livro para a nave.
        -  Certamente no serviria na leitora de bordo.
        -  Isso tudo  mesmo necessrio, Golan? Se ns...
        -  Sim,  necessrio, Janov. No me interrompa. Estou tentando decidir o 
que fazer. Posso tentar alimentar esta leitora com eletricidade. Talvez seja tudo o 
que ela precisa para funcionar.
        -  Onde vai arranjar a eletricidade?
        -  Vejamos...
        Trevize sacou as duas armas, examinou-as por um momento e depois 
guardou o desintegrador de volta no coldre. Abriu o compartilhamento de carga do 
chicote neurnico e estudou o marcador de nvel. Estava no mximo.
        Trevize deitou-se no cho, arrastou-se para trs da leitora (continuava 
achando que o aparelho s podia ser uma leitora) e tentou empurr-la para a frente. 
O mvel se deslocou um pouco e Trevize procurou interpretar o que estava vendo. 
Um daqueles cabos tinha que ser o cabo de alimentao. Ah, s podia ser o que saa 
da parede. No havia nenhuma tomada. (Como se faz para compreender os 
artefatos de uma cultura aliengena quando os componentes mais prosaicos no 
funcionam da forma esperada?) Puxou o cabo de leve e depois com mais fora. Nada 
aconteceu. Apertou a parede nas proximidades do cabo e depois torceu o cabo perto 
da parede. Nada. Voltou a ateno para o lugar em que o cabo entrava na parte 
traseira da leitora, mas tambm no descobriu nada de til.
        Apoiou-se no cho com uma das mos para levantar-se e quando se ps de 
p viu que o cabo estava frouxo. No tinha idia do que havia feito para solt-lo.
O cabo no parecia partido. A extremidade era lisa e no lugar da parede de onde ele 
havia sado no tinha ficado nenhuma marca. Pelorat disse, em voz baixa:
        -  Golan; posso...
        Trevize silenciou-o com um gesto.
        -  Agora no, Janov. Por favor!
        De repente, percebeu que a luva da mo esquerda estava manchada de 
verde. Devia haver um pouco de musgo atrs da leitora. A luva parecia um pouco 
mida, mas secou enquanto o rapaz olhava para ela e a mancha mudou de cor; 
tornou-se castanha.
        Trevize examinou de perto a ponta do cabo e descobriu que havia dois 
orifcios.
        Sentou-se no cho e abriu o compartimento de carga do chicote neurnico. 
        Soltou um dos fios de ligao e introduziu-o em um dos furos. Quando 
tentou arranc-lo de novo, viu que estava preso, como se houvesse algum tipo de 
retentor dentro do cabo. Soltou o outro fio e introduziu-o no outro furo. Era possvel 
que o que havia feito fosse suficiente para alimentar o aparelho com energia 
eltrica.
        -  Janov - disse -, voc est acostumado a lidar com todos os tipos de 
mquinas de leitura. Veja se descobre como se coloca esse livro na leitora.
        -  Voc acha mesmo que  pre...
        -  Por favor, Janov, no faa perguntas desnecessrias. Temos que andar 
depressa. Se ficar quente demais l fora, seremos obrigados a passar a noite aqui.
        -  O livro deve entrar aqui - disse Janov -, mas...
        -  timo - disse Trevize. - Se  uma histria dos vos espaciais, deve 
comear com a Terra, pois foi na Terra que os vos espaciais foram inventados. 
Vamos ver se essa coisa est funcionando.
        Pelorat, um pouco de m vontade, introduziu o livro no receptculo e 
comeou a examinar as inscries que havia ao lado dos controles, tentando 
descobrir como funcionavam.
        Enquanto esperava, Trevize comeou a falar, em parte para aliviar a tenso 
que estava sentindo.
        - Acho que tambm deve haver robs neste mundo... e muito bem 
conservados, graas  atmosfera rarefeita. O problema  que a fonte de alimentao 
deve ter se esgotado h muito tempo. Mesmo que consegussemos energizar de novo 
os robs, em que estado estar o crebro deles? Alavancas e engrenagens podem 
durar milhares de anos, mas os microcircuitos e outros componentes de um crebro 
artificial devem ser muito mais delicados. Provavelmente esto totalmente 
estragados. Mesmo que alguns ainda funcionem, talvez no saibam muita coisa a 
respeito da Terra. Por que os fabricantes...
        -  A leitora est funcionando, Golan. Observe.
        A tela da leitora comeou a brilhar  fracamente na semi-obscuridade. Trevize 
aumentou um pouco a potncia do chicote neurnico e o brilho ficou mais forte. 
Como no havia muito ar para espalhar a luz, os objetos que no estavam 
iluminados diretamente pelo sol ficavam no escuro, o que tornava mais fcil 
observar a tela. Mesmo assim, a imagem era indistinta.
        -  Est tudo fora de foco - queixou-se Trevize.
        -  Eu sei - disse Pelorat-, mas isso  o melhor que consegui. Acho que foi 
o livro que se deteriorou.
        As sombras iam e vinham na tela. De vez em quando, era possvel entrever 
algumas palavras escritas. A imagem ficou ntida por um momento e depois saiu 
novamente de foco.
        -  Volte um pouco, Janov - disse Trevize.
Pelorat j estava mexendo nos controles. Voltou um pouco atrs e conseguiu 
encontrar uma pgina legvel.
        Trevize tentou ler o que estava escrito mas teve que desistir,
frustrado.
        -  E voc, consegue entender, Janov? - perguntou.
        -  Mais ou menos - respondeu Janov, olhando para a tela com os olhos 
semicerrados. -  a respeito de Aurora. Disso eu tenho certeza. Acho que fala da 
primeira expedio hiperespacial... pelo menos, menciona "os pioneiros no 
espao"...
        Virou a pgina e a imagem ficou novamente fora de foco. Afinal,
disse:
        -  Todos os trechos que consegui ler tratavam dos planetas dos Espaciais, 
Golan. Nem uma palavra a respeito da Terra.
        - Nem uma palavra - repetiu Trevize, em tom irritado. - Todas as 
informaes a respeito da Terra devem ter sido apagadas. Como em Trantor. 
Desligue essa coisa.
        - Golan, isso no tem importncia, porque... - comeou Pelorat, desligando 
a mquina.
        - Porque podemos procurar em outras bibliotecas? Tambm no vamos 
encontrar nada. Eles fizeram um servio bem feito. Voc sabe que...
Enquanto falava, Trevize tinha olhado para Pelorat, e agora sua expresso era uma 
mistura de medo e repugnncia.
        -  Que foi que houve com o visor do seu capacete? - perguntou.


67.

INSTINTIVAMENTE, Pelorat passou a mo enluvada no visor e depois olhou para ela.
        - O que  isso? - exclamou, intrigado. Quando levantou os olhos, 
acrescentou, em tom preocupado: - Tambm h alguma coisa estranha com o seu 
visor, Golan.
        Trevize olhou em volta,  procura de um espelho. No encontrou nenhum e 
mesmo que encontrasse teria precisado de mais luz. Murmurou:
        -  Venha para a luz, depressa, Pelorat.
        Puxou o companheiro para um lugar iluminado pelos raios de sol que 
entravam pela janela mais prxima. Podia sentir o calor do sol nas costas, apesar 
do efeito isolante do traje espacial.
        -  Olhe para o sol, Janov, e feche os olhos.
        Logo percebeu o que havia de errado com o visor. No ponto em que o vidro se 
encontrava com o tecido metalizado do traje, havia uma grossa camada de musgo, 
que formava uma espcie de moldura. Trevize sabia que o seu capacete devia estar 
com o mesmo aspecto.
        Passou o dedo no capacete de Pelorat e o musgo se desprendeu, manchando 
de verde o dedo da luva. Diante dos olhos do rapaz, o musgo, banhado pelos raios 
do sol, pareceu tornar-se mais seco e mais duro, at mudar de cor, assumindo uma 
tonalidade castanha. Esfregou com fora as bordas do visor de Pelorat, procurando 
arrancar todos os vestgios do musgo.
        - Faa a mesma coisa comigo, Janov - pediu. Algum tempo depois, disse:
        -  Meu capacete est limpo? timo. O seu tambm... Vamos embora. Acho 
que no h mais nada para fazer aqui.
        Fazia um calor desagradvel na cidade abandonada. O sol se refletia nas 
construes de pedra clara, fazendo doer a vista. Trevize caminhava com os olhos 
semicerrados, escolhendo, sempre que possvel, o lado da sombra. Parou um 
instante para examinar uma fenda que havia na fachada de um dos edifcios, uma 
fenda da largura do seu dedo mnimo enluvado. Introduziu o dedo mnimo na 
fenda, murmurou "musgo" e saiu da sombra para examinar o dedo  luz do sol.
        -  O que limita o crescimento desse fungo  a quantidade de dixido de 
carbono no ambiente - explicou. - Ele se desenvolve de preferncia nas pedras 
calcrias em decomposio. Ns somos uma boa fonte de dixido de carbono, talvez 
uma fonte mais rica que qualquer outra neste planeta quase morto. Provavelmente, 
um pouquinho de gs vaza pela junta do visor.
        -  Por isso  ali que o musgo se instala.
        -  Exatamente.
        A caminhada de volta at a nave pareceu muito mais longa e, naturalmente, 
sentiram muito mais calor que na caminhada que haviam feito ao amanhecer. 
Quando chegaram  nave, porm, verificaram que ainda estava na sombra; pelo 
menos nisso os clculos de Trevize tinham sido corretos.
        -  Veja! - exclamou Pelorat.
        Trevize olhou. As bordas da escotilha estavam cobertas de musgo.
        -  Outro vazamento? - sugeriu Pelorat.
        -  Isso mesmo. Uma quantidade insignificante, tenho certeza, mas esse 
musgo parece ser melhor indicador de traos de dixido de carbono do que 
qualquer outra coisa que eu conheo. Os esporos devem estar em toda parte e 
assim que encontram umas poucas molculas de gs carbnico, comeam a se 
dividir.
        Ajustou o transmissor de rdio para o comprimento de onda da nave e 
chamou:
        -  Bliss! Est me ouvindo?
        A moa respondeu imediatamente.
        - Estou! Prontos para entrar? Alguma novidade?
        - Estamos prontos para entrar - disse Trevize -, mas no abra a escotilha. 
Vamos abri-la daqui de fora. Repito: no abra a escotilha.
        - Por que no?
        - Bliss, faa o que estou pedindo, est bem? Depois eu explico. Trevize 
sacou o desintegrador, ajustou-o para intensidade mnima e depois ficou olhando 
para a arma, indeciso. Nunca tinha usado o desintegrador em intensidade mnima. 
Olhou em torno. No havia nada suficientemente frgil para um teste adequado.
        Afinal, na falta de idia melhor, apontou-o para a encosta rochosa em cuja 
sombra estava o Estrela Distante. O alvo no ficou incandescente. Apalpou o lugar 
onde havia atirado. Estava quente? O isolamento trmico do traje espacial tornava 
impossvel qualquer concluso definitiva.
        Hesitou de novo, mas pensou que o casco da nave teria que ser pelo menos 
to resistente quanto a encosta. Voltou o desintegrador para a borda da escotilha e 
apertou o gatilho, prendendo a respirao.
        Instantaneamente, uma faixa de musgo de alguns centmetros de 
comprimento mudou de cor, tornando-se castanha. O rapaz agitou a mo nas 
proximidades da escotilha e a leve brisa resultante foi suficiente para fazer com que 
os restos escurecidos do musgo se transformassem em uma nuvem de p.
        -  Deu certo? - perguntou Pelorat, em tom ansioso.
        -  Deu certo - respondeu Trevize. - Transformei o desintegrador em um 
raio de limpeza.
        Com um movimento circular, fez o calor percorrer toda a borda da escotilha. 
O efeito foi imediato. Todo o verde desapareceu. Trevize deu uma pancada na 
escotilha e uma poeira castanha se desprendeu, uma poeira to fina que ficou 
flutuando no ar.
        -  Acho que agora podemos entrar - disse Trevize.
        Usando o rdio de pulso, transmitiu o cdigo que ligava o mecanismo de 
abertura da escotilha. Quando a escotilha ainda estava aberta pela metade, disse 
para o companheiro:
        -  No fique a parado, Janov. Entre logo. No espere a escada descer. Suba!
Trevize subiu atrs e banhou novamente a borda da escotilha com o calor da arma. 
Fez o mesmo com a escada depois que ela desceu. Transmitiu ento o sinal para 
fechar a escotilha e continuou usando o desintegrador at que ela se fechasse 
totalmente.
        - J entramos, Bliss - disse para a moa. - Vamos ficar aqui alguns 
minutos. Continue sem fazer nada!
        -  Voc est bem? - perguntou Bliss. - E Pel?
        -  Estou aqui, Bliss - disse Pelorat. - Est tudo bem. No se preocupe.
        -  No vou me preocupar, Pel, mas vocs me devem uma explicao.
        - Est prometido - disse Trevize, acendendo a luz da cmara de 
descompresso.
        Os dois amigos olharam um para o outro. Trevize disse:
        - Estamos bombeando para fora o mximo possvel de ar do planeta, de 
modo que  melhor ter um pouco de pacincia.
        -  E o ar da nave? No vai deix-lo entrar?
        -  Ainda no. Estou to ansioso quanto voc para me ver livre deste traje, 
Janov. S quero ter certeza de que estamos livres de todos os esporos que entraram 
junto conosco na cmara.
        Trevize apontou a arma para a juno entre a escotilha interna e o casco da
nave e aplicou o calor metodicamente ao longo do cho, subindo pela parede, dando 
a volta pelo teto e descendo do outro lado.
        -  Agora voc, Janov.
        Pelorat agitou-se nervosamente e Trevize disse:
        - Voc pode sentir um pouco de calor, mas no deve passar disso. Se 
comear a incomod-lo,  s dizer.
        Fez o raio invisvel banhar o visor, concentrando-se principalmente nas 
bordas. Depois, foi a vez do resto do traje.
        - Levante os braos, Janov - murmurou. Depois: - Apie-se no meu 
ombro e levante um p. Preciso limpar as solas. Agora o outro. Est muito quente?
        - O suficiente para me fazer suar, Golan.
        - Ento deixe-me provar meu prprio remdio. Segure a arma.
        - Nunca usei um desintegrador na minha vida.
        - Pois desta vez  preciso, Segure firme e, com o polegar, comprima esse 
pequeno boto. Depois, aperte o gatilho e mantenha-o apertado. Certo. Aponte para 
o meu visor. Mantenha o raio em movimento, Janov, no o deixe parado muito 
tempo no mesmo lugar. Agora limpe o resto do capacete, e depois o pescoo e o 
peito.
        Continuou a orientar o amigo at que todo o seu corpo tivesse sido 
submetido ao raio de calor. A essa altura, estava transpirando abundantemente. 
Apanhou a arma de volta e examinou o marcador de energia.
        - J usamos mais da metade da carga - disse, apontando o desintegrador 
para uma das paredes da cmara de descompresso.
        Apertou o gatilho e varreu a parede de ponta a ponta. Depois, fez o mesmo 
com as outras paredes, o teto e o piso. Repetiu a manobra at a que arma estivesse 
totalmente descarregada. Quando terminou, o prprio desintegrador tinha 
esquentado visivelmente, por passar tanto tempo ligado. Ele guardou a arma no 
coldre.
        S ento foi que Trevize transmitiu o sinal de cdigo que fazia abrir a 
escotilha interna. Ouviu com satisfao o rudo do ar entrando na cmara. As 
correntes de conveco esfriariam o traje espacial muito mais depressa que se ele 
tivesse que perder calor apenas por radiao. Podia ser impresso, mas 
imediatamente sentiu-se melhor.
        -  Tire o seu traje, Janov, e deixe-o aqui na cmara - disse para o amigo.
        -  Se no se importa, a primeira coisa que vou querer vazer  um banho -
disse Pelorat.
        - No senhor. Antes disso, antes mesmo de esvaziar a bexiga, voc vai ter
que falar com Bliss.
        Bliss estava  espera deles, naturalmente, com uma expresso preocupada 
no rosto. Ao lado dela, de olhos arregalados, segurando com fora no seu brao 
esquerdo, estava Fallom.
        - O que aconteceu? - perguntou Bliss, muito sria. - O que  que vocs 
estavam fazendo?
        - Tentando evitar que a nave seja contaminada - explicou Trevize. - 
Vamos ter que ligar a luz ultravioleta. Traga os culos escuros, por favor.
        Depois que a iluminao ultravioleta foi ligada, Trevize comeou a tirar as 
peas de roupa, uma por uma, e a sacudi-las diante da luz.
        -  apenas precauo. Faa o mesmo, Janov. Bliss, vou ter que ficar 
totalmente despido. Se isso vai deixar voc constrangida, pode esperar no seu 
quarto.
        - No vou ficar constrangida - disse Bliss. - Tenho uma boa idia de como 
 a sua anatomia. Tenho certeza de que no vou ver nada de novo... Contaminada 
com o qu?
        - Com uma espcie que, em determinadas condies, poderia ser 
extremamente perigosa para a humanidade - disse Trevize, com uma indiferena 
forada.


68.

ESTAVA FEITO. A luz ultravioleta havia cumprido seu papel. Oficialmente, de acordo 
com o manual que Trevize havia encontrado a bordo do Estrela Distante quando 
embarcara em Terminus, as lmpadas estavam ali justamente para fins de 
descontaminao. O rapaz suspeitava, entretanto, de que muitos se sentiam 
tentados a us-la para conseguir um belo bronzeado antes de desembarcar nos 
planetas em que a pele morena estava na moda.
        A nave decolou e Trevize a levou para perto do sol do sistema, manobrando-a 
de tal forma que todo o casco fosse exposto aos  raios ultravioleta.
        Depois, recolheram os dois trajes espaciais que haviam sido deixados na 
cmara de descompresso e Trevize os examinou at se convencer de que estavam 
livres de qualquer contaminao.
        Por fim, Bliss observou:
        -  Todo esse trabalho por causa do musgo... foi isso o que voc disse que 
era, no foi, Trevize? Musgo?
        -  Estou chamando de musgo porque  isso que parece - disse Trevize. - 
Mas pouco entendo de botnica. Tudo o que sei  que  verde e precisa de muito 
pouca luz para viver.
        -  Como sabe disso?
        - O musgo  sensvel ao ultravioleta e no sobrevive a uma iluminao 
direta. Os esporos esto em toda parte, mas o musgo s se desenvolve em cantos 
escuros, em fendas na pedra, na parte de baixo das lajes, alimentando-se de 
dixido de carbono e aproveitando a energia de ftons de luz que chegam a ele por 
via indireta.
        - Voc disse que os considera perigosos - observou Bliss.
        - E com muita razo. Se tivssemos trazido alguns esporos presos na roupa, 
ou se eles entrassem com uma corrente de ar, encontrariam aqui dentro um 
suprimento inesgotvel de luz, umidade e gs carbnico.
        - O dixido de carbono constitui apenas 0, 03% da nossa atmosfera - disse 
Bliss.
        - Para eles, pode ser mais que suficiente. Alm disso, a concentrao de gs 
carbnico no ar que expiramos  muito maior, cerca de 4%. E se o musgo crescesse 
nas nossas narinas, na nossa pele? E se decompusesse e inutilizasse nossa 
comida? E se produzisse toxinas mortais? Mesmo que consegussemos matar o 
musgo, se restassem alguns esporos, poderiam contaminar outros mundos que 
visitssemos. Quem sabe o mal que poderiam causar?
        Bliss sacudiu a cabea.
        -  A vida no  necessariamente perigosa s porque  diferente. Em caso de 
dvida, voc no hesita em matar...
        -  Gaia que est falando - disse Trevize.
        - Claro que , mas espero que mesmo assim voc me escute. O musgo se 
adaptou s condies locais.  por isso que utiliza a luz em pequenas quantidades, 
mas no resiste  iluminao direta;  capaz de sobreviver com traos de dixido de 
carbono, mas pode ser que uma quantidade maior do mesmo gs seja mortal para 
ele. Para mim, talvez Melpomenia seja o nico planeta da Galxia em que esse 
musgo  capaz de sobreviver.
        -  Voc teria preferido que eu corresse o risco? - perguntou Trevize, em tom 
desafiador.
        Bliss deu de ombros.
        -  Est bem. No precisa ficar aborrecido. Entendo o que quer dizer. Como 
Isolado que , provavelmente no tinha escolha a no ser fazer o que fez.
        Trevize abriu a boca para responder, mas foi interrompido pela voz aguda de 
Fallom, falando sua prpria lngua.
        -  O que  que ela est dizendo? - perguntou Trevize para Pelorat.
        Pelorat comeou:
        -  Est dizendo que...
        Nesse momento, porm, Fallom aparentemente se deu conta de que o nico 
que entendia sua lngua natal era Pelorat e comeou de novo, desta vez em 
galctico:
        - Jemby estava no lugar onde vocs estiveram? Bliss sorriu e disse, em tom 
orgulhoso:
        - Ela no est falando galctico que  uma gracinha? E em to pouco 
tempo...
        Trevize falou em voz baixa:
        - Tente explicar a ela, Bliss, que no encontramos nenhum rob no planeta.
        - Deixe que eu explico - disse Pelorat. - Venha, Fallom. - Colocou o brao 
no ombro da criana. - Vamos at o quarto que eu arranjo outro livro para voc 
ler.
        -  Um livro? Sobre Jemby?
        -  No exatamente...
        A porta se fechou atrs dos dois.
        -  Sabe de uma coisa? - disse Trevize, olhando de mau humor para a porta 
fechada. - Estamos perdendo tempo bancando as babs dessa criana.
        -  Perdendo tempo? De que forma isso interfere com a sua busca do planeta 
Terra, Trevize? De nenhuma forma. Por outro lado, essa criana precisa de amor, de
carinho, de dedicao. Voc no compreende?
        -   Gaia que est falando de novo.
        -  Vamos ser prticos, ento, Trevize. Visitamos trs planetas dos Espaciais 
e no conseguimos nada de til.
        -   verdade.
        - Na realidade, em cada um deles tivemos que enfrentar um perigo 
diferente, no  mesmo? Em Aurora, eram cachorros selvagens; em Solaria, homens 
estranhos e perigosos; em Melpomenia, um musgo ameaador. Ao que parece, 
portanto, quando um mundo, habitado ou no por seres humanos, fica entregue  
prpria sorte, acaba por tornar-se perigoso para a comunidade interestelar.
        -  Voc no deve generalizar.
        -  Por que no? Trs em trs me parece uma amostra bastante expressiva.
        -  E quais as conseqncias disso, Bliss?
        - Vou lhe contar. Preste ateno. Se voc tem milhes de mundos 
interagindo na Galxia, como acontece na prtica, e se cada um desses mundos  
habitado exclusivamente por Isolados, como sabemos que  verdade, ento, nesses 
mundos, os seres humanos so a espcie dominante e podem impor sua vontade s 
espcies vivas no-humanas, aos seres inanimados e at mesmo a outros seres 
humanos. A Galxia , portanto, um organismo bastante desorganizado e primitivo. 
No funciona direito como unidade. Entende o que quero dizer?
        - Entendo o que est tentando dizer... mas isso no significa que irei 
concordar com voc quando terminar.
        -  Limite-se a escutar. Concorde ou no, como quiser, mas escute. A Galxia 
na realidade no passa de uma proto Galxia Viva, e quanto menos proto e mais 
Galxia Viva, melhor. O Imprio Galctico era um passo no sentido da unificao da 
Galxia; quando ele caiu, seguiu-se um perodo de crise. A Confederao da 
Fundao foi uma nova tentativa. O mesmo se pode dizer do Imprio do Mulo. 
Assim tambm o Imprio que a Segunda Fundao est planejando. Entretanto, 
mesmo que no houvesse imprios nem confederaes; mesmo que todos os 
mundos estivessem em permanente conflito, pelo menos estariam interagindo, 
ainda que de modo hostil. De alguma forma, ainda estariam unidos e portanto no 
seria o pior caso de todos.
        - Qual  ento o pior de todos os casos?
        - Voc sabe qual , Trevize. Voc viu o resultado. Se um mundo habitado 
por seres humanos rompe as ligaes com o resto da Galxia, se deixa de interagir 
com os outros mundos habitados, acaba por se tornar uma fora... maligna.
        - Um cncer, ento?
        - Exatamente. No  isso que  Solaria? Para os solarianos, todos os outros 
mundos so inimigos. No prprio planeta, os indivduos no se toleram 
mutuamente. Voc viu as conseqncias. Por outro lado, se os seres humanos 
abandonam um planeta, com eles desaparecem os ltimos vestgios de disciplina. A 
disputa se torna irracional, como no caso dos cachorros, ou  substituda por uma 
fora elementar, como aconteceu com o musgo. A concluso s pode ser uma: 
quanto mais prxima est da Galxia Viva, melhor  a sociedade. Ento por que 
parar no meio do caminho?
        Trevize ficou em silncio por alguns momentos, olhando para Bliss. Depois, 
disse:
        - Estou tentando ver as coisas do seu ponto de vista. O que no entendo  
por que voc parece pensar que se um pouquinho de uma coisa  bom, muito deve 
ser melhor ainda e uma grande quantidade deve ser maravilhoso... No foi voc 
mesma que observou que  possvel que o musgo esteja acostumado a uma 
pequena concentrao de dixido de carbono e que uma concentrao maior talvez 
possa at mat-lo? Um homem de dois metros de altura est mais bem equipado 
que um de metro, mas tambm leva vantagem em relao a um homem com trs 
metros de altura. Se aumentarmos um rato at que ele fique do tamanho de um 
elefante, ele no sobreviver muito tempo. O mesmo acontecer se reduzirmos um 
elefante ao tamanho de um rato.
        "Existe um tamanho natural, uma complexidade natural, uma medida ideal 
para tudo, desde um tomo at uma estrela; isto certamente se aplica a seres vivos 
e a sociedades humanas". No digo que o velho Imprio Galctico tenha sido 
perfeito, e posso ver muitos defeitos na Confederao da Fundao, mas no estou 
preparado para afirmar que, se o Isolamento total  mau, a Unificao total tem que 
ser boa. Os dois extremos podem ser igualmente indesejveis e um Imprio 
Galctico no estilo antigo, ainda que imperfeito, pode constituir afinal a melhor 
soluo.
        Bliss sacudiu a cabea.
        -  Est sofismando, Trevize. Daqui a pouco, vai dizer que um vrus e um ser 
humano so igualmente insatisfatrios e propor uma soluo intermediria... como 
uma colnia de fungos.
        - Isso no, mas posso dizer que um vrus e um super-homem so 
igualmente insatisfatrios e propor uma soluo intermediria... como uma pessoa 
comum. A verdade, porm,  que essa discusso  intil. Terei a resposta quando 
encontrar a Terra. Em Melpomenia, conseguimos as coordenadas de 47 outros 
planetas dos Espaciais.
        -  Pretende visitar todos?
        -  Se for necessrio.
        -  Enfrentando os perigos de cada um?
        -  Se for preciso para encontrar a Terra.
        Pelorat tinha entrado na sala e parecia prestes a dizer alguma coisa quando 
foi surpreendido pela rpida troca de palavras entre Bliss e Trevize. Ficou olhando 
de um para outro enquanto discutiam.
        - Quanto tempo vai levar? - perguntou Bliss.
        - O tempo que for necessrio - respondeu Trevize. - Pode ser que eu 
encontre o que estou procurando no prximo planeta que visitarmos.
        - Ou no encontre em nenhum.
        - Isso no podemos saber de antemo. Finalmente, Pelorat conseguiu uma 
brecha para falar.
        - Para que tanto trabalho, Golan? J temos a resposta. Trevize levantou a 
mo para silenciar o amigo, interrompeu o gesto no meio, olhou para Pelorat e 
exclamou, com os olhos arregalados:
        -  O qu?
        -  J temos a resposta, Golan. Tentei contar-lhe pelo menos uma dzia de 
vezes, mas voc estava to ocupado que...
        -  De que resposta est falando? Quer explicar?
        -  A respeito da localizao da Terra. Acho que j sei onde fica a Terra.










PARTE 6
 

ALFA


Captulo 16

O Centro dos Mundos





69.

TREVIZE ficou olhando muito tempo para Pelorat, com uma expresso de desagrado 
no rosto. Afinal, disse:
        -  Foi alguma coisa que voc viu e eu no vi, e que no me contou?
        -  No - respondeu Pelorat, timidamente. - Voc tambm viu e, como 
acabo de dizer, tentei explicar, - mas no quis me ouvir.
        -  Ento tente de novo, ora!
        -  No fale desse jeito com ele, Trevize! - protestou Bliss.
        -  Acho que mereo uma explicao. E pare de trat-lo como se fosse um 
beb!
        -  Por favor - pediu Pelorat -, parem de discutir e me escutem. Voc se 
lembra, Golan, de que discutimos as tentativas anteriores de descobrir a origem da 
espcie humana? O projeto de Yariff? Voc sabe, registrar as datas em que os vrios 
planetas foram colonizados, na suposio de que os planetas mais prximos do 
mundo de origem seriam colonizados em primeiro lugar...
Trevize fez que sim com a cabea.
        -  Pelo que eu me lembro, o mtodo no funcionou porque as datas de 
colonizao no eram confiveis.
        -  Isso mesmo, meu velho amigo. Acontece que os mundos que Yariff usou 
faziam parte da segunda onda de expanso da raa humana. quela altura, as 
viagens hiperespaciais j estavam bastante desenvolvidas, o que tornou o padro 
muito mais complexo. Percorrer grandes distncias j no era problema e portanto 
a colonizao no prosseguiu em simetria radial. Isso complicou o problema a ponto 
de tornar a soluo extremamente problemtica.
        "Pense, porm, nos planetas dos Espaciais". Eles faziam parte da primeira 
onda de colonizao. Viajar pelo hiperespao naquela poca ainda era bastante 
arriscado, de modo que ningum se aventurava percorrer distncias maiores que o 
absolutamente necessrio. Enquanto milhes de mundos foram colonizados, 
provavelmente de forma catica, durante a segunda expanso, apenas cinqenta 
foram colonizados provavelmente de forma sistemtica, durante a primeira. 
Enquanto os milhes de mundos da segunda expanso foram colonizados durante 
um perodo de vinte mil anos, os cinqenta da primeira expanso foram colonizados 
durante um perodo de uns poucos sculos... quase instantaneamente, em 
comparao. Esses cinqenta devem estar dispostos em simetria quase radial em 
relao ao mundo de origem.
        "Temos as coordenadas dos cinqenta mundos". Voc as fotografou na 
parede daquele palcio. Seja quem for que esteja eliminando as informaes a 
respeito da Terra, deve ter se esquecido daquelas coordenadas ou pensado que 
seramos incapazes de extrair delas as informaes de que precisamos. Tudo o que 
voc tem a fazer, Golan,  corrigir as coordenadas para levar em conta os ltimos 
vinte mil anos de movimentos estelares e depois determinar o centro da esfera. Voc 
acabar muito perto do sol da Terra, ou pelo menos do lugar onde ele estava h 
vinte mil anos atrs.
        Enquanto Pelorat falava, o queixo de Trevize caa devagar. Ele levou alguns 
momentos para fechar a boca depois que o outro terminou.
        -  Por que no pensei nisso? - disse, afinal.
        - Tentei conversar com voc a respeito enquanto ainda estvamos em 
Melpomenia.
        -  Claro. Me desculpe, Janov, por no prestar ateno em voc. A verdade  
que no pensei que tivesse...
        Interrompeu o que estava dizendo, sem saber como completar a frase.
        Pelorat riu baixinho.
        -  ... no pensou que eu tivesse alguma coisa importante para dizer. Em 
outras circunstncias, provavelmente estaria certo, mas isso era alguma coisa 
dentro da minha especialidade. Acredito que, na maioria dos casos, voc teria toda 
a razo em no prestar ateno em mim.
        -  De maneira alguma! - protestou Trevize. - Isso no  verdade, Janov.
Agi como um tolo. Aceite de novo minhas desculpas... e agora preciso consultar o
computador.
        Ele e Pelorat foram para a sala de comando e Pelorat, como sempre, observou 
com uma combinao de admirao e incredulidade enquanto as mos de Trevize 
se fundiam com as "mos" do computador de se tornava o que era quase um 
organismo hbrido homem/mquina.
        -  Vou ter que fazer certas hipteses, Janov - disse Trevize. - Terei que 
supor que a primeira coordenada  a distncia em parsecs que as outras duas so 
ngulos em radianos, a primeira indicando a declinao e a segunda o azimute. Vou 
supor ainda que no caso dos ngulos o uso dos sinais positivo e negativo obedece  
mesma conveno que em Terminus e que as coordenadas zero, zero, zero 
correspondem ao sol de Melpomenia.
        -  Parece razovel - observou Pelorat.
        -   mesmo? Existem seis maneiras possveis de dispor os nmeros, quatro 
maneiras possveis de escolher os sinais, as distncias podem ser em anos-luz em 
vez de parsecs e os ngulos em graus, em vez de radianos. S a temos 96 
possibilidades distintas. Acrescente o fato de que se as distncias forem em anos-
luz, fica difcil saber exatamente qual a durao do ano. Isso sem falar de que no 
sabemos qual a conveno usada para medir os ngulos... as declinaes devem ser 
em relao ao equador de Melpomenia, mas qual o meridiano de origem para os 
azimutes?
        Pelorat franziu a testa.
        - Do jeito que voc fala, est comeando a parecer quase impossvel.
        - Nem tanto. Aurora e Solaria fazem parte da lista e conheo a posio deles 
no espao. Vou entrar com as coordenadas no computador e ver se consigo localiz-
los. Se no der certo, mudarei as suposies iniciais e tentarei de novo. S 
comearei a procurar o centro da esfera quando tiver certeza de que estou 
interpretando corretamente as coordenadas.
        - Mesmo assim, as possibilidades so tantas que voc pode levar anos 
tentando...
        - O qu? - perguntou Trevize, ocupado com o computador. Quando Pelorat 
repetiu o comentrio, ele disse:
        - Janov, o mais provvel  que todas as convenes sejam iguais s que 
aprendemos na escola. Nesse caso, no ser difcil descobrir qual  o meridiano de 
origem. Os sistemas para indicar pontos no espao so muito antigos; a maioria dos 
astrnomos acredita que tenham sido inventados antes da primeira viagem 
interestelar. Os seres humanos so extremamente conservadores para algumas 
coisas e as convenes numricas so uma delas. Em certos casos, chegam mesmo 
a ser confundidas com leis naturais. Pensando bem,  natural que seja assim. Se 
cada mundo adotasse um sistema diferente, que mudasse a cada cem anos, o 
progresso cientfico se tornaria praticamente impossvel. Estava trabalhando no 
computador enquanto falava, de modo que as palavras saam aos arrancos. 
Completada a explicao, murmurou:
        -  Agora fique quieto, Janov.
        Depois disso, concentrou-se totalmente na tarefa de programar o computador
at que, depois de alguns minutos, recostou-se na cadeira e deu um longo suspiro.
        -  As convenes so as que eu esperava. Acabei de localizar Aurora. Est 
vendo?
        Pelorat olhou para a tela, que mostrava um grupo de estrelas, com uma 
estrela mais brilhante quase no centro.
        -  Tem certeza?
        -  Minha opinio no importa - disse Trevize. - O computador tem certeza. 
Afinal, estivemos em Aurora. Conhecemos todas as caractersticas da estrela do 
sistema: dimetro, massa, luminosidade, temperatura, classe espectral, para no 
falar na configurao das estrelas vizinhas. O computador diz que  Aurora.
        -  Ento acho que devemos aceitar sua palavra.
        -  Eu tambm acho. Deixe-me ajustar a tela e o computador far o resto 
sozinho. Ele vai mostrar a posio das cinqenta estrelas, uma de cada vez.
        Enquanto falava, Trevize fornecia as instrues ao computador para 
representar as estrelas em um mapa tridimensional. Nos clculos, o computador 
usava as quatro dimenses do espao-tempo, mas raramente era programado para 
mostrar na tela mais que duas dimenses. No momento, porm, a tela havia sido 
transformada em um volume escuro, que alm de altura e largura tambm tinha
profundidade. Trevize reduziu bastante a iluminao da sala, para aumentar a
visibilidade da tela.
        -  Vai comear agora - sussurrou.
        Pouco depois, apareceu uma estrela, logo seguida por outra e uma terceira. A 
cada nova estrela, o volume de espao representado na tela era ampliado para que 
nenhuma ficasse de fora. Era como se a vista se tornasse cada vez mais distante.
        Finalmente, havia na tela cinqenta pontos luminosos, que pareciam flutuar 
no espao tridimensional.
        Trevize disse:                                                                
        - Eu teria apreciado encontrar uma bela distribuio esfrica, mas isto 
parece mais uma bola de neve feita por algum que estava com muita pressa e que 
alm disso usou neve muito dura e empedrada.
        -  Ento a tentativa no deu certo?
        -  Eu no seria to pessimista. Afinal, uma certa irregularidade  natural. 
As estrelas no esto distribudas uniformemente no espao e muito menos os 
planetas habitveis. O computador vai colocar cada um desses pontos em sua 
posio atual, estimando o deslocamento que sofreu nos ltimos vinte mil anos... 
para uma estrela, vinte mil anos  pouca coisa; a correo no deve fazer muita 
diferena... e depois vai calcular a "melhor esfera". Em outras palavras: vai 
descobrir qual a superfcie esfrica para a qual a distncia a todos os cinqenta 
pontos  mnima. A Terra deve estar prxima do centro dessa esfera. Pelo menos,  
o que esperamos... No vai demorar.


70.

NO DEMOROU NADA. O prprio Trevize, que estava acostumado com os milagres 
do computador, ficou surpreso com a rapidez com que ele chegou a um resultado.
        Trevize tinha instrudo o computador para tocar uma nota musical quando 
encontrasse as coordenadas do centro da melhor esfera. No havia nenhuma razo 
para isso, a no ser a satisfao de ouvir o som e saber que talvez a busca estivesse 
finalmente terminada.
        O computador no levou mais que alguns minutos para avisar que havia 
encontrado uma soluo. Foi como o soar de um gongo melodioso. O som 
aumentou de volume at ser possvel sentir a vibrao na pele e depois desapareceu 
lentamente.
        Bliss apareceu imediatamente na porta da sala de controle.
        - O que foi que houve? - perguntou, com os olhos arregalados. - Uma 
emergncia?
        - Nada disso - disse Trevize. Pelorat acrescentou, excitado:
        - Talvez a gente tenha localizado a Terra, Bliss. O som que ouviu foi o sinal 
de que o computador tinha acabado de fazer os clculos.
        A moa entrou na sala.
        - Vocs podiam ter me avisado.
        - Desculpe, Bliss - disse Trevize. - Esqueci-me de regular o volume.
        Fallom havia seguido Bliss e perguntou:
        - Que barulho foi aquele, Bliss?
        - Estou vendo que ela tambm ficou curiosa - disse Trevize. Recostou-se na
cadeira, sentindo-se esgotado. O passo seguinte seria usar o telescpio para
verificar se nas coordenadas do ponto central dos planetas dos Espaciais havia
realmente uma estrela do tipo G. Mais uma vez, relutava em prosseguir, temeroso
de que a soluo encontrada pelo computador no correspondesse  realidade dos 
fatos.
        -  verdade - disse Bliss. - E por que no?  to humana quanto ns.
        - O pai dela no pensava assim - disse Trevize, distraidamente. - Essa 
criana me preocupa. Ainda vai nos trazer encrenca.
        - De onde tirou essa idia? - perguntou Bliss, em tom defensivo, Trevize 
deu de ombros.
        -   apenas um palpite.
        Bliss olhou para ele com desprezo e voltou-se para Fallom.
        - Estamos tentando encontrar a Terra, Fallom.
        - O que  a Terra?
        - A Terra  outro mundo, mas um mundo muito especial.  o mundo de 
onde vieram os nossos antepassados. Sabe o que significa "antepassado", Fallom?
        -  No quer dizer ?
        A ltima palavra no era em galctico. Pelorat explicou:
        -  O que ela disse foi uma palavra arcaica que significa "antepassado".
        -  Muito bem - disse Bliss, com um sorriso. - A Terra  o planeta de onde 
vieram os nossos antepassados, Fallom. Os seus, os meus, os de Pel e os de Trevize.
        - Os seus, Bliss... e os meus tambm? - Fallom parecia intrigada. - Os 
dois?
        - S existe um conjunto de antepassados - explicou Bliss. - Ns todos 
tivemos os mesmos antepassados.
        - Tenho a impresso de que a criana percebe muito bem que  diferente de 
ns - disse Trevize.
        - No diga isso! - protestou Bliss, em voz baixa. - Quero que ela se sinta 
igual a ns. Pelo menos, no essencial.
        -  No considera o hermafroditismo essencial?
        -  Estou falando no plano mental.
        -  Os lobos transdutores tambm so essenciais.
        -  No seja implicante, Trevize. Ela  um ser humano inteligente, e pronto!
        Voltou-se para Fallom e disse em voz alta:
        -  Pense nisso, Fallom. Eu e voc temos os mesmos ancestrais. Todas as 
pessoas de todos os mundos... muitos, muitos mundos... todas tm os mesmos 
ancestrais, que viviam em um planeta chamado Terra. Isso quer dizer que somos 
parentes, no  mesmo? Agora volte para o quarto e pense nisso.
        Fallom olhou pensativamente para Trevize, fez meia-volta e saiu correndo, 
depois de receber um tapinha afetuoso de Bliss no traseiro. A moa disse para 
Trevize:
        - Quero que me prometa que no vai fazer nenhum comentrio na frente da 
menina que a faa pensar que  diferente de ns.
        - Prometo. No tenho nenhuma inteno de desmoraliz-la diante da 
menina. Acontece, Bliss, que ela  diferente de ns.
        -Apenas superficialmente. Como eu sou diferente de voc, como Pel  
diferente de voc.
        -  No se faa de ingnua, Bliss. No caso de Fallom, as diferenas so muito 
maiores.
        - Um pouquinho maiores. As semelhanas so muito mais importantes. Um 
dia, ela e seu povo sero parte da Galxia Viva, e uma parte muito til, tenho 
certeza.
        - Est bem. No vamos discutir. - Trevize voltou-se para o computador, 
com visvel relutncia. - Enquanto isso, sou obrigado a verificar a suposta posio 
na Terra no espao real.
        - Obrigado?
        -  J pensou se no encontrarmos nenhuma estrela no lugar indicado?
        -  No ser o fim do mundo.
        - Pensando bem, no h nenhuma vantagem em fazer isso agora. S 
poderemos executar o Salto daqui a alguns dias.
        - E voc passar esses dias sofrendo sem necessidade. Descubra logo. 
Esperar no vai resolver nada.
        Trevize pensou um pouco e depois disse:
        - Voc tem razo. Vamos em frente!
        Colocou as mos sobre as "mos" do computador e a tela ficou escura.
        -   melhor eu esperar l fora - disse Bliss. - Minha presena vai deixar 
voc nervoso.
        A moa saiu da sala, com um aceno de despedida.
        - Na verdade - murmurou Trevize -, primeiro vamos usar o mapa da 
Galxia que est na memria do computador. Mesmo que a Terra esteja na posio 
calculada, ela no deve estar no mapa. Em seguida, porm, ns vamos...
        A tela ficou coalhada de estrelas e Trevize interrompeu o que estava dizendo 
com uma expresso de surpresa no rosto. Quase todas tinham um brilho bastante 
modesto, com uma ou outra mais brilhante se destacando aqui e ali, distribudas 
de maneira mais ou menos uniforme na tela do computador. Quase no centro da 
tela, porm, havia uma estrela que era a mais brilhante de todas.
        - Encontramos! - exclamou Pelorat, radiante. - S pode ser ela, meu velho 
amigo. Veja como  brilhante!
        - Qualquer estrela perto do centro da tela pareceria mais brilhante que as 
outras - argumentou Trevize, prevenindo-se contra uma possvel decepo. - 
Afinal, o computador est mostrando a vista que teramos se estivssemos a uma 
distncia de um parsec do centro da esfera. Mesmo assim, est claro que aquela 
estrela no  nem uma anal branca, nem uma gigante vermelha, nem uma gigante 
azul. Espere um momento... o computador est consultando o banco de dados.
        Trevize ficou em silncio por alguns segundos e depois disse:
        - Classe espectral G-2. - Outra pausa e depois: - Dimetro 1, 4 milhes 
de quilmetros... massa: 1,02 vezes a do sol de Terminus... temperatura da 
superfcie: 6.000 graus absolutos... perodo de rotao: pouco menos de trinta 
dias... nenhum sinal de atividade incomum.
        - No  uma estrela do tipo que possui planetas habitveis? perguntou 
Pelorat.
        - , sim - concordou Trevize. - E o sol da Terra teria que se assim, j que 
foi nesse sistema que surgiu a vida.
        - Ento  provvel que encontremos um planeta habitvel, no .
        - No h necessidade de especularmos - disse Trevize, que ainda parecia 
intrigado com a presena da estrela. - No mapa da Galxia consta que esta estrela 
possui um planeta habitado por seres humanos... mas h um ponto de interrogao 
ao lado da informao.
        O entusiasmo de Pelorat aumentou.
        -  exatamente o que eu esperava, Golan. A Terra est a, mas algum 
tentou camufl-la.  por isso que a pessoa que fez o mapa no tem certeza.
        - No, Janov,  por isso que estou intrigado. Isso no  o que eu esperava. 
Esperava muito mais. Considerando a eficincia com que os vestgios da existncia 
da Terra foram apagados, a pessoa que fez o mapa no deveria conhecer nem a 
existncia deste sistema, quanto mais a existncia de vida humana no sistema. Os 
mundos dos Espaciais no esto no mapa. Por que a Terra estaria?                 
        - O que importa  que ela est. De que adianta discutir por qu? Que mais o 
computador sabe a respeito da estrela?
        - O nome.
        -  Ah! Qual ?
        -  Alfa.
        Depois de uma pequena pausa, Pelorat exclamou, triunfante:
        -   isso, meu velho amigo! A ltima prova que faltava! Pense no significado 
do nome!
        - O nome significa alguma coisa? Para mim,  apenas um nome, e estranho, 
por sinal. No parece galctico...
        - E no  galctico.  uma palavra da lngua que era falada na Terra, a 
mesma que nos deu Gaia como nome do planeta de Bliss.
        - Ento o que quer dizer "alfa"?
        - Alfa  a primeira letra do alfabeto daquela lngua antiga.  uma das 
poucas coisas que sabemos com certeza. Alm disso, "alfa" era tambm usado como 
nmero ordinal, para significar "primeiro". Assim, se uma estrela  chamada de 
"Alfa",  porque  a primeira. E a primeira estrela no teria que ser aquela em torno 
da qual gira o primeiro planeta em que a vida humana se desenvolveu...        a Terra?
        - Tem certeza do que est dizendo?
        -  Absoluta.
        -  Existe alguma coisa nas lendas antigas... afinal, o mitologista  voc... 
que atribua ao sol da Terra alguma caracterstica incomum? 
        - No, claro que no! O sol da Terra tem que ser, por definio, uma estrela 
comum. O que, alis, est de acordo com as caractersticas que o computador nos 
forneceu, no ?
        - O sol da Terra  uma estrela isolada?
        - Naturalmente! - exclamou Pelorat. - Pelo que sei, todo os planetas 
habitados giram em torno de estrelas isoladas.
        - Eu j desconfiava disso - disse Trevize. - O problema  me a estrela que 
estamos vendo no centro da tela  uma binria. A mais brilhante do par  realmente 
uma estrela comum; os dados que o computador nos forneceu se aplicam a ela. 
Entretanto, girando em torno dessa estrela, com um perodo de aproximadamente 
oitenta anos, existe outra, com uma massa um pouco menor: quatro quintos da 
massa da estrela mais brilhante. Com a ampliao atual, no podemos ver as duas 
estrelas como pontos distintos, mas o computador nos diz que elas esto l.
        -  Tem certeza, Golan? - perguntou Pelorat, desanimado. - O computador 
no poderia se enganar. E se o que estamos vendo  uma estrela binria, ento no 
 o sol da Terra. No pode ser.


71.

TREVIZE interrompeu o contato com o computador e fez as luzes da sala voltarem ao
normal.
        Aparentemente, era o que Bliss estava esperando para entrar, seguida de 
perto por Fallom.
        - Ento, o que foi que voc descobriu? - perguntou a moa.
        - Nada de muito animador. No lugar onde esperava encontrar a Terra, o que 
havia era uma estrela binria. Como sabemos que o sol da Terra  uma estrela 
isolada, estamos de volta ao ponto de partida.
        -  E agora, Golan? -perguntou Pelorat. Trevize deu de ombros.
        - Na verdade, no tinha grandes esperanas de encontrar a Terra na 
primeira tentativa. Nem mesmo os Espaciais colonizariam os planetas vizinhos de 
forma perfeitamente simtrica. Aurora, o mais antigo dos planetas dos Espaciais, 
pode ter servido como um centro secundrio de colonizao, o que deformaria a 
esfera. Alm do mais, o sol da Terra pode no ter se deslocado nos ltimos vinte mil 
anos da mesma forma que os mundos dos Espaciais.
        - Ento a Terra pode estar em qualquer lugar.  isso o que voc est 
dizendo?
        -  No, Janov. Em qualquer lugar, no. Todas essas fontes de erro somadas 
no devem produzir uma grande diferena. O sol da Terra deve estar nas 
proximidades da posio calculada.  curioso que exista um vizinho com 
caractersticas to parecidas com as que esperamos do sol da Terra (exceto, 
naturalmente, pelo fato de ser uma estrela binria), mas deve ser mera 
coincidncia.
        -  Nesse caso, no veramos a Terra no mapa? Perto de Alfa, quero dizer?
        -  No senhor. Tenho certeza de que o sol da Terra no consta do mapa. Foi 
isso que me fez desconfiar de Alfa logo que a encontramos. Por mais que se 
parecesse com o sol da Terra, o simples fato de estar no mapa me fez suspeitar de 
que estvamos na pista errada.
        - Ento  muito fcil descobrir a verdade - disse Bliss. - Por que no 
observa a mesma regio do espao com o telescpio? Se houver uma estrela perto 
de Alfa, uma estrela muito parecida com Alfa, mas que no conste do mapa do 
computador nem seja binria, no poder ser o sol da Terra? Trevize suspirou.
        -  Se encontrar uma estrela como a que acaba de descrever, serei capaz de 
apostar metade do que tenho em que haver um planeta habitvel girando em torno 
da estrela e que esse planeta ser a Terra... Acontece que ainda no tive coragem de 
experimentar.
        -  Porque est com medo de no encontrar nada? Trevize assentiu.
        -  Entretanto - disse -, d-me um minuto ou dois para recuperar o flego 
e me forarei a agir.
        Enquanto os trs adultos se entreolhavam, Fallom aproximou-se do 
computador e ficou olhando, curiosa, para as marcas de mos que havia no tampo 
da mesa. Estendeu a mo para uma das marcas e Trevize bloqueou o movimento, 
segurando o brao da menina e dizendo:
        - No toque nisso, Fallom.
        A criana olhou para Trevize, assustada, e foi aninhar-se nos braos de Bliss.
Pelorat disse:
        - Temos que encarar os fatos, Golan. O que acontece se no encontrarmos 
nada no espao real?
        - Teremos que voltar ao nosso plano anterior - disse Trevize. - Seremos 
obrigados a visitar os 47 planetas dos Espaciais, um por um.
        -  E se mesmo assim no conseguirmos nada?
        Trevize sacudiu a cabea, como que para impedir que aquela idia se 
instalasse na sua mente. Olhando para a ponta dos ps, disse, simplesmente:
        - Ento vou ter que pensar em outra coisa.
        - E se o mundo dos antepassados no existir? A voz aguda deixou Trevize 
sobressaltado.
        - Quem foi que disse isso? - perguntou.
        Era uma pergunta desnecessria. Passado o primeiro momento de surpresa,
o rapaz sabia muito bem quem era o autor do comentrio.
        -  Fui eu - disse Fallom.
        Trevize olhou para ela e franziu a testa.
        - Voc sabe do que estamos falando?          
        - Esto procurando o mundo dos antepassados, mas ainda no o 
encontraram - disse Fallom. - Talvez esse mundo no exista.
        - No acredito nisso, Fallom - disse Trevize. - Sabemos que algum est 
fazendo tudo o que pode para esconder o mundo dos antepassados. Isso quer dizer
que existe alguma coisa importante para ser escondida. Voc est me entendendo?
        - Estou - disse Fallom. - Voc no me deixou tocar nas mos que esto 
desenhadas na mesa. Isso quer dizer que se eu tocasse nelas aconteceria alguma 
coisa importante.
        - Fallom, voc est ficando impossvel!... Bliss, voc criou um monstro que 
ainda nos vai destruir a todos. No deixe mais a menina entrar nesta sala a menos 
que eu esteja presente. Entendido?
        O pequeno aparte pareceu ter arrancado Trevize de sua indeciso. Ele disse:
        -  melhor eu voltar ao trabalho. Se ficar aqui parado, esse monstrinho vai 
acabar tomando conta da nave.
        As luzes ficaram mais fracas e Bliss disse, em voz baixa:
        - Voc prometeu, Trevize. Seja educado com a criana.
        - Ento tome conta dela e ensine-lhe boas maneiras. Diga-lhe que as 
crianas so para serem vistas raramente e jamais ouvidas.
        Bliss fez uma careta.
        -  Sua atitude em relao s crianas  simplesmente revoltante, Trevize.
        -  Talvez, mas no  hora de discutirmos o assunto. Foi ento que disse, 
com um misto de alvio e satisfao:
        -  Ali est Alfa no espao real... e  esquerda, ligeiramente para cima, uma 
estrela quase to brilhante e que no consta do mapa do computador. S pode ser o 
sol da Terra. Aposto todo o meu dinheiro nisso.


72.

- ACONTECE - disse Bliss - que no vamos aceitar o seu dinheiro se voc perder. 
Sendo assim, por que no esclarecemos logo o assunto? Vamos visitar a estrela 
assim que voc puder dar o Salto.
        Trevize sacudiu a cabea.
        - No. Agora no se trata de medo ou indeciso. Temos que ser prudentes.
Por trs vezes visitamos um mundo desconhecido e por trs vezes tivemos que 
enfrentar um perigo imprevisto. Mais que isso: por trs vezes tivemos que fugir s 
pressas. Desta vez, no estou disposto a correr riscos desnecessrios. At o 
momento, tudo o que temos a respeito da Terra so histrias vagas sobre 
radioatividade, o que no nos ajuda muito. Acontece que, por uma estranha 
coincidncia, existe um planeta habitado a pouco mais de um parsec da Terra...
        - No sabemos se o planeta que gira em torno de Alfa  habitado -interveio 
Pelorat. - Voc disse que na memria do computador este dado estava 
acompanhado por um ponto de interrogao.
        - Mesmo assim, vale a pena tentarmos - disse Trevize. - Por que no 
damos uma olhada primeiro em Alfa? Se encontrarmos seres humanos, tentaremos 
descobrir o que sabem a respeito da Terra. Para eles, afinal, a Terra no  apenas
uma lenda distante;  um planeta vizinho.
        - No  m idia - disse Bliss. - Acaba de me ocorrer que se Alfa for 
habitado e se os habitantes forem amistosos, talvez a gente consiga uma comida 
decente para variar.
        - Alm de fazer novos conhecimentos - disse Trevize. - Isso tambm  
importante. Concorda com o plano, Janov?
        -  A deciso  sua, meu velho amigo. Para onde for, eu irei.
        -  Vamos encontrar Jemby? - perguntou Fallom, abruptamente.
        -  Vamos procurar por ele, Fallom - disse Bliss depressa, antes que Trevize 
tivesse tempo de abrir a boca.
        -  Ento est decidido - disse Trevize. - Vamos para Alfa.



73.

- DUAS ESTRELAS grandes - disse Fallom, apontando para a tela.
        -   isso mesmo - disse Trevize. - Duas estrelas... Bliss, fique de olho 
nela. No quero que mexa em nada.
        -  As mquinas a fascinam - disse Bliss.
        -  Pode ser, mas a fascinao dela no me fascina - disse Trevize -, 
embora, para falar a verdade, esteja to fascinado como ela por ver duas estrelas 
to brilhantes na tela ao mesmo tempo.
        As duas estrelas eram to brilhantes que faltava pouco para aparecerem 
como discos na tela do telescpio. A intensidade da imagem tinha sido 
automaticamente reduzida, de modo que poucas estrelas eram visveis; as duas 
componentes do sistema binrio reinavam em altiva
solido.
        - A questo  que nunca estive to perto de uma estrela binria - disse 
Trevize.
        - Verdade? - exclamou Pelorat, surpreso. - Como isso  possvel?
        Trevize riu.
        -  Tenho dado minhas voltinhas, Janov, mas no sou o vagabundo espacial 
que voc pensa que eu sou.
        -  Nunca tinha estado no espao antes de conhecer voc, Golan mas sempre 
pensei que as pessoas acostumadas a viajar...
        -  Conheciam de tudo. Eu sei.  natural. O problema com que nunca saiu 
do seu planeta natal  que, por mais que tente, jamais conseguir imaginar o 
verdadeiro tamanho da Galxia. Poderamos passar a vida viajando e no 
conseguiramos visitar mais que uma parte insignificante da Galxia. Alm disso, 
ningum se interessa por binria
        -  Por que no? - perguntou Bliss, curiosa. - Ns gaianos no entendemos 
tanto de astronomia quanto os Isolados, mas tinha a impresso de que as binrias
eram relativamente comuns...
        - E so mesmo - disse Trevize. - Existem mais estrelas binrias na 
Galxia do que estrelas isoladas. Acontece, porm, que a existncia de um sistema 
binrio perturba o processo de formao dos planetas. As binrias dispem de 
menos material para que os planeta se condensem. Os planetas que chegam a se
formar possuem rbita extremamente excntricas e raramente so habitveis.
        "Acredito que os primeiros exploradores tenham estudado as binrias de 
perto". Depois de um certo tempo, porm, chegaram  concluso de que as estrelas 
isoladas eram muito mais promissoras e termos da probabilidade de encontrarem 
planetas colonizveis. Naturalmente, depois que a Galxia foi povoada, 
praticamente todas as viagens passaram a ter finalidade comercial ou turstica e 
portanto passaram a ser executadas apenas entre planetas habitados, que via de 
regra orbitavam estrelas isoladas. Suponho que uma vez ou outra um mundo mais
belicoso se dispunha a montar uma base militar em um planeta de uma estrela
binria que por acaso estava em uma posio estratgica, mas com o advento das
viagens hiperespaciais essas bases se tornaram desnecessrias.
        -  incrvel a quantidade de coisas que eu no sei - observou Pelorat, com
humildade.
        Trevize limitou-se a sorrir.
        -  No fique to impressionado, Janov. Quando servi na Marinha, tive que 
assistir a um nmero interminvel de aulas a respeito de tticas militares 
ultrapassadas que nunca tinham sido usadas na prtica e que s eram ensinadas 
por fora do hbito. Estava apenas recitando de cor o que ouvi... Pense em tudo o 
que sabe a respeito de mitologia, folclore e lnguas antigas, coisas que eu no 
conheo, que todos ignoram, a no ser uns poucos estudiosos como voc.
        Bliss objetou:
        - Acontece que essas duas estrelas formam um sistema binrio e mesmo 
assim uma delas possui um planeta habitvel.
        - Esperamos que possua, Bliss - disse Trevize. - Toda regra tem excees. 
No nosso caso, a exceo vem acompanhada por um ponto de interrogao, o que a 
torna ainda mais intrigante... No, Fallom, esses botes no so para brincar... 
Bliss, acho melhor tir-la daqui.
        - Ela no vai quebrar nada - disse Bliss, em tom defensivo, mas mesmo 
assim puxando a menina para longe do computador. - Se est to interessado 
naquele planeta habitvel, por que no pousamos ainda?
        - Em primeiro lugar - disse Trevize -, no  sempre que tenho a 
oportunidade de observar de perto um sistema binrio. Em segundo lugar, estou 
sendo cauteloso para variar. Como j disse, se existe uma lio que podemos extrair 
de nossas visitas anteriores,  a de que devemos ser extremamente cautelosos.
        -  Qual das duas estrelas  Alfa? - perguntou Pelorat.
        -  No se preocupe, Janov, que no vamos nos perder. O computador sabe 
exatamente qual delas  Alfa e, para dizer a verdade, eu tambm sei.  a mais 
quente e a mais amarela das duas, porque tambm  a maior. Repare que a estrela 
da direita  levemente alaranjada, como o sol de Aurora, se  que voc se lembra. 
Est vendo?
        -  Sim, agora que voc chamou minha ateno.
        - Muito bem. Essa  a menor... Qual  a segunda letra daquele antigo 
alfabeto?
        Pelorat pensou por um momento e depois respondeu:
        -  Beta.
        - Ento vamos chamar a estrela menor de Beta e a maior de Alfa. No 
momento, estamos rumando para Alfa.
































Captulo 17

A Nova Terra





74.

- QUATRO PLANETAS - murmurou Trevize. - Todos pequenos, mais um cinturo de 
asterides. Nenhum gigante gasoso.
        -  Est desapontado? - perguntou Pelorat.
        -  No. J esperava isso. Quando a distncia entre duas estrelas binrias  
pequena, no pode haver planetas em rbita de apenas uma delas. Um planeta 
pode girar em torno do centro de gravidade do sistema, mas  muito pouco provvel 
que possa ser habitado, pois estar longe demais dos dois sis.
        "Por outro lado, se as binrias estiverem razoavelmente afastadas, poder 
haver planetas girando em torno de cada uma, contanto que estejam 
suficientemente prximos da estrela em questo". Essas duas estrelas, de acordo 
com os dados do computador, tm uma separao mdia de 3, 5 bilhes de 
quilmetros e, mesmo no periastro, ou ponto de mxima aproximao, esto a cerca 
de 1, 7 bilho de quilmetros de distncia uma da outra. Para ter uma rbita 
estvel, um planeta teria que estar a menos de duzentos milhes de quilmetros de 
uma delas. Isso significa que no pode haver gigantes gasosos, j que planetas 
desse tipo s se formam a distncias bem maiores. E da? Os gigantes gasosos no 
so habitveis...
        -  Sim, mas um dos quatro planetas pode ser habitvel, no pode?
        -  Na verdade, o nico candidato real  o segundo planeta. Para comear,  
o nico suficientemente grande para ter atmosfera.
        Aproximaram-se do segundo planeta e durante dois dias sua imagem 
aumentou constantemente na tela do telescpio, devagar a princpio, mas, depois, 
quando no houve sinal de nenhuma nave decolando para intercept-los, com uma 
rapidez quase assustadora.
        O Estrela Distante estava se movendo suavemente em uma rbita temporria 
mil quilmetros acima da camada de nuvens quando Trevize observou, de mau 
humor:
        - Estou vendo por que o computador colocou um ponto de interrogao 
depois da informao de que o planeta era habitado. No h nenhum sinal de 
radiao, seja de luz artificial no hemisfrio onde agora  noite, seja de ondas de 
rdio nos dois hemisfrios.
        -  A camada de nuvens parece bastante espessa - observou Pelorat.
        -  No o suficiente para ocultar a radiao.
        Ficaram observando o planeta abaixo deles, uma sinfonia de nuvens 
brancas, que de vez em quando, atravs de uma brecha ocasional, deixavam 
entrever uma mancha azul que s podia significar gua.
        Trevize disse:
        - Esse planeta deve ter um clima muito deprimente, com o cu sempre 
nublado... O que no entendo - acrescentou, enquanto entravam mais uma vez no 
lado escuro -  que no h nenhuma estao espacial para nos receber.
        -  Do jeito que fizeram em Comporellon? - perguntou Pelorat.
        -  Do jeito que fazem em todos os planetas habitados. Teramos que mostrar 
nossos papis, explicar o motivo da visita, etc, etc.
        - Talvez, por alguma razo, no tenhamos captado as transmisses deles.
        - Nosso computador teria detectado transmisses em qualquer comprimento 
de onda. Alm disso, estamos enviando nossos prprios sinais e at agora no 
tivemos resposta. Mergulhar abaixo da camada de nuvens sem autorizao das 
autoridades locais constitui grave violao do protocolo espacial, mas no vejo 
alternativa.
        O Estrela Distante diminuiu a velocidade e, ao mesmo tempo, para manter a 
altitude, reforou o campo antigravitacional. Voltou ao lado iluminado do planeta e 
diminuiu ainda mais a velocidade. Trevize, auxiliado pelo computador, descobriu 
uma abertura nas nuvens. A nave mergulhou e passou pela abertura. Abaixo deles, 
o oceano se estendia a perder de vista, o azul profundo quebrado apenas por finas 
linhas de espuma.
        Saram do trecho iluminado pelo sol. Imediatamente, a cor da gua mudou 
para cinza e a temperatura do ar caiu apreciavelmente. Fallom, que estava olhando 
com interesse pela vigia, falou por alguns momentos em sua lngua natal, rica em 
consoantes, e depois mudou para galctico. A voz era trmula.
        - O que  que estou vendo l embaixo?
        -  um oceano - disse Bliss, carinhosamente. - Uma grande quantidade 
de gua.
        - Por que no seca?
        Bliss olhou para Trevize, que explicou:
        - Porque  tanta gua que no d para secar.
         Fallom disse, em tom choroso:
        -  No quero toda aquela gua. Vamos embora!
        A criana deu um grito agudo quando o Estrela Distante penetrou em uma 
massa de nuvens de tempestade e a vigia ficou quase opaca, de cor leitosa, riscada 
pelas marcas das gotas de chuva.
        As luzes da sala de comando piscaram e a nave sofreu um pequeno 
solavanco.
        Trevize olhou para a criana, surpreso, e gritou:
        - Bliss, os lobos transdutores de Fallom j esto funcionando. Ela est 
usando a energia eltrica para tentar manipular os controles. Faa-a parar!
        Bliss abraou a criana.
        -  Est tudo bem, Fallom, tudo bem. No tenha medo.  apenas um outro 
mundo.
        Fallom pareceu menos assustada, mas continuou a tremer. Bliss disse para 
Trevize:
        -  A criana nunca viu um oceano e talvez no saiba o que  chuva nem 
neblina. Voc no pode ser mais gentil?
        -  No se ela fica mexendo com os controles da nave. Est colocando todos 
ns em perigo. Leve-a para o seu quarto e trate de acalm-la!
        Bliss assentiu secamente.
        - Vou com voc - disse Pelorat.
        - No, Pel - protestou Bliss. - Fique aqui. Eu acalmo Fallom e voc acalma 
Trevize.
        A moa saiu da sala.
        - No preciso ser acalmado! - vociferou Trevize. - No devia ter falado 
daquele jeito com Bliss, mas no posso deixar a criana brincar com os controles, 
posso?
        - Claro que no, mas Bliss foi pega de surpresa. Ela pode controlar Fallom, 
que est se comportando muitssimo bem para uma criana que foi tirada de casa, 
separada do seu... do seu rob e forada a participar de uma viagem que est alm 
da sua compreenso.
        -  Eu sei. Eu no queria traz-la conosco, lembra-se? A idia foi de Bliss.
        -  A criana teria morrido, se a deixssemos l.
        -  Est bem, mais tarde vou pedir desculpas a Bliss. E  criana tambm.
        Mas ele ainda estava de cara amarrada e Pelorat perguntou:
        -  Golan, meu velho amigo, h mais alguma coisa incomodando voc?
        -  O oceano - respondeu Trevize.
        Tinham sado h muito tempo das nuvens de tempestade, mas o cu 
continuava nublado.
        -  Que h de errado com o oceano?
        -   grande demais, Janov.
        Pelorat no pareceu haver compreendido e Trevize explicou:
        - Faltam os continentes. At agora, no vimos nenhum. A atmosfera  
perfeitamente normal, com oxignio e nitrognio em propores decentes, de modo 
que o planeta deve ter sido adaptado; alm disso, deve haver pelo menos vida 
vegetal para manter a concentrao de oxignio. Atmosferas como essa no ocorrem 
naturalmente... a no ser, talvez, na Terra, onde tudo comeou, no se sabe como. 
Acontece que nos planetas adaptados existe sempre uma proporo razovel de 
terra firme, entre um quinto e um tero da superfcie total. Onde est essa terra?
        -  Talvez, por fazer parte de um sistema binrio, este no seja um planeta 
tpico - sugeriu Pelorat. - Quem sabe se a atmosfera surgiu naturalmente, uma 
atmosfera que nunca se formaria sem a interveno humana nos planetas que 
giram em torno de estrelas isoladas? Quem sabe se aqui a vida surgiu 
espontaneamente, como na Terra, mas est restrita a espcies aquticas?
        -  Se isso for verdade - disse Trevize - ento estamos perdendo tempo. No 
mar, o progresso tecnolgico  impossvel. A tecnologia sempre se baseia no fogo, e 
o fogo e a gua so incompatveis. Um planeta habitado por seres primitivos no 
nos interessa.
        - Compreendo o seu ponto de vista, mas estou apenas procurando 
raciocinar em voz alta. Afinal de contas, pelo que sabemos, o progresso tecnolgico 
s ocorreu em um planeta... na Terra. Os Espaciais levaram essa tecnologia para os 
outros planetas. Voc no pode dizer que a tecnologia  "sempre" alguma coisa se 
dispe de apenas um exemplo.
        -  Para se deslocar na gua, o corpo tem que ter uma forma aerodinmica. 
Os animais marinhos no possuem apndices que possam ser usados para 
manipular objetos, como as nossas mos.
        -  Os polvos tm tentculos.
        -  Se est pensando em alguma coisa como polvos inteligentes, que, alm de 
surgirem espontaneamente neste planeta, ainda desenvolveram uma tecnologia 
independente do fogo, ento, na minha opinio, est propondo uma situao 
extremamente improvvel.
        - Na sua opinio - disse Pelorat, sem se perturbar. De repente, Trevize deu 
uma gargalhada.
        -  Muito bem, Janov. Voc est mexendo comigo para se vingar por eu ter 
falado de mau modo com Bliss, e tenho que confessar que est fazendo um bom 
trabalho. Prometo que se no encontrarmos nenhum continente vamos examinar os 
oceanos para ver se encontramos os seus polvos civilizados.
        Enquanto falava, a nave entrou de novo na sombra do planeta e a vigia ficou 
negra. Pelorat estremeceu.
        -  Estava pensando... acha que  seguro? - perguntou.
        -  O que que  seguro, Janov?
        - Correr no escuro desse jeito. Podemos perder altitude e mergulhar no 
oceano. Nossa nave ficaria em pedaos!
        - Isso no pode acontecer, Janov. Juro! O computador nos mantm em uma 
linha de fora gravitacional. A nave permanece em uma posio tal que a 
intensidade da fora de atrao do planeta  sempre a mesma, o que equivale a 
dizer que nossa altitude em relao ao nvel do mar  praticamente constante.
        - Qual  essa altitude?
        - Cerca de cinco quilmetros.
        - Isso no me tranqiliza nem um pouco, Golan. No podemos chegar a um 
continente e bater de frente em uma montanha que no estamos vendo?
        -  Ns no estamos vendo, mas o radar da nave se encarregar de detectar a 
montanha e informar ao computador, que ento far o resto.
        - E se o continente for plano? No escuro, poderemos passar por ele sem 
saber.
        -  No, Janov,  impossvel. A gua e a terra no refletem da mesma forma 
as ondas de radar. A gua  lisa; a terra  irregular. O computador  capaz de 
perceber a diferena e me avisar imediatamente se houver terra  vista. Mesmo 
que fosse dia e o tempo no estivesse nublado, provavelmente o computador 
detectaria a terra antes de mim. Horas depois, estavam de volta ao lado iluminado 
do planeta. Abaixo deles, o oceano ainda se estendia interminavelmente em todas 
as direes, a no ser quando passavam por dentro de uma das numerosas nuvens 
de tempestade e a visibilidade se tornava nula por alguns instantes. Em uma 
dessas ocasies, o vento fez com que o Estrela Distante mudasse de rumo. O 
computador havia alterado o curso, explicou Trevize, para evitar um consumo 
exagerado de energia e minimizar os riscos de acidente. Depois que a turbulncia 
passou, a nave voltou ao curso anterior.
        - Provavelmente passamos perto de um furaco - disse Trevize.
        - Escute aqui, meu velho amigo - disse Pelorat. - Tenho a impresso de 
que estamos viajando de oeste para leste... ou de leste para oeste. Nesse caso, tudo 
o que estamos examinando  a regio prxima do equador.
        -  Isto seria uma tolice, no seria? Na verdade, Janov, estamos viajando na 
direo noroeste-sudeste, ao longo de um crculo mximo. Isso nos faz passar pelos 
trpicos e pelas duas zonas temperadas. Alm disso, cada vez que completamos a 
rbita, nossa trajetria se desloca para oeste, pois o planeta est girando em torno 
de si mesmo abaixo de ns. Assim, estamos explorando metodicamente a superfcie 
do planeta. No momento, j que ainda no encontramos terra, a probabilidade de 
existir um continente de propores razoveis, de acordo com o computador,  
menor que 1097o; a de existir uma ilha relativamente grande, menor que 25%. 
Naturalmente, essas probabilidades tendem a diminuir a cada rbita.
        - Sabe o que eu teria feito? - disse Pelorat, sem pressa, enquanto eram 
novamente tragados pela sombra do planeta. - Teria permanecido longe do planeta 
e explorado um hemisfrio inteiro usando o radar. As nuvens no atrapalhariam em 
nada, no  verdade?
        - Ento iramos para o outro lado e faramos o mesmo - disse Trevize. - 
Ou esperaramos o planeta dar a volta... Isso  fcil de dizer agora, Janov. Quem 
iria esperar chegar a um planeta habitvel e no parar em uma estao espacial 
para receber uma licena... ou ser barrado? E depois de atravessar a camada de 
nuvens sem parar em nenhuma estao, quem iria prever que no encontraramos
terra logo de sada? Afinal, os planetas habitveis so... terra!
        - No necessariamente - protestou Pelorat.
        - No  disso que estou falando! - exclamou Trevize. - Estou dizendo que 
encontramos terra! Fique quieto!
        Ento, com um autocontrole que no escondia o seu entusiasmo, Trevize 
colocou as mos sobre a mesa e tornou-se parte do computador. Ele disse:
        -   uma ilha com cerca de 250 quilmetros de comprimento por 65 
quilmetros de largura. Deve ter uns quinze mil quilmetros quadrados de 
superfcie. No chega a ser grande, mas  respeitvel. Mais que um pontinho no 
mapa. Espere...
        A luz da sala de comando diminuiu de intensidade at a sala ficar totalmente 
escura.
        - O que est fazendo? - disse Pelorat, falando instintivamente por 
sussurros, como se a escurido fosse uma coisa frgil que no devesse ser 
quebrada.
        -  Esperando que meus olhos se adaptem ao escuro. A nave est parada 
sobre a ilha. Preste ateno. Consegue ver alguma coisa?
        -  No... alguns pontinhos luminosos, talvez. No tenho certeza.
        -  Eu tambm. Vou ligar o telescpio.
        Havia luz! Claramente visvel. Formando manchas irregulares.
        -  A ilha  habitada - disse Trevize. - Talvez seja a nica regio habitada 
do planeta.
        -  Que vamos fazer?
        -  Esperar que amanhea. Assim teremos algumas horas de descanso.
        -  E se eles nos atacarem?
        -  Com qu? No detectei nenhuma radiao, a no ser calor e luz visvel. O 
lugar  habitado e os habitantes so inteligentes. Entretanto, ainda devem estar na 
era pr-eletrnica, de modo que no temos nada a temer. Se estiver enganado, o 
computador nos avisar a tempo.
        -  E depois que amanhecer?
        -  Vamos pousar, naturalmente.


75.

COMEARAM a descer quando os primeiros raios do sol da manh brilharam atravs 
de uma brecha nas nuvens para revelar parte da ilha... coberta de verde, com o 
interior marcado por uma srie de colinas que desaparecia na distncia.
        Quando chegaram mais perto, puderam ver bosques isolados e um ou outro 
pomar, mas a maior parte da ilha era constituda por fazendas bem tratadas. 
Imediatamente abaixo do ponto em que se encontravam, no litoral sudeste da ilha, 
havia uma praia prateada que terminava em uma linha de grandes pedras, alm da 
qual se estendia um imenso gramado. Aqui e ali, podiam ver habitaes, mas elas 
no se agrupavam em nada que se parecesse com uma cidade.
        Chegando ainda mais perto, puderam distinguir uma rede de estradas, ao 
longo das quais se concentravam as casas. Ento, no frio ar da manh, observaram 
ao longe um veculo areo. S podiam garantir que se tratava de um veculo areo, e 
no de um pssaro, pela forma como se movia. Era o primeiro sinal indiscutvel de 
vida inteligente que haviam encontrado no planeta.
        - Pode ser um veculo automtico, se  que  possvel construir um veculo 
automtico sem recorrer  eletrnica - observou Trevize.
        - Pode ser - concordou Bliss. - A mim me parece que se houvesse um ser 
humano nos controles, estaria vindo na nossa direo. Devemos ser um espetculo 
e tanto... uma nave descendo quase na vertical, mas sem usar foguetes para reduzir 
a velocidade.
        - Um espetculo estranho em qualquer planeta - disse Trevize, pensativo. 
        - No foram muitos os mundos que j presenciaram a descida de uma 
espaonave gravtica... A praia seria um timo lugar para pousarmos, mas no 
quero ver a nave toda molhada se houver algum contratempo. Vou descer naquele 
gramado, do outro lado das pedras.
        -  As naves gravticas tm uma vantagem: no deixam a propriedade alheia 
toda queimada quando pousam - disse Pelorat.
        A nave desceu suavemente, apoiando-se nas quatro patas que haviam sado 
do casco durante os ltimos estgios da manobra. O peso fez as patas se 
enterrarem um pouco no cho.
        -  Infelizmente, estou vendo que vamos deixar marcas - disse Pelorat.
        - Pelo menos - disse Bliss, em um tom que no era exatamente de 
aprovao -, estou vendo que o clima  ameno... talvez at quente.
        Havia um ser humano no gramado, observando a descida da nave sem 
demonstrar medo ou surpresa. A expresso no rosto era de interesse.
        A mulher usava trajes bastante sumrios, o que explicava o comentrio de 
Bliss a respeito do clima. As sandlias pareciam ser de lona e havia um pano com 
um motivo floral enrolado nos quadris. Estava nua da cintura para cima.                                
Os cabelos eram negros, compridos e muito brilhantes, descendo quase at a 
cintura. A pele era castanho clara e os olhos, puxados nos cantos.
        Trevize olhou em torno e no viu nenhuma outra criatura viva. Deu de 
ombros e disse:
        -  cedo ainda. Quase toda a populao deve estar dormindo. Mesmo assim,
no diria que se trata de uma regio muito populosa. Voltou-se para os outros e 
disse:
        - Vou sair e conversar com a mulher, se conseguir fazer-me entender. 
Enquanto isso, vocs...
        - Na minha opinio - disse Bliss, com firmeza -, ns todos devemos 
desembarcar. A mulher parece inofensiva e, de qualquer maneira, estou precisando 
esticar as pernas e respirar ar puro, alm de tentar arranjar uma comida decente, 
se for possvel. Fallom deve estar ansiosa para pisar de novo em terra firme. Quanto 
a Pel, acredito que gostaria de examinar aquela mulher mais de perto.
        - Quem? Eu? - perguntou Pelorat, enrubescendo. - Nem pensei nisso, 
Bliss, mas, afinal de contas, eu sou o lingista do nosso pequeno grupo.
        Trevize deu de ombros.
        - Vamos, vamos todos. Mas embora a mulher parea inofensiva, acho 
melhor levar minhas armas.
        -  Duvido que tivesse coragem de us-las naquela jovem - disse Bliss.
        Trevize riu.
        -  Ela  muito bonita, no acha?
        Trevize foi o primeiro a saltar. Depois foi a vez de Bliss, que desceu de mos 
dadas com Fallom. Pelorat foi o ltimo.
        A mulher de cabelos negros continuava a observ-los com interesse. No 
recuou um milmetro de onde estava.
        Trevize murmurou:
        - Vou tentar.
        Abriu os braos e disse:
        -  Saudaes.
        A jovem pensou por um momento e depois disse:
        -  Saudaes para vs e vossos companheiros.
        - Que bom! - exclamou Pelorat, alegremente. - Ela fala galctico clssico, 
e com uma pronncia perfeita!
        - Eu tambm consigo entender o que est dizendo - afirmou Trevize, 
balanando a mo para mostrar que a compreenso era sofrvel. - Espero que ela 
me compreenda.
        Sorriu para a moa e disse, no tom mais amistoso que pde:
        -  Viemos do espao. Somos de outro mundo.
        -  Sede bem-vindos - disse a jovem, com sua voz de soprano. - Vossa nave 
vem do Imprio?
        - Vem de uma estrela distante e seu nome  Estrela Distante.
        A jovem olhou para as letras que estavam pintadas no casco da nave.
        -   verdade o que dizeis? Se  assim, e se a primeira letra  E, ento est 
escrita ao contrrio.
        Trevize abriu a boca para protestar, mas Pelorat interrompeu-o, radiante.
        -  Ela est certa! H dois mil anos atrs, a letra E era escrita ao contrrio. 
        Que oportunidade nica para estudar galctico clssico como uma lngua 
viva!
        Trevize examinou a mulher com os olhos. No podia ter mais que um metro e 
meio de altura e os seios, embora bem formados, eram muito pequenos. Mesmo 
assim, no parecia imatura. Os bicos eram grandes e as arolas escuras, embora 
isso em parte pudesse ser atribudo  pele morena. Ele disse:
        - Meu nome  Golan Trevize; meu amigo se chama Janov Pelorat; a mulher 
 Bliss e a criana  Fallom.
        -  costume, ento, na estrela distante de onde vindes, que os homens 
recebam um nome duplo? Eu sou Hiroko, filha de Hiroko.
        -  E o seu pai? - quis saber Pelorat. Hiroko respondeu, com indiferena:
        -  Seu nome, segundo minha me,  Smool, mas isso no tem importncia. 
No o conheo.
        - Onde esto os outros? - perguntou Trevize. - Voc parece ser a nica 
que est aqui para nos receber.
        - Muitos homens saram de barco para pescar; muitas mulheres esto 
trabalhando nos campos. Fiquei de folga nos ltimos dois dias e tive a felicidade de 
presenciar este grande acontecimento. Meu povo, porm,  curioso e vossa nave 
deve ter sido avistada de longe, enquanto descia. Em breve outros estaro aqui.
        -  Esta ilha tem muitos habitantes?
        -  Mais de 25 mil - disse Hiroko, com orgulho.
        -  Existem outras ilhas no oceano?
        -  Outra ilhas?
        A moa parecia surpresa.
        Trevize compreendeu. Aquela ilha era o nico lugar habitado em todo o 
planeta. Perguntou:                                
        -  Como se chama o seu mundo?
        - O nome  Alfa. Na verdade, aprendemos que o nome correto  Alfa 
Centauri, mas ns o chamamos apenas de Alfa, e, como podeis ver,  um mundo 
deveras airoso.
        - Um mundo o qu? - exclamou Trevize, voltando-se para Pelorat como 
quem pede socorro.
        -  Ela quer dizer um mundo bonito - explicou Pelorat.
        - Isso ele  - disse Trevize -, pelo menos aqui e neste momento. Olhou 
para o cu azul da manh, quase sem nuvens.
        - Hoje est fazendo um belo dia de sol, Hiroko, mas imagino que no haja 
muitos dias assim em Alfa.
        Hiroko fez uma expresso ofendida.
        -  Tantos quantos quisermos. As nuvens podem vir quando precisamos de 
chuva, mas a maior parte das vezes preferimos que faa bom tempo. Certamente 
um cu azul e um mar tranqilo so preferveis quando os homens saem para 
pescar.
        -  Ento vocs so capazes de controlar o tempo?
        -  Se no fssemos, senhor Golan Trevize, choveria todos os dias.
        -  Mas como fazem isso?
        -  No sendo engenheira treinada, no saberia dizer.
        -  Saberia dizer o nome desta ilha onde viveis com o vosso povo? - disse 
Trevize, procurando, com sucesso relativo, imitar a maneirai rebuscada de falar da 
moa (e torcendo para que a concordncia verbal estivesse correta).
        Hiroko respondeu sem pestanejar:
        -  Nossa ilha celestial, no meio do grande oceano,  chamada de Nova Terra. 
Trevize e Pelorat olharam um para o outro, com uma expresso que era um misto 
de jbilo e surpresa.


76.

NO HOUVE tempo para perguntar mais nada. Outros habitantes estavam 
chegando. Dezenas. Devem ser aqueles, pensou Trevize, que no estavam nos 
barcos nem nos campos quando pousamos. Quase todos chegavam a p, mas o 
rapaz pde ver dois veculos terrestres, ambos muito velhos e primitivos.
        No havia dvida de que se tratava de uma sociedade bastante atrasada do 
ponto de vista tecnolgico, mas que ainda assim era capaz de controlar o tempo.
        Era um fato bem conhecido que o progresso tecnolgico nem sempre ocorria 
de maneira uniforme; que o atraso em certos setores no impedia necessariamente 
que ocorressem grandes avanos em outros setores... mesmo assim, aquele exemplo 
de desenvolvimento irregular era bastante incomum.
        Entre os que agora estavam admirando a nave, pelo menos metade era de 
homens e mulheres idosos; havia tambm trs ou quatro crianas. Do resto, havia 
mais mulheres que homens. Nenhum deles demonstrava medo ou insegurana.
        Trevize disse para Bliss, em voz baixa:
        -  Est manipulando os locais? Parecem to... serenos!
        - Nem toquei neles - disse Bliss. - Evito mexer com as mentes dos 
Isolados, a no ser que seja absolutamente necessrio.  com Fallom que estou 
preocupada.
        Para algum que j tivesse sido exposto s multides de curiosos de outros 
planetas da Galxia, os recm-chegados podiam ser poucos; para Fallom, porm, 
que mal se acostumara a conviver com os trs adultos do Estrela Distante, pareciam 
uma turba ameaadora. A criana estava respirando muito depressa, com os olhos 
semicerrados. Parecia prestes a entrar em estado de choque.
        Bliss passou a mo na cabea da criana enquanto murmurava alguma coisa 
em tom suave. Trevize tinha certeza de que a moa estava acompanhando o gesto 
por um rearranjo sutil das ligaes nervosas no crebro de Fallom.
        Fallom respirou fundo e sacudiu-se, no que talvez fosse um tremor 
involuntrio. Levantou a cabea e olhou para os locais com uma expresso quase 
normal; depois, enterrou a cabea no espao entre o brao e o corpo de Bliss.
        A jovem deixou-a permanecer onde estava, enquanto com o brao, passado 
em torno dos ombros de Fallom, a apertava periodicamente, como que para 
manifestar repetidas vezes sua presena protetora. Pelorat olhava de um alfano 
para outro, com uma expresso incrdula no rosto. Disse para Trevize:
        - Golan, eles so to diferentes uns dos outros! Trevize tinha reparado 
naquilo, tambm. Havia vrios tons de pele e de cor de cabelo, incluindo uma ruiva 
de olhos azuis e pele sardenta. Pelo menos trs adultos eram to baixos quanto 
Hiroko e um ou dois eram mais altos que Trevize. Muitos tinham olhos apertados 
como os de Hiroko, e Trevize se lembrou de que esses olhos eram considerados a 
marca registrada dos habitantes do setor de Fili, mas nunca havia visitado aquele 
setor.
        Todos os alfanos estavam nus da cintura para cima e todas as mulheres 
tinham seios pequenos. Era a mais geral de todas as caractersticas fsicas que 
pudera observar at o momento.
        Bliss disse de repente:
        -  Hiroko, esta criana no est acostumada a viajar no espao e teve um 
dia muito cheio. Poderia arranjar um lugar para ela descansar e, se possvel, comer 
e beber alguma coisa?
        Hiroko olhou para moa, intrigada, e Pelorat repetiu o que Bliss havia dito no 
galctico mais elaborado da era imperial.
        Hiroko levou a mo  boca e fez uma reverncia para Bliss.
        -  Mil perdes, senhora - disse. - No pensei nas necessidades da criana, 
nem nas vossas. A novidade da vossa visita me distraiu o pensamento. Seria uma 
honra se a senhora... se todos me acompanhassem at o refeitrio para o desjejum. 
Podemos comer todos juntos. 
        -  muita bondade sua - disse Bliss, falando devagar, na esperana de que 
assim se fizesse compreender melhor. - Seria prefervel, porm, que apenas voc 
nos acompanhasse.  por causa da criana... ela no est acostumada a ficar com 
muita gente ao mesmo tempo.
        -  Ser como dissestes - prometeu Hiroko.
        A jovem os conduziu, sem muita pressa, ao longo de um caminho que 
cortava o gramado. Outros alfanos se aproximaram. Pareciam particularmente 
interessados no vesturio dos recm-chegados. Trevize tirou o bluso e passou-o 
para um homem que estava caminhando a seu lado e tinha colocado o dedo no 
bluso, como se quisesse saber de que era feito.
        - Tome - disse. - Pode examin-lo  vontade, mas no se esquea de 
devolv-lo.
        Voltou-se para Hiroko.
        - Vou querer meu bluso de volta, ouviu?
        - Oh, podeis ficar tranqilo que ele vos ser restitudo - assegurou a moa, 
muito sria.
        Trevize sorriu e continuou a caminhar. Sentia-se mais  vontade sem o 
bluso naquele clima ameno.
        Entre as pessoas que o cercavam no havia ningum armado. Curiosamente, 
os locais no pareciam demonstrar medo ou desconfiana com relao s armas 
que Trevize levava na cintura. Na verdade, nem pareciam notar que elas existiam. 
Talvez no soubessem que eram armas. A julgar pelo que havia visto at o 
momento, Alfa podia muito bem ser um mundo totalmente sem violncia.
        Uma mulher aproximou-se de Bliss para examinar-lhe a blusa e disse:
        -  Tendes seios, respeitvel senhora?
        Como se no tivesse pacincia para esperar a resposta, pousou a mo de leve 
no peito de Bliss.
        Bliss sorriu e disse:
        -  Como acabais de descobrir, tenho seios. Talvez no sejam to bem-feitos 
quanto os vossos, mas no  por esse motivo que os escondo. No meu mundo, no  
costume deix-los  mostra.
        Sussurrou para Pelorat, que estava ao seu lado:
        -  Acha que estou pegando o jeito do galctico clssico?
        -  Bliss, voc est se saindo muito bem - assegurou-lhe Pelorat. A sala de 
refeies era grande, com longas mesas ladeadas por bancos do mesmo 
comprimento. Era evidente que os alfanos comiam em grupo.
        Trevize sentiu uma dor na conscincia. Graas ao pedido de Bliss, o refeitrio 
tinha sido reservado para cinco pessoas e todos os alfanos, com exceo de Hiroko, 
tiveram que permanecer do lado de fora. Alguns deles, porm, posicionaram-se a 
uma distncia respeitosa das janelas (que no eram mais que aberturas na parede, 
sem vidraas nem cortinas), presumivelmente para observar os estranhos enquanto
comiam.
        Pensou involuntariamente no que aconteceria se comeasse a chover. 
Certamente a chuva cairia apenas quando fosse necessrio, uma chuva suave e 
controlada, sem vento, durando apenas o suficiente para molhar a terra. Alm do 
mais, os alfanos saberiam quando ela iria chegar e estariam preparados.
        A janela em frente ao rapaz dava para o mar e l longe, perto do horizonte, 
Trevize teve a impresso de que podia entrever um banco de nuvens semelhantes s 
que cobriam os cus de todo o planeta, com exceo daquele pequeno osis.
        O controle do tempo tinha suas vantagens. Afinal, uma mocinha que andava 
nas pontas dos ps chegou para servi-los. Ningum perguntou o que queriam 
comer; foram simplesmente servidos. Havia um pequeno copo de leite, um copo 
maior de suco de uva, e um ainda maior de gua. Cada pessoa recebeu dois ovos 
escaldados de bom tamanho, acompanhados por fatias de queijo branco. Cada um 
tambm ganhou um grande prato de peixe grelhado com pequenas batatas assadas 
e enfeitado com folhas de alface.
        Bliss olhou, assustada, para a quantidade de comida que haviam colocado 
diante dela, sem saber por onde comear. Fallom, porm, no pensou duas vezes. 
Bebeu o suco de uva de um gole s e atacou imediatamente o peixe e as batatas. Ia 
pegar a comida com a mo, mas Bliss passou-lhe uma colher de sopa de metal que 
tambm podia ser usada como garfo e Fallom aceitou-a.
        Pelorat sorriu de satisfao e comeou pelos ovos. Trevize o acompanhou, 
comentando:
        - J tinha at me esquecido do gosto que tem um ovo de verdade.
        Hiroko, que estava to entretida observando os estranhos comerem (pois at 
Bliss finalmente havia comeado, com visvel apetite) que havia esquecido o prprio 
desjejum, perguntou, afinal:
        -  Est tudo bem?
        -  Tudo bem - respondeu Trevize, de boca cheia. - Aparentemente, comida 
 o que no falta por aqui... ou ser que nos serviram mais que habitualmente, por 
pura gentileza?
        Hiroko escutou com ateno e pareceu compreender o sentido das palavras 
do rapaz, pois respondeu:
        -  No, no senhor. A terra  generosa, o mar ainda mais. Os patos pem 
ovos, as cabras do leite e queijo. Tambm temos os nossos cereais. Alm de tudo, o 
mar est cheio de peixes, em grande variedade e nmeros incontveis. O Imprio 
inteiro poderia vir comer  nossa mesa e ainda haveria peixes em abundncia no 
mar.
        Trevize sorriu discretamente. A jovem alfana no parecia ter a menor idia do 
tamanho da Galxia. Ele disse:
        - Voc chama esta ilha de Nova Terra, Hiroko. Onde  que fica a Velha 
Terra?
        A moa olhou para ele, espantada.
        -  A Velha Terra? Sinto muito, mas no conheo nenhum lugar com esse 
nome.
        -  Antes de haver uma Nova Terra, seu povo deve ter vivido em algum lugar. 
Como se chama esse lugar de onde vocs vieram?
        -  No sei de nada a respeito disso - disse a jovem, constrangida. - Esta 
terra  a minha terra e foi a terra da minha me e da minha av; assim como antes, 
com toda a certeza, foi a terra da av da minha av. No conheo nenhuma outra.
        -  Hiroko - insistiu Trevize, com muito tato -, voc chama esta ilha de 
Nova Terra. Sabe por que tem esse nome?
        -  Meu senhor - explicou a jovem, com toda a pacincia -, eu chamo esta 
ilha de Nova Terra porque  assim que ela  chamada por todas as pessoas que 
conheo.
        -  Sim, mas o nome  Nova Terra, o que significa uma Terra mais recente. 
Nesse caso, deve ter havido uma Velha Terra, ou seja, uma Terra mais antiga, a 
primeira a receber o nome de Terra. Toda manh comea um novo dia, o que 
significa necessariamente que deve ter existido um dia anterior. No compreende 
que tem que ser assim?
        -  No, respeitvel senhor. Sei apenas como se chama a terra em que vivo. 
No sei de nada alm disso, nem consigo acompanhar o vosso raciocnio. Sinto 
muito.
        Trevize balanou a cabea, sentindo-se derrotado.


77.

TREVIZE inclinou a cabea na direo de Pelorat e sussurrou no ouvido do amigo:
        - Em todo lugar  a mesma coisa. Ningum nos fornece nenhuma 
informao a respeito da Terra.
        -  Que importa, se j sabemos onde fica? - disse Pelorat, quase sem mover
os lbios.
        -  Queria chegar l sabendo pelo menos alguma coisa.
        - Ela  quase uma criana... voc perguntou  pessoa errada. Trevize 
pensou um pouco no que o amigo havia dito e depois concordou.
        -  Tem razo, Janov. Voltou-se para Hiroko e disse:
        -  Hiroko, no quer saber o que viemos fazer aqui na sua terra? A moa 
baixou os olhos e respondeu:
        - No seria corts fazer esse tipo de pergunta antes que estivsseis 
repousados e alimentados, respeitvel senhor.
        -  Mas agora j comemos e descansamos, de modo que vou lhe contar por 
que estamos aqui. Meu amigo, o Dr. Pelorat,  um cientista famoso no nosso 
mundo, um homem muito sbio. Ele  um mitologista. Sabe o que isso significa?
        -  Sinto muito, respeitvel senhor, mas no sei.
        -  Ele estuda histrias antigas, na forma como so contadas em diferentes 
mundos. Essas histrias so chamadas de lendas e mitos e o Dr. Pelorat se 
interessa muito por elas. Sabe de algum em Nova Terra que conhea as histrias 
antigas deste mundo?
        A testa de Hiroko ficou ligeiramente franzida, como se ela estivesse indecisa. 
Afinal, disse:
        -  No sou a pessoa indicada para responder, pois no conheo quase nada 
a respeito. Sei de um velho que adora falar do passado. Onde ele pode ter aprendido 
essas coisas, eu no sei; pessoalmente, acho que tudo no passa de fantasias. 
Talvez o vosso amigo se interessasse pelas histrias que ele conta, mas no quero
que vos enganeis. Na minha opinio - a jovem olhou para os lados, como se tivesse
receio de que outros alfanos a escutassem -, aquele velho no passa de um
mentiroso, embora muitos acreditem nas coisas que ele diz.
        Trevize fez que sim com a cabea.
        - Estamos muito interessados nesse tipo de histrias. Voc poderia 
apresentar meu amigo a esse velho...
        -  O nome dele  Monolee.
        -  ... a Monolee, ento. Acha que Monolee se importaria de falar com o meu 
amigo?
        -  Se ele se importaria de falar? - repetiu Hiroko, com ar de desdm. - O 
difcil vai ser faz-lo calar! Monolee  um homem e portanto  capaz de falar, sem 
interrupo, durante horas e horas. No tenho a inteno de ofender-vos, 
respeitvel senhor.
        -  No se preocupe. D para voc levar o meu amigo agora para falar com 
esse Monolee?
        -  Se assim o desejardes. O velho est sempre em casa e est sempre pronto 
para receber um bom ouvinte.
        - Talvez voc possa tambm arranjar uma mulher mais velha para fazer 
companhia a Bliss. Ela tem que tomar conta da criana e por isso no pode ir 
conosco. Acho que gostaria de ter algum com que conversar, porque as mulheres, 
voc sabe, so muito...
        - Tagarelas? Isso  o que dizem os homens, mas tenho observado que so 
eles os grandes faladores. Sempre que voltam das pescarias, passam o resto do dia 
contando uns para os outros a respeito dos peixes enormes que quase conseguiram 
pegar e outras mentiras que inventam na hora. Ningum presta ateno nessas 
histrias nem acredita nelas, mas isso no os impede de falar. Mas chega de 
conversa. Eu mesma j estou falando demais... Vou pedir a uma amiga da mame; 
que estou vendo pela janela, para ficar com madame Bliss e a criana. Antes disso 
ela levar o vosso amigo, o sbio doutor, para conhecer o velho Monolee. Se o seu 
amigo for um ouvinte  altura da tagarelice de Monolee, ser difcil separ-los mais 
tarde. Perdoareis minha ausncia por um momento?
        Quando a jovem se afastou, Trevize voltou-se para Pelorat e disse:
        -  Janov, consiga o que puder do velho. Bliss, faa a mesma coisa com a 
mulher que vai ficar com voc. Estou falando de informaes a respeito da Terra.
        -  E voc? - quis saber Bliss. - O que vai fazer?
        -  Vou ficar com Hiroko e tentar descobrir uma terceira pessoa. Bliss sorriu.
        -  Ah, estou entendendo. Pel vai conversar com um velho; eu, com uma 
senhora. Enquanto isso, voc faz o sacrifcio de ficar com essa mocinha quase sem 
roupa.  isso que chamo de diviso eqitativa de trabalho.
        -  Acredite, Bliss, a diviso  razovel!
        - Mas voc no fica nem um pouquinho triste com a cota que lhe cabe nesta 
diviso, no  mesmo?
        -  Claro que no. Por que ficaria?
        -   mesmo... por que ficaria?
        Hiroko estava de volta e tornou a sentar-se  mesa.
        - Est tudo combinado. O sbio Dr. Pelorat ir falar com Monolee e a 
respeitvel madame Bliss, juntamente com a criana, ter companhia. Posso ter a 
honra, ento, respeitvel senhor Trevize, de continuar a conversar com vossa 
pessoa, talvez a respeito dessa Velha Terra a respeito da qual vs tanto...
        -  Fantasiais? - perguntou Trevize.
        -  No - protestou Hiroko, rindo. - Fazeis graa de mim, mas na verdade 
fui pouco corts ao no responder a vossas perguntas. Anelo por redimir-me.
        Trevize voltou-se para Pelorat.
        -  Anela?
        -  Deseja ardentemente - explicou Pelorat.
        Trevize disse:
        -  Hiroko, no acho que voc tenha sido pouco corts, mas se isso a far 
sentir-se melhor, terei todo o prazer em conversar com voc.
        -  Muito obrigada - disse Hiroko, levantando-se.
        Trevize levantou-se tambm.
        -  Bliss, tome conta de Pelorat - disse.
        -  Pode deixar. Quanto a voc, tem as suas... A moa fez um gesto com a 
cabea na direo das armas.
        -  Acho que no vou precisar delas - disse Trevize, pouco  vontade.
        Ele e Hiroko saram da sala de refeies. O sol estava mais alto no cu e 
chegava a fazer um pouquinho de calor. Como sempre, estava sentindo um odor 
estranho no ar. Trevize lembrou-se de que havia sentido um cheiro opressivo em 
Comporellon, um odor de mofo em Aurora e um perfume delicioso em Solaria. (Em 
Melpomenia, tinham usado trajes espaciais, de modo que o nico cheiro que sentira 
tinha sido o do prprio corpo.). Em todos os casos, o cheiro havia desaparecido em 
algumas horas, tempo necessrio para que os centros olfativos do nariz ficassem 
saturados.
        Ali, em Alfa, o cheiro era uma agradvel fragrncia de mato fresco, ativada 
pelo calor do sol, e Trevize sentiu uma ponta de triste ao pensar que em pouco 
tempo deixaria de senti-lo.
        Estavam se aproximando de uma pequena construo que parecia feita de 
argamassa cor-de-rosa.
        -  Esta  a minha casa - anunciou Hiroko. - Pertencia  irm mais moa da 
minha me.
        A jovem entrou e fez um gesto a Trevize para que a seguisse, a porta estava
aberta ou, como Trevize reparou ao entrar, seria mais preciso dizer que no havia
nenhuma porta.
        -  O que  que vocs fazem quando chove? - perguntou.
        -  Ns nos preparamos. Vai chover daqui a dois dias, durante trs horas, de 
manh cedo, quando est mais fresco e o solo recebe melhor a gua. Ento eu vou 
puxar esta cortina, que  grossa mas no absorve gua, e us-la para tapar a
entrada.
        Enquanto falava, Hiroko puxava a cortina. Era feita de uma espcie de lona.
        - Vou deix-la no lugar - explicou. - Assim todos sabero que estou 
ocupada com alguma coisa e no quero ser perturbada.
        -  No parece grande coisa em termos de isolamento.
        -  Por qu? No cobre completamente a entrada?
        -  Sim, mas qualquer um poderia empurr-la para o lado e entrar assim 
mesmo.
        -  Desrespeitando a vontade do morador? - Hiroko parecia chocada. - No 
seu mundo fazem coisas assim? Seria uma falta de respeito!
        Trevize riu.
        -  Eu s perguntei...
        Hiroko conduziu-o at o segundo dos dois aposentos e convidou-o para 
sentar-se em uma cadeira estofada. A casa era pequena e tinha muito pouca 
moblia, mas parecia servir para pouco mais que isolamento e repouso. As 
aberturas das janelas eram pequenas e prximas do teto, mas havia algumas tiras 
de material metlico, disps tas estrategicamente nas paredes, que refletiam a luz 
de forma difusa. Havia fendas no cho das quais saa uma brisa suave. Trevize no 
viu nenhum sinal de iluminao artificial e ficou imaginando se os alfanos se 
levantariam com o nascer do sol e iriam para a cama no crepsculo.
        Quando abriu a boca para perguntar, Hiroko falou primeiro:
        - Madame Bliss  vossa mulher? Trevize replicou, cautelosamente:
        - Est perguntando se ela  minha parceira sexual? Hiroko enrubesceu.
        -Rogo-vos que modereis vossa linguagem, mas estou me referindo aos 
prazeres da intimidade.
        -  No, ela  mulher do meu amigo.
        -  Sois mais jovem e mais bonito!
        -  Muito obrigado, mas Bliss pensa diferente. Ela gosta muito mais do Dr. 
Pelorat do que de mim.
        -  Fico muito surpresa. Ele no quer dividi-la convosco?
        -  No perguntei isso a ele, mas tenho certeza de que a resposta seria no. 
Eu mesmo no estou interessado.
        Hiroko assentiu gravemente.
        -  Eu sei. So os fundamentos da madame.
        -  Fundamentos?
        -  Sabeis muito bem do que estou falando. Disto! A jovem deu um tapinha 
no prprio traseiro.
        - Oh, isso! Sim, Bliss tem quadris avantajados. Desenhou uma curva com 
as mos e piscou para Hiroko. A moa deu uma risadinha.
        -  Acontece - disse Trevize - que muitos homens apreciam uma anatomia 
generosa.
        -  No posso acreditar. Seria uma espcie de gula desejar em excesso aquilo 
que  agradvel em quantidades moderadas. Agradar-vos-ia mais minha figura se 
meus seios fossem volumosos e cados, com os bicos apontando para o cho? J vi 
mulheres assim e os homens no se interessam por elas. Algumas chegam a cobrir 
suas deformidades... como faz madame Bliss.
        -  Tambm no  do meu gosto, embora esteja certo de que Bliss no cobre 
os seios por causa de alguma imperfeio que possa ter.
        -  Ento no desaprovais as formas do meu corpo?
        -  Seria um louco se o fizesse. Voc  linda!
        - Que fazeis para satisfazer s vossas necessidades de prazer enquanto 
viajais de mundo para mundo em vossa nave, j que no podeis contar com 
madame Bliss?
        -  No fao nada, Hiroko. No h nada para fazer. De vez em quando penso 
no prazer e isso me traz desconforto, mas aqueles que viajam pelo espao sabem 
muito bem que existem ocasies em que no h nada a fazer. Procuramos 
compensar em outras ocasies.
        -  Se  um desconforto, como pode ser removido?
        -  Meu desconforto aumentou consideravelmente desde que voc puxou o 
assunto. Acho que no seria polido responder  sua pergunta.
        - Seria polido se eu sugerisse uma soluo? 
        -  Depende inteiramente da sugesto.
        -  Sugiro que proporcionemos prazer um para o outro.
        -  Quando voc me trouxe aqui, Hiroko, j estava pensando nisso?
        -  Sim - respondeu Hiroko, com um sorriso malicioso. - Era meu dever de 
cortesia, mas tambm o meu desejo.
        -  Nesse caso, tenho que admitir que  tambm o meu desejo. Para falar a 
verdade, eu... hum... eu anelo por proporcionar prazer a voc.













































Captulo 18

O Festival de Msica





78.

O ALMOO foi na mesma sala de refeies que o desjejum. Estava cheia de alfanos e 
com eles Trevize e Pelorat, que j se sentiam em casa. Bliss e Fallom comeram  
parte, em um pequeno anexo.
        Foram servidos vrios tipos de peixe e uma sopa com pedaos do que poderia 
ser cabrito cozido. A refeio era acompanhada por po  vontade, com manteiga e 
gelia. Depois veio uma salada, rica e abundante. No houve sobremesa, mas vrios 
sucos de fruta foram passados em jarros aparentemente inesgotveis. Os dois 
visitantes comeram pouco, por causa do desjejum reforado, mas os locais se 
fartaram.
        -  Como  que eles no engordam? - comentou Pelorat, em voz baixa.
        Trevize deu de ombros.
        -  Muito exerccio, talvez.
        Era bvio que naquela sociedade no se dava muito valor  etiqueta  mesa. 
        Os gritos se misturavam com as risadas e muitos batiam com os copos, que 
pareciam ser feitos de um material inquebravel. As mulheres eram to barulhentas 
quanto os homens, embora em um tom mais agudo.
        Pelorat parecia atordoado, mas Trevize, que no sentia mais nenhum vestgio 
do desconforto que mencionara a Hiroko, estava de muito bom humor. Ele disse 
para o amigo:
        -  Pensando bem, acho que eu gostaria de morar aqui. As pessoas parecem 
apreciar a vida e praticamente no tm preocupaes materiais. O clima  o que 
eles querem e a comida, incrivelmente abundante. Sob vrios aspectos, esta ilha  
um paraso.
        Estava gritando para conseguir fazer-se ouvir e Pelorat gritou de volta:
        -  Pode ser, mas  um paraso to ruidoso!
        -  Eles esto acostumados.
        -  No sei como conseguem se entender nesta baguna. Realmente, para os 
dois visitantes, a conversao dos locais era totalmente incompreensvel. A 
combinao de um sotaque estranho com uma gramtica arcaica e um alto nvel de
rudo faziam aquilo parecer mais um jardim zoolgico do que uma sala de refeies.
        Depois do almoo, foram juntar-se a Bliss em uma pequena casa, que Trevize
achou muito parecida com a de Hiroko, e que lhes havia sido destinada como
alojamento temporrio. Fallom estava no segundo cmodo, enormemente aliviada
por ficar sozinha, segundo Bliss, e tentando dormir.
        Pelorat olhou para o buraco da porta e disse:
        -  Aqui  tudo to aberto... como vamos poder conversar  vontade?
        -  Posso lhe garantir - assegurou Trevize - que se puxarmos essa cortina 
para a frente da porta no seremos perturbados.  o sinal de que queremos ficar a 
ss.
        Pelorat olhou para as janelas.
        -  Eles podem escutar.
        -  No precisamos gritar. Os alfanos no so indiscretos. Mesmo quando 
ficaram do lado de fora da sala de refeies, durante o desjejum, mantiveram-se a
uma distncia respeitosa das janelas.
        Bliss sorriu.
        -  Voc parece ter aprendido muita coisa com aquela mocinha a respeito dos 
costumes locais. O que aconteceu exatamente durante o tempo que passou com 
ela?
        -  Se voc percebeu que os meus neurnios sofreram uma mudana para 
melhor e adivinhou a razo, s lhe posso pedir que deixe minha mente em paz - 
disse Trevize.
        -  Sabe muito bem que Gaia s tocaria na sua mente se estivesse correndo 
perigo de vida, e sabe por qu. Mesmo assim, no sou mentalmente cega. Poderia 
perceber o que aconteceu a um quilmetro de distncia. No consegue pensar em 
outra coisa, seu manaco sexual?
        - Manaco sexual? Deixe disso, Bliss. Duas vezes apenas, em toda a viagem. 
Duas!
        -  S passamos por dois mundos em que havia mulheres disponveis. Voc 
no desperdiou nenhuma oportunidade...
        -  Sabe muito bem que em Comporellon no tive escolha.
        -  , voc tem razo. Lembro-me muito bem daquele mulhero... - Bliss 
deu uma gargalhada sonora. Depois, prosseguiu: - Por outro lado, no acho que 
Hiroko seja suficientemente forte para obrig-lo.
        -  Claro que no. Eu estava mesmo querendo. Mas a idia foi dela.
        Pelorat perguntou, com um trao de inveja na voz:
        -  Isso acontece sempre com voc, Golan?
        - Claro que sim, Pel - disse Bliss. - As mulheres so irresistivelmente 
atradas para ele.
        -  Gostaria que fosse verdade - disse Trevize -, mas no . Pensando bem, 
 melhor que no seja. H outras coisas que desejo fazer na vida. Neste caso, 
porm, tenho que admitir que Hiroko realmente se sentiu irresistivelmente atrada. 
Afinal, a moa nunca havia conhecido algum de outro planeta... nem ela nem, 
aparentemente, nenhum outro alfano vivo. Por algumas coisas que deixou escapar, 
observaes casuais, percebi que estava com a idia, muito excitante para ela, de 
que eu seria diferente dos alfanos, fosse anatomicamente, fosse nas tcnicas de 
fazer amor. Pobrezinha... deve ter ficado desapontada.
        -  Verdade? - exclamou Bliss. - E voc?
        - Eu, no - respondeu Trevize. - J estive em vrios mundos e tive 
algumas experincias. O que descobri  que as pessoas so pessoas e o sexo  sexo 
em toda parte. Quando existem diferenas, em geral so triviais e desagradveis. Os 
perfumes que j tive que suportar! Lembro-me de uma mocinha que no conseguia 
sentir nada a no ser quando a msica estava tocando a todo volume, uma msica 
constituda inteiramente por sons estridentes e dissonantes. A era eu que no 
conseguia sentir nada! No, Bliss... fico muito satisfeito quando a coisa  
exatamente como estou acostumado.
        -  Por falar em msica - disse Bliss -, fomos convidados para um concerto 
depois do jantar. Um acontecimento muito formal, ao que parece, que foi 
programado em nossa homenagem. Ouvi dizer que os alfanos tm muito orgulho da 
sua msica.
        Trevize fez uma careta.
        - O orgulho deles no vai fazer a msica soar melhor aos nossos ouvidos.
        - Isso no  importante - disse Bliss. - Soube que eles sabem tocar com 
desembarao instrumentos arcaicos. Muito arcaicos. Talvez, atravs desses 
instrumentos, a gente consiga descobrir mais alguma coisa a respeito da Terra.
        Trevize levantou as sobrancelhas.
        - Uma idia interessante. E isso me lembra que talvez vocs dois  j tenham 
conseguido alguma informao. Janov, voc falou com esse tal de Monolee?
        -  Falei, sim - respondeu Pelorat. - Passei trs horas com ele e Hiroko no 
exagerou nem um pouquinho. Foi praticamente um monlogo da parte dele e 
quando tive que sair para almoar, no me largou at que prometesse voltar assim
que pudesse para ouvir o resto das histrias.
        -  Ele contou alguma coisa que nos interesse?
        -  De acordo com Monolee... e no  o nico que pensa assim, voc sabe... a 
Terra est perigosamente radioativa. Os ancestrais dos alfanos foram os ltimos a 
deixarem o planeta; se ficassem, teriam morrido. Golan, ele falava com tanta 
convico que no pude deixar de acreditar. Estou convencido de que a Terra  um 
planeta morto, o que torna nossa busca, afinal, totalmente sem propsito.



79.

TREVIZE recostou-se na cadeira, olhando fixo para Pelorat, que estava sentado em 
um catre estreito. Bliss levantou-se de onde estava, ao lado de Pelorat, e ficou 
olhando de um para o outro. Finalmente, Trevize disse:
        - Deixe por minha conta julgar se nossa busca  sem propsito ou no, 
Janov. Limite-se a contar o que o velho tagarela tinha para lhe dizer... 
resumidamente,  claro Pelorat comeou:
        - Tomei notas enquanto Monolee falava. Ajudaram a compor minha imagem 
de estudioso, mas no precisarei consult-las. O velho era bem tortuoso na sua 
maneira de falar. Tudo o que dizia o fazia lembrar-se de outra histria 
completamente diferente da que estava contando, mas, naturalmente, passei a vida 
tentando organizar informaes em busca de fatos relevantes e significativos, de 
modo que se tornou uma segunda natureza para mim a capacidade de condensar 
um discurso longo e incoerente.
        -  Em algo mais longo e incoerente ainda? - interrompeu Trevize, rindo. - 
V direto ao ponto, Janov!
        Pelorat pigarreou, meio sem graa.
        -  Est bem, meu velho amigo. Vou tentar transformar as histrias do velho 
em uma narrativa concatenada. A Terra foi o bero da humanidade e de milhes de 
espcies de plantas e animais. Era o nico planeta habitado at serem inventadas 
as viagens hiperespaciais. Ento foram colonizados os mundos dos Espaciais. Eles 
romperam seus laos com a Terra, desenvolveram culturas prprias e passaram a 
sentir desprezo pelo planeta de origem e mesmo a oprimi-lo.
        "Alguns sculos depois, a Terra conseguiu recuperar a liberdade, embora 
Monolee no tenha explicado exatamente como isso aconteceu". Evitei fazer 
perguntas com receio de que isso o induzisse a novos rodeios. Ele chegou a 
mencionar um heri da Terra chamado Elijah Baley, mas suas supostas faanhas 
eram to caractersticas do hbito de atribuir a um nico indivduo as conquistas 
de vrias geraes que no valia a pena tentar...
        - Est bem, Pel querido, entendemos esta parte - disse Bliss Pelorat 
interrompeu-se novamente e retomou a narrativa.
        -  claro. Desculpe. A Terra comeou um novo surto de colonizao, 
fundando muitos mundos novos, de acordo com novos mtodos. Esses novos 
Colonizadores eram mais dinmicos que os Espaciais, a quem derrotaram, vindo 
eventualmente a fundar o Imprio Galctico. Foi durante as guerras entre os 
Colonizadores e os Espaciais... no, guerras no, Monolee usou a palavra 
"conflitos", e fez questo de frisar que no se tratava de guerras... foi durante esses 
conflitos que a Terra ficou radioativa.
        - Isso  ridculo, Janov! - exclamou Trevize, sem disfarar a irritao. - 
Como  que um mundo pode ficar radioativo? Todo planeta  ligeiramente radioativo 
no momento da sua formao e depois essa radioatividade diminui lentamente. 
Nenhum planeta fica radioativo.
        Pelorat deu de ombros.
        -  Estou s repetindo o que ele disse. E ele estava s repetindo o que algum 
lhe disse... algum que estava s repetindo o que ouviu de outra pessoa, e assim 
por diante.  uma histria popular, contada e recontada por muitas geraes, 
sofrendo sabe-se l quantas distores no percurso.
        -  Isso eu entendo, mas ser que no existe nenhum livro ou documento
onde os acontecimentos tenham sido registrados quando ainda eram recentes? Eles
nos dariam uma idia bem mais precisa do que realmente aconteceu.
        -  Acontece que fiz essa pergunta para o velho e a resposta foi no. Ele me 
disse que havia livros nos tempos antigos e que esses livros foram perdidos h 
muito tempo, mas que no tinha importncia, porque ele sabia tudo o que estava 
nos livros.
        -  Sim, mas com muitas distores.  sempre a mesma histria. Em todo 
planeta que visitamos, acabamos descobrindo que os registros a respeito da Terra 
desapareceram, de um modo ou de outro... Escute, ele explicou como foi que a 
Terra ficou radioativa?
        -  No, ele no sabia ao certo. O mais perto que chegou de uma explicao 
foi quando me disse que os responsveis tinham sido os Espaciais. Logo percebi, 
porm, que os Espaciais eram os demnios a quem o povo da Terra atribua todas 
as suas desgraas. A radioatividade...
        Nesse ponto, foi interrompido por uma voz de soprano.
        -  Bliss, eu sou um Espacial?
        Fallom estava de p no estreito corredor que ligava os dois quartos, com cara 
de sono, o cabelo desgrenhado. A camisola (que estava muito larga, pois pertencia a 
Bliss) havia escorregado de um ombro, revelando um peito infantil.
        Bliss disse:
        -  Ns nos preocupamos com ouvintes de fora e nos esquecemos de quem 
est aqui dentro... Fallom, por que disse isso? - perguntou, levantando-se e 
caminhando em direo  criana.
        -  Eu no tenho o que eles tm - afirmou Fallom, apontando para os dois 
homens - nem o que voc tem, Bliss. Sou diferente. Isso  porque sou um 
Espacial?
        - Voc  uma Espacial, Fallom - disse Bliss, com carinho -, mas pequenas 
diferenas no so importantes. Volte para a cama.
        Fallom tornou-se submissa, como sempre acontecia quando Bliss falava 
daquele jeito. Mesmo assim, perguntou, em tom preocupado:
        - Eu sou um demnio? Eu sou um demnio? Bliss disse para os dois 
homens, por cima do ombro:
        -  Esperem por mim. J volto.
        Cinco minutos depois, estava de volta, abanando a cabea.
        -  Ela vai dormir at que eu a acorde. Devia ter feito isso antes, mas no 
gosto de mexer nas mentes alheias a no ser quando  absolutamente necessrio. 
- Acrescentou, em tom defensivo: - No quero que fique cismada com as 
diferenas entre o seu aparelho genital e os nossos.
        - Um dia ela vai ter que saber que  hermafrodita - disse Pelorat.
        - Um dia - disse Bliss -, mas no agora. Continue a histria, Pel.
        - Isso - disse Trevize. - Continue antes que mais algum nos interrompa.
        - Como eu ia dizendo, a radioatividade tomou conta da Terra, ou pelo menos 
da crosta. Na poca, a Terra tinha uma enorme populao, que vivia em cidades 
gigantescas, quase todas subterrneas...
        - Agora voc foi longe demais - interrompeu Trevize. - Essa lenda no 
passa de uma tentativa ingnua de glorificar o passado de um planeta. O que voc 
descreveu foi a antiga Trantor, a capital do Imprio, e no a Terra.
        Pelorat olhou para o amigo de cara feia e disse:
        - Francamente, Golan, s vezes voc faz pouco da minha inteligncia. Ns 
mitologistas sabemos muito bem que os mitos e lendas contm imitaes, lies de 
moral, ciclos naturais e centenas de outras influncias perturbadoras. Nosso 
trabalho  justamente abstrair essas influncias e chegar aos fatos. Na verdade, as 
mesmas tcnicas devem ser aplicadas  histria convencional, j que nenhum 
historiador pode ser considerado totalmente isento. No momento, estou me 
limitando a repetir mais ou menos o que Monolee me contou, embora 
provavelmente esteja acrescentando novas distores, se bem que de forma 
totalmente involuntria...
        -  Est bem, est bem... - disse Trevize. - Prossiga, Janov. No fique 
ofendido.
        -  No fiquei. As cidades gigantescas, se  que existiram, foram diminuindo 
 medida que a radioatividade se tornava mais intensa, at que a populao ficou 
reduzida a apenas uma frao do que havia sido. Essas pessoas se agrupavam 
precariamente nas poucas regies onde a radioatividade ainda no era mortal. Para 
que a populao no aumentasse, praticava-se o controle da natalidade e a 
eutansia dos velhos de mais de sessenta anos.
        -   horrvel! - exclamou Bliss, chocada.
        - Sem dvida - concordou Pelorat. - Entretanto, foi o que eles fizeram,
segundo Monolee, e pode muito bem ser verdade, pois no depe a favor dos
terrqueos e no  provvel que os prprios terrqueos e seus descendentes
inventassem uma mentira desabonadora. Os terrqueos, que tinham sido
desprezados e oprimidos pelos Espaciais, eram agora desprezados e oprimidos pelo 
Imprio, embora neste caso a lenda possa conter uma certa dose de exagero devido 
 autopiedade, que  um sentimento muito forte. Vejam, por exemplo, o caso...
        - Fica para outra vez, Pelorat. Continue com a histria da Terra, por favor.
        - Desculpe. O Imprio, em um acesso de bondade, concordou em remover o 
solo contaminado e substitu-lo por solo novo, proveniente de outros planetas. No 
 preciso dizer que era uma tarefa monstruosa, da qual o Imprio logo se cansou, 
ainda mais porque esse perodo... se meu palpite estiver certo... coincidiu com a 
queda de Kandar V, depois da qual o Imprio tinha coisas muito mais importantes 
para se preocupar do que a Terra.
        "A radioatividade continuou a aumentar, a populao continuou a diminuir e 
afinal o Imprio, em outro acesso de bondade, ofereceu-se para transportar o
restante da populao para um planeta prximo"... este planeta, para ser exato.
        "Parece que anteriormente uma expedio havia semeado o oceano, de modo 
que quando surgiu a idia de trazer para c a populao da Terra, Alfa j dispunha 
de uma atmosfera de oxignio e de um suprimento adequado de alimentos". O 
desinteresse que os mundos do Imprio Galctico sempre manifestaram em relao 
a Alfa pode ser explicado por um preconceito, at certo ponto natural, em relao a
planetas de sistemas hinrios. A probabilidade de sistemas desse tipo possurem
planetas habitveis  to pequena que mesmo quando um planeta  perfeitamente 
adequado, todos o rejeitam na suposio de que deve haver algo de errado com ele. 
Este tipo de falcia  mais comum do que vocs imaginam. Um caso clssico  o 
do...
        - Deixe o caso clssico para depois, Janov - disse Trevize. - O que 
aconteceu depois que resolveram trazer a populao da Terra para c?
        -  A nica coisa que faltava - prosseguiu Pelorat, atropelando um pouco as 
palavras - era terra firme. Os engenheiros localizaram uma parte rasa do oceano e 
a aterraram com sedimentos removidos de partes mais profundas, formando assim 
a ilha de Nova Terra. Pedras e recifes de coral foram usados como uma espcie de 
quebra-mar. Plantas de razes profundas foram semeadas ao longo do litoral e 
tambm ajudaram a evitar a eroso. Mais uma vez, o Imprio se havia imposto uma 
misso gigantesca. Talvez o plano inicial fosse construir continentes inteiros, mas 
quando esta ilha ficou pronta o Imprio j estava envolvido em outros projetos de
maior prioridade.
        "O que restava da populao da Terra foi trazido para c". As naves do 
Imprio transportaram homens e mquinas. Os terrqueos passaram a viver em 
Nova Terra, em total isolamento.
        -  Total? - repetiu Trevize. - Monolee disse a voc que somos os primeiros 
a visitar este planeta desde aquele tempo?
        - Quase total - corrigiu Pelorat. - Alfa no possui nenhum atrativo 
especial e alm disso existe o preconceito com relao aos planetas de estrelas 
binrias. Uma vez ou outra, muito raramente, algum pousava aqui, como ns 
fizemos, mas ia embora e tudo ficava na mesma.
        -  Voc perguntou a Monolee onde ficava a Terra? - quis saber Trevize.
        -  Claro que perguntei. Ele no sabia.
        -  Como pode saber tanta coisa a respeito da histria da Terra sem conhecer 
sua localizao?
        -  Perguntei a ele diretamente, Golan, se a estrela que ficava a apenas um 
parsec e pouco de Alfa podia ser o sol em torno do qual a Terra girava. Monolee 
perguntou o que era um parsec e eu expliquei que era uma distncia pequena, em 
termos astronmicos. Ento ele disse que no sabia se a Terra ficava perto ou longe 
de Alfa e que, na sua opinio, procur-la seria um erro. A Terra tinha o direito de 
viajar em paz pelo espao, explicou.
        -  Voc concorda com ele? - perguntou Trevize, Pelorat sacudiu a cabea.
        - Sabe que no. Entretanto, Monolee disse tambm que a radioatividade 
continuou a aumentar, de modo que o planeta deve ter ficado totalmente inabitvel 
logo depois que os ltimos terrqueos foram evacuados e hoje em dia seria perigoso 
at aproximar-se dele.
        - Bobagem! - exclamou Trevize, com convico. - Um planeta no pode 
ficar radioativo. Mesmo que ficasse, sua radioatividade no aumentaria 
continuamente. A tendncia da radioatividade  sempre no sentido de diminuir.
        - Voc no falou com Monolee. Ele parecia estar bastante seguro do que 
afirmava. Todos com quem conversamos so unnimes quanto a isto: a Terra est 
radioativa. Assim sendo, no vejo vantagem em prosseguirmos.


80.

TREVIZE respirou fundo e disse, em tom controlado:
        -   bobagem, Janov.  tudo mentira.
        -  Meu velho amigo, no deve acreditar em alguma coisa apenas porque isso
 conveniente para voc.
        - Minha convenincia no tem nada a ver com o caso. Em mundo aps
mundo descobrimos que todos os registros sobre a Terra foram apagados. Por que 
seriam apagados se no h nada para esconder, se a Terra  um mundo morto, 
radioativo, inatingvel?
        -  No sei, Golan.
        -  Sabe, sim. Quando estvamos chegando a Melpomenia, voc disse que a 
radioatividade poderia ser o reverso da medalha. Destruram registros para 
suprimir informaes corretas; forjar a histria da radioatividade para fornecer 
informaes falsas. Nos dois casos, o objetivo seria desencorajar qualquer tentativa 
de localizar a Terra. No devemos cair nessa armadilha.
        Bliss interveio:
        -  Trevize, ao que parece voc est convencido de que a estrela mais prxima 
de Alfa  o sol da Terra. Nesse caso, porque continua a argumentar contra a 
histria da radioatividade? O que importa? Por  que no vamos at a estrela mais 
prxima e verificamos pessoalmente como  a Terra?
        - Porque tudo indica que os atuais habitantes da Terra so muito 
poderosos... na verdade, gostaria de saber mais a respeito do planeta e seus 
ocupantes antes de nos aproximarmos dele. Como no foi possvel descobrir grande 
coisa aqui em Alfa, considero qualquer tentativa de aproximao como uma ao 
extremamente perigosa. Por isso, estou disposto a deixar vocs todos aqui em Alfa e 
prosseguir sozinho. Para que arriscar mais de uma vida?
        -  No, Golan! - protestou Pelorat, com veemncia. - Bliss e a criana 
podem ficar aqui, mas eu vou com voc. Antes de voc nascer eu j estava 
procurando a Terra. Sejam quais forem os riscos, no posso ficar para trs quando 
a meta est to prxima!
        -  Bliss e a criana no vo ficar aqui - disse Bliss. - Eu sou Gaia e Gaia 
pode proteger-nos, at mesmo na Terra.
        -  Espero que tenha razo - disse Trevize, em tom de dvida. - Lembre-se 
de que Gaia no pde evitar que todas as suas memrias a respeito da Terra fossem 
apagadas.
        -  Isso foi feito h muito tempo, quando Gaia ainda no tinha nem uma 
frao do poder que possui atualmente. Hoje a situao  outra.
        - Tomara que voc esteja certa... ou ser que conseguiu obter novas 
informaes a respeito da Terra que ainda no teve tempo de nos contar? Lembro-
me de que lhe pedi para interrogar as velhas da aldeia com quem tivesse contato.
        -  Foi o que fiz.
        -  O que descobriu?
        -  A respeito da Terra, nada alm do que Pelorat nos contou.
        -  Ah...
        -  Por outro lado, fiquei sabendo que os alfanos so excelentes 
biotecnologistas.
        -  So?
        -  Nesta ilha, desenvolveram e testaram numerosas variedades de plantas e 
animais, chegando a implantar um ecossistema estvel e auto-sustentado, apesar 
do pequeno nmero de espcies de que dispunham para comear. Aperfeioaram as 
formas de vida aquticas que encontraram quando aqui chegaram h alguns 
milhares de anos, aumentando o seu valor nutritivo e tornando-as mais saborosas. 
Foi atravs da biotecnologia que chegaram  fartura de que desfrutam atualmente. 
No momento, esto pensando at em modificar a si prprios.
        -  Como assim?
        - Eles sabem muito bem que na situao atual, confinados como se 
encontram  nica extenso de terra firme que existe no planeta, que no passa de 
uma pequena ilha, no podem se dar ao luxo de permitir que a populao aumente. 
Por esse motivo, pretendem tornar-se anfbios.
        - Tornar-se o qu?
        - Anfbios. Querem ter guelras, alm de pulmes. Nesse caso, poderiam 
construir cidades no fundo do oceano. A mulher com quem conversei parecia 
entusiasmada com a idia, mas admitiu que os alfanos vm perseguindo este 
objetivo h vrios sculos e que o progresso tem sido muito lento.
        Trevize disse:
        -  A esto dois campos em que talvez estejam mais adiantados do que ns: 
controle do tempo e biotecnologia. Gostaria de conhecer as tcnicas que usam.
        - Para isso, teramos que encontrar os especialistas - disse Bliss. - E pode 
ser que eles no queiram conversar a respeito.
        -   claro que este no  o nosso objetivo principal - disse Trevize -, mas a 
Fundao estaria interessada no que pudssemos aprender com este mundo em 
miniatura.
        - Nosso controle do tempo em Terminus no  nada mau, Golan - observou 
Pelorat.
        -  Muitos planetas possuem um controle razovel do tempo - disse Trevize. 
        - Acontece que esse controle  sempre feito em escala global. Aqui, os 
alfanos controlam o tempo em uma pequena parte do seu mundo, o que exige 
tcnicas diferentes das nossas... Mais alguma coisa, Bliss?
        - Convites sociais. Parece que essa gente adora festas. Quando no esto 
pescando ou trabalhando na lavoura, esto comemorando alguma coisa. Como j
comentei com vocs, hoje  noite, depois do jantar, vai haver um festival de msica.
Amanh, durante o dia, haver uma festa na praia: em todo o litoral da ilha, os que 
no estiverem de servio se encontraro para tomar banho de mar e aproveitar o
sol
pois no dia seguinte vai chover. De manh, antes da chuva, os barcos pesqueiros
estaro de volta;  noite haver um festival de comida, a base de peixe. Pelorat riu.
        -  As refeies normais so o que so. Como ser um festival de comida?
        -  Tenho a impresso de que no  a quantidade que conta, mas a
variedade. Seja como for, ns quatro estamos convidados para participar de todos
os festivais, especialmente do festival de msica desta noite.
        -  Eles vo tocar instrumentos antigos? - perguntou Trevize.
        -  Exatamente.
        -  A propsito: o que  que os torna antigos? Computadores primitivos?
        - No, no. A  que est. Os instrumentos no so eletrnico e sim 
mecnicos. Eles me descreveram alguns deles. So feitos de cordas esticadas, tubos 
ocos e peles de animais.
        -  Voc deve estar brincando! - exclamou Trevize, chocado.
        - No, estou falando srio. Ouvi dizer que a sua Hiroko vai soprar um 
tubo... esqueci-me do nome do instrumento. Voc vai ter que agentar firme.
        -  Para mim vai ser uma experincia e tanto - observou Pelorat. - Conheo 
muito pouco a respeito da msica primitiva e terei muito prazer em ouvi-la.
        - Ela no  "minha Hiroko" - protestou Trevize. - Acha que os 
instrumentos so do tipo usado na Terra?
        -  Acho que sim - disse Bliss. - Pelos menos, as mulheres disseram que 
foram inventados muito antes de seu povo se mudar para este planeta.
        - Nesse caso - disse Trevize -, pode valer a pena sujeitarmos nossos 
ouvidos a uma possvel tortura. Quem sabe descobrimos alguma coisa importante a 
respeito da Terra?


81.

ESTRANHAMENTE, a pessoa mais animada para ir ao concerto era Fallom. Ela e Bliss 
tomaram banho em uma casinha atrs da casa principal. Havia um chuveiro com 
gua quente e fria (ou melhor: morna e fria), uma pia e uma privada. Era um 
banheiro extremamente limpo e funcional e, com o sol do fim da tarde, chegava a 
ser um lugar alegre e bem iluminado.
        Como sempre, Fallom ficou fascinada com os seios de Bliss e Bliss teve que 
dizer (agora que Fallom compreendia galctico) que era assim que as pessoas eram 
no seu mundo. Quando Fallom perguntou por qu, Bliss, depois de pensar um 
pouco e chegar  concluso de que no havia nenhuma maneira lgica de 
responder, limitou-se a dizer:
        - Por que sim!
        Quando terminaram, Bliss ajudou Fallom a vestir a roupa de baixo que os 
alfanos haviam emprestado e colocou uma saia por cima. Deixar Fallom despida da 
cintura para cima parecia bastante natural. Para si prpria, Bliss escolheu uma 
saia de Alfa (que ficou um pouquinho justa demais nos quadris) e uma de suas 
blusas. Parecia uma tolice ter vergonha de mostrar os seios em uma sociedade em 
que todas as mulheres o faziam, especialmente quando seus seios eram pequenos e 
bem-feitos, mas era assim que Bliss se sentia.
        Logo em seguida, foi a vez de os homens usarem o banheiro, Trevize 
resmungando as costumeiras queixas masculinas a respeito do tempo que as 
mulheres tinham levado para tomar banho.
        Bliss fez Fallom dar uma volta completa para certificar-se de que a saia 
estava no lugar e disse:
        -  uma saia muito bonita, Fallom. Voc gosta dela? Fallom olhou-se no 
espelho.
        - Gosto, sim... mas ser que no vou ficar com frio? - perguntou, passando 
as mos pelo peito nu.
        -  Acho que no, Fallom. As noites neste mundo so quentes.
        -  Mas voc est usando mais roupa do que eu.
        -  Porque  assim que a gente se veste no meu mundo. Escute, Fallom, esta 
noite vamos estar com muitos alfanos. Voc acha que agenta?
        Fallom fez cara de choro e Bliss prosseguiu:
        - Vou sentar do seu lado direito e segurar a sua mo. Pel vai sentar do lado 
esquerdo e Trevize no lugar  sua frente. No vamos deixar ningum falar com voc 
e voc no vai ter que falar com ningum.
        -  Vou tentar, Bliss - disse Fallom, com uma voz ainda mais fina que de 
costume.
        -  Depois - disse Bliss -, alguns alfanos vo tocar msica para ns. Sabe o 
que  msica?
        Comeou a cantarolar. Fallom logo se interessou.
        -  Voc quer dizer____________?
        A ltima palavra era incompreensvel para Bliss.
        Fallom comeou a cantar. Era uma msica muito bonita, embora a harmonia 
fosse estranha, e rica em trinados.
        -  Isso mesmo. Msica - disse Bliss. Fallom disse, toda animada:
        - Jemby costumava tocar... - hesitou e depois se lembrou da palavra em 
galctico -... msica o tempo todo. Ele tocava um _____________!
        Outra palavra na sua lngua natal. Bliss tentou repetir a palavra.
        - Jemby tocava um fiful? Fallom deu uma risada.
        -  No  um fiful,  um________
        Ouvindo a criana, Bliss percebeu que no havia pronunciado a palavra 
corretamente, mas no se aventurou a tentar de novo. Em vez disso, pediu:
        -  Quer me explicar como ele ?
        O vocabulrio ainda limitado de Fallom no permitia uma descrio precisa e 
seus gestos no fizeram a moa imaginar nenhuma forma definida.
        -  Jemby me ensinou a tocar__________- disse Fallom, com orgulho. - Eu 
usava os dedos, mas ele me disse que um dia vou poder tocar s com o 
pensamento.
        -  Isso  maravilhoso, querida - disse Bliss. - Depois do jantar, vamos ver 
se os alfanos tocam to bem quanto Jemby.
        Os olhos da criana brilharam. A perspectiva de ouvir msica a fez suportar 
a refeio com estoicismo, mantendo-se calma no meio do barulho e das risadas. 
Apenas uma vez, quando algum derrubou um prato perto dela, foi que Fallom 
pareceu um pouco assustada, mas Bliss logo a tranqilizou com um abrao 
apertado.
        -  Ser que ficariam ofendidos se eu dissesse que preferimos comer em um 
lugar separado? - murmurou a moa para Pelorat. - J basta ter que comer toda 
essa protena de animais Isolados, ainda sou obrigada a faz-lo no meio deste 
tumulto!
        -  Os alfanos so um povo alegre. Esto apenas dando vazo a toda essa 
alegria - disse Pelorat, que parecia disposto a suportar qualquer coisa para 
estudar de perto aquela sociedade primitiva.
        Pouco depois, o jantar chegou ao fim e anunciaram que o festival de msica 
estava para comear.


82.

O SALO onde seria realizado o festival de msica era to grande quanto a sala de 
refeies e havia cadeiras dobrveis (muito pouco confortveis, pensou Trevize) para 
cerca de 150 pessoas. Como convidados de honra, os visitantes foram levados para 
a primeira fila e vrios alfanos elogiaram os seus trajes.
        Os dois homens estavam despidos da cintura para cima. De vez em quando, 
Trevize contraa os msculos abdominais e baixava a cabea, olhando com orgulho 
para o prprio peito coberto de plos escuros. Pelorat estava to interessado em 
tudo que o cercava que parecia alheio  prpria aparncia. A blusa de Bliss atraiu 
olhares curiosos, mas no houve nenhum comentrio.
        Trevize observou que apenas metade dos lugares estavam ocupados e que a 
maioria absoluta dos espectadores era de mulheres. Provavelmente, a populao 
masculina estava quase toda no mar.
        Pelorat cutucou Trevize e sussurrou:
        -  Eles tm eletricidade.
        Trevize olhou para os tubos verticais nas paredes e para outros no teto. 
Brilhavam com uma luz difusa.
        -  Lmpadas fluorescentes - observou. - Bastante primitivas.
        - Pode ser, mas fazem um bom trabalho. Existem coisas parecidas com 
essas nos nossos quartos e no banheiro, mas pensei que fossem apenas peas de 
decorao. Se conseguirmos descobrir como se faz para lig-las, no teremos que 
ficar no escuro.
        -  Eles podiam ter nos contado - disse Bliss, com irritao na voz.
        - Na certa pensaram que no era necessrio - disse Pelorat. Quatro 
mulheres saram de trs de uma cortina e se sentaram em grupo na frente da 
platia. Cada uma segurava um instrumento de madeira envernizada. Todos 
tinham a mesma forma, que no era fcil de descrever. A principal diferena entre 
os instrumentos estava no tamanho. Um era bem pequeno, dois razoavelmente 
grandes e o quarto muito grande. As mulheres tambm carregavam uma vara 
comprida na outra mo.
        Quando as mulheres entraram, a platia assobiou baixinho e elas fizeram
uma reverncia. Todas tinham uma tira de gaze prendendo os seios, como que para
evitar que interferissem com o instrumento.
        Interpretando os assobios dos alfanos como um sinal de aprovao, Trevize 
achou que seria educado imit-los. Fallom ento acrescentou um trinado que era 
muito mais que um assobio e comeava atrair a ateno quando Bliss a fez 
sossegar, apertando-lhe a mo com fora.
        Trs das mulheres colocaram os instrumentos debaixo do queixo, o maior dos 
instrumentos ficou no cho, entre as pernas da quarta mulher. As quatro ento
comearam a fazer passar as varas comprida pelas cordas dos instrumentos, 
enquanto os dedos da mo esquerda se moviam rapidamente, comprimindo a 
extremidade superior dessas cordas.
        Este, pensou Trevize, era o "barulho" que estava esperando, e que no soava
como um barulho. Na verdade, era uma sucesso suave e melodiosa de notas
musicais; cada instrumento tocava uma msica diferente, mas os sons se fundiam 
de modo muito agradvel.
        Naturalmente, no tinha a complexidade infinita da msica eletrnica (da 
"msica de verdade", como Trevize no pde deixar de pensar), mas parecia uma 
pea pobre, repetitiva. Mesmo assim, com o passar do tempo, quando o ouvido se 
acostumou com aqueles sons exticos, comeou a reconhecer sutilezas. Era preciso 
um certo esforo para isso, e pensou, com saudade, na clareza, na preciso 
matemtica, na variedade da msica a que estava acostumado. Ocorreu-lhe, porm, 
que se escutasse a msica daqueles instrumentos simples de madeira durante mais 
algum tempo, poderia muito bem vir a apreci-la.
O concerto j devia ter comeado h mais de 45 minutos quando Hiroko apareceu 
para o seu nmero. A jovem viu Trevize na primeira fila e sorriu para ele. Trevize 
uniu-se  platia no assobio de boas-vindas. Hiroko estava linda com uma saia 
comprida, estampada com cores vivas, uma grande flor no cabelo e nada acima da 
cintura. Aparentemente, os seios no interfeririam com o instrumento que tocava.
        O instrumento era um tubo de madeira com uns setenta centmetros de 
comprimento e dois de dimetro. Hiroko levou-o aos lbios e soprou em uma 
abertura prxima a uma das extremidades, produzindo um som agudo que mudava 
constantemente enquanto seus dedos manipulavam objetos metlicos localizados 
ao longo do tubo.
        Assim que ouviu a primeira nota, Fallom agarrou o brao de Bliss e disse:
        - Bliss, isso  um_________'
        Estava usando a palavra que soava como "fiful" para Bliss. A moa sacudiu a 
cabea, mas a criana insistiu:
        -  , sim!
        Alguns alfanos olharam na direo de Fallom. Bliss tapou a boca da criana 
com a mo e murmurou, em tom enrgico:
        -  Fique quieta!
        Da em diante, Fallom escutou em silncio a exibio de Hiroko, mas seus 
dedos se moviam espasmodicamente, como se estivesse manipulando os objetos 
metlicos localizados ao longo do instrumento.
        O ltimo artista a apresentar-se no concerto foi um senhor, j idoso, que 
tocava um instrumento com os lados estriados, que levava pendurado no ombro por 
uma correia. Ele abria e fechava o instrumento, enquanto com uma das mos 
apertava uma srie de objetos brancos e pretos.
        Trevize achou aquele som particularmente cansativo. Ele o fez lembrar-se dos 
ces selvagens de Aurora... no que o som fosse parecido com o de latidos, mas as 
emoes que despertava eram semelhantes. Bliss parecia a ponto de tapar os 
ouvidos com as mos, enquanto Pelorat escutava com o cenho franzido. S Fallom 
parecia estar gostando, pois batia de leve com o p no cho, e Trevize percebeu, 
com espanto, que havia um ritmo na msica que correspondia perfeitamente s 
batidas da criana.
        O nmero terminou e houve uma verdadeira tempestade de assobios, no 
meio da qual se podia ouvir distintamente os trinados de Fallom.
        Depois, a platia se dividiu em pequenos grupos e se tornou to barulhenta e 
agitada quanto os alfanos pareciam ser em todas as cerimnias pblicas. Os vrios 
indivduos que haviam tocado no concerto ficaram na frente do salo, conversando 
com as pessoas que chegavam para cumpriment-los.
        Fallom largou a mo de Bliss e correu na direo de Hiroko.
        -  Hiroko! - exclamou, ofegante. - Deixe-me ver o________
        -  Que foi que voc disse, querida?                         
        -  A coisa que voc estava tocando
        -  Ah... - Hiroko riu. - O nome  flauta, querida.
        -  Posso v-la?
        -  Est bem.                                               
        Hiroko abriu a caixa e tirou o instrumento. Estava dividido em trs partes, 
mas ela o montou rapidamente, aproximou o bocal dos lbios de Fallom e disse:
        -  Sopre aqui..                                                        
        -  Eu sei, eu sei - disse Fallom, impaciente, estendendo a mo para a 
flauta.
        Hiroko recuou instintivamente, mantendo a flauta fora do alcance da 
criana.
        -   para soprar, menina, e no para pegar. Fallom parecia desapontada.
        -  Posso s olhar para ela, ento? Prometo no pegar.
        -  Est bem, querida.
        Hiroko segurou a flauta diante de Fallom, que olhou fixamente para o 
instrumento.
        De repente, as lmpadas fluorescentes piscaram e ouviu-se o som de uma 
flauta, um som fraco e hesitante.
        Hiroko, de to surpresa, quase deixou cair a flauta no cho. Fallom 
exclamou:
        -  Consegui! Consegui! Jemby estava certo!
        -  Foi voc que produziu este som? - perguntou Hiroko.
        -  Sim! Sim! Fui eu!
        -  Como conseguiu fazer isso, criana?
        -  Sinto muito, Hiroko - disse Bliss, sem jeito. - Vou lev-la para fora.
        - No, no! - exclamou Hiroko. - Quero que ela faa de novo. Alguns 
alfanos haviam se aproximado para observar. Fallom franziu a testa, como se 
estivesse se concentrando. As lmpadas tornara a piscar e a flauta emitiu de novo 
um som, s que dessa vez puro e firme. Em seguida, o som mudou quando os 
objetos de metal ao longo da flauta comearam a se mover sozinhos.
        -   um pouquinho diferente do_________- disse Fallom, ofegante, como se 
o sopro para tocar a flauta tivesse vindo dos seus pulmes.
        Pelorat disse para Trevize:
        -  Ela deve estar usando a energia da corrente eltrica que alimenta as 
lmpadas.
        -  Faa isso de novo - disse Hiroko, quase sem voz. Fallom fechou os olhos. 
        A nota saiu mais suave, demonstrando um controle seguro. A flauta tocava 
sozinha, manipulada  distncia pelos lobos transdutores ainda imaturos do 
crebro de Fallom. As notas, que inicialmente eram quase aleatrias, passaram a 
obedecer a uma seqncia harmoniosa e agora todos os presentes se haviam 
agrupado em torno de Hiroko e Fallom. A moa segurava a flauta pelas 
extremidades com o polegar e o indicador de cada mo, enquanto a criana, de 
olhos fechados, controlava as correntes de ar e o movimento das chaves.
        -  a pea que eu toquei - sussurrou Hiroko.
        - Eu me lembro dela - disse Fallom, balanando a cabea de leve, tentando 
no perder a concentrao.
        - Voc no perdeu uma nica nota - disse Hiroko, quando Fallom 
terminou.
        -  Mas no est certo, Hiroko. No est certo do jeito que voc tocou.
        -  Fallom! - exclamou Bliss. - No seja mal-educada! Voc no deve...
        -  Por favor, no interfira - interrompeu Hiroko. - Por que no est certo, 
criana?
        -  Porque eu tocaria de outro modo.
        -  Mostre-me, ento.
        A flauta comeou a tocar de novo, mas de forma mais complicada, pois as 
foras que movimentavam as chaves o faziam com maior velocidade, em uma 
sucesso mais rpida e em combinaes mais elaboradas que anteriormente. A 
msica era mais complexa e infinitamente mais emotiva e cativante. Hiroko ficou 
imvel e todos fizeram o mais absoluto silncio.
        Mesmo depois que Fallom parou de tocar, o silncio continuou at que 
Hiroko respirou fundo e perguntou:
        -  Querida, voc j tocou assim antes?
        -  No - respondeu Fallom. - Antes eu tinha que usar os dedos, e no 
posso tocar assim com os dedos. - Acrescentou, com naturalidade: - Ningum 
pode.
        -  Sabe tocar outra coisa?
        -  Posso inventar na hora.
        -  Quer dizer... improvisar?
        Fallom no entendeu a palavra e olhou para Bliss. Bliss assentiu e Fallom 
respondeu:
        -  Sim.
        -  Ento toque, por favor - disse Hiroko.
        Fallom pensou por um minuto ou dois e comeou devagar, com uma 
sucesso de notas muito simples, de efeito global quase hipntico. A iluminao 
ficava mais forte ou mais fraca, de acordo com a energia usada pela criana. 
Ningum pareceu notar, pois parecia ser efeito da msica e no a causa, como se 
um esprito eltrico estivesse obedecendo aos ditames das ondas sonoras.
        A combinao de notas foi repetida um pouco mais alto, depois com maior 
complexidade e afinal em variaes que, sem se desviarem da linha meldica inicial, 
tornaram-se cada vez mais vibrantes at que era quase impossvel respirar. No fim, 
a msica desceu muito mais depressa do que havia subido, com o efeito de um 
mergulho sbito que levou os ouvintes para o cho enquanto ainda mantinham a 
impresso de estarem voando.
        Seguiu-se um verdadeiro pandemnio. At Trevize, que estava acostumado 
com um tipo totalmente diferente de msica, pensou com tristeza:
        -  Nunca mais vou ouvir uma coisa to linda!
        Quando os vivas cessaram, Hiroko ofereceu a flauta para Fallom:
        -  Tome, menina,  sua!
        Fallom fez meno de aceitar o presente, mas Bliss segurou o brao 
estendido da criana e disse:
        - No podemos ficar com ela, Hiroko.  um instrumento de valor 
inestimvel!
        -  Eu tenho outra, Bliss. No to boa quanto esta, mas  assim que deve 
ser: quem toca melhor merece o melhor. Nunca ouvi ningum tocar como essa 
menina toca e seria errado conservar um instrumento cujo potencial no sei 
explorar. Gostaria de saber tocar flauta desse jeito, sem tocar no instrumento.
        Fallom recebeu a flauta e a apertou contra o peito com uma expresso de 
profundo contentamento


83.

CADA UM dos dois quartos da casa que haviam reservado para eles dispunha de uma 
lmpada fluorescente. Havia uma terceira no banheiro. A luz era fraca, mal dava 
para ler, mas pelo menos no teriam que ficar no escuro.
        No momento, porm, no estavam ansiosos para se recolher. Fazia
uma noite 
estrelada, coisa que era sempre fascinante para os nativos de Terminus, onde o cu
noturno era praticamente sem estrelas, mostrando apenas o perfil indistinto da
Galxia.
        Hiroko os havia acompanhado at em casa, com medo de que tropeassem 
ou se perdessem no escuro. Durante todo o percurso havia caminhado de mos 
dadas com Fallom e no momento, depois de acender as lmpadas fluorescentes, 
estava do lado de fora da casa conversando com eles, ainda segurando a mo da 
criana.
        Bliss tentou de novo, pois para ela era evidente que Hiroko estava passando 
por um difcil conflito de emoes.
        -  Srio, Hiroko, no podemos ficar com a sua flauta.
        - No, ela j  de Fallom - insistiu Hiroko, mas de forma pouco 
convincente.
        Trevize continuou a olhar para o cu. Era uma noite escura, escurido essa 
que praticamente no era quebrada pela luz que vinha da casa e muito menos pelas 
luzes das casas vizinhas. Ele disse:
        -  Hiroko, est vendo aquela estrela? A mais brilhante do cu? Como se 
chama?
        Hiroko olhou para cima e disse, sem demonstrar nenhum interesse especial:
        -   a Companheira.
        -  Por que tem esse nome?
        -  A Companheira d uma volta em torno do nosso sol a cada oitenta anos. 
Nesta poca do ano, aparece de noite, mas existem ocasies em que aparece de dia.
        timo, pensou Trevize. Ela conhece alguma coisa de astronomia.
        -  Voc sabia que Alfa tem outra companheira, uma estrela menor e muito 
mais afastada que aquela que estamos observando, que s pode ser vista com um 
telescpio? - (Trevize havia descoberto essa informao nos bancos de memria do 
computador.).
        -  Aprendemos isso na escola - disse a jovem, com indiferena.
        - Est bem. Agora responda a outra pergunta. Est vendo aquelas seis 
estrelas em ziguezague?
        -   Cassiopia - disse Hiroko.
        -  Verdade? - exclamou Trevize, espantado. - Qual das estrelas?
        -  Todas elas. As seis estrelas so chamadas de Cassiopia.
        -  Por qu?
        -  No sei.
        -  Est vendo a estrela que fica na ponta de baixo do ziguezague? A mais 
brilhante das seis? Como se chama?
        -  No sei.
        -  Acontece que, com exceo das duas Companheiras, aquela  a estrela 
mais prxima de Alfa. Est a pouco mais de um parsec de distncia.
        -   mesmo? Eu no sabia.
        -  Ser que no  a estrela em torno da qual  gira a Terra? Hiroko olhou 
para a estrela com um pouquinho mais de interesse.
        -  No sei. Nunca ouvi ningum dizer isso alm de vs.
        -  Acha que  possvel?
        -  Como posso achar alguma coisa? Ningum sabe onde fica a Terra. Eu... 
agora preciso ir. Vou ter que trabalhar no campo amanh cedo, antes da festa na 
praia. Ns nos encontraremos na praia, logo depois do almoo. Est bem?
        -  Est bem, Hiroko.
        A jovem foi embora com passos apressados. Trevize seguiu-a com os olhos 
at desaparecer na escurido. Depois, ele e os outros entraram na casa.
        Trevize perguntou para Bliss:
        -  Voc sabe se ela estava mentindo a respeito da Terra, Bliss? Bliss sacudiu 
a cabea.
        -  Acho que disse a verdade. Ela est sob uma enorme tenso, uma coisa 
que s percebi depois do concerto. Entretanto, j estava assim antes de voc 
perguntar a respeito das estrelas.
        -  Acha que foi porque ela deu a flauta a Fallom?
        -  Pode ser.  difcil dizer. Voltou-se para Fallom.
        -  Agora, Fallom, quero que v para o seu quarto. Quando estiver pronta 
para dormir, v at o banheiro, use a privada, lave as mos e escove os dentes.
        -  Eu queria tocar flauta, Bliss.
        -  S um pouquinho, e bem baixinho. Est entendendo, Fallom? E pare 
quando eu disse para parar.
        - Est bem, Bliss.
        Os trs ficaram sozinhos, Bliss na nica cadeira do aposento e os homens 
sentados cada um na sua cama.
        - H alguma razo para ficarmos mais tempo neste planeta? - perguntou 
Bliss.
        Trevize deu de ombros.
        - Ainda no tivemos oportunidade de perguntar se aqueles instrumentos 
musicais so semelhantes aos que eram usados na Terra. Tambm vale a pena 
esperarmos a volta da frota pesqueira. Talvez os homens que esto no mar possam 
nos fornecer alguma informao importante.
        -   muito pouco provvel - disse Bliss. - Tem certeza de que no so os 
olhos negros de Hiroko que esto retendo voc aqui?
        -  No entendo voc, Bliss - disse Trevize, irritado. - O que tem a ver com 
a minha vida sexual? O que  que lhe d o direito de me julgar em questes de 
moral?
        -  No  uma questo de moral. Estou preocupada  com a nossa expedio. 
Voc quer encontrar a Terra para finalmente poder decidir se estava certo quando 
escolheu Gaia como o futuro da Galxia. Quero que voc decida logo. Voc diz que 
precisa visitar a Terra para tomar a deciso e parece estar convencido de que a 
Terra gira em torno daquela estrela que estamos vendo no cu. Por que, ento, no 
vamos at l? Concordo que seria bom se tivssemos mais informaes a respeito 
da Terra, mas estou convencida de que aqui no  o lugar para consegui-las. No 
quero ficar simplesmente porque voc gostou de Hiroko.
        - Talvez voc tenha razo - disse Trevize. - D-me algum tempo para 
pensar. Prometo que no deixarei que Hiroko influencie minha deciso.
        Pelorat disse:
        - Acho que devemos ir j para a Terra, nem que seja s para verificar se est 
radioativa ou no. No vejo nenhuma razo para ficarmos mais tempo aqui em Alfa.
        - Tm certeza de que no so os olhos negros de Bliss que esto fazendo
voc querer sair daqui? - disse Trevize, ironicamente. Logo em seguida, corrigiu-se:
        - No, no, retiro o que disse, Janov. Estou sendo infantil. Entretanto... este
 um mundo maravilhoso, mesmo sem falar em Hiroko. Em outras circunstncias,
sentir-me-ia tentado a permanecer aqui indefinidamente... No acha, Bliss, que Alfa
acaba com a sua teoria a respeito dos Isolados?
        -  De que forma? - perguntou Bliss.
        -  Voc tem sustentado que todos os mundos isolados se tornam perigosos e 
hostis.
        -  At mesmo Comporellon - disse a moa -, que est um pouco afastado 
das atividades principais da Galxia, embora, teoricamente, seja um planeta 
associado  Fundao.
        -  Mas no Alfa! Este mundo  totalmente isolado, mas nem por isso deixa 
de ser um mundo amistoso e hospitaleiro. Eles nos do comida, roupas e abrigo, 
organizam festivais em nossa homenagem, aceitam-nos como somos. Acha que vou 
me queixar deles?
        -  Claro que no. Hiroko chegou a oferecer a voc seu prprio corpo...
        -  Bliss, por que insiste neste assunto? Ela no me ofereceu o corpo. Ns 
nos oferecemos nossos corpos. Foi muito agradvel, muito natural. Voc no faz o 
que quer com o seu corpo?
        -  Por favor, Bliss - disse Pelorat. - Golan est certo. Voc no tem nada 
com seus prazeres pessoais.
        -  Contanto que no nos afetem - insistiu Bliss.
        - Eles no nos afetam - assegurou Trevize. - Partiremos em breve. 
Prometo.
        -  No confio em Isolados - disse Bliss - mesmo quando trazem presentes.
        Trevize levantou os braos.
        - Comea pela concluso e depois distorce as provas de acordo com as 
convenincias. Uma atitude tipicamente...
        -  No diga isso! - advertiu Bliss, muito sria. - No sou uma mulher. Eu 
sou Gaia.  Gaia que est preocupado.
        -  No h razo para...
        Trevize ouviu algum bater de leve  porta. - Quem ? - perguntou, em voz 
baixa. Bliss franziu a testa.
        -  Por que no abre para ver? No  voc que est dizendo que este mundo  
amistoso e no oferece nenhum perigo?
        Mesmo assim, Trevize hesitou at que uma voz melodiosa se fez ouvir do 
outro lado da porta. -Abri, por favor. Sou eu! Era a voz de Hiroko. Trevize abriu a 
porta. Hiroko entrou rapidamente. O rosto estava molhado.
        -  Fechai a porta - disse, ofegante.
        -  Que foi que houve? - perguntou Bliss. Hiroko agarrou Trevize pelo brao.
        -  No pude deixar que acontecesse. Tentei, mas no tive foras. Vo 
embora, todos vs. Levai a criana. Fugi de Alfa antes que amanhea.
        - Por qu? - perguntou Trevize.
        -  Porque, se ficarem, morrereis, todos vs.


84.

OS TRS adultos ficaram olhando para Hiroko sem saber o que pensar.
        Finalmente, Trevize perguntou:
        - Est dizendo que seu povo est disposto a nos matar? Hiroko explicou, 
com as lgrimas a rolar pelo rosto:
        - J estais a caminho da morte, meu querido Trevize. E os outros 
convosco... H muito tempo, nossos cientistas criaram um vrus que  inofensivo 
para ns, mas mortal para qualquer estrangeiro. Ns j nascemos imunes. Vs 
fostes infectado.
        -  Como?
        -  Quando tivemos prazer juntos.  uma das maneiras...
        -  Mas estou me sentindo muito bem! - protestou Trevize.
        -  O vrus ainda est inativo. Ele s ser ativado depois que os pescadores 
voltarem. De acordo com as nossas leis, a deciso ter que ser tomada por todos, 
at mesmo os homens. Sabemos qual ser a deciso, mas fomos encarregados de 
manter-vos aqui durante os prximos dois dias. Se partirdes agora, enquanto ainda 
est escuro, ningum vai desconfiar
        -  Por que vocs fazem isso? - perguntou Bliss
        - Por uma questo de segurana. Somos poucos e temos muito. No 
queremos ser invadidos por intrusos de outros planetas. Se algum desembarcar 
aqui e voltar ao seu mundo para contar o que viu, outros viro. Por isso, quando 
uma nave nos visita, o que no  muito comum, tomamos providncias para que 
nunca mais saia de Alfa.
        -  Ento por que est nos ajudando a fugir? - perguntou Trevize.
        -  Agora mesmo estais ouvindo o motivo, prestai ateno No quarto ao lado, 
Fallom estava tocando uma melodia muito suave... e extremamente doce -  No 
pude suportar a idia de ver essa msica destruda, porque a criana tambm teria 
que morrer.
        -  Foi por isso que deu a flauta a Fallom? - perguntou Trevize em tom de 
censura. - Porque pretendia recuper-la depois que ela morresse?
        Hiroko pareceu horrorizada.
        -  No, no foi isso que pensei. E quando a idia me veio  mente, percebi 
que no teria coragem de permitir que acontecesse. Parti com a criana e levai a 
flauta. Estareis a salvo no espao e, se no for ativado, o vrus que est no vosso 
corpo morrer em pouco tempo. Como retribuio, peo que no conteis a ningum 
a respeito deste mundo.
        -  No vamos contar a ningum - assegurou Trevize.
         Hiroko perguntou em voz baixa:
        -  No quereis me dar um beijo de despedida?
        -  No - disse Trevize. - J fui infectado uma vez e  o suficiente.
        Acrescentou, em tom mais carinhoso:
        - No chore, Hiroko. As pessoas vo perguntar por que est chorando e voc
no poder explicar... Vou perdoando que fez comigo, em vista do esforo que est
fazendo para nos salvar.
        Hiroko endireitou o corpo, enxugou o rosto com as costas da mo, respirou 
fundo e disse, antes de ir embora:
        -  Obrigada por tudo.
        Trevize disse para os outros:
        -  Vamos apagar as luzes, esperar um pouco e partir. Bliss, diga a Fallom 
para parar de tocar. No se esquea de levar a flauta... Vamos direto para a nave, se 
conseguirmos encontr-la no escuro.
        -  Pode deixar comigo - disse Bliss. - H algumas roupas minhas a bordo 
e elas tambm so Gaia. Gaia no tem dificuldade para localizar Gaia.
        A moa saiu para ir chamar Fallom. Pelorat disse:
        -  Ser que os alfanos danificaram nossa nave para ter certeza de que no 
poderamos fugir do planeta?
        -  Eles no tm tecnologia para isso - disse Trevize. Quando Bliss voltou, 
levando Fallom pela mo, Trevize apagou as luzes.
        Ficaram sentados no escuro pelo que pareceu metade da noite, mas que na 
verdade no passou de meia hora. Ento, Trevize levantou-se e abriu a porta com 
cuidado. O cu parecia um pouco mais nublado, mas ainda eram visveis muitas 
estrelas. Cassiopia estava alta no cu, com a estrela que poderia ser o sol da Terra 
em uma das extremidades. No havia vento e o silncio era total.
        Trevize saiu da casa e fez um gesto para que os outros o seguissem. Uma das 
mos procurou, quase automaticamente, a coronha do chicote neurnico. Tinha 
certeza de que no precisaria us-lo, mas...
        Bliss foi na frente, segurando a mo de Pelorat, que segurou de Trevize. A 
outra mo de Bliss segurava Fallom e a outra mo de Fallom segurava a flauta. 
Apalpando o caminho com os ps na obscuridade quase total, Bliss guiou os outros 
para o local onde sentia, fracamente, a presena de Gaia em suas roupas a bordo
do Estrela Distante.















PARTE SETE
 

TERRA II


Captulo 19

Radioativa?





85.

O ESTRELA DISTANTE decolou silenciosamente, deixando para trs a ilha escura. Os
poucos pontos de luz que havia na terra foram ficando mais fracos at 
desaparecerem. Quando a altitude tornou a atmosfera mais rarefeita, a velocidade 
da nave aumentou e os pontos de luz que havia no cu ficaram mais fortes e mais 
numerosos.
        Pouco depois, o planeta Alfa estava reduzido a um crescente iluminado, 
quase totalmente coberto por nuvens.
        -  Duvido que eles tenham naves espaciais - disse Pelorat. - Conseguimos 
escapar.
        - Isso no me serve de consolo - disse Trevize, tristemente. - Estou 
contaminado.
        -  O vrus no est ativo - disse Bliss.
        -  Mas pode ser ativado. Eles tinham um mtodo. Qual  o mtodo?
        Bliss deu de ombros.
        -  Hiroko disse que se o vrus no fosse ativado, morreria rapidamente.
        -  Foi? E como  que ela sabe? Pior ainda, como  que ns sabemos que 
estava dizendo a verdade? Mesmo que estivesse, ser que o mtodo de ativao no 
pode ser duplicado naturalmente? Um certo produto qumico, um tipo de radiao, 
um... um sabe l o qu? Posso ficar doente a qualquer momento e nesse caso vocs 
trs tambm morrero. Se isso acontecer depois que chegarmos a um planeta 
habitado, pode haver uma grande epidemia, que os viajantes se encarregaro de 
espalhar por toda a Galxia! Olhou para Bliss.
        -  H alguma coisa que voc possa fazer? A moa balanou a cabea.
        - No  fcil. Gaia tem muitos parasitas: microorganismos, vermes. Eles 
esto perfeitamente integrados ao ecossistema. Vivem e contribuem para a 
conscincia global, mas jamais se reproduzem em excesso. O problema, Trevize,  
que o vrus que contaminou voc no  parte de Gaia.
        - Voc disse que "no  fcil". Dadas as circunstncias, pode se dar ao 
trabalho de fazer alguma coisa, mesmo que seja difcil? Capaz de localizar o vrus 
dentro do meu organismo e destru-lo? Se no for, pode pelo menos reforar minhas
defesas imunolgicas?
        -  Faz idia do que est me pedindo, Trevize? No estou familiarizada com a 
flora microscpica que habita o seu corpo. No ser fcil distinguir o material 
gentico do vrus do seu material gentico. Pode ser ainda mais difcil distinguir o 
vrus em que estamos interessado dos vrus inofensivos que vivem nas suas clulas. 
Vou tentar, Trevize mas levar tempo e no posso garantir nada.
        -  Leve o tempo que quiser - disse Trevize -, mas tente!
        -  Est bem - disse Bliss Pelorat interveio:
        -  Se Hiroko disse a verdade, Bliss, talvez voc possa procura um vrus cuja 
vitalidade esteja diminuindo e acelerar esse declnio.
        -  Boa idia - disse Bliss.
        -  No vai fraquejar? - perguntou Trevize. - Quando mata os vrus, estar 
destruindo preciosos pedaos de vida, voc sabe...
        - Est sendo irnico, Trevize, mas o que disse no deixa de ser verdade. 
Acontece que voc  mais importante que o vrus. No se preocupe: se tiver uma 
oportunidade de matar o vrus, no hesitarei. Mesmo que no fosse por voc - os 
lbios da moa se contraram, com se ela estivesse reprimindo um sorriso -, teria 
que pensar em Pelorat e Fallom, que correm praticamente o mesmo risco. Eu 
mesma estou correndo perigo...
        - No confio muito no seu instinto de autopreservao - murmurou 
Trevize. - Voc estaria perfeitamente disposta a dar a vi por alguma causa nobre. 
Entretanto, acredito na sua preocupao com o bem-estar de Pelorat e da criana... 
por falar nisso, no estou ouvindo a flauta de Fallom. Alguma coisa de errado com 
ela?
        - No - respondeu Bliss. - Est dormindo. Um sono perfeitamente normal. 
Sugiro que, depois que voc calcular o Salto at a estrela que pensamos ser o sol da 
Terra, ns todos vamos para a cama. Estou muito cansada e suponho que voc 
tambm esteja.
        -  Claro que estou, mas no sei se vou conseguir dormir. Bliss, voc tinha 
razo.
        -  A respeito de qu?
        -  A respeito dos Isolados. Apesar das aparncias, a Nova Terra no era um 
paraso. Inicialmente, eles nos trataram bem apenas para nos deixar  vontade, 
para que pudessem contaminar um de ns sem que percebssemos. Depois, toda 
aquela encenao, com festivais disso e daquilo, tinha por objetivo ganhar tempo 
at que os pescadores chegassem e o vrus pudesse ser ativado. E teria dado certo, 
se no fosse por causa de Fallom e sua msica. Nesse ponto voc tambm estava 
certa.
        - Est falando de Fallom?
        - Isso mesmo. Eu no queria traz-la e sua presena a bordo sempre me 
desagradou. Foi exclusivamente graas a voc, Bliss, que ela est aqui, e foi ela que 
involuntariamente nos salvou a todos. Mesmo assim...
        -  Mesmo assim o qu?
        - Mesmo assim, ainda me sinto pouco  vontade na presena de Fallom. 
No sei por qu.
        -  Se isso o faz sentir-se melhor, Trevize, acho que o mrito no foi apenas 
de Fallom. Hiroko usou a msica de Fallom como desculpa para cometer o que os 
alfanos devem considerar como ato de traio. Talvez acreditasse nisso, mas havia 
outra coisa no seu subconsciente, algo que percebi mas no pude identificar com 
clareza, algo que talvez tivesse vergonha de encarar de frente. Tenho a impresso de 
que Hiroko se sentia atrada por voc e no teve coragem de sentir-se responsvel 
pela sua morte.
        -  Acha mesmo? - perguntou Trevize, sorrindo pela primeira vez desde que 
haviam partido de Alfa.
        -  Acho. Deve ser alguma coisa na maneira como trata as mulheres. 
Conseguiu convencer a ministro Lizalor a nos deixar partir e agora, graas a voc, 
Hiroko decide poupar nossas vidas. Est de parabns.
        O sorriso de Trevize aumentou.
        - Obrigado... bom, vamos para a Terra!
        Dirigiu-se para a sala de comando em um passo quase saltitante.
        - Voc acabou encontrando um jeito de acalm-lo, no , Bliss?
        - No, Pelorat, no mexi na mente de Trevize.
        - Claro que mexeu, quando gratificou a sua vaidade masculina de forma to 
escandalosa.
        - Se mexi, foi apenas de forma indireta - disse Bliss, sorrindo.
        - Mesmo assim, obrigado, Bliss.


86.

DEPOIS DO Salto, a estrela que poderia ser o sol da Terra ainda estava a um dcimo 
de parsec de distncia. Era de longe o astro mais brilhante do cu, mas ainda no 
passava de uma estrela.
        Trevize examinou-a na tela do telescpio. Ele disse:
        -   muito parecida com Alfa, a estrela da Nova Terra. No entanto, Alfa 
consta do mapa do computador e esta estrela, no.
        -  No  o que devamos esperar se essa estrela fosse o sol da Terra? -
perguntou Pelorat. - No se esquea de que, aparentemente, algum est 
empenhado em eliminar todas as informaes que existem a respeito da Terra.
        -  Sim, mas pode ser tambm que se trate de um planeta dos Espaciais que 
no conste da lista que encontramos naquele palcio de Melpomenia. Nada nos 
garante que aquela lista estivesse completa. Pode ser tambm que esta estrela no 
tenha nenhum planeta e por isso no aparea no mapa do computador, que  
usado principalmente para fins comerciais e militares... Janov, existe alguma lenda 
a respeito de uma estrela semelhante ao sol da Terra a pouco mais de um parsec de
distncia?
        Pelorat balanou a cabea.
        -  Sinto muito, Golan, mas no me lembro de nenhuma histria desse tipo. 
Isso, porm, no quer dizer que no exista. Minha memria no  perfeita. Se 
quiser, posso dar uma busca na biblioteca de bordo.
        -  No  importante. O sol da Terra tem um nome?
        - O sol da Terra tem vrios nomes. Acho que deve haver um nome para cada 
uma das antigas lnguas da Terra.
        -  Esqueci-me de que a Terra tinha vrias lnguas.
        -  Deve ter tido. Muitas das lendas se referem diretamente a esse fato.
        -  O que faremos, ento? - disse Trevize, irritado. - A essa distncia, no 
podemos dizer nada sobre os planetas dessa estrela se  que existem. Vamos ter 
que chegar mais perto. Gostaria de ser cauteloso, mas no quero exagerar; a 
verdade  que no vejo nenhum sinal de perigo. Provavelmente, qualquer coisa 
suficientemente poderosa para apagar as informaes existentes sobre a Terra em 
toda a Galxia seria suficientemente poderosa para acabar conosco agora mesmo, 
se quisesse. No  racional ficarmos aqui para sempre s porque estamos com 
medo de que algo acontea se chegarmos mais perto. 
        -  Presumo que o computador no detectou nada que possa ser interpretado 
como perigoso - disse Bliss.
        - Quando disse que no via sinais de perigo, estava me referindo 
exatamente s observaes do computador.  evidente que no estou vendo nada a 
olho nu. Seria impossvel.
        - Ento o que voc est fazendo  perguntar se concordamos com uma 
deciso que considera arriscada. Por mim, est bem. No viemos at aqui para 
desistir sem uma boa razo, no  mesmo?
        -   o que eu acho - disse Trevize. - E voc, Pelorat?
        - Tambm acho que devemos prosseguir, nem que seja por mera 
curiosidade. Seria insuportvel voltar para casa sem termos certeza de que 
encontramos a Terra.
        -  Ento estamos todos de acordo - disse Trevize.
        -  No sei - disse Pelorat. - Voc no perguntou a Fallom. Trevize parecia 
indignado.
        - Est querendo que eu consulte a criana? De que vale a opinio dela, 
mesmo que tenha uma? Alm disso, provavelmente tudo o que quer  voltar a 
Solaria!
        -  Pode culp-la por isso? - perguntou Bliss.
        Como haviam falado de Fallom, Trevize de repente se deu conta de que a 
criana estava tocando a flauta. Era uma marcha com um ritmo alegre e 
contagiante.
        -  Escutem s - disse ele. - Quem lhe ensinou a tocar marchas?
        -  Talvez tenha aprendido com Jemby. Trevize sacudiu a cabea.
        -  Duvido. Provavelmente o rob s tocava cantigas de ninar, coisas assim... 
Escute, Fallom me d arrepios. Ela aprende depressa demais!
        -  Eu ensinei muita coisa a ela, no se esquea - disse Bliss. - Alm disso, 
 uma criana muito inteligente e foi bastante estimulada desde que est conosco. 
Sua mente foi inundada por novos conhecimentos e sensaes. Viajou pelo espao, 
visitou um outro mundo, esteve pela primeira vez com muitas pessoas.
        A marcha que Fallom estava tocando ficou mais frentica. Trevize suspirou e 
disse:
        -  Seja como for, ela est aqui, tocando uma msica que irradia otimismo e 
entusiasmo. Vou tomar isso como um voto para prosseguirmos. Vamos em frente, 
ento. Daqui a pouco estaremos em condies de examinar o sistema planetrio.
        -  Se  que ele existe - disse Bliss. Trevize sorriu.
        -  Claro que existe. Aposto quanto quiser. Escolha a quantia.


87.

- VOC PERDEU - disse Trevize, distraidamente. - Quanto foi mesmo que 
apostamos?
        -  Nada. No concordei com a aposta - disse Bliss.
        -  D no mesmo. Eu no aceitaria o seu dinheiro. Estavam a dez bilhes de 
quilmetros do sol. Ainda parecia uma estrela; seu brilho era apenas 1/4.000 do 
que seria quando visto da superfcie do planeta habitvel.
        -  Estou vendo dois planetas no telescpio - disse Trevize. - Pelo dimetro 
e pelo espectro da luz refletida, so dois gigantes gasosos.
        A nave estava bem acima do plano da eclptica e Bliss e Pelorat, olhando por 
cima do ombro de Trevize, viram na tela dois pequenos crescentes esverdeados. O 
menor estava em uma fase que tornava o! crescente menos estreito que o outro.
        Trevize perguntou:
        - Janov, no  verdade que o sistema da Terra tem quatro gigantes gasosos?
        -   o que dizem as lendas.
        -  O maior  o que fica mais prximo do sol; o segundo mais prximo do sol 
 o que tem anis. Estou certo?
        -  Anis muito grandes, Golan. Sim. Acontece, meu velho amigo, que as 
lendas geralmente exageram muito. Mesmo que no encontremos um planeta com 
anis gigantescos, isso no quer dizer que este no seja o sistema da Terra.
        -  De qualquer forma, os planetas que estamos vendo devem ser os dois 
mais afastados; os dois gigantes gasosos mais prximos podem muito bem estar do 
outro lado do sol, difceis de distinguir das estrelas. Vamos ter que chegar ainda 
mais perto... e passar para o outro lado do sol.
        -  Podemos fazer isso to perto da massa do sol?
        -  Podemos tentar. Se o computador achar que  muito arriscado, ele se 
recusar a obedecer-me e teremos que fazer a viagem em saltos menores.
        Trevize transmitiu as instrues para o computador e a imagem na tela do 
telescpio mudou bruscamente. A estrela ficou muito mais brilhante e depois saiu 
da tela quando o telescpio comeou a esquadrinhar o cu  procura de outro 
gigante gasoso. Afinal, teve sucesso.
        Os trs adultos ficaram olhando, atnitos, enquanto Trevize, quase 
paralisado de espanto, tentava ajustar o telescpio para aumentar a ampliao.
        -   incrvel... - murmurou Bliss.



88.

O TELESCPIO mostrava um gigante gasoso, visto de um ngulo tal que quase toda a 
superfcie estava iluminada. Em volta do planeta havia um anel largo e muito 
brilhante, dividido em dois por uma fenda escura.
        Trevize conseguiu afinal aumentar a ampliao e o anel se dividiu em 
centenas de pequenos anis concntricos. Apenas uma parte do sistema de anis 
era visvel na tela e o planeta havia ficado de fora. Uma nova instruo de Trevize e 
um canto da tela passou a mostrar a imagem do planeta e seus anis, vistos com 
uma ampliao menor.
        -  Esse tipo de coisa  comum? - perguntou Bliss, admirada.
        -  No - respondeu Trevize. - Quase todo gigante gasoso tem anis, mas
em geral eles so estreitos e pouco luminosos. Na verdade, nunca vi nada parecido
com isso, nem imaginava que fosse possvel.
        -   sem dvida o gigante com anis de que falam as lendas - disse Pelorat. 
        - Se anis assim so to raros como est dizendo...
        -  Nunca ouvi falar de um caso semelhante. Nem o computador.
        -  Ento este tem que ser o sistema planetrio da Terra. Ningum poderia 
inventar um planeta como o que estamos vendo.
        -  Depois disso, estou preparado para acreditar em qualquer coisa que suas 
lendas afirmem - disse Trevize. - Este  o sexto planeta e a Terra seria o terceiro?
        -  Isso mesmo, Golan.
        -  Ento eu diria que estamos a menos de um e meio bilho de quilmetros 
da Terra e ningum ainda fez nada para nos deter. Lembra-se do que Gaia fez 
quando nos aproximamos?
        -  Vocs estavam mais prximos de Gaia quando foram interceptados - 
disse Bliss.
        -  Acontece - disse Trevize - que na minha opinio a Terra  mais 
poderosa do que Gaia, de modo que considero isso um bom sinal. Se ainda no 
fomos detidos, deve ser porque a Terra no se importa de ser visitada.
        -  Ou porque a Terra no existe - disse Bliss.
        -  Vamos fazer uma aposta desta vez? - props Trevize, irritado.
        -  Acho que o que Bliss quis dizer - interveio Pelorat -  que pode ser que 
a Terra ainda esteja radioativa, como todo mundo parece pensar, e que ainda no 
fomos detidos porque no existe vida na Terra.
        -  No! - protestou Trevize, com veemncia. - Posso acreditar em tudo que 
disseram sobre a Terra menos nisso. Vamos chegar mais perto e logo saberemos a 
verdade.


89.

Os GIGANTES gasosos tinham ficado para trs. Depois do gigante gasoso mais 
prximo do sol, haviam passado por um cinturo de asterides. (Aquele gigante 
gasoso era o maior de todos, exatamente como diziam as lendas.). Depois do 
cinturo de esterides havia quatro planetas.
        Trevize examinou-os com cuidado.
        -  O maior  o terceiro. O  tamanho e a distncia do sol so apropriados. 
Pode ser habitvel.
        Pelorat captou o que parecia ser um trao de insegurana na voz de Trevize. 
Perguntou:
        -  O planeta tem atmosfera?
        -  Oh, sim! - respondeu Trevize. - O segundo, terceiro e quarto planetas 
tm atmosfera. Como naquela histria infantil, a do segundo  densa demais, a do
quarto no  suficientemente densa e a do terceiro tem a densidade certa.
        -  Ento acha que pode ser a Terra?
        -  Se eu acho? - explodiu Trevize. - No preciso achar!  a Terra. Com o 
satlite gigante e tudo!
        -  Verdade?
        O rosto de Pelorat se abriu no sorriso mais largo que Trevize jamais havia 
visto.
        -  Tenho certeza! Olhe voc mesmo.
        Pelorat viu dois crescentes, um muito maior e mais brilhante que o outro.
        -  O  menor  o satlite? - perguntou.
        -  . Est mais longe do planeta do que se poderia imaginar, mas se trata 
indiscutivelmente de um satlite. Seu tamanho  o de um pequeno planeta; na 
verdade,  menor que qualquer dos quatro planetas interiores. Mesmo assim,  bem 
grande para um satlite. Tem pelo menos dois mil quilmetros de dimetro, o que o 
torna to grande quanto os maiores satlites dos gigantes gasosos.
        -  S isso? - Pelorat parecia desapontado. - Ento no  um satlite 
gigantesco?
        -  , sim. Um satlite de dois ou trs mil quilmetros de dimetro girando 
em torno de um gigante gasoso  uma coisa. O  mesmo satlite girando em torno de 
um pequeno planeta rochoso  outra completamente diferente. O dimetro daquele 
satlite  um quarto do dimetro da Terra. Acha isso normal?
        -  No entendo dessas coisas - disse Pelorat, timidamente.
        -  Ento acredite em mim, Janov.  uma coisa rarssima! O que estamos 
vendo  praticamente um planeta duplo, enquanto que os satlites dos planetas 
habitveis em geral so muito pequenos... Janov, se voc pensar naquele gigante 
gasoso com um sistema de anis e neste planeta com um satlite gigantesco, ambos 
correspondendo exatamente ao que as lendas descreviam, e que nos parecia um 
despropsito, ver que no h engano possvel: este planeta tem que ser a Terra. 
Ns a encontramos, Janov! Ns a encontramos!


90.

ESTAVAM VIAJANDO h dois dias em direo  Terra e Bliss bocejou enquanto 
jantavam. Ela disse:
        - Parece que passamos mais tempo nos aproximando e nos afastando dos
planetas do que fazendo qualquer outra coisa.
        - Em geral isso acontece porque  perigoso executar o Salto quando estamos
muito perto de uma estrela - disse Trevize. - Neste caso, porm, estamos indo 
ainda mais devagar porque no quero arriscar mais que o necessrio.
        -  Voc no disse que tinha o palpite de que no seremos interceptados?
        -  Disse, mas no quero ser imprudente por causa de um mero palpite.
        Trevize olhou para o contedo da colher antes de lev-la  boca  disse:
        -  Sinto falta do peixe de Alfa. Pensando bem, s comemos trs refeies l.
        -  Uma pena - concordou Pelorat.
        -  At agora visitamos cinco planetas. Pois de todas as vezes tivemos que 
partir com tanta pressa que no houve tempo para abastecermos a nave com 
alimentos locais. Mesmo quando havia facilidade de obter comida, como em 
Comporellon, em Alfa e provavelmente em...
        A jovem no completou a frase porque Fallom foi mais rpida.
        -  Em Solaria? Vocs no conseguiram comida em Solaria? H muita 
comida l. Melhor do que a de Alfa.
        -  Eu sei disso, Fallom - disse Bliss. - S que no tivemos tempo.
        Fallom olhou para a jovem, muito sria.
        -  Ser que vou tornar a ver Jemby, Bliss? Diga-me a verdade.
        -  Pode ser, se voltarmos a Solaria - respondeu Bliss.
        -   Vamos voltar a Solaria? Bliss hesitou e depois disse:
        -  Isso eu no sei.
        -  Agora estamos indo para a Terra, no ? Para o planeta de onde todos ns 
viemos?
        -  De onde nossos antepassados vieram - disse Bliss.
        -  Eu j sei dizer "ancestrais" - disse Fallom.
        -  Sim, estamos indo para a Terra.
        -  Para qu?
        -  No  interessante conhecer o mundo dos nosso ancestrais?
        -  Acho que no  s isso. Vocs trs parecem to preocupados...
        -   porque nunca estivemos na Terra. No sabemos o que esperar.
        -  Acho que no  s isso. Bliss sorriu.
        -  Voc j acabou de comer, Fallom querida. Por que no vai at o seu 
quarto e toca um pouco de flauta para ns? Voc est tocando cada vez melhor. V, 
v.
        Deu um tapinha no traseiro da criana e Fallom foi para o quarto, parando 
uma vez no caminho para olhar desconfiada para Trevize.
        Trevize olhou de volta com manifesto desagrado.
        -  Ser que essa coisa  capaz de ler pensamentos?
        -  No a chame de "coisa", Trevize! - protestou Bliss.
        -  Ser que ela  capaz de ler pensamentos? Voc deve saber.
        -  No, ela no  capaz. Nem ela, nem Gaia, nem os membros da Segunda 
Fundao. Ler pensamentos, no sentido de ter uma idia exata do que uma pessoa 
est pensando,  uma coisa que ningum pode fazer atualmente, nem no futuro 
previsvel. Podemos sentir, interpretar e, at certo ponto, manipular as emoes 
alheias, mas isso no  a mesma coisa.
        - Como pode saber que ela no  capaz de fazer essa coisa que 
supostamente no pode ser feita?
        -  Como voc mesmo disse, eu saberia.
        -  Talvez ela esteja manipulando voc para que no perceba que est lendo 
pensamentos.
        Bliss revirou os olhos.
        -  Seja razovel, Trevize. Mesmo que Fallom tivesse poderes extraordinrios, 
no poderia fazer nada comigo, porque eu no sou Bliss, eu sou Gaia. Faz uma 
idia do poder mental de um planeta inteiro? Pensa que um Isolado, por mais 
talentoso que fosse, seria capaz de me iludir?
        - Voc no sabe tudo, Bliss - insistiu Trevize. - Essa coi... Ela est 
conosco h pouco tempo. Nesse tempo, eu mal teria conseguido aprender os 
rudimentos de uma lngua, e no entanto ela fala galctico praticamente sem 
sotaque e com um extenso vocabulrio. Sim, eu sei que voc a tem ajudado, mas 
gostaria que parasse.
        -  Eu lhe disse que estava ajudando Fallom, mas tambm disse que ela  
uma criana extraordinariamente inteligente. To inteligente que gostaria que 
fizesse parte de Gaia. Ela ainda  suficientemente imatura para adaptar-se a ns. 
Talvez um dia, com sua ajuda, possamos absorver todos os solarianos. Seria uma 
excelente aquisio para ns.
        -  J lhe ocorreu que os solarianos so Isolados patolgicos, mesmo de 
acordo com os meus padres?
        -  Eles mudariam quando passassem a fazer parte de Gaia.
        -  Acho que voc est errada, Bliss. Acho que a criana solariana  perigosa 
e que devemos nos livrar dela.
        -  Como? Vamos jog-la no espao? Vamos mat-la, parti-la em pedaos e 
com-la no jantar?
        -  Oh, Bliss! - exclamou Pelorat.
        -  Voc est sendo desagradvel sem necessidade - disse Trevize. Escutou 
por um momento. A flauta estava tocando sem hesitao e a conversa toda era em 
voz baixa. - Quando tudo isso terminar, vamos lev-la de volta para Solaria e 
tomar providncias para que Solaria deixe de ser uma ameaa para os viajantes 
incautos. Em minha opinio, talvez fosse melhor destruir o planeta de uma vez.
        Bliss pensou um pouco e disse:
        -  Trevize, sei que voc tem o dom de tomar as decises corretas, mas 
tambm sei que implicou com Fallom desde o princpio. Acho que isso aconteceu 
porque foi humilhado em Solaria e por isso desenvolveu um dio violento pelo 
planeta e seus habitantes. Como no quero intrometer-me em sua mente, no 
posso ter certeza. No se esquea, porm, de que se no tivssemos trazido Fallom 
conosco, ainda estaramos em Alfa... mortos e provavelmente enterrados.
        -  Sei disso, Bliss, mas mesmo assim...
        -  A inteligncia da criana  para ser admirada e no invejada!
        -  No invejo Fallom. Tenho medo dela!
        -  Da inteligncia dela?
        Trevize passou a lngua nos lbios, pensativamente.
        -  No, no da inteligncia.
        -  De qu, ento?
        -  No sei. Bliss, se eu soubesse do que tenho medo, talvez o medo 
desaparecesse.  alguma coisa que no consigo compreender muito bem. - Passou 
a falar mais baixo, como se estivesse conversando consigo mesmo. - A Galxia 
parece estar cheia de coisas que no compreendo. Por que optei por Gaia? Por que 
tenho que encontrar a Terra? A psico-histria inclui uma suposio desconhecida? 
Nesse caso, qual  essa suposio. Alm de tudo, por que Fallom me deixa nervoso?
       - Infelizmente, no posso responder a essas perguntas - disse Bliss.
        A moa se levantou e saiu da sala.
        -  No precisa ficar to preocupado, Golan - disse Pelorat. Estamos cada 
vez mais prximos da Terra; quando chegarmos l, to dos os mistrios sero 
esclarecidos. E at agora, ningum fez nada para nos deter.
        Trevize olhou para Pelorat e disse em voz baixa: - Preferia que algum 
fizesse alguma coisa.
        -   mesmo? Por qu?
        -  Pelo menos, seria um sinal de vida. Pelorat arregalou os olhos.
        -  Acha que a Terra est mesmo radioativa?
        -  Ainda  cedo para dizer. Descobri, porm, que ela est quente. Bem mais 
quente do que seria de esperar.
        -  Isso  mau?
        - No necessariamente. O  fato de a superfcie estar quente no a torna 
inabitvel. A camada de nuvens  espessa e as nuvens so de vapor d'gua, de 
modo que essas nuvens, juntamente com um oceano, poderiam manter a superfcie 
em condies tolerveis, apesar do calor que detectamos atravs das emisses de 
microondas. Ainda no tenho certeza. S que...
        - Sim, Golan?
        - S que se a Terra estiver radioativa, a temperatura da superfcie ser 
maior que o esperado.
        - Mas a recproca no  necessariamente verdadeira, no  mesmo? Se a 
temperatura  maior que o esperado, isso no significa que a Terra est radioativa.
        - Tem razo. No adianta especularmos, Janov. Dentro de um dia ou dois, 
teremos certeza.


91.

QUANDO BLISS entrou no quarto, Fallom estava sentada na cama, imersa em 
pensamentos. A criana olhou rapidamente para Bliss e tornou a baixar os olhos.
        -  Que foi que houve, Fallom? - perguntou a moa.
        -  Por que Trevize me detesta tanto, Bliss?
        -  O que  que faz voc pensar que ele a detesta?
        -  Ele olha para mim com impacincia...  essa a palavra?
        -  Pode ser.
        -  Ele olha para mim com impacincia o tempo todo. Alm disso, faz cara 
feia.
        -  Trevize est passando por momentos difceis, Fallom.
        -  Porque est procurando a Terra? 
        -  Sim.
        Fallom pensou um pouco e disse: 
        -  Ele fica mais impaciente ainda quando fao um objeto mover-se com a 
fora do pensamento.
        -  Fallom, eu j no lhe disse para no fazer mais isso, principalmente na 
presena de Trevize?
        -  Pois aconteceu ontem, aqui mesmo neste quarto. Ele estava na porta e eu 
no reparei. No sabia que estava me observando. Ento, fiz um dos livros de Pel 
ficar de p sem tocar nele. Que mal h nisso?
        -  Isso deixa Trevize nervoso, Fallom. No quero que faa de novo, mesmo 
que ele no esteja olhando.
        -  Ele fica nervoso porque no  capaz de fazer a mesma coisa?
        -  Pode ser.
        -  Voc  capaz?
        Bliss balanou a cabea devagar.
        -  No, no sou.
        -  Mesmo assim, voc no fica nervosa. Nem Pel.
        -  As pessoas so diferentes.
        -  Eu sei - disse Fallom, com uma amargura sbita que surpreendeu Bliss 
e a fez franzir a testa.
        -  Que  que voc sabe, Fallom?
        -  Que eu sou diferente.
        -  Claro que sim. Foi o que eu disse. As pessoas so diferentes.
        -  Eu sou mais diferente. Eu posso fazer as coisas se moverem sem tocar 
nelas.
        -   verdade.
        Fallom disse, com um trao de rebeldia na voz:
        -  Eu preciso fazer as coisas se moverem. Trevize no deve ficar zangado 
com isso. Voc no deve me impedir.
        -  Por que precisa fazer as coisas se moverem?
        -  Para praticar. Para me exercitar...  essa a palavra?
        -  Quase. Para se exercitar.
        -  Isso mesmo. Jemby sempre dizia que eu ia ter que treina meus... meus...
        -  Lobos transdutores?
        - Isso. S assim eles seriam fortes. Jemby me disse que quando eu 
crescesse poderia fornecer energia para todos os robs. At Jemby.
        -  Fallom, o que  que fornecia energia para os robs da sua casa.
        -  Bander - disse a criana, sem se perturbar
        -  Voc conhecia Bander?
        -  claro. Vi Bander muitas vezes. Eu era o seu sucessor. A propriedade de 
Bander um dia se tornaria a propriedade de Fallom. Foi Jemby que me contou.
        -  Quer dizer que Bander esteve no seu..
        A boca de Fallom formou um O de espanto. Ela disse, em tom chocado:
        -  Bander nunca viria ao meu...
        A criana pareceu ficar sem ar. Ofegou um pouco e depois explicou:
        -  Eu vi a imagem de Bander. Bliss perguntou:
        -  Como  que Bander tratava voc? Fallom olhou para Bliss, surpresa.
        -  Bander sempre me perguntava se eu precisava de alguma coisa, se estava 
me sentindo bem. Acontece que Jemby estava sempre perto de mim, de modo que 
eu nunca precisava de nada e sempre me sentia bem.
        A criana parou de falar e olhou para o cho. Depois, tapou os olhos com as 
mos e disse:
        - Mas Jemby parou de funcionar. Acho que foi porque Bander... Bander 
tambm parou de funcionar.
        -  Por que est dizendo isso? - perguntou Bliss.
        -  Estive pensando. Quem fornecia energia para todos os robs era Bander. 
Se Jemby parou e todos os robs tambm pararam, deve ter sido porque Bander 
parou. No parece lgico?
        Bliss ficou calada. Fallom disse:
        -  Mas quando vocs me levarem de volta para Solaria, vou fornecer energia 
para Jemby e o resto dos robs e tudo estar bem de novo.
        Comeou a soluar.
        - No se sente feliz conosco, Fallom? - perguntou Bliss. - Nem um 
pouquinho? Nem s vezes?
        Fallom levantou o rosto coberto de lgrimas para Bliss, sacudiu a cabea e 
disse, com voz trmula:
        -  Eu quero Jemby!
        Bliss abraou a criana com fora.
        -  Oh, Fallom, como eu gostaria de poder devolver voc a Jemby. De repente, 
a moa percebeu que tambm estava chorando.


92.

PELORAT entrou e encontrou as duas abraadas. Perguntou, surpreso:
        - Que foi que houve?
        Bliss levantou-se e comeou a procurar um leno de papel para enxugar os 
olhos. Sacudiu a cabea e Pelorat perguntou de novo, preocupado:
        -  Que foi que houve, afinal? Bliss disse:
        -  Fallom, descanse um pouco. Vou pensar em alguma coisa que a faa 
sentir-se melhor. No se esquea... eu amo voc tanto quanto Jemby.
        A jovem segurou Pelorat pelo brao e puxou-o para fora do quarto, dizendo:
        -  No  nada, Pel. Nada.
        -   Fallom, no ? Ela ainda sente falta de Jemby.
        -  Demais. E no h nada que eu possa fazer. Posso dizer que a amo... o que 
 verdade. Como posso deixar de amar uma criana to sensvel e inteligente? 
Muito inteligente. Inteligente demais, na opinio de Trevize. Sabia que conheceu 
Bander? Ou por outra, que viu a sua imagem hologrfica? Entretanto, no fica nem 
um pouquinho comovida quando se lembra de Bander e posso compreender por 
qu. A propriedade pertencia a Bander e, quando ela morresse, passaria a pertencer 
a Fallom. Essa era a nica relao entre as duas.
        -  Fallom sabe que Bander era seu pai?
        -  Sua me. Se combinamos que Fallom seria considerada como mulher, o 
mesmo se aplica a Bander.
        -  Est bem, Bliss querida. Fallom sabe que Bander era sua me?
        -  No sei se ela compreende bem o que isso significa. Se compreende, no 
deixou transparecer. Acontece, Pel, que Fallom j se deu conta de que Bander est 
morta. Ela percebeu que a desativao de Jemby foi conseqncia de uma falta de 
energia; como toda a energia da propriedade era fornecida por Bander... isso me 
assusta.
        -  Por qu, Bliss? Afinal de contas,  uma concluso lgica.
        -  Fallom pode tirar outra concluso lgica. As mortes devem ser raras em 
Solaria, onde a populao  pequena e vive muito tempo. Para uma criana da 
idade dela, a morte certamente parece um acontecimento extremamente improvvel. 
Se continuar a pensar na morte de Bander, vai querer saber por que Bander 
morreu. Ento vai se lembra de que isso aconteceu quando chegamos ao planeta e 
chegar  nica concluso possvel.
        -  De que ns matamos Bander?
        -  No fomos ns que matamos Bander, Pel. Fui eu.
        -  Isso ela no pode adivinhar.
        -  No, mas talvez tenha que contar-lhe. Fallom j no gosta muito de 
Trevize e ele  claramente o lder da expedio. Provavelmente vai considerar Trevize 
como responsvel pela morte de Bander e no posso permitir que cometa essa 
injustia.
        -  Por que no, Bliss? A criana no sentiu a morte do pai... a morte da 
me. Ficou triste foi com a perda do rob, Jemby.
        -  Acontece, Pel, que a morte da me significou a morte do rob. Quase 
contei a ela que eu fui a responsvel.
        -  Por qu?
        -  Porque assim teria uma oportunidade de explicar o que aconteceu. 
Porque assim poderia confort-la, antecipando-me a uma descoberta que a far 
pensar que Bander foi morta sem nenhuma razo.
        -  Acontece que houve uma razo. Se voc no agisse, Bander teria matado 
todos ns.
        -   isso o que eu pretendia dizer a Fallom, mas no tive coragem. Tive 
medo de que no acreditasse em mim.
        Pelorat sacudiu a cabea e disse:
        - Acha que seria melhor se no tivssemos trazido a criana? Voc parece 
to triste com a situao...
        - No diga isso! - protestou Bliss, com veemncia. - Ficaria muito mais 
triste se uma criana tivesse sido executada friamente por causa de um ato que eu 
cometi.
        -  No mundo de Fallom, isso  normal.
        -  No, Pel, no comece a falar como Trevize. Os Isolados conseguem aceitar 
essas coisas como naturais. O objetivo de Gaia, porm,  salvar vidas, e no 
destru-las... nem ficar impassvel enquanto vidas so destrudas. Sabemos muito 
bem que vidas de todos os tipos devem terminar para que outras vidas possam 
surgir, mas jamais gratuitamente, jamais sem um objetivo. A morte de Bander, 
embora inevitvel, j foi penosa para mim; a de Fallom teria sido insuportvel.
        - Est bem - disse Pelorat. - Acho que voc tem razo. De qualquer forma, 
no foi sobre Fallom que vim conversar com voc, e sim sobre Trevize.
        -  Que  que h com Trevize?
        -  Bliss, estou preocupado com ele. Est cada vez mais obcecado com a 
Terra. No sei se conseguir resistir  tenso.
        -  No tenha medo. Trevize  uma pessoa sensata e equilibrada.
        -  Todos ns temos os nossos limites. Bliss, a Terra  bem mais quente do 
que Trevize esperava. Ele mesmo me disse isso. Acho que est desconfiado de que  
quente demais para ser habitvel, embora esteja tentando convencer-se do 
contrrio. Mesmo que a temperatura permita a existncia de vida, Trevize admite 
que  possvel que o calor seja causado pela radioatividade. Em um dia ou dois, 
estaremos suficientemente prximos para ter certeza. E se a Terra for inabitvel?
        -  Ento ele ter que aceitar o fato.
        -  Mas... no sei como dizer  isso. E se Trevize..
        Bliss esperou um pouco e depois completou, com uma careta:
        -  Entrar em parafuso?
        -  Isso mesmo. Entrar em parafuso. No pode fazer alguma coisa para 
prevenir? Mant-lo calmo e controlado?
        -  No, Pel. No posso acreditar que Trevize seja to frgil e, de qualquer 
maneira, existe uma firme deciso por parte de Gaia de no interferir em sua 
mente.
        -  Mas  justamente isso o que me preocupa. Trevize tem esse dom de 
sempre tomar a deciso correta, esse "instinto", se  que podemos cham-lo assim. 
O choque de ver todo o projeto reduzir-se a nada no momento em que parecia 
prximo de uma concluso feliz pode no abalar o seu juzo, mas acabar com o 
"instinto". Voc disse que Trevize no  uma pessoa frgil. Como pode ter certeza de 
que o mesmo se aplica ao seu dom?
        Bliss pensou um pouco e depois deu de ombros:
        - , talvez seja melhor no perd-lo de vista.


93.

DURANTE AS 36 horas que se seguiram, Trevize percebeu vagamente que Bliss e 
Pelorat, este em menor grau, pareciam segui-lo para onde quer que fosse. 
Entretanto, tinha mais coisas com que se preocupar No momento, enquanto 
trabalhava com o computador, sabia que os dois estavam de p na porta da sala de 
comando. Levantou a cabea e olhou para eles, com o rosto sem expresso
        -  E ento? - disse, sem levantar a voz.
        -  Como est se sentindo, Golan? - perguntou Pelorat, pouco  vontade.
        -  Pergunte a Bliss - disse Trevize. - Ela est me vigiando h horas. 
Aposto que andou lendo minhas emoes... no  verdade, Bliss?
        -  No, no  verdade - declarou Bliss, com firmeza. - Mas se quiser 
minha ajuda, posso tentar. Voc est precisando de ajuda?
        -  No. Por que estaria? Deixem-me em paz. Vocs dois!
        -  Conte-nos o que est acontecendo, Golan - disse Pelorat.
        -  Adivinhe!
        -  A Terra est...
        -  Sim, est. Aquilo que todo mundo insistia em nos dizer  uma verdade 
irrefutvel.
        Trevize apontou para a tela, onde aparecia o lado escuro da Terra eclipsando 
o sol. Era um crculo negro contra o cu estrelado, a circunferncia marcada por 
uma linha interrompida de cor alaranjada.
        -  Esse laranja  a radioatividade? - perguntou Pelorat.
        -  No.  apenas a luz do sol refratada pela atmosfera. Seria uma linha 
contnua se no houvesse tantas nuvens na atmosfera. A radioatividade  invisvel. 
Todas as radiaes de alta energia, incluindo os raios gama, so absorvidas pela 
atmosfera. Entretanto, produzem radiaes secundrias que podem ser detectadas 
pelo computador. Mesmo as radiaes secundrias so invisveis a olho nu, mas o 
computador pode produzir uma imagem da Terra em cores falsas mostrando a 
distribuio das ondas e partculas que est recebendo do planeta. Observem!
        O crculo negro comeou a brilhar com vrias tonalidades de azul.
        -  Qual  o nvel de radioatividade? - perguntou Bliss. -  suficiente para 
termos certeza de que no existe vida humana?
        -  O suficiente para termos certeza de que no existe nenhum tipo de vida - 
disse Trevize. - O planeta  inabitvel. A ltima bactria, o ltimo vrus j morreu 
h muito tempo.
        -  Podemos explorar o planeta? - perguntou Pelorat. - Em trajes espaciais, 
quero dizer.
        -  Por algumas horas... se ficarmos mais tempo, comearemos a sofrer os 
efeitos da radiao.
        -  Ento o que vamos fazer, Golan?
        -  Fazer? - Trevize olhou para Pelorat sem demonstrar qualquer emoo. - 
Sabe o que eu gostaria de fazer? Gostaria de levar voc, Bliss e a criana de volta a 
Gaia e deix-los l para sempre. Ento voltaria a Terminus para devolver a nave. 
Depois, renunciaria a minha posio no Conselho, para satisfao da prefeito 
Branno. Minha penso de ex-conselheiro seria suficiente para viver 
confortavelmente o resto dos meus dias, sem me preocupar com a Galxia. No 
estou mais interessado no Plano de Seldon, na Fundao, na Segunda Fundao, 
nem em Gaia. A Galxia que escolha seu prprio caminho. Que me importa o que 
vai acontecer depois que eu estiver morto e enterrado?
        -  Golan, voc no pode estar falando srio! - exclamou Pelorat.
Trevize ficou olhando para o amigo por alguns momentos e depois suspirou fundo.
        -  No, no estou, mas como seria bom se pudesse fazer exatamente o que 
disse!
        -  Deixe para l. Exatamente o que pretende fazer?
        -  Manter a nave em rbita em torno da Terra, descansar, recuperar-me do 
choque e pensar no que fazer em seguida. S que...
        -  Sim? Trevize explodiu:
        -  Ser que existe alguma coisa para fazer? Onde mais vou procurar? Que 
mais posso descobrir?






























Captulo 20

O Mundo Vizinho





94.

J FAZIA quatro refeies que Pelorat e Bliss viam Trevize apenas durante as 
refeies. O resto do tempo ele passava sozinho no quarto ou na sala de controle. 
Enquanto estavam  mesa, no dizia nada e comia muito pouco.
        Na quarta refeio, porm, Pelorat teve a impresso de que o semblante do 
amigo parecia menos anuviado. Pelorat pigarreou duas vezes, como se estivesse se 
preparando para dizer alguma coisa, mas continuou calado.
        Por fim, Trevize olhou para ele e perguntou:
        -  O que ?
        -  Voc j... voc j decidiu o que fazer, Golan?
        -  Por que pergunta?
        -  Est parecendo menos desanimado.
        -  Ainda estou desanimado, mas andei pensando. Pensando muito.
        -  Podemos saber em qu? - perguntou Pelorat.
        Trevize olhou rapidamente na direo de Bliss. A jovem no havia tirado os 
olhos do prato  sua frente e mantinha-se em silncio, como se achasse que Pelorat 
teria mais sucesso que ela em arrancar alguma coisa de Trevize.
        -  Tambm est curiosa, Bliss? - perguntou Trevize.
        Bliss levantou os olhos.
        - Claro que sim.
        Fallom chutou uma perna da mesa e perguntou:
        -  Ns achamos a Terra?
        Bliss deu um belisco na criana. Trevize ignorou o gesto. Ele disse:
        -  Temos que comear com um fato sabido: todas as informaes que havia 
a respeito da Terra em vrios planetas desapareceram. Isto nos leva  concluso de 
que alguma coisa est sendo escondida na Terra. Acontece que, como sabemos 
agora com certeza, a Terra apresenta nveis muito elevados da radioatividade, de 
modo que tudo o que existe na Terra est automaticamente oculto. Ningum pode 
pousar na superfcie e desta distncia, perto dos limites da magnetosfera... e acho 
que se chegssemos um pouco mais perto no faria a menor diferena... no h 
nada para ser descoberto.
        -  Tem certeza? - perguntou Bliss.
        - Passei horas no computador, analisando a Terra de todas as formas 
possveis. No h nada. Alm do mais, estou sentindo que no h nada. Por que, 
ento, as informaes sobre a Terra foram eliminadas? No basta a radioatividade 
para impedir que qualquer ser humano tenha acesso aos segredos da Terra?
        - Pode ser - disse Pelorat - que houvesse realmente alguma coisa 
escondida na Terra na poca em que os ndices de radioatividade no eram to 
elevados e ainda era possvel desembarcar no planeta. Nesse caso, os habitantes da 
Terra teriam motivo para temer que algum descobrisse os seus segredos. Foi 
naquela poca que a Terra tentou apagar todos os vestgios a respeito de sua 
existncia. O que temos agora so os vestgios daquele tempo de insegurana.
        -  No, no pode ser - disse Trevize. - As informaes que haviam na 
Biblioteca Imperial de Trantor foram removidas h muito pouco tempo. No  
verdade, Bliss? - perguntou, voltando-se para a moa
        -  Pelo menos, foi o que eu/ns/Gaia conseguimos detectar na mente de
Guendibal, da Segunda Fundao, durante o encontro que eu, voc e ele tivemos
com a prefeito de Terminus.
        -  Nesse caso - disse Trevize -, o que quer que tenha sido escondido na 
Terra ainda est escondido e pode ser descoberto, apesar  do fato de a Terra estar 
radioativa.
        -  Como  possvel isso? - perguntou Pelorat.
        -  Pense bem. E se o que estava na Terra no est mais l, ma foi retirado 
quando o perigo da radioatividade se tornou muito grande? Nesse caso, embora o 
segredo no esteja mais na Terra, o conhecimento da localizao da Terra poderia 
ser usado para deduzir o local em que est escondido atualmente. Da a 
necessidade de suprimir as informaes sobre a Terra.
        Fallom interveio novamente:
        -  Porque se encontrarmos a Terra, Bliss disse que me levar de volta para 
Jemby.
        Trevize olhou zangado para Fallom, e Bliss disse para a criana, em voz 
baixa:
        -  Eu disse talvez, Fallom. Depois a gente conversa sobre isso. Agora v para 
o seu quarto. Por que no l um pouco, ou toca flauta, ou faz qualquer outra coisa 
que esteja com vontade de fazer? V... v.
        Fallom deixou a mesa de m vontade. Pelorat disse:
        -  Ainda no entendi muito bem, Golan. Ns estamos aqui. Localizamos a 
Terra. Estamos em condies de deduzir para onde foi levado o segredo?
        Trevize precisou de alguns instantes para se recuperar do mau humor 
causado por Fallom. Depois, disse:
        -  Por que no? Imagine que a radioatividade na superfcie da Terra tenha 
aumentado de forma gradual. A populao estaria diminuindo rapidamente, tanto 
por causa das doenas quanto das fugas para outros planetas. O perigo para o 
segredo seria cada vez maior. Em pouco tempo, no restaria ningum para proteg-
lo. A nica soluo seria transferi-lo para outro mundo, antes que fosse tarde 
demais. Desconfio que houvesse uma grande relutncia em faz-lo, de modo que a 
transferncia s deve ter sido executada no ltimo minuto. Pois ento, Janov, 
lembra-se do que aquele velho da Nova Terra lhe contou a respeito da Terra?
        -  Monolee?
        - Ele mesmo. Monolee no disse que os ltimos remanescentes da 
populao da Terra foram levados para Alfa?
        -  Golan, est querendo dizer que o segredo que procuramos pode estar em 
Nova Terra, levado para l pelos ltimos sobreviventes da Terra?
        -  No acha possvel? Quase ningum na Galxia conhece a existncia da 
Nova Terra, e, pelo que vimos, seus habitantes fazem tudo para que nenhum 
visitante saia de l com vida.
        -  Estivemos l e no encontramos nada - argumentou Bliss.
        - Quando estivemos l, s estvamos interessados em informaes a 
respeito da Terra - disse Trevize.
        Pelorat disse:
        -  Acontece, meu velho amigo, que estamos procurando algo ou algum que 
disponha de uma tecnologia muito avanada; algo ou algum capaz de apagar 
informaes debaixo do nariz da Segunda Fundao e mesmo... desculpe, Bliss... e 
mesmo debaixo do nariz de Gaia. Os habitantes de Nova Terra podem controlar o 
tempo e talvez sejam desenvolvidos no campo da biotecnologia, mas acho que ter 
que admitir que sua tecnologia no  muito avanada. Bliss fez que sim com a 
cabea.
        -  Concordo com Pel.
        - No temos elementos para julgar - argumentou Trevize. - Nem 
chegamos a ver aqueles pescadores. Conhecemos apenas uma pequena parte da 
ilha em que pousamos. Quem sabe o que teramos encontrado se explorssemos 
melhor a superfcie do planeta? Afinal, s reconhecemos as lmpadas fluorescentes 
quando as vimos funcionar. Se tivemos a impresso de que os alfanos no dispem 
de uma tecnologia avanada, se tivemos essa impresso, repito...
        -  Sim? - disse Bliss, ceticamente.
        -  Isso pode ser parte de uma ttica para esconder a verdade.
        -  Impossvel - disse Bliss.
        -  Impossvel? Foi voc que me disse, quando ainda estvamos em Gaia, que 
em Trantor os membros da Segunda Fundao se disfararam por trs da fachada 
de uma sociedade de camponeses. Por que a mesma estratgia no poderia ser 
usada na Nova Terra?
        -  Est propondo, ento, que a gente volte a Nova Terra para correr o risco 
de uma nova infeco... desta vez com a certeza de que o vrus ser ativado? As 
relaes sexuais podem ser uma forma muito agradvel de adquirir uma infeco... 
mas no so a nica!
        Trevize deu de ombros.
        -  No estou ansioso para voltar a Nova Terra, mas pode ser que no haja 
alternativa.
        -  Pode ser?
        -  Pode ser! Estou pensando em outra possibilidade.
        -  Qual ?
        -  Nova Terra gira em torno de uma estrela que os locais chamam de Alfa. 
Acontece que Alfa faz parte de um sistema binrio. Ser que tambm no existe um 
planeta habitvel girando em volta da companheira de Alfa?
        -  pouco provvel - disse Bliss, balanando a cabea. - Afinal, a 
companheira tem apenas um quarto da luminosidade de Alfa.
        - Isso no  to srio. O  planeta poderia estar muito mais prximo da 
estrela, para compensar.
        - O que  que o computador tem a dizer? - perguntou Pelorat.
        Trevize sorriu.
        -  J verifiquei. A companheira tem cinco planetas de porte mdio. Nenhum 
gigante gasoso.
        -  Algum dos cinco planetas  habitvel?
        -  O computador no tem nenhuma informao a respeito dos planetas alm 
do seu nmero e tamanho.
        -  Oh... - fez Pelorat, desanimado.
        - No fique desapontado - disse Trevize. - Afinal, os mundos dos 
Espaciais nem constavam do mapa do computador. As informaes sobre Alfa so 
extremamente escassas. Essas coisas foram escondidas deliberadamente e se no 
encontramos quase nada a respeito da companheira de Alfa, isso quase pode ser 
considerado um bom sinal.
        - Ento o que voc est planejando  isso - disse Bliss, sem emoo. - 
Visitar a companheira e, se no der certo, desembarcar de novo em Alfa.
        - Exatamente. Desta vez, estaremos preparados. Pretendo sobrevoar a ilha 
de Nova Terra antes de pousarmos e voc, Bliss, poderia usar sua capacidade
mental para...
        Nesse momento, o Estrela Distante estremeceu, como se tivesse dado um
soluo gigantesco, e Trevize exclamou, com um misto de raiva e perplexidade:
        -  Quem est nos controles?
        A pergunta era desnecessria; sabia muito bem quem era.


95.

FALLOM, sentada em frente ao computador, estava totalmente absorta. As 
mozinhas de criana, com dedos longos e finos, repousavam sobre as marcas no 
tampo da escrivaninha. As mos pareciam atravessar a superfcie da mesa, embora 
Fallom pudesse sentir que ela era dura e escorregadia.
        A criana tinha visto Trevize usar as mos dessa forma em vrias ocasies e 
para ela era evidente que era assim que o rapaz controlava a nave.                                                               
        Fallom tambm tinha visto Trevize fechar os olhos, e fechou os seus. Depois 
de alguns instantes, comeou a ouvir uma voz distante... distante, mas que parecia 
vir de dentro de sua cabea, mais precisamente (compreendeu, sem saber como) 
dos lobos transdutores. Eles eram ainda mais importantes que as mos. Esforou-
se para compreender o que a voz dizia.
        - Instrues - dizia a voz, em um tom quase queixoso. - Quais so as suas
instrues?
        Fallom no disse nada. Nunca tinha visto Trevize dizer nada para o
computador... mas sabia o que queria com todas as foras do seu ser. Queria voltar 
para Solaria, para a segurana da manso, para Jemby... Jemby... Jemby...
        Queria voltar para casa e, quando pensou no planeta que amava, imaginou 
que o estava vendo na tela, como havia visto outros mundos que no queria. Abriu 
os olhos e olhou para a tela desejando ver outro mundo que no aquela detestvel 
Terra, e ento ficou olhando para o planeta que estava l, imaginando que fosse 
Solaria. Odiava a Galxia em que tinha sido introduzida contra a vontade. Seus 
olhos se encheram de lgrimas e a nave estremeceu. Fallom sentiu o tremor e ficou 
um pouco assustada..
        Foi ento que ouviu o rudo de passos no corredor e fechou os olhos. Quando 
tornou a abri-los, o rosto de Trevize, distorcido, enchia o seu campo de viso, 
ocultando a tela e o planeta amado. Estava gritando alguma coisa, mas a criana 
no prestou ateno. Tinha sido ele que havia matado Bander, causando assim a 
morte de Jemby. Tinha sido ele que a havia tirado do planeta contra a vontade. 
Agora, era ele que queria impedi-la de voltar. Mas no lhe daria ouvidos. Levaria a 
nave de volta para Solaria, custasse o que custasse. A emoo foi to forte que fez a 
nave estremecer novamente.


96.

BLISS agarrou Trevize pelo brao.
        -  Pare! Pare!
        Puxou-o para trs, enquanto Pelorat observava a cena, sem saber o que 
fazer.
        Trevize estava gritando:
        -  Tire as mos do computador!... Bliss, no se meta. No quero machucar 
voc.
        -  No ameace a criana - disse Bliss, em tom cansado. - Se insistir, vou 
ter que machucar voc.
        Os olhos de Trevize se fixaram em Bliss.
        -  Ento tire-a da, Bliss. Agora!
        Bliss empurrou-o para o lado com uma fora surpreendente (resultado, 
pensou Trevize mais tarde, de sua ligao com Gaia).
        - Fallom - disse. - Levante as mos.
        - No! - exclamou Fallom, com voz estridente. - Quero levar a nave de 
volta para Solaria. Quero ir para l. Para l!
        Apontou com a cabea para a tela do computador, sem tirar as mos da 
escrivaninha.
        Bliss estendeu os braos para Fallom e quando suas mos tocaram o corpo 
da criana, ela comeou a tremer.
        -  Agora, Fallom - disse Bliss, carinhosamente -, diga ao computador para 
fazer tudo voltar a ser como era antes e venha comigo. Venha comigo...
        Acariciou a criana, que teve um acesso de choro.
        As mos de Fallom deixaram a escrivaninha e Bliss, segurando-a pelas 
axilas, colocou-a de p. Virou-a de frente para si e apertou-a contra o peito.
        Bliss disse para Trevize, que assistia passivamente  cena:
        -  Saia da frente, Trevize, e no toque em ns quando passarmos. Trevize 
deu um passo para o lado.
        Bliss parou por um momento ao lado do rapaz e disse em voz baixa:
        -  Tive que entrar na mente de Fallom por um momento. Se causei algum 
dano, a culpa  toda sua.
        Trevize teve vontade de dizer que estava pouco ligando para a mente de 
Fallom; que era o computador que o preocupava. Entretanto, percebendo que teria 
que enfrentar a ira de Gaia (aquela expresso no rosto de Bliss no podia refletir 
apenas os sentimentos da moa), preferiu ficar calado.
        Depois que Bliss e Fallom saram da sala de controle, Trevize ficou muito 
tempo onde estava. Permaneceu assim, na verdade, at Pelorat dirigir-lhe a palavra:
        -  Golan, voc est se sentindo bem? Bliss no fez nada com voc, no ?
        Trevize sacudiu a cabea vigorosamente, como que para afastar a paralisia 
que o havia assaltado.
        -  Estou bem. A questo  saber se ele est bem. Sentou-se em frente ao 
computador e colocou as mos sobre as marcas que recentemente tinham sido 
cobertas pelas mos de Fallom.
        -  Como ? - perguntou Pelorat, ansioso. Trevize deu de ombros.
        -  Parece que est tudo normal. Pode ser que mais tarde eu descubra 
alguma coisa fora do lugar, mas no momento est tudo funcionando bem. - 
Prosseguiu, com certa irritao: - O computador foi programado para s responder 
s minhas mos, mas essa hermafrodita conseguiu assumir o controle. Deve ter 
sido por causa dos lobos transdutores...
        -  Mas o que foi que fez a nave estremecer? Isso no devia acontecer, no ?
        -  No.  uma nave gravtica e no devia ter esse tipo de efeito inercial. 
Acontece que essa monstrinha...
        Fez uma pausa. Parecia cada vez mais irritado.
        -  Sim?
        -  Desconfio que ela forneceu ao computador duas instrues conflitantes, 
com tal intensidade que o computador no teve escolha a no ser tentar cumpri-las 
simultaneamente. Na tentativa de fazer o impossvel, o computador deve ter perdido 
momentaneamente o controle do neutralizador de inrcia. Pelo menos  isso que 
acho que aconteceu.
        De repente, Trevize pareceu acalmar-se.
        - E pode ter sido at bom, pois acaba de me ocorrer que toda essa minha 
conversa a respeito de Alfa e a companheira foi perda de tempo. J sei para onde a 
Terra transferiu o seu segredo.
        PELORAT olhou para o amigo, admirado, e depois resolveu ignorar a ltima 
observao e esclarecer um ponto que havia ficado pendente.
        -  Quais foram as instrues conflitantes que Fallom forneceu ao 
computador?
        -  Ela queria que a nave fosse para Solaria.
        -  Claro.  claro que sim.
        -  Sim, mas como a criana poderia transmitir essa idia para o 
computador? Ela no pode reconhecer Solaria no telescpio. Na verdade, nunca viu 
Solaria de longe; estava dormindo quando deixamos o planeta s pressas. E apesar 
de todos os livros que leu em sua biblioteca, apesar de tudo o que Bliss lhe contou, 
duvido que consiga apreender o conceito de uma Galxia com centenas de bilhes 
de estrelas e milhes de planetas habitados. Educada, como foi, debaixo da terra e 
em total solido, tudo o que pode fazer  compreender que existe mais de um 
mundo... mas quantos? Dois? Trs? Quatro? Para ela, qualquer planeta que veja na 
tela pode ser Solaria, ou melhor, dada a sua ansiedade para voltar ao planeta local, 
qualquer mundo que veja na tela  Solaria. E j que provavelmente Bliss tentou 
acalm-la garantindo que se no encontrarmos a Terra voltaremos a Solaria, ela 
pode at ter ficado com a impresso de que Solaria e a Terra esto muito prximos 
no espao.
        -  Como pode saber de tudo isso, Golan?
        . - Pelo que a prpria criana nos disse, Janov, logo que entramos nesta 
sala. Ela gritou que queria ir para Solaria e acrescentou: "Quero ir para l! Para l!", 
apontando com a cabea para a tela. Sabe o que estava na tela? O satlite da Terra. 
No estava l quando me levantei para ir jantar; quem estava era a Terra. Mas 
Fallom deve ter pensado no satlite quando pediu para ir para Solaria e o 
computador, em resposta, deve ter mostrado o satlite na tela. Acredite em mim, 
Janov, eu sei como esse computador funciona.
        Pelorat olhou para o crescente que estava na tela e disse, pensativamente:
        - Era chamado de "lua" em pelo menos uma das lnguas da Terra; "moon", 
em outra lngua. Provavelmente tinha muitos outros nomes... Imagine a confuso, 
meu velho amigo, em um mundo em que eram faladas vrias lnguas... imagine os 
mal-entendidos, as complicaes, os...
        - Lua? - repetiu Trevize. - Pelo menos  um nome curto.. Pensando 
melhor, pode ser que a criana tenha tentado, instintivamente, mudar o curso da 
nave usando os lobos transdutores para agir diretamente sobre a fonte de energia, o 
que teria perturbado o funcionamento do neutralizador de inrcia... Mas nada disso 
importa, Janov. O que importa  que essa confuso toda fez com que a lua (sim, eu 
gosto do nome) aparecesse na tela do computador. E continua l. Quando olho para 
ela, fico imaginando...
        -  Imaginando o qu, Golan?
        -  Janov, para um satlite, a lua  enorme! Em geral, a gente no liga para 
os satlites. Afinal, so pouco mais que pedaos de pedra girando no espao. A lua, 
porm,  diferente. A lua  um mundo. Tem um dimetro de cerca de trs mil e 
quinhentos quilmetros.
        -  Um mundo? No pode cham-la de mundo. A lua  inabitvel. Mesmo 
com trs mil e quinhentos quilmetros de dimetro,  pequena demais para ter 
atmosfera. Posso dizer isso s de olhar para ela. Nenhuma nuvem; uma linha ntida 
separando a zona iluminada da escurido do espao e outra linha ntida separando 
a parte clara da parte que est na sombra.
        Trevize assentiu.
        -  Voc fala como um espaonauta veterano, Janov. Tem razo.Nada de ar. 
Nada de gua. Isso quer dizer que a superfcie da lua  inabitvel. E o subsolo?
        -  Subsolo? - repetiu Janov, intrigado.
        -  Isso mesmo. Por que no? As cidades da Terra eram subterrneas, no 
eram? Quase toda a populao de Trantor vivia abaixo da superfcie. Lembra-se da 
capital de Comporellon? A mesma coisa. As manses de Solaria ficam debaixo da 
terra. Um estado de coisas muito comum.
        -  Acontece, Golan, que em todos esses casos, as pessoas estavam vivendo 
em um planeta habitvel. A superfcie tambm era habitvel, havia uma atmosfera, 
um oceano.  possvel viver no subsolo quando a superfcie  inabitvel?
        - Ora, Janov, pense! Onde estamos vivendo neste exato momento? O Estrela 
Distante  um pequeno mundo com uma superfcie inabitvel. No existe ar nem 
gua do lado de fora do casco. Mesmo assim, vivemos confortavelmente aqui dentro. 
A Galxia est cheia de bases e estaes espaciais dos tipos mais variados, para 
no falar das naves espaciais, e todas so inabitveis a no ser do lado de dentro. 
Considere a lua como uma gigantesca espaonave.
        -  Com uma tripulao no interior?
        -  Isso mesmo. Pelo que sabemos, podem ser milhes de pessoas, alm de 
animais, plantas e uma tecnologia avanadssima... Tudo isso faz muito sentido, 
Janov! Se a Terra, nos seus ltimos dias, foi capaz de enviar um grupo de 
Colonizadores para um planeta em rbita da estrela Alfa; se, possivelmente com a 
ajuda do Imprio, pde reformar o planeta, semear os oceanos com peixes, 
construir um pequeno continente; ser que a Terra tambm no poderia mandar 
um grupo para a lua e reformar o interior do satlite?
        -  Suponho que sim - concordou Pelorat, com certa relutncia.
        -  Seria a soluo mais lgica. Se a Terra tinha alguma coisa para esconder, 
por que faz-la viajar mais de um parsec, se podia ser escondida em um mundo 
situado a uma distncia cem milhes de vezes menor? Alm disso, a lua seria um 
esconderijo mais eficiente do ponto de vista psicolgico. Os satlites no atraem a 
ateno. Veja o meu exemplo. Com a lua a um centmetro do meu nariz, todos os 
meus pensamentos estavam em Alfa. Se no fosse Fallom... - Trevize fez uma 
careta e balanou a cabea. - Justia seja feita. Se no fosse Fallom, eu jamais 
teria pensado na lua.
        -  Escute aqui, meu velho amigo - disse Pelorat -, se h alguma coisa 
escondida sob a superfcie da lua, como vamos fazer para encontr-la? A superfcie 
da lua deve ter milhes de quilmetros quadrados...
        -  Quarenta milhes, aproximadamente.
        -  E teramos que examinar toda essa imensa rea  procura do qu? De 
uma passagem? De alguma espcie de comporta?
        -  Da forma como voc fala, parece uma tarefa dificlima, mas no estamos 
apenas procurando objetos inanimados. Estamos atrs de seres vivos, ou melhor, 
de seres inteligentes. E Bliss  especialista em detectar vestgios de inteligncia, no 
?




98.

BLISS disse para Trevize, em tom acusador:
        -  Afinal consegui faz-la dormir. No foi fcil. Fallom estava histrica!. 
Felizmente, parece que no causei nenhum dano.
        -  Voc bem que podia tentar remover a fixao em Jemby, j que eu no 
tenho a mnima inteno de voltar a Solaria - disse Trevize, secamente.
        -  Remover a fixao, no ? O que  que voc sabe a respeito dessas coisas, 
Trevize? Voc nunca entrou na mente de outra pessoa. No sabe como so 
complexas as mentes humanas. Se soubesse, no falaria em remover uma fixao 
como se fosse igual a arrancar um dente.
        -  Pelo menos atenue um pouco a fixao.
        -  Isso eu talvez pudesse fazer, depois de passar um ms desembaraando...
        -  Desembaraando? Como assim?
        -   difcil de explicar para quem no sabe.
        -  Ento o que  que voc vai fazer com a criana?
        -  Ainda no sei. Vou ter que pensar.
        -  Nesse caso, vou lhe dizer o que vamos fazer com a nave.
        -  Sei muito bem o que vai fazer. Vai voltar a Nova Terra e  bela Hiroko, se 
ela prometer no contamin-lo desta vez.
        - Est enganada, Bliss - disse Trevize, sem se perturbar. - Mudei de idia. 
Vamos para a lua... isto , para o satlite da Terra.
        - Para o satlite? Porque  o astro mais prximo da Terra? No tinha 
pensado nisso!                                            
        -  Nem eu. Ningum teria pensado nisso. Nenhum outro satlite, na Galxia 
inteira, merece ser lembrado... mas este satlite  diferente, graas ao seu tamanho. 
Alm do mais, o segredo da sua localizao est to bem guardado quanto o da 
localizao da Terra.
        -   habitvel?
        -  No na superfcie, mas como no  radioativo, o subsolo pode ser 
habitado. Quando chegarmos mais perto, vou precisar de voc para saber se 
existem formas de vida no satlite.
        Bliss deu de ombros.
        -  Est bem. Por que se lembrou de repente do satlite?
        -  Por causa de uma coisa que Fallom fez quando tentou controlar a nave - 
explicou Trevize.
        Bliss ficou olhando para Trevize como se esperasse algum esclarecimento 
adicional. Depois, disse:
        -  Ento, no teria tido a inspirao se obedecesse ao seu primeiro impulso 
e a matasse.
        -  Jamais tive inteno de matar a criana, Bliss.
        -  Est bem, est bem. J estamos viajando na direo do satlite?
        -  Estamos. Prefiro no ir muito depressa, por uma questo de prudncia, 
mas se tudo correr bem, chegaremos l em trinta horas.


99.

A LUA era um astro desolado. Trevize ficou observando pela vigia enquanto a parte 
iluminada desfilava l embaixo, um panorama montono de crateras circulares e 
regies montanhosas. De vez em quando, o cinza predominante dava lugar a sutis 
gradaes de cor, em geral associadas a vastas plancies semeadas de pequenas 
crateras.
Quando se aproximaram do lado escuro, as sombras foram ficando mais longas e 
finalmente cobriram toda a superfcie. Durante alguns instantes, atrs deles, os 
picos continuaram a brilhar ao sol, como estrelas de primeira grandeza. Ento os 
picos desapareceram e s restou a Terra, um grande crescente azul e branco, 
iluminando o terreno com sua luz difusa. A nave ultrapassou a Terra, tambm, que 
desapareceu abaixo do horizonte, de modo que abaixo deles s havia a escurido 
profunda e acima o cintilar de incontveis estrelas, viso que para Trevize, um 
nativo de Terminus, onde o cu praticamente no tinha estrelas, era motivo de 
perptuo deslumbramento.
        Ento, novas estrelas brilhantes apareceram  frente, primeiro apenas uma 
ou duas, depois outras, cada vez maiores e mais ofuscantes. De repente, cruzaram 
o terminador e entraram no lado iluminado. O sol surgiu no horizonte com 
esplendor infernal e a paisagem l embaixo explodiu em um labirinto de luzes e 
sombras.
        Trevize podia ver muito bem que seria intil tentar encontrar uma entrada 
para o interior habitado (se  que esse interior existia) atravs de uma simples 
inspeo visual.
        Olhou para Bliss, sentada ao seu lado. A jovem estava imvel, com os olhos 
fechados. Trevize perguntou em voz baixa:
        -  Detectou mais alguma coisa? Bliss balanou a cabea.
        -  No - murmurou. - Foi s naquele lugar.  melhor voltarmos. Sabe 
onde foi?
        -  O computador sabe.
        A regio ficava no lado escuro e, exceto pelo fato de que a Terra estava perto 
do horizonte, iluminando a superfcie com uma luz fantasmagrica, no havia nada 
de especial para ser visto, mesmo depois de apagarem as luzes da sala de comando 
para facilitar a observao.
        Pelorat havia chegado e estava observando a cena com interesse.
        -  Encontramos alguma coisa? - perguntou.
        Trevize silenciou-o com um gesto. Estava esperando a reao de Bliss. Sabia
que levaria vrios dias para que a luz do sol voltasse quela parte da lua, mas
tambm sabia que, para aquilo que a jovem procurava, a luz era totalmente
irrelevante.
        Afinal, Bliss falou:
        -  Est l embaixo.
        -  Tem certeza?
        -  Absoluta.
        -   o nico lugar?
        -  At o momento, sim. J cobrimos toda a superfcie da lua?
        -  Uma boa parte.
        -  Pois nessa boa parte, este  o nico lugar em que detectei alguma coisa. 
Agora o sinal est mais forte, como se ele tivesse detectado a nossa presena. No 
parece perigoso. Estou captando uma atitude amistosa.
        -  Tem certeza?
        -   o que estou captando. Pelorat interveio:
        -  Ele no poderia estar disfarando?
        - Pel, no  fcil me enganar - disse Bliss, orgulhosamente. Trevize 
murmurou qualquer coisa a respeito do excesso de confiana e depois disse:
        -  O que voc est detectando  um ser inteligente, no ?
        -  Sim,  um ser inteligente. Acontece que.
        -  Acontece o qu?
        - Psiu! No me distraia. Preciso me concentrar. Momentos depois, Bliss 
anunciou, com um misto de surpresa e satisfao:
-  No  humano!
        -  No  humano! - repetiu Trevize. - Estamos lidando de novo com robs? 
Como em Solaria?
        -  No - respondeu Bliss, sorrindo. - Tambm no  um rob.
        -  Tem que ser um ou outro. Bliss deu uma risada.
        -  Nenhum dos dois. No  humano, mas tambm no se parece com 
nenhum dos robs que conheci.
        -  Essa eu tenho que ver - disse Pelorat, excitado. - Uma coisa nova... 
diferente!
        -  Uma coisa nova - murmurou Trevize, com um entusiasmo que no 
sentia h muito tempo.
        Nesse instante, uma inspirao sbita pareceu iluminar como um relmpago 
o interior do seu crnio.


100.

DESCERAM alegremente em direo  superfcie da lua. At mesmo Fallom tinha se 
juntado a eles e saltitava com despreocupao infantil, como se estivesse realmente 
voltando para Solaria.
        Quanto a Trevize, sentia dentro de si um resto de sanidade a advertir-lhe que 
era estranho que a Terra (ou o que quer que fosse da Terra que se havia mudado 
para a lua), depois de tomar medidas to extremas para evitar a presena de 
estranhos, agora estivesse fazendo o possvel para atra-los. Poderia tudo ser parte 
do mesmo plano? Seria um caso de "se  impossvel mant-los  distncia, atraia-os 
e destrua-os"? Seria uma outra forma de proteger o segredo da Terra?
        As preocupaes do rapaz desapareceram na torrente de otimismo que se 
despejou sobre todos quando se aproximaram da superfcie da lua. Mesmo assim, 
no esqueceu a inspirao que o havia assaltado no momento em que iniciavam o 
longo mergulho em direo  superfcie do satlite da Terra.
        Parecia no haver mais dvida quanto ao destino final da nave. J estavam 
na altura dos picos mais elevados e Trevize, em ligao com o computador, no 
sentia necessidade de fazer coisa alguma. Era como se tanto ele como o computador 
estivessem sendo guiados; sentiu uma enorme euforia ao perceber que o peso da 
responsabilidade tinha sido retirado de seus ombros.
        Agora estavam se deslocando paralelamente ao solo, em direo a um 
penhasco que se erguia  distncia como uma perigosa barreira; uma barreira que 
brilhava fracamente  luz da Terra e dos faris do Estrela Distante. A coliso 
iminente parecia no significar coisa alguma para Trevize; no foi surpresa para ele 
quando uma parte do rochedo se abriu, revelando um corredor iluminado por luzes 
artificiais.
        A nave diminuiu de velocidade, aparentemente por conta prpria, e se enfiou 
na abertura... devagar... at parar. A passagem se fechou atrs dela e outra se 
abriu  sua frente. A nave passou pela segunda abertura e entrou em uma caverna 
gigantesca, que parecia ter sido cavada no interior de uma montanha.
        A nave parou e todos a bordo correram para a cmara de descompresso. 
Nenhum deles, nem mesmo Trevize, pensou em verificar se o ar do lado de fora era 
respirvel... ou se pelo menos havia ar.
        Havia ar, sim. Era respirvel e era gostoso. Olharam em torno, com o ar 
satisfeito de pessoas que esto chegando em casa. Levaram algum tempo para 
reparar em um homem que os observava de longe, esperando educadamente que se 
aproximassem.
        O homem era alto e tinha expresso muito sria. O cabelo era cor de bronze, 
cortado rente. Tinha as mas do rosto salientes, os olhos muito vivos e vestia-se 
como em um livro de Histria antiga. Embora parecesse forte e saudvel, tinha um 
certo ar de cansao... no em algum trao concreto, mas de uma forma vaga, 
indefinvel.
        Fallom foi a primeira a reagir. Deu um grito de alegria e saiu correndo na 
direo do homem, gritando:
        -  Jemby! Jemby!
        Os outros se aproximaram mais devagar e Trevize disse, destacando bem as 
palavras (ser que esse sujeito sabe falar galctico?)
        -  Desculpe, senhor. Esta criana perdeu o seu protetor e s pensa nele.
No sei por que se fixou no senhor, j que foi criada por um rob, uma mquina...
        O homem falou pela primeira vez. Tinha uma voz impessoal e um sotaque 
arcaico, mas falava galctico com fluncia.
        -  Sejam bem-vindos - disse.
        Apesar de no haver mudado de expresso, parecia amistoso.
        - Quanto a esta criana - prosseguiu -, talvez seja mais perceptiva do que 
pensam, pois eu sou um rob. Meu nome  Daneel Olivaw.






























Captulo 21

O Fim da Busca





101.

TREVIZE se encontrava em um estado de total confuso, depois de passada a 
estranha euforia que sentira durante o pouso na lua... uma euforia provavelmente 
provocada por aquele pretenso rob que agora tinha diante de si.
        O rapaz se sentia no perfeito controle das faculdades mentais, mas isso no o 
impedia de encarar com assombro uma rplica to perfeita de um ser humano.
No admira, pensou Trevize, que Bliss tivesse detectado algo que no era nem 
humano nem rob, "uma coisa nova", nas palavras de Pelorat. Palavras que haviam 
despertado em Trevize uma sbita inspirao... que no momento estava relegada a 
um segundo plano.
        Bliss e Fallom tinham se afastado para explorar a grande caverna. A idia 
tinha sido de Bliss, mas Trevize observara que, momentos antes, ela e Daneel 
haviam trocado um rpido olhar. Quando Fallom se recusou a ir e pediu para ficar
com o ser que insistia em chamar de Jemby, uma palavra e um gesto de Daneel
convenceram a criana do contrrio. Trevize e Pelorat haviam ficado.
        - Senhores, elas no pertencem  Fundao - disse o rob, como se aquilo
explicasse tudo. - Uma  Gaia e a outra  uma Espacial.
        Trevize permaneceu calado enquanto o rob os conduzia a um conjunto de
cadeiras debaixo de uma rvore. Os dois se sentaram, atendendo a um gesto do 
rob, e quando o rob se sentou tambm, com movimentos perfeitamente humanos, 
Trevize perguntou:
        -  Voc  mesmo um rob?
        -  Sim senhor - disse Daneel.
        O rosto de Pelorat parecia brilhar de contentamento. Ele disse:
        -  As velhas lendas falam de um rob chamado Daneel. Voc foi batizado em 
homenagem a esse rob?
        -  Eu sou esse rob - disse Daneel. - No so lendas.
        - No  possvel! - exclamou Pelorat. - Se voc  esse rob, deve ter 
milhares de anos de idade!
        - Vinte mil anos - declarou Daneel, com naturalidade. Pelorat olhou para 
Trevize, que disse, com um trao de irritao na voz:
        -  Se  um rob, ordeno a voc que fale a verdade.
        - Essa ordem  desnecessria, senhor. Eu tenho que falar a verdade. 
Acontece, senhor, que existem trs possibilidades. Posso ser um homem que est 
mentindo; posso ser um rob que foi programado para acreditar que tem vinte mil 
anos quando, na realidade,  muito mais recente; e posso ser realmente um rob 
com vinte mil anos de idade. O senhor precisa decidir qual dessas possibilidades  a 
verdadeira.
        - Chegarei a uma concluso conversando com voc - disse Trevize 
secamente. - Mudando de assunto:  difcil acreditar que a gente esteja no interior 
da lua. Nem a luz - o rapaz olhou para cima enquanto falava e a luz era uma 
claridade difusa com a cor exata da luz do sol, embora o sol no estivesse visvel no 
cu, ou por outra, nem o sol nem o cu estivessem visveis - nem a gravidade 
correspondem ao que seria de se esperar. Este mundo deveria ter uma gravidade na 
superfcie menor que 0, 2g.
        -  O valor exato da gravidade na superfcie  de 0, 16g, senhor. Acontece 
que aqui onde estamos uma gravidade muito maior  mantida artificialmente pelas 
mesmas foras que do aos senhores, na sua nave, a sensao de peso normal, 
mesmo quando esto em queda livre. Outras demandas de energia, inclusive a de 
iluminao, tambm so atendidas graviticamente, mas tambm usamos a energia 
solar quando ela  mais conveniente. Nossas necessidades de matrias-primas so 
todas supridas pelo solo lunar, com exceo dos elementos leves, hidrognio,
carbono e nitrognio, que so extremamente escassos na lua. Obtemos esses
elementos capturando um ou outro cometa. Uma captura por sculo  mais que
suficiente para as nossas necessidades.
        - Presumo que estejam impedidos de usar os recursos da Terra.
        - Infelizmente,  verdade. Nossos crebros positrnicos so to sensveis 
radioatividade quanto as protenas humanas.
        - Voc falou no plural e estou vendo uma manso que me parece bonita, 
espaosa e requintada... pelo menos,  a impresso que se tem do lado de fora. 
Ento existem outros seres na lua? Homens? Robs?
        - Sim senhor. Temos um ecossistema da lua e uma enorme cavidade 
subterrnea que abriga esse ecossistema. Todos os seres inteligentes so robs, 
mais ou menos como eu. Infelizmente, o senhor no ver nenhum deles. Quanto a 
essa manso, foi construda para meu uso exclusivo.  uma rplica de uma casa 
onde eu morei h vinte mil anos atrs.
        -  E da qual voc se lembra nos mnimos detalhes, no  mesmo?
        -  Exatamente. Fui fabricado e vivi durante algum tempo no planeta Aurora, 
um dos mundos dos Espaciais.
        -  Aquele dos... - Trevize no chegou a concluir
        -  Sim senhor. Aquele dos cachorros.
        -  Ento voc sabe dos cachorros!
        -  Sim senhor.
        -  Que est fazendo aqui, se vivia em Aurora?
        -  Vim para c h muitos anos atrs, para tentar impedir que a Terra se 
tornasse radioativa. Comigo veio um outro rob, chamado Giskard, que era capaz 
de detectar as emoes humanas e modific-las.
        -  Como Bliss faz?
        -  Isso mesmo, senhor. Nosso sucesso foi apenas parcial e Giskard parou de 
funcionar. Antes disso, porm, transferiu para mim os seus poderes e me 
encarregou de zelar pela Galxia e particularmente pela Terra.
        -  Por que a Terra?
        -  Em parte por causa de um homem chamado Elijah Baley, um terrqueo.
        -   o heri mitolgico de quem lhe falei outro dia, Golan - interrompeu 
Pelorat.
        -  Heri mitolgico, senhor?
        -  O que o Dr. Pelorat quer dizer  que ele  uma pessoa  qual muitos feitos 
fantsticos so atribudos, e que pode ser uma combinao de vrias pessoas que 
realmente existiram ou um personagem totalmente fictcio.
        Daneel pensou um pouco e depois disse, com toda a calma:
        - Isso no  verdade, senhores. Elijah Baley realmente existiu e foi um nico 
homem. No sei quais so as faanhas que as lenda atribuem a ele; o que sei  que, 
sem Baley, a Galxia talvez nunca tivesse sido colonizada. Em sua memria, 
procurei salvar tudo o que foi possvel da Terra depois que comeou a ficar 
radioativa. Meus companheiros robs se espalharam por toda a Galxia em uma 
tentativa de influenciar as pessoas certas. Houve uma poca em que, por nossa 
sugesto, chegaram a remover parte do solo radioativo da Terra, substituindo-o por 
solo no contaminado. Mais tarde, consegui que fosse iniciada a reforma de um 
planeta de uma estrela vizinha, chamada Alfa. Nenhum dos dois projetos, porm, 
chegou a ser concludo. Nunca senti inteira liberdade para agir sobre as mentes 
humanas, pois havia sempre o risco de que um ser humano sofresse algum tipo de 
dano no processo. Os senhores compreendem que das Leis da Robtica constituem 
um pesado fardo para ns robs.
        -  Sim? No era preciso um ser com os poderes mentais de Daneel para 
perceber, pelo tom com que Trevize havia pronunciado aquele monosslabo, que o 
rapaz jamais ouvira falar da Leis da Robtica.
        -  A Primeira Lei - explicou -  a seguinte: "Um rob no pode fazer mal a 
um ser humano ou, por omisso, permitir que um ser humano sofra algum mal. " A 
Segunda Lei: "Um rob deve obedecer s ordens que lhe sejam dadas por seres 
humanos, exceto nos casos em que essas ordens contrariem a Primeira Lei. " A 
Terceira Lei: "Um rob deve proteger a prpria existncia, desde que essa proteo 
no entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei. " Naturalmente, tive que 
traduzir as leis para a linguagem humana; na verdade, elas representam 
complicadas configuraes dos nossos circuitos positrnicos cerebrais.
        -  E voc acha difcil obedecer a essas leis?
        -  Sim senhor. Por causa da Primeira Lei, fico quase totalmente impedido de 
usar meus poderes mentais. Quando se lida com uma Galxia inteira,  impossvel 
deixar de causar mal a seres humanos, qualquer que seja o curso de ao 
escolhido. O que procuro fazer  encontrar o caminho que minimize o sofrimento 
humano. Entretanto, o nmero de possibilidades  to grande que s vezes o tempo 
gasto na anlise se torna proibitivo...
        -  Compreendo - disse Trevize.
        -  Durante toda a histria da Galxia, fiz o que pude para evitar as guerras 
e injustias que parecem assolar todas as civilizaes humanas. Posso ter 
conseguido alguma coisa em casos isolados, mas se o senhor estudou Histria, 
sabe que meus sucessos no foram freqentes nem retumbantes.
        - Acho que tem razo - concordou Trevize, com um sorriso irnico.
        - Pouco antes de deixar de funcionar, Giskard imaginou uma lei ainda mais 
poderosa que a primeira. Por falta de um nome melhor, ns a chamamos de Lei 
Zero. A Lei Zero diz o seguinte: "Um rob no pode causar mal  Humanidade ou, 
por omisso, permitir que a Humanidade sofra algum mal. " Isto significa que a 
Primeira Lei deve ser modificada para: "Um rob no pode ferir um ser humano ou, 
por omisso, permitir que um ser humano sofra algum mal, exceto nos casos em 
que isso seja necessrio para obedecer  Lei Zero". "Modificaes semelhantes 
devem ser feitas na Segunda e Terceira Leis.".
        Trevize franziu a testa.
        - Como  que vocs vo saber o que  bom e o que no  bom para a 
Humanidade como um todo?
        - A  que est o problema, senhor. Teoricamente, a Lei Zero era a soluo 
para todos os nossos conflitos; na prtica, jamais pde ser aplicada. Um ser 
humano  um objeto concreto. O mal causado a uma pessoa pode ser estimado e 
medido. A Humanidade  uma abstrao. Que fazer?
        -  No sei - disse Trevize.
        - Espere! - disse Pelorat. - Voc podia... voc podia converter toda a 
Humanidade em um nico organismo: Gaia!
        - Foi o que tentei fazer, senhor. Fui eu o responsvel pela fundao de Gaia. 
Se a Humanidade se transformasse em um nico organismo, passaria a ser um 
objeto concreto, fcil de analisar. Entretanto, no foi to fcil criar um 
superorganismo quanto eu havia imaginado. Em primeiro lugar, isso no seria 
possvel se os seres humanos no dessem maior valor ao superorganismo do que  
prpria individualidade, e eu tinha que encontrar um modelo mental que 
respeitasse essa premissa. Afinal, lembrei-me das Leis da Robtica.
        -  Ah, ento os gaianos so robs. Desconfiei desde o princpio!
        -  Nesse caso, suas suspeitas foram infundadas, senhor. Eles so seres 
humanos, mas nos seus circuitos neurnicos foram implantadas configuraes 
equivalentes s Leis da Robtica. Mesmo depois que isso foi feito, porm, ainda 
restava um problema srio. Um superorganismo constitudo unicamente por seres 
humanos  necessariamente instvel.  preciso combinar os seres humanos com 
outros animais, com plantas, at com a matria inorgnica. O menor 
superorganismo verdadeiramente estvel  um planeta inteiro, um planeta 
suficientemente grande e complexo para possuir um ecossistema estvel. Levamos 
muito tempo para compreender esse fato, de modo que foi apenas neste ltimo 
sculo que demos como concluda a fundao de Gaia e iniciamos a fase seguinte 
do projeto, a fundao da Galxia Viva.
        -  Mas precisavam de mim para tomar a deciso, no ?
        - Sim senhor. As Leis da Robtica no permitiam que a deciso fosse 
tomada nem por mim nem por Gaia, pois havia o risco de causarmos algum tipo de 
mal  Humanidade. Enquanto isso, h cinco sculos atrs, quando parecia que eu 
jamais iria conseguir resolver os problemas ligados  fundao de Gaia, resolvi 
tentar outra coisa e ajudei a criar a cincia da psico-histria
        - Eu devia ter adivinhado - murmurou Trevize. - voc sabe, Daneel, estou 
comeando a acreditar que voc tem vinte mil anos de idade
        -  Obrigado, senhor
        -  Espere um momento - disse Pelorat - Acabei de pensar em uma coisa. 
Voc tambm  parte de Gaia, Daneel? Foi assim que soube dos cachorros de 
Aurora? Atravs de Bliss?
        -  De certa forma, senhor, sua concluso  acertada. Estou associado a 
Gaia, embora no seja propriamente parte de Gaia
        Trevize interveio:
        -  Essa sua explicao me faz lembrar Comporellon, o planeta que visitamos 
logo depois que partimos de Gaia. Os locais insistem em que no fazem parte da 
Fundao, mas so apenas um dos Planetas Associados
        Daneel fez que sim com a cabea
        -  A analogia  vlida, senhor. Posso, como associado de Gaia, fazer uso de 
todos os conhecimentos de Gaia.. na pessoa daquela mulher, por exemplo. Gaia, 
porm, no pode fazer uso dos meus conhecimentos, de modo que conservo minha 
liberdade de ao. Essa liberdade de ao  necessria at que a Galxia Viva seja 
uma realidade.
        Trevize olhou fixamente para o rob por um momento e depois disse:
        -  Atravs de Bliss, voc estava presente o tempo todo na nossa viagem, no 
estava? Usou seus poderes para trazer-nos para c, no usou?
        Daneel suspirou de forma curiosamente humana.
        - No pude fazer muita coisa, senhor. As Leis da Robtica no me permitem. 
Mesmo assim, ajudei Bliss a lidar com os ces de Aurora e com o Espacial de 
Solaria. Alm disso, influenciei duas mulheres, uma em Comporellon e outra em 
Nova Terra, para que ajudassem o senhor.
        -  Devia ter adivinhado que no foi por minha causa - disse Trevize, com 
um sorriso amarelo.
        -  Pelo contrrio - disse Daneel. - As duas mulheres simpatizaram com o 
senhor desde o princpio. Limitei-me a reforar esse sentimento, dentro das 
limitaes impostas pelas Leis da Robtica. Devido a essas limitaes... e tambm 
por outros motivos... foi com grande dificuldade que consegui traz-lo para c. Em 
vrias ocasies estive a ponto de perd-lo.
        -  Agora, que estou aqui, o que deseja? Que confirme minha deciso a favor 
da Galxia Viva?
        O rosto de Daneel, sempre inexpressivo, assumiu ar preocupado.
        -  No senhor. A deciso j foi tomada e no precisa de confirmao. Trata-
se de algo muito mais urgente. Estou morrendo.



102.

TALVEZ tenha sido a naturalidade com que Daneel se referiu ao fato; ou talvez 
porque uma existncia de vinte mil anos fez com que a morte no parecesse 
nenhuma tragdia para algum condenado a viver menos que meio por cento desse 
perodo de tempo; a verdade  que Trevize no sentiu nenhuma pena do rob.
        -  Est morrendo? Uma mquina pode morrer?
        -  Posso deixar de existir, senhor. Use o nome que quiser. Estou velho. Em 
toda a Galxia, nenhum ser inteligente que estava vivo quando fui construdo ainda 
vive hoje em dia; nem homem nem rob. Eu mesmo mudei muito.
        -  Como assim?
        -  No existe nenhuma parte do meu corpo que no tenha sido substituda, 
no uma, mas vrias vezes. At o meu crebro positrnico foi substitudo em cinco 
diferentes ocasies. Cada vez que isso aconteceu, todo o contedo do crebro antigo 
foi transferido para o crebro novo. Cada crebro novo era maior e mais complexo 
que o anterior, de modo que havia espao para mais memrias e ao mesmo tempo 
eu me tornava capaz de decidir e agir com maior rapidez. Entretanto...
        -  O qu?
        - Quanto mais avanado e complexo  um crebro positrnico, maior a 
instabilidade e mais depressa ele se deteriora. Meu crebro atual  cem mil vezes 
mais sensvel que o primeiro e tem uma capacidade dez milhes de vezes maior; por 
outro lado, enquanto o meu primeiro crebro durou mais de dez mil anos, a atual 
tem apenas seiscentos anos e j comea a dar sinais de senilidade. Minha 
capacidade de tomar decises j no  a mesma; a capacidade de detectar e induzir 
emoes atravs do hiperespao praticamente desapareceu. No adianta tentar 
construir um sexto crebro. As tentativas de conseguir uma miniaturizao maior 
esbarrariam no princpio da incerteza; qualquer aumento adicional na 
complexidade tornaria o crebro to instvel que ele se deterioraria em poucos 
minutos.
        - Mas agora, Daneel, Gaia pode muito bem prosseguir sem voc - disse 
Pelorat. - Agora que Trevize optou pela Galxia Viva...
        - Acontece que perdemos muito tempo, senhor - disse Daneel, como 
sempre sem revelar qualquer emoo. - Tive que esperar at que Gaia estivesse 
perfeitamente estabelecido. Quando consegui localizar um ser humano... o Sr. 
Trevize... que fosse capaz de tomar a deciso crucial, era tarde demais. No 
pensem, porm, que no tomei medidas para prolongar minha vida. Pouco a pouco 
fui reduzindo minhas atividades. Quando no podia mais contar com medidas 
ativas para manter o isolamento do sistema Terra/Lua, adotei medidas passivas. 
Nos ltimos anos, os robs humaniformes que trabalham comigo tambm tiveram 
que ser reunidos aqui. Uma de suas ltimas tarefas foi remover todas as referncias 
 Terra dos arquivos planetrios. Entretanto, sem a nossa ajuda, Gaia no 
conseguir absorver toda a Galxia.
        - Voc sabia de tudo isso quando tomei minha deciso? - perguntou 
Trevize.
        - Um certo tempo antes, senhor - respondeu Daneel. - Gaia, 
naturalmente, no sabia.
        -  Ento com que objetivo levou a trama at o fim? - perguntou Trevize, 
zangado. - De que adiantou? Desde que tomei a deciso, estou vasculhando a 
Galxia  procura da Terra e do que considerava como o seu "segredo"... sem saber 
que o segredo era voc... na esperana de confirmar a minha deciso. Pois ela est 
confirmada. Agora sei que a Galxia Viva  absolutamente essencial... s que isso 
no serve para nada. Por que no deixou a Galxia entregue a si prpria... e eu aos 
meus afazeres?
        -  Porque, senhor, ainda tinha esperanas de encontrar uma sada. E acho 
que encontrei. Ao invs de substituir o meu crebro por outro crebro positrnico, o 
que seria impraticvel, poderia fundi-lo com um crebro humano, um crebro 
humano que no esteja sujeito s Trs Leis e que por isso me permita maior 
liberdade de ao. Foi para isso que os trouxe aqui.
        Trevize parecia horrorizado.
        -  Quer dizer que voc planeja fundir um crebro humano com o seu? Fazer 
com que um homem perca a sua individualidade para que voc no morra?
        -  Sim senhor. Isso no me tornaria imortal, mas me daria tempo suficiente 
para implantar a Galxia Viva.
        - E voc me trouxe aqui para isso? Quer que minha independncia em 
relao s Trs Leis e o meu bom senso se tornem parte de voc? Pois a resposta  
no!
        -  O senhor mesmo acabou de dizer que a Galxia Viva  essencial para o 
bem-estar da Humanidade...
        -  Sim, mas estava imaginando que a Galxia Viva levaria muito tempo para 
se tornar realidade, que at l eu estaria morto e enterrado como um indivduo 
independente. Por outro lado, se a Galxia Viva fosse estabelecida rapidamente, 
todos perderiam a individualidade e eu no teria muito que lamentar. O que me 
recuso terminantemente  a abrir mo da minha individualidade enquanto o resto 
da Galxia conserva a sua.
        -  Ento  exatamente como eu pensava - disse Daneel. - O senhor no 
concorda com a fuso e, de qualquer forma, seu crebro pode ser mais bem 
aproveitado como unidade independente.
        -  Quando foi que mudou de idia? Voc disse que me trouxe aqui para 
fundir o seu crebro com o meu!
        -  O senhor talvez no tenha notado, mas usei a frase no plural: "Foi para 
isso que os trouxe aqui. "
        Pelorat se remexeu no assento.
        - Diga-me, Daneel, um crebro humano que se fundisse com o seu 
compartilharia todas as suas memrias... todas as memrias dos ltimos vinte mil 
anos?
        -  Sim senhor.
         Pelorat respirou fundo.
        - Isso para mim seria a realizao suprema da minha carreira de 
pesquisador. Para conseguir isso, abriria mo de minha individualidade de muito 
bom grado. Por favor, conceda-me o privilgio de compartilhar do seu crebro.
        - E Bliss? - lembrou Trevize. - O que ser de Bliss? Pelorat hesitou 
apenas por um momento.
        -  Bliss vai entender. De qualquer forma, ela estar melhor sem mim...
        Daneel sacudiu a cabea.
        -  Sua oferta  generosa, Dr. Pelorat, mas no posso aceit-la. Seu crebro  
antigo e no sobreviver por mais que duas ou trs dcadas, mesmo depois de 
fundir-se com o meu. Preciso de um crebro mais jovem... Vejam! Ela est de volta!
        Bliss estava chegando do passeio, com passos saltitantes e uma expresso de 
felicidade no rosto. Pelorat levantou-se, alarmado.
        -  Bliss! Oh, no!
        -  No se preocupe, Dr. Pelorat - disse Daneel. - No posso usar Bliss. 
Bliss  Gaia e, como expliquei, no devo fundir-me com Gaia.
        -  Nesse caso - disse Pelorat - quem...
        Trevize, olhando para a figurinha que acompanhava Bliss, explicou:
        -  Era Fallom que o rob queria o tempo todo, Janov.


103.

BLISS chegou sorridente. Parecia estar de muito bom humor.
        -  No pudemos sair da propriedade - disse -, mas achei isso aqui to 
parecido com Solaria! Fallom, naturalmente, est convencida de que estamos em 
Solaria. Perguntei-lhe se no achava Daneel um pouco diferente de Jemby... afinal, 
Jemby era metlico... e Fallom respondeu "No, no fundo, no". No fao idia do 
que ela quis dizer com "no fundo".
        A moa olhou para Fallom, que estava a uma certa distncia, tocando a 
flauta para Daneel, que balanava a cabea no ritmo da msica. Era uma linda 
melodia.
        -  Vocs sabiam que Fallom tinha trazido a flauta? - perguntou Bliss. - 
Acho que to cedo no vamos conseguir tir-la de perto de Daneel...
        O comentrio foi recebido com um silncio pesado e Bliss olhou para os dois, 
assustada.                                                   ...
        -  Que foi que houve?
        Trevize fez um gesto na direo de Pelorat. Era melhor que ele explicasse a 
Bliss, o gesto parecia dizer. Pelorat pigarreou e disse:
        - Na verdade, Bliss, acho que Fallom vai ficar permanentemente com 
Daneel.
        -   mesmo?
        Bliss franziu a testa e fez meno de aproximar-se de Daneel, mas Pelorat 
segurou-a pelo brao.
        -  Bliss querida,  melhor no se meter. Esse rob  mais poderoso do que 
Gaia, e alm disso, para que a Galxia Viva se torne realidade, vai precisar da ajuda 
de Fallom. Deixe-me explicar... Golan, por favor, corrija-me se achar que estou 
distorcendo os fatos.
        Bliss escutou o relato com uma expresso cada vez mais triste.
        Trevize tentou consol-la:
        -  Voc pode ver que  a soluo mais lgica, Bliss. A criana  uma 
Espacial e Daneel foi projetado e construdo por Espaciais. A criana foi criada por 
um rob em uma propriedade no muito diferente desta aqui. Fallom tem poderes 
que podero ser muito teis para Daneel e viver mais uns trs ou quatro sculos, 
tempo que pode ser necessrio para a consolidao da Galxia Viva.
        Bliss disse, com o rosto vermelho e os olhos midos:
        -  Acho que o rob nos fez passar em Solaria antes de virmos para c 
porque precisava da criana.
        Trevize deu de ombros.
        -  Ele pode estar simplesmente aproveitando a oportunidade. No acho que 
tenha poderes suficientes no momento para controlar nossas aes atravs do 
hiperespao.
        -  No! Foi de propsito! Ele me fez sentir uma atrao especial pela criana 
para que eu a trouxesse comigo, em vez de deix-la em Solaria para ser morta; para 
que eu a protegesse de voc, que sempre implicou com Fallom e teria se livrado dela 
na primeira oportunidade.
        -  Como sabe que isso  verdade? A afeio que voc sente pela criana pode 
muito bem ser genuna, e permitir que os solarianos a matassem no estaria de 
acordo com o cdigo de tica dos gaianos, mesmo sem a interveno de Daneel. 
Pense, Bliss, voc no tem nada a ganhar. Suponha que o rob a deixasse partir 
com Fallom; para onde a levaria? De volta para Solaria, onde seria certamente 
executada; para algum mundo cheio de gente, onde no teria um momento de paz; 
para Gaia, onde morreria de saudade de Jemby; ou em uma viagem sem fim pela 
Galxia, na qual ela confundiria com Solaria todo planeta novo que 
encontrssemos? E onde voc encontraria um crebro para fundir-se com o de 
Daneel, o que  indispensvel se queremos que a Galxia Viva se torne uma 
realidade?
        Bliss ficou calada.
        Pelorat estendeu timidamente a mo para a moa.
        -  Bliss, ofereci meu crebro a Daneel. Ele recusou, alegando que eu era 
muito velho. Gostaria que tivesse aceitado, pois assim estaria salvando Fallom para 
voc.
        Bliss segurou-lhe a mo e beijou-a.
        -  Obrigado, Pel, mas o preo teria sido alto demais, mesmo que fosse para 
que eu pudesse ficar com Fallom. - A moa respirou fundo e tentou sorrir. - 
Talvez, quando voltarmos a Gaia, eu possa ter um filho... e certamente colocarei 
Fallom entre as slabas do seu nome.
        Como se soubesse que a questo tinha sido resolvida, Daneel caminhou na 
direo deles, com Fallom trotando ao seu lado.
        A criana comeou a correr e chegou primeiro. Disse para Bliss:
        -  Obrigado, Bliss, por me trazer de volta para Jemby e por cuidar de mim 
enquanto estvamos viajando. Nunca me esquecerei de voc.
        Atirou-se nos braos de Bliss e as duas se abraaram com fora.
        -  Espero que voc seja muito feliz - disse Bliss. - Eu tambm nunca vou 
me esquecer de voc.
        Fallom voltou-se para Pelorat e disse:
        -  Obrigado a voc, tambm, Pel, por me emprestar os seus livros.
        Em seguida, sem dizer mais nada, e depois de um momento de hesitao, 
estendeu a mo para Trevize. O rapaz apertou-a.
        -  Boa sorte, Fallom - murmurou. Daneel disse:
        -  Agradeo a todos pelo que fizeram, cada um a seu modo. Esto livres para 
partir, pois a busca terminou. Quanto ao meu trabalho, agora poder prosseguir, 
com grande probabilidade de sucesso.
        -  Espere, ainda falta uma coisa - disse Bliss. - No sabemos se Trevize 
ainda pensa que o melhor futuro para a humanidade  a Galxia Viva e no um 
gigantesco aglomerado de Isolados.
        -  Ele j manifestou sua opinio h muito tempo - disse Daneel. - Trevize 
 a favor da Galxia Viva.
        -  Preferia ouvir diretamente dos seus lbios - disse Bliss. - Como vai ser, 
Trevize?
        -  Como quer que seja, Bliss? - perguntou Trevize, calmamente. - Se eu 
decidir contra a Galxia Viva, voc ter Fallom de volta.
        -  Eu sou Gaia - disse Bliss. - Preciso conhecer a sua deciso e os motivos 
que o levaram a ela.
        -  Diga para ela, senhor - pediu o rob. - Sua mente, como Gaia bem 
sabe, est livre de qualquer influncia externa.
        -  Escolho a Galxia Viva - disse Trevize. - J no resta mais nenhuma 
dvida de que esta  a opo correta.


104.

BLISS ficou calada durante o tempo que algum levaria para contar sem pressa at
cinqenta, como que para permitir que a informao chegasse a todas as partes de
Gaia. Depois, perguntou:
        -  Por qu?
        -  Eu explico - disse Trevize. - Sabia desde o princpio que havia dois 
futuros possveis para a humanidade: a Galxia Viva, de um lado, e o Segundo 
Imprio do Plano de Seldon do outro. A mim me parecia que esses dois futuros 
eram mutuamente exclusivos. No poderamos ter a Galxia Viva a menos que, por 
algum motivo, houvesse um erro fundamental no Plano de Seldon.
        "Infelizmente, no conhecia nada a respeito do Plano de Seldon, a no ser os 
dois axiomas em que se baseia: primeiro, que o nmero de seres humanos 
envolvidos seja suficientemente grande para que a humanidade possa ser tratada 
estatisticamente como um grupo de indivduos interagindo aleatoriamente; 
segundo, que a humanidade no conhea os resultados das anlises psico-
histricas antes que esses resultados sejam atingidos."
        "Como j havia optado pela Galxia Viva, achei que devia conhecer 
inconscientemente alguma falha no Plano de Seldon e que essa falha s podia estar 
nos axiomas, que eram a nica parte do plano que eu conhecia. Entretanto, no 
conseguia ver nada de errado nos axiomas. Decidi, ento, partir  procura da Terra, 
sentindo que devia haver alguma razo para a Terra ter sido escondida com tanto 
cuidado. Tinha que descobrir qual era essa razo.
        "Na verdade, no tinha nenhum motivo para acreditar que ao encontrar a 
Terra encontraria tambm a soluo para as minhas dvidas; acontece que a idia 
se insinuou em minha mente, plantada talvez por Daneel, que precisava de uma 
criana de Solaria.
        "De qualquer forma, conseguimos afinal chegar  Terra e depois  Lua. Bliss 
detectou a mente de Daneel, que, naturalmente, estava procurando comunicar-se 
com ela. Ela descreveu aquela mente como nem humana nem robtica. Sob certo 
aspecto estava certa, pois o crebro de Daneel  muito mais avanado que o de 
qualquer outro rob e portanto no podia ser percebido como simplesmente 
robtico. Entretanto, tambm no podia ser percebido como humano. Pelorat 
referiu-se a ele como 'uma coisa nova' e isso serviu para despertar 'uma coisa nova' 
nas minhas idias.
        "Assim como, h muitos anos atrs, Daneel e seu amigo chegaram a uma 
quarta lei da robtica que era mais fundamental que as outras trs, de repente me 
dei conta de que existia um terceiro axioma da psico-histria que era mais 
fundamental que os outros dois; um terceiro axioma to fundamental que ningum 
se havia preocupado em torn-lo explcito.
        "Aqui est ele. Os dois axiomas conhecidos se referem a seres humanos e se 
baseiam implicitamente no axioma de que os seres humanos so a nica espcie 
inteligente da Galxia e portanto os nicos organismos cujas aes so importantes 
para a evoluo da sociedade. Este  o terceiro axioma: que existe uma nica 
espcie de inteligncia na Galxia e que essa espcie  o Homo Sapiens. Se existisse 
'uma coisa nova', se houvesse outra espcie inteligente alm do Homem, ento seu 
comportamento no seria descrito adequadamente pela matemtica da psico-
histria e o Plano de Seldon seria um mero exerccio acadmico. Esto entendendo?
        Trevize estava quase tremendo no seu esforo para fazer-se compreender. 
        Repetiu:
        - Esto entendendo?
        -  Sim, estamos, meu velho amigo - disse Pelorat. - Entretanto, como
advogado do diabo...
        -  Sim? Prossiga.
        -  ... devo lembrar a voc que os seres humanos so a nica espcie 
inteligente da Galxia.
        -  E os robs? - perguntou Bliss. - E Gaia? Pelorat pensou um pouco e 
depois disse:
        -  Os robs no desempenharam um papel significativo na histria humana 
desde o desaparecimento dos Espaciais. Gaia no desempenhou papel significativo 
at recentemente. Os robs foram criados por seres humanos e Gaia foi criado pelos 
robs. Tanto os robs quanto Gaia no podem deixar de obedecer aos seres 
humanos, j que esto sujeitos s Trs Leis da Robtica. A despeito dos vinte mil 
anos de trabalho de Daneel, e do longo tempo que Gaia levou para se desenvolver, 
uma nica palavra de Golan Trevize, um ser humano, tornaria intil tudo que 
fizeram. Segue-se, portanto, que a Humanidade  a nica espcie inteligente que
conta e portanto a psico-histria continua a ser vlida.
        -  A nica forma de inteligncia da Galxia - disse Trevize, devagar. - Eu 
concordo. Entretanto, falamos tanto da Galxia que s vezes nos esquecemos de 
que ela no  tudo. A Galxia no  o Universo. Existem outras galxias.
        Pelorat e Bliss se remexeram, inquietos. Daneel escutou gravemente, 
enquanto acariciava a cabea de Fallom.
        -  Prestem ateno - disse Trevize. - Perto da nossa Galxia ficam as 
Nuvens de Magalhes, que jamais foram visitadas por naves humanas. Um pouco 
mais longe existem outras pequenas galxias, e logo depois est a gigantesca 
Galxia de Andrmeda, maior que a nossa. No Universo conhecido, existem bilhes 
de galxias.
        "Na nossa Galxia surgiu apenas um tipo de inteligncia capaz de 
desenvolver uma sociedade tecnolgica, mas o que sabemos a respeito das outras 
galxias? A nossa pode ser atpica. Em algumas das outras, talvez na maioria, pode 
haver vrias espcies inteligentes em competio, todas incompreensveis para ns. 
Talvez essa competio as mantenha ocupadas, mas imaginem o que pode
acontecer se, em alguma galxia, uma das espcies conseguir dominar as outras e 
tiver tempo para pensar na possibilidade de explorar outras galxias.
        "Do ponto de vista do hiperespao, a Galxia no passa de um ponto... ou 
por outra, todo o Universo no passa de um ponto. Ainda no visitamos nenhuma 
outra galxia e, pelo que sabemos, nenhuma espcie inteligente de outra galxia 
jamais nos visitou. Entretanto, isso pode mudar de uma hora para outra. E se os 
invasores vierem, certamente encontraro meios de voltar alguns seres humanos 
contra outros seres humanos. Estamos acostumados a lutar contra ns mesmos. 
Um invasor que nos encontre assim divididos no ter dificuldade para dominar-
nos ou mesmo exterminar-nos. Nossa nica defesa  criar a Galxia Viva, que no 
pode ser voltada contra si mesma e que pode unir todos os seres humanos contra 
os invasores.
        - O quadro que voc pintou  assustador - disse Bliss. - Ser que teremos 
tempo para criar a Galxia Viva?
        Trevize olhou para cima, como se sua viso pudesse penetrar na grossa
camada de rochas lunares que o separava da superfcie e do espao; como se
estivesse enxergando galxias distantes, atravessando lentamente o espao. Ele
disse:
        - Em toda a histria humana, nenhuma outra inteligncia tentou nos
escravizar. Se essa situao continuar durante mais uns poucos sculos, talvez
pouco mais que um dcimo milsimo da idade da nossa civilizao, estaremos
seguros. Afinal de contas - e nesse instante Trevize sentiu uma leve desconfiana,
que tentou ignorar -, no  como se o inimigo j estivesse aqui, no nosso meio.
Ele no teve coragem de olhar para baixo, de enfrentar os olhos de Fallom -
hermafrodita, transdutor, diferente - que o observavam de forma enigmtica.

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